Ainda não é assinante? Assine. Não custa nada.



23 de dezembro de 2020
Consultar edições passadas



Prezadas leitoras, caros leitores —

Como foi duro, este ano. Desde aquele dia perdido em março no qual governadores foram à TV informar que as escolas fechariam, tanto aconteceu.

Tivemos um presidente da República que instigou um golpe de Estado — mas não teve apoio dos generais. Que negou a gravidade da pandemia que pode encerrar 2020, no Brasil, com 200 mil mortos oficiais.

Apesar de todo o esforço do Planalto para desmontar a estrutura de investigação dos crimes de quem tem poder — com apoio de um bom naco da classe política —, aprendemos também como a família do presidente fez dinheiro às custas do Estado, e como o lavou em chocolaterias e imóveis.

Este foi o ano em que o modelo Como as Democracias Morrem falhou pela primeira vez. Em geral, autoritários populistas quando chegam ao governo pelo voto lá ficam em reeleições seguidas e a cada novo mandato desmontam mais pedaços das instituições democráticas. Nos EUA, os eleitores escolheram mandar Donald Trump para casa sem segundo mandato. Os anticorpos democráticos identificaram e expurgaram, ainda que com dificuldades, o vírus do autoritarismo.

Para nós cá do Meio, esta é, junto com as vacinas, a mensagem de esperança que 2020 nos deixa.

Não porque este Trump seja do Partido Repulicano. Trump não é republicano, está apenas disfarçado. Um presidente republicano, como um democrata, é perfeitamente normal, nos EUA. Um presidente do PT — ou do PDT, ou da Rede, ou do PSOL — seria perfeitamente normal no Brasil. Como seriam normais presidentes de PSDB, DEM, MDB. Presidentes normais que juram a Constituição, têm um projeto que negociam com o Congresso e, quando o Supremo decide algo, acatam e tocam o barco. Presidente de esquerda ou de direita ou de centro é normal.

Anormal é presidente cuja proposta de mandato seja afrontar os valores da Constituição. Porque eles estão acima de quem veste a faixa na vez.

Pois 2020 se encerra mostrando que democracias são capazes de resistir ao vírus do autoritarismo populista digital da mesma forma que cientistas juntos e bem financiados podem, em meses, produzir vacinas contra a maior pandemia desde a Gripe Espanhola.

Um ano que reafirma valores democráticos e o método científico. Caramba. Estávamos precisando disso.

Um ano que reafirma, também, o jornalismo. O livre fluxo de informação na sociedade e uma sociedade que deseja se informar. O Meio viveu em 2020, prezadas leitoras, caros leitores, graças a vocês. Foram vocês que, no momento em que a publicidade se foi, se tornaram assinantes premium e financiaram nosso trabalho. Foi uma aposta de vocês que, igualmente, nos enche de otimismo.

Muito obrigado.

Esta é a última edição do Meio deste ano. Aí, às 18h, no YouTube, o último Ponto de Partida vai subir. Então encerramos nossas atividades para um descanso curto como fazemos todos os anos — e tudo volta na segunda-feira, 4 de janeiro.

Que venha 2021. Que venha carregado das esperanças que 2020 só pincelou.

Boas festas. Que o próximo ano nos seja doce.

— Os editores.


Prefeito do Rio passará Natal de tornozeleira


O presidente do Superior Tribunal de Justiça, Humberto Martins, transformou na noite de ontem a prisão preventiva do prefeito afastado do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), em prisão domiciliar com uso de tornozeleira eletrônica. O ministro justificou sua decisão dizendo que o prefeito faz parte de grupo de risco de Covid-19. Ele precisará permanecer em endereço fixo, não pode ter contato com qualquer pessoa fora familiares, médicos ou seus advogados e terá de entregar telefones e computadores.

Crivella havia sido preso na manhã de terça-feira e afastado do cargo por decisão judicial. Após audiência de custódia, a desembargadora Rosa Helena Penna Macedo Guita havia decidido manter a prisão. Crivella é apontado pelo Ministério Público como comandante de uma organização criminosa operada pelo empresário Rafael Alves.

Bela Megale: “Em delação firmada com o Ministério Público Estadual do Rio, empresários que participaram do esquema de corrupção envolvendo Marcelo Crivella revelaram o pagamento de 2% e 3% de propina sobre os contratos firmados com a gestão do prefeito.” (Globo)

Outra acusação do MP contra Crivella é de tentar obstruir as investigações. Segundo os promotores, em setembro, durante uma operação policial, o prefeito entregou aos investigadores o celular de outra pessoa, não o próprio, e com um chip antigo. Na mesma ocasião, ele se recusou a revelar a polícia a senha de um de seus telefones. Mas o caso mais curioso aconteceu em março, a primeira fase da Operação Hades. Crivella telefonou para o empresário Rafael Alves, apontado como operador do esquema de propinas, no momento que a polícia fazia uma ação. Foi um delegado, não o empresário que atendeu a chamada do prefeito. (Globo)

Segundo Lauro Jardim, a desembargadora decretou a prisão de Crivella agora porque, ao deixar a prefeitura em janeiro, ele perderia o foro privilegiado, levando o processo para uma instância inferior. (Globo)

As investigações não se limitam ao prefeito. O Ministério Público do Rio de Janeiro identificou uma movimentação atípica de quase R$ 6 bilhões na Igreja Universal do Reino de Deus, da qual Crivella é bispo licenciado, entre maio de 2018 e abril de 2019. Para os promotores, a igreja, liderada por Edir Macedo, tio do prefeito, seria usada para lavar dinheiro do esquema de propinas.

