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O que a decisão de Nunes Marques sobre a Atlas revela sobre o TSE em 2026

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Você acredita em pesquisa eleitoral? Mesmo quando ela é negativa pro seu candidato? Ou é daqueles que só acreditam em ciência e método quando os resultados te beneficiam? As pesquisas eleitorais, assim como aparentemente tudo nessa vida, foram sugadas para o caldo da polarização brasileira. Viraram questão de fé.

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E nesta semana esse movimento ganhou um capítulo novo e potencialmente mais grave: Kassio Nunes Marques, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, suspendeu uma pesquisa eleitoral a pedido do Partido Liberal, o PL.

A pesquisa Atlas/Intel divulgada em 19 de maio mostrava Flávio Bolsonaro caindo nas intenções de voto. Foi a primeira depois da publicação dos áudios entre Flávio e Daniel Vorcaro, do banco Master, em que o senador pedia 134 milhões de reais supostamente para financiar o filme sobre a vida do pai, Jair.

O imbróglio todo começou porque a Atlas, que faz pesquisa pela internet, colocou, no fim do questionário, um vídeo com as conversas de Flávio e Vorcaro. Justamente para medir a opinião dos entrevistados sobre o áudio. Mas depois de os entrevistados já terem dito em quem votariam.

A pesquisa mostrava Flávio caindo seis pontos percentuais numa simulação de segundo turno contra Lula. Além das perguntas de intenção de voto, o questionário perguntava aos entrevistados o que eles tinham achado das conversas com Vorcaro e se o episódio tinha mudado sua disposição de votar em Flávio.

Vinte dias depois, o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, concedeu uma liminar suspendendo a divulgação dessa pesquisa. A decisão atende a uma representação do PL, que argumenta que as perguntas sobre o caso Vorcaro induziram os entrevistados negativamente antes das questões de intenção de voto — contaminando, portanto, os resultados.

Isso é falso, tá? O vídeo está no final. E as perguntas sobre o caso vêm todas depois das perguntas sobre intenção de voto, como manda a metodologia básica de pesquisa, seguida por todos os institutos sérios do mundo.

A decisão de Nunes Marques é uma liminar, e depende do crivo do plenário. O que ele faz na decisão é avaliar se há indícios suficientes para suspender a pesquisa enquanto se julga. E ele decidiu que há. Só que ao fazer isso ele acolheu alguns argumentos do PL que especialistas julgam insustentáveis.

Por exemplo, Kassio reafirma aquele fato falso de que as perguntas sobre Master antecederam as sobre intenção de votos. O ministro não explica também porque aceitou avaliar a ação sendo que o prazo para questionar a pesquisa é o de sete dias antes de ela ser realizada e publicada, não depois. E, pior ainda, ele foi anuindo com o PL sobre o uso de palavras como “escândalo” e “fraude”, como se isso fosse proibido. E não é.

Kassio ainda deu um passo além, afirmando que o fato de Andrei Roman, CEO da Atlas, ter dado entrevista à CNN Brasil explicando seus dados seriam indicativo de que ele tem viés, já que ele “externou juízo valorativo” sobre o potencial estrago do caso Master na candidatura de Flávio.

Bom, na noite desta terça-feira o plenário do TSE vai decidir se referenda a decisão de Kassio ou não. É possível que o próprio ministro reconheça que exagerou e reveja alguns pontos. Mas sua decisão liminar já nos rende bastante material de análise política e é isso que quero fazer com vocês aqui. Porque ela nos informa sobre uma disposição do atual presidente do TSE e, a depender do resultado no plenário, sobre a coesão da corte em torno dessa disposição.

Mas é importante também contextualizar o ambiente em que essa decisão se deu. Essa lógica de questionar pesquisa não é nova no Brasil. Tradicionalmente, políticos se sentem pessoalmente ofendidos quando uma sondagem não traz o resultado esperado. Vociferam, dizem que não é bem isso que eles sentem por suas andanças nas ruas e tal. Você certamente já ouviu discursos desse tipo.

E isso é ecumênico, viu? Como disse um diretor de instituto de pesquisa que eu ouvi, desde as tragédias gregas o mensageiro é o assassinado. Direita e esquerda partem pro questionamento dos métodos das sondagens quando seu candidato aparece em queda e partidos de todos os espectros levam a questão à Justiça Eleitoral. Aliás, isso é parte do ônus e do bônus de termos uma justiça dedicada a isso. Por um lado, tudo vira motivo pra judicializar. Por outro, ela garante lisura e transparência como em nenhum outro país do mundo ao processo eleitoral, inclusive às pesquisas.

