Mais do que tirar pedras das ruas devemos retirar as que estão em nós, diz padre Júlio Lancellotti

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“Eu não luto para vencer, eu luto para ser fiel até o fim.” É assim que o padre Júlio Lancellotti define sua missão de lutar pelos moradores em situação de rua na cidade de São Paulo, mesmo acreditando que está “do lado de quem vai perder”. Ele entende que nessa sociedade, “se está do lado dos indesejáveis, será indesejado também, se está ao lado dos que são agredidos, vai ser agredido também”. Em entrevista à jornalista Flávia Tavares no programa Conversas com o Meio, o sacerdote sabe que essa batalha não começou nem terminará com ele. “Nossa luta é histórica, ela foi plantada como uma semente para continuar fortificando. Eu estou lutando a minha parte dessa luta, enquanto eu viver.”

O padre da Paro?quia de Sa?o Miguel Arcanjo, na região da Mooca, Zona Leste de São Paulo, diz que a solidão, a violência e a perda afetiva continuam sendo os maiores traumas para pessoas em situação de rua, e que a especulação imobiliária é o inimigo número um dessa gente. Ele conta a experiência de levar um desses grupos em uma sorveteria na rua Oscar Freire, uma das regiões mais caras de São Paulo, e narra o momento em que “as pessoas deixaram o sorvete pela metade” ao ver os convidados de Lancellotti entrando no local. O mesmo ocorreu quando entraram em um restaurante naquele mesmo dia. Ao chegarem no Shopping Higienópolis, em um bairro nobre da capital, ele diz que “era impressionante os radinhos tocando e a quantidade de seguranças em volta e atrás de nós”. A situação provoca um sofrimento ainda maior para quem já sofre com a invisibilidade nas ruas. “Eles percebem esse medo, o nojo, o afastamento e o olhar”, conta. A equipe do padre fez uma pesquisa sobre aporofobia com essas pessoas em situação de rua e descobriu-se que eles sentem mais essa discriminação no olhar das pessoas e na guarda civil. “Então dói tanto o cacetete quanto o olhar”, conclui.

A aporofobia é a rejeição, o ódio ou o medo aos pobres. Júlio Lancellotti explica que um dos sintomas na sociedade que revelam essa realidade é a intervenção hostil na arquitetura, como o uso de pedras pontiagudas, lanças e outros obstáculos para repelir que pessoas em situação de rua utilizem determinados espaços. Ele esclarece que a lei aprovada que leva seu nome impede que espaços públicos criem obstáculos para o acesso a essa população. Mas apesar de positiva, a legislação por si só não resolve. Para o sacerdote, mais do que tirar as pedras das ruas “devemos retirar as pedras que estão dentro de nós e que também obstaculizam a proximidade e a convivência com as pessoas em situação de rua”.

Ele ressalta que não quer a retirada de obstáculos para que moradores de rua ocupem a entrada desses espaços, mas porque cidades que adotam esse tipo de medida costumam ser hostis a pessoas vulneráveis, “que não têm uma resposta de moradia e de acolhimento”. O veto aos obstáculos é uma maneira de fazer com que os municípios tenham de fazer políticas públicas de acolhimento aos moradores em situação de rua. Mas, para ter políticas mais efetivas, elas deveriam ser pensadas com eles, e não de cima para baixo, como sempre foi feito.

Para Júlio Lancellotti, a importância de uma lei contra a aporofobia é a imposição de parâmetros do que é aceitável na sociedade no que se refere a temas envolvendo pessoas em situação de rua, assim como ocorre em casos de racismo ou homofobia. Mesmo que a pessoa não goste de determinados grupos, ela precisa respeitar para não incorrer em um crime. “Não tem nenhuma lei que te obrigue a amar, mas você é obrigado a não ser racista. Isso é uma questão legal. Racismo é crime inafiançável”, ressalta. A ideia não é penalizar a aporofobia na esfera criminal, mas que sejam medidas administrativas para a construção de um processo educativo na sociedade.

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