Edição de Sábado

Edição de Sábado: Força bruta

Foi como se um tornado tivesse cruzado por Passo de Estrela. De repente, tudo se foi, como se nunca tivesse estado ali. Casas, ruas, prédios, bichos, gente, tudo desapareceu em poucas horas, deixando marcas de uma violência brutal. Do alto, era quase impossível acreditar que, até poucos dias atrás, milhares de pessoas viviam em mais de 500 casas desse bairro simples de Cruzeiro do Sul, uma cidade às margens do rio Taquari, a quase 150 quilômetros de Porto Alegre. Só de baixo, caminhando pelos destroços, era possível encontrar sinais do que fora uma comunidade bem estabelecida até poucas semanas.

Edição de Sábado: A primeira vítima

No Palácio do Planalto, o alerta vermelho de que era preciso uma operação robusta da comunicação para combater notícias falsas sobre as cheias no Rio Grande do Sul acendeu na segunda-feira, 6 de maio. Nas redes, as atenções dos usuários estavam divididas entre dois impactos: conservadores estavam indignados com as cenas sensuais do show da cantora Madonna na Praia de Copacabana, que havia ocorrido na noite de domingo. Também todos assistiam, com perplexidade, aos vídeos divulgados da cheia do Guaíba, inundando Porto Alegre