Só que desde 2018 a gente viu um movimento mais sistemático de deslegitimação das pesquisas por parte do bolsonarismo. Em 2022, a coisa chegou ao ápice. Houve propostas de legislação contrária aos institutos, até ameaça de investigação criminal contra diretores, além de uma retórica incitando a violência física contra pesquisadores de campo, que acabou se materializando, infelizmente.

Em 2018, antes mesmo de votar, Bolsonaro já falava em fraude — não nas pesquisas, mas nas urnas. A narrativa de deslegitimação das pesquisas e a narrativa anti-urna nasceram juntas, da mesma matriz: as instituições são confiáveis quando entregam o resultado certo, e suspeitas quando não entregam. E essa retórica produz efeitos nas ruas.

Em setembro de 2022, pesquisadores de campo do Datafolha, do Ipec e da Quaest foram hostilizados, perseguidos e agredidos fisicamente em pelo menos oito estados.

Na noite do primeiro turno, com quase cem por cento das urnas apuradas, Bolsonaro foi à porta do Alvorada e disse: “Nós vencemos a mentira no dia de hoje. Estava o Datafolha dando 51% a 30 e poucos. Vencemos a mentira.” E provocou: “Acho que não vão continuar fazendo pesquisa.”

No dia seguinte, Anderson Torres, então ministro da Justiça de Bolsonaro, acionou formalmente a Polícia Federal para abrir inquérito criminal contra institutos de pesquisa, alegando que haviam cometido crimes por não acertar as projeções.

Ricardo Barros, então líder do governo Bolsonaro na Câmara, protocolou um projeto de lei prevendo reclusão de quatro a dez anos para estatísticos e dirigentes de institutos cujas pesquisas ficassem fora da margem de erro.

Pra se ter uma ideia da diferença de abordagem, Lula, em 2022, chegou a contar que duvidada muito de pesquisa, até ver seus resultados confirmados nas urnas. Em 2025, com a popularidade lá no pé, ele voltou a falar disso, pedindo pras pessoas responderem coisas boas para os pesquisadores. Depois, emendou: “Brincadeiras à parte, eu quero dizer que uma pesquisa serve para você estudar, para você saber se tem que mudar de comportamento, se tem que dar atenção, é isso que eu faço”.

Isso impede a militância petista de ofender os diretores da Quaest, do Ideia, do Datafolha de tudo que é nome quando sai um número ruim? De jeito algum. Mas o que o líder da militância faz e fala importa, né? E a família Bolsonaro sempre instigou a população contra os pesquiseiros, o TSE, as urnas, a democracia…

Por falar em pesquisa, a essa altura você já sabe que a gente tem a pesquisa Meio/ideia todo mês, medindo intenção de votos e muito mais. Aliás, em maio a gente deu duas rodadas justamente pra medir o efeito do escândalo Master na candidatura de Flávio. E, por isso, nossa próxima é em julho. Assinante premium do Meio recebe a pesquisa antes de todo mundo, meia-noite, por email, em PDF pra distribuir nos grupos todos e virar referência de informação de qualidade e confiança. Assine o Meio agora mesmo!

Kassio Nunes Marques assumiu a presidência do TSE com uma sombra de desconfiança sobre se ele teria condições de agir de forma independente e estofo técnico para comandar as eleições de 2026. Mas também com um voto de boa-fé dos pares, que querem crer que ele tem os dois atributos e tenha a vantagem de dialogar bem com os dois espectros da política, podendo baixar a fervura do período eleitoral.

Esse é seu primeiro grande teste. Menos de 10 dias depois de assumir a presidência da corte e dois dias depois de o PL entrar com essa ação questionando a Atlas, Kassio determinou que ele próprio e o vice-presidente do TSE, André Mendonça, passarão a cuidar também das ações de propaganda eleitoral em 2026, dividindo o trabalho com a ministra Estela Aranha, que ocupava o posto. Foi assim que o caso Atlas acabou nas suas mãos.

É um caminho perigoso esse o de, logo de cara, topar, de maneira extemporânea e com forte cacoete de censura pura e simples, a noção de se suspender uma pesquisa eleitoral.

O que o plenário do TSE decidir vai dizer algo importante sobre que tribunal vai presidir as eleições de 2026. Se os ministros referendarem a liminar de Nunes Marques, seja por mera cortesia ou por concordar com o mérito, um precedente estará posto: uma pesquisa eleitoral pode ser suspensa a posteriori a pedido de um partido, com base na ordem das perguntas do questionário e nas declarações públicas do CEO do instituto. Se derrubarem, a pergunta que permanece é por que o presidente da corte considerou esse argumento suficiente para agir em primeiro lugar.

Das duas formas, o clima já foi criado. E clima, como 2022 mostrou, tem consequências que vão muito além dos tribunais. Pesquisadores sabem disso. Alguns deles aprenderam na pele.

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