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30 de maio de 2019
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Sem usar a palavra, Mueller aponta para impeachment de Trump


Não foram muitas as palavras de Robert S. Mueller III, que ontem anunciou que deixava o cargo de procurador especial, em Washington. Responsável pela investigação de dois anos a respeito do presidente Donald Trump, pressionado pelos democratas para depor na Câmara, Mueller subiu ao patíbulo do Departamento de Justiça com intenção de falar sobre seu relatório uma vez e apenas. “Se estivéssemos convictos de que o presidente claramente não cometeu crime, teríamos o dito”, afirmou o homem que por muitos anos dirigiu o FBI. “Mas não afirmamos que o presidente cometeu um crime. É política antiga do Departamento de Justiça que um presidente não pode ser indiciado por um crime enquanto estiver no cargo.” Com termos tão precisos quanto foi capaz, em essência afirmou não acusar Trump de ter tentado obstruir a Justiça porque não podia. “A Constituição requer um processo que não passa pela Justiça criminal para acusar um presidente de malfeitos.” Sem usar a palavra, Mueller apontou para o impeachment. É a Câmara que tem a responsabilidade de indiciar, encaminhando para o Senado o processo. Os democratas desejam seu depoimento para que ele conte, em cadeia de TV, o que descobriu. A maioria dos americanos não leram, e não lerão, o extenso relatório. Mueller afirma que não teria o que dizer além do que está no texto. A base republicana no Congresso diz que, com a aposentadoria do procurador, o caso se encerra. E a bola, repentinamente, está com a oposição. (New York Times)

Israel voltará às urnas. Eleito com maioria tênue, o premiê Benjamin Netanyahu não conseguiu dirimir a briga entre a direita secular ultranacionalista e a facção ultra ortodoxa. Sem um acordo que as permitisse formar coalizão, Netanyahu não tem gabinete e não pode governar. O prazo passou. O presidente Reuven Rivlin poderia indicar outro político como premiê que tentasse formar gabinete, mas optou por uma nova eleição. Será em setembro. (Guardian)

Para ouvir com calma: Professor de Stanford, Larry Diamond é um dos maiores especialistas em democracia do mundo. Seu último livro, Ill Winds (Amazon), trata das ameaças correntes às democracias. E o episódio mais recente do podcast Clear and Present Danger o tem por entrevistado. Pode ser ouvido pelo site, via Spotify, ou em seu player favorito.

Larry Diamond, um trecho em inglês: “A retração e até o fim da democracia em alguns países chaves, incluindo a Venezuela e a Rússia, mais recentemente Turquia e Hungria, põe a liberdade sob pressão em todo o mundo. A ascensão de um populismo nativista iliberal de direita na Europa e nos EUA e a maior polarização na maioria das democracias faz com que as pessoas não estejam dispostas sequer a ouvir umas às outras. Depois de neutralizar a imprensa e intimidar as universidades, se abre espaço para concentrar o poder e cercear a oposição. Todos nós, analistas, jornalistas, pensadores, devemos ser precisos. A Hungria não é a Rússia. A Turquia não é a Alemanha Nazista. Se não formos precisos, não teremos credibilidade na comparação ou conseguiremos acompanhar o caminho da decadência da liberdade em cada país. Este é um processo que começa de forma sutil. Envolve um abuso retórico de jornalistas: seu trabalho é acusado de ser fake news, são acusados de ser partidários da oposição, de serem desonestos e, por fim, antipatrióticos. Quando você amansa a imprensa e espalha descrença no público a respeito do jornalismo, é aí que começa o passo seguinte.”


A Câmara dos Deputados aprovou ontem uma emenda que altera o artigo 68 do Código Florestal. Isso significa que as exigências para o reflorestamento de áreas de reserva legal de propriedades rurais serão reduzidas. Deputados contrários à votação consideraram uma ‘anistia’ a quem tem propriedades com áreas desmatadas. Deputados favoráveis consideraram que a proposta dará ‘segurança jurídica’ aos produtores. Integrante da bancada ruralista na Câmara, o deputado Sergio Souza disse que quem se opõe tem ‘discurso ideológico’. O Senado tem até o dia 3 de junho para aprovar ou rejeitar a proposta, mas o presidente da casa, David Alcolumbre, disse que a medida não será votada a tempo e perderá validade.

Recuperação reduzida. O texto permite aos proprietários que desmataram recalcular o total a ser recuperado com base em percentuais anteriores ao atual Código Florestal e somente sobre o que existia de vegetação nativa na época. Assim, em vez de recomporem, segundo o Programa de Regularização Ambiental, reserva legal menor que 80% do imóvel na Amazônia, 35% no Cerrado e 20% nos demais biomas, os proprietários poderão usar os percentuais de 20% para o Cerrado e de 50% para a Amazônia. Ambientalistas alertam que a Medida Provisória 867, da qual a emenda aprovada foi destacada, pode assegurar desmate equivalente a Portugal.