Uma das consequências políticas da prisão de Crivella é que seu partido, o Republicanos, deixa de ser uma alternativa para o presidente Jair Bolsonaro, que está sem legenda e viu fracassar a tentativa de criar sua Aliança pelo Brasil. Não se sabe por quanto tempo seus filhos, o senador Flávio e o vereador Carlos, permanecerão no partido. (Estadão)

Andréia Sadi: “O que a ala política do governo federal temia aconteceu: um dos principais candidatos apoiados pelo presidente foi preso. Fontes que conversaram com o blog afirmam que, por um erro de estratégia do presidente na campanha, o Planalto deu de 'bandeja' à oposição a possibilidade de exploração da prisão de Crivella como um caso de um aliado do presidente - e vão colar o episódio à imagem do governo federal.” (G1)

A prisão de Crivella, além de agitar as rodas políticas, serviu de matéria prima para uma das mais exuberantes indústrias nacionais, a da sátira. Marcelo Adnet, Fábio Porchat e outros humoristas não perdoaram. E o compositor Edu Krieger fez até uma homenagem natalina.

Falando a apoiadores em Santa Catarina, o presidente Jair Bolsonaro voltou a atacar sem provas o sistema de votação brasileiro e chegou a dizer que, “sem voto impresso em 2022, pode esquecer a eleição”. Ele não deixou claro se estava falando de não conseguir se reeleger ou se estava ameaçando impedir a realização do pleito.

Painel: “Uma declaração de Dilma Rousseff (PT) na noite de segunda embolou de novo as perspectivas de escolha do candidato à presidência da Câmara do bloco de Rodrigo Maia (DEM-RJ). A petista questionou se há ‘alguém mais contra a democracia do que foi o MDB’, em sinal de veto a Baleia Rossi (MDB-SP). Além de Dilma, o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) também se colocou contra Baleia internamente. O impeachment foi relembrado, para mencionar que o MDB não cumpre acordos.” (Folha)


Impunidade é a palavra de ordem. Em vias de deixar a Casa Branca, Donald Trump, perdoou 20 condenados. Na lista estão dois assessores envolvidos no escândalo da influência russa nas eleições de 2016, quatro militares condenados por mortes de civis no Iraque e três ex-congressistas republicanos acusados de corrupção. Só gente boa. Já na Rússia, Vladimir Putin assinou um decreto concedendo imunidade vitalícia e retroativa a todos os ex-presidentes e seus familiares. (Folha)

Viver


A presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Nísia Trindade, informou nesta terça-feira que a vacina de Oxford começa a chegar ao Brasil em fevereiro. A instituição deve receber dois milhões de doses nas duas primeiras semanas do mês e começar a produzir até 700 mil doses diárias, a partir da terceira semana. Desenvolvida pela universidade britânica em parceria com o laboratório AstraZeneca, o imunizante se chamará no Brasil Covid-Fiocruz.

Lembram quando os promotores de São Paulo pediram para entrar na lista de prioridade da CoronaVac, do Instituto Butantan? A reação os fez voltar atrás. Pois o STF e o STJ não estão nem aí para repercussão negativa. Representantes de ambos os tribunais procuraram a Fiocruz querendo uma reserva de doses para seus ministros e servidores. O pedido do STJ já foi negado pela instituição, sob alegação de que não cabe a ela “atender a qualquer demanda específica”. Já o STF, que pretende imunizar 7 mil servidores, ainda aguarda resposta. (Estadão)

E, acreditem, camelôs em Madureira, um dos maiores centros de comércio popular da Zona Norte do Rio, estariam vendendo vacinas falsas contra Covid-19. Por “um galo” (R$ 50), o cliente levava uma dose da “SARS-CoV-2 Vacine” numa caixa cheia de ideogramas chineses. Com mais R$ 10, a farmácia ao lado aplicava a injeção, prometia o camelô. A Guarda Municipal disse não ter identificado esse comércio em seu patrulhamento de rotina. (Folha)

Também no Rio, cientistas identificaram uma nova cepa do coronavírus, embora não haja indicação de que ela seja mais transmissível ou agressiva. (Globo)

O Brasil ultrapassou 188 mil mortos por Covid-19 com os 936 óbitos registrados na terça-feira, com a média móvel mais alta desde setembro. Desde o início da pandemia, 7.320.020 pessoas contraíram a doença, 55.799 delas ontem.

Por conta do avanço da doença, o estado de São Paulo inteiro entrou em fase vermelha, a mais restritiva, durante os feriados de Natal e Ano Novo. O governo paulista teme um descontrole da doença, a exemplo do que aconteceu nos EUA depois do Dia de Ação de Graças, no mês passado. Somente atividades essenciais, como serviços de saúde e supermercados, poderão funcionar. (Folha)

A decisão do governador João Doria (PSDB) caiu mal entre os setores de comércio e serviços. Lojistas temem a debandada dos consumidores, enquanto restaurantes reclamam que já haviam comprado suprimentos e se programado para atender clientes no período. (Estadão)

Nos EUA, após meses de negociação para aprovar no Congresso um pacote de US$ 900 bilhões (R$ 4,6 trilhões) contra a Covid, o presidente Donald Trump se recusou a assinar a medida. Ele quer elevar de US$ 600 (R$ 3.096) para R$ 2 mil (R$ 10.320) o auxílio direto a famílias em necessidade.

E a Covid-19 se tornou, no sentido literal da palavra, uma pandemia. O Exército chileno identificou 36 pessoas contaminadas na estação de pesquisa Bernardo O'Higgins, na Antártida, até então o único continente livre da doença. Todos foram levados de volta para o Chile.

A Santa Sé e a Polícia Civil do Pará investigam denúncias de assédio e abuso sexual que teriam sido praticados por Dom Alberto Taveira Corrêa, arcebispo de Belém. Em agosto, quatro ex-alunos de um tradicional seminário na região metropolitana da capital paraense levaram à Justiça as denúncias. Os abusos teriam ocorrido até 2014, quando os jovens estavam em vias de se ordenar ou de deixar o seminário. Eles tinham entre 15 e 20 anos. Segundo as denúncias, Dom Alberto identificava jovens “com tendências homossexuais” e os atraia sobre o pretexto de ajudá-los, ganhando sua confiança e praticando os abusos. No início deste mês, o arcebispo declarou, em redes sociais e em carta a padres, que é acusado de “crimes de ordem moral” sem ter tido a “oportunidade de ser ouvido”. As conclusões do inquérito, que corre em segredo de Justiça, não foram divulgadas. (El País)

Saul Klein, filho do fundador das Casas Bahia, é acusado de estupro e aliciamento por 14 mulheres, revela Mônica Bérgamo. A defesa admite que Klein é um “sugar daddy” (homem que sustenta mulheres mais novas em troca de sexo), mas nega as acusações. Segundo os advogados, seu cliente é vítima de tentativa de extorsão. (Folha)

Cultura


Maria Bopp tem 29 anos, é atriz e roteirista talentosa e há quatro temporadas dá vida à prostituta Bruna Surfistinha na série Me Chama de Bruna, da GloboPlay. Como é de se esperar pelo tema, não faltam cenas de nudez no seriado. Só que Maria também tem um canal no YouTube onde sua personagem Blogueirinha no Fim do Mundo usa, por exemplo, tutoriais de maquiagem para fazer críticas ferinas ao governo Bolsonaro. Coincidência ou não, perfis falsos nas redes sociais têm buscado desqualificá-la exibindo capturas de tela da série onde Maria aparece nua. A resposta dela não poderia ter sido melhor: “Fio, eu amo ter sido a Bruna! Então que me mostrem à vontade. Tem infinitos ângulos espalhados em quatro temporadas pra vocês escolherem.”

Ele é o príncipe de uma próspera nação africana. Para cumprir uma promessa feita ao pai, deixa seu país e se une aos Vinga... Não, esse é outro. O príncipe em questão é Akeen, herdeiro do trono de Zamunda, o antológico personagem de Eddie Murphy apresentado ao mundo em 1988 na comédia Um Príncipe em Nova York. Akeen e seu braço direito Semmi (Arsenio Hall) estão de volta 32 anos depois em uma nova aventura, que envolve a busca por um filho perdido de Sua Alteza. Como se dois personagens hilariantes não bastassem, Murphy e Hall se desdobram mais uma vez em diversos outros tipos. O filme deveria ter chegado aos cinemas em agosto, mas com a pandemia, teve o lançamento suspenso e vai direto para a Amazon Prime Video no dia 5 de março. Confira o trailer.

Cotidiano Digital


Um Apple Car pode chegar em 2024. Segundo a Reuters, o projeto Titan da Apple voltou a ganhar força depois de ser deixado de lado em 2016, e a ideia é que os veículos autônomos comecem a ser produzidos em quatro anos, embora possam ser adiados para 2025 ou além por conta da pandemia. Ainda não se tem muitos detalhes sobre o plano. Não se sabe, por exemplo, se o Apple Car será um veículo totalmente projetado e produzido pela empresa ou se esta fará parcerias com montadoras — opção que parece ser a mais provável. Também é possível que a big tech simplesmente só venda sua tecnologia de direção autônoma para as montadoras, em vez de criar um carro. Mas o ponto central da estratégia da Apple é um novo design de bateria que poderia reduzir “radicalmente” o custo do equipamento e aumentar a autonomia do veículo. A química para a bateria chamada LFP, ou fosfato de ferro de lítio, também teria menos risco de superaquecer e seria mais segura do que outros tipos mais comuns de íon-lítio.





Bem-vindo ao Meio. A assinatura básica é gratuita, comece agora mesmo.



23 de dezembro de 2020
Consultar edições passadas