Economistas estão revendo seus modelos para compreender por que, pelo terceiro ano seguido, a economia brasileira não se recupera. É a conclusão do jornalista americano David Biller, que ouviu vários nos últimos dias. “Fui otimista demais”, afirma o economista-chefe do Bank of America no Brasil, David Beker. “Esperava que a confiança ia reacender e que a reforma da Previdência viria rápido.” Adriana Dupita, da Bloomberg, faz uma análise mais cruel. Talvez 1% ao ano seja o máximo que a economia brasileira seja capaz de entregar. “Projeções maiores partem do princípio de que algo acontecerá na produção, mas conforme o tempo passa e avaliamos novos dados, parece que as reformas terão de ir muito mais fundo para destravar o crescimento.” Outro economista, James Gulbrandsen, da NCH Capital, afirma que a falta de demanda deveria ser indício para que o Banco Central diminua a Selic sem que ocorra pressão inflacionária. Mas quem amarra o raciocínio dominante no texto é o jornalista Fernando Dantas, da Agência Estado. “Todos estes grupos, com dinheiro para buscar opinião profissional dos melhores analistas políticos, se permitiram iludir ainda mais do que o cidadão comum a respeito do que realmente queria dizer a eleição de Bolsonaro.” (Bloomberg)

Um dos sete policiais militares presos ontem por integrar uma milícia em Ceilândia, no Distrito Federal, é tio da primeira-dama Michelle Bolsonaro, irmão de sua mãe. Militar reformado, o primeiro sargento João Batista Firmo Ferreira é acusado de grilagem de terras. (Correio Braziliense)

Cultura


A obra de Lygia Pape (1927-2004), um dos nomes mais representativos da arte contemporânea brasileira, percorre, desde 2011, museus e galerias internacionais, como Reina Sofía (Madri), Serpentine Gallery (Londres) e Met Breuer (Nova York). Agora é a vez da Fondazione Carriero, em Milão, receber uma exposição individual em sua homenagem. Pape é uma das signatárias do Manifesto Neoconcreto, ao lado de Hélio Oiticica e Lygia Clark.

Na Netflix, destaque para dois filmes cheios de simbolismos. O primeiro é Joy (produção original), da diretora Sudabeh Mortezai. O nome da protagonista, que significa 'alegria' em inglês, é uma triste ironia: filme aborda a escravidão sexual das migrantes nigerianas na Áustria. O segundo é O Lagosta, do grego Yorgos Lanthimos; mesmo diretor de A Favorita, que concorreu ao Oscar este ano. Trata-se de uma distopia curiosa sobre pessoas solteiras que são perseguidas e obrigadas a encontrar um parceiro em 45 dias. Aliás, o roteiro original também concorreu ao Oscar em 2017, mas passou despercebido pelos cinemas brasileiros.

Viver


Arte e ciência. Uma imagem incrível de uma Bitis peringueyi, uma espécie de víbora venenosa encontrada na Namíbia e no sul de Angola, na África Austral, é a vencedora da competição Close-up Photographer of the Year, do site Digital Camera. A foto foi capturada por Emanuele Biggi, apresentador de televisão italiano que seguiu os rastros da serpente na areia até encontrá-la debaixo de um arbusto. Na categoria ‘Micro’, outra imagem hipnotizante: cristais de açúcar e sal sob um microscópio. Já o designer gráfico Hal Gage foi o vencedor na categoria ‘Paisagem’ por sua foto abstrata de lama glacial.

Se distanciar de familiares é mais comum do que se imagina - e pode até ser benéfico. Uma pesquisa da Stand Alone, instituição de caridade do Reino Unido que apoia pessoas afastadas de familiares, aponta que isso afeta pelo menos 1 em cada 5 famílias britânicas. O mesmo estudo observa que para mais de 80% das pessoas afetadas, cortar o contato está associado a alguns resultados positivos, como liberdade e independência. Não está claro se isso está aumentando nos dias de hoje, já que é um campo de pesquisa relativamente novo, mas o interesse no assunto é crescente - dados do Google mostram um volume maior de pesquisas com termos relacionados ao distanciamento familiar.

Tabus. Assim como o divórcio, uma crença na santidade das famílias pode manter as pessoas sofrendo desnecessariamente. Em reportagem da BBC sobre o tema, Megan Gilligan, gerontóloga da Universidade Estadual de Iowa, diz que o distanciamento é talvez a melhor maneira de lidar com esses tipos de relacionamentos.

Mulheres solteiras e sem filhos são o grupo mais feliz da população. E elas são mais propensas a viverem mais do que seus pares casados e com filhos. É o que aponta Paul Dolan, um professor de ciência comportamental da London School of Economics, em seu livro mais recente, Happy Ever After. Os resultados indicaram que o nível de felicidade em mulheres casadas era maior apenas quando o parceiro estava presente no ambiente.

E conheça o conceito de grupo de WhatsApp de ônibus… usuários do Twitter descobriram ontem.Tem até confraternização de Natal entre os participantes.

Cotidiano Digital


O Senado aprovou, ontem, o projeto de lei de conversão 7/2019 e assim criou a Autoridade Nacional de Proteção de Dados, que atenderá pela sigla ANDP. Será, conta Cristina De Luca, o órgão regulador e responsável por orientar a implementação da Lei de Proteção de Dados, que garante o direito do cidadão às informações a seu respeito na internet. Ainda não está clara qual a independência funcional e a autonomia financeira da Autoridade. A lei entra em vigor em 20 de agosto do ano que vem.

Contrariando as expectativas, a Huawei buscou uma solução bastante americana — e não de pressão chinesa — para enfrentar o bloqueio imposto pelo governo Trump. Entrou na Justiça questionando a constitucionalidade da decisão. A companhia pede uma decisão sumária do tribunal, afirmando que o bloqueio representa uma ‘bill of attainder’, algo como lei de suspensão dos direitos civis, uma figura jurídica proibida pela Constituição. O Congresso não pode fazer qualquer lei que, em essência, retire direitos de uma pessoa ou grupo sem antes haver uma condenação judicial. Quando o governo usa por argumento uma acusação de espionagem, está justamente fazendo isso. Não se dá ao trabalho de provar, simplesmente pune. O argumento é bom, mas as cortes já permitiram alguma flexibilidade para o governo quando o tema é segurança nacional. “Hoje são empresas de telecomunicações e a Huawei”, afirma o advogado da companhia. “Amanhã pode ser sua indústria, sua empresa, seus consumidores.”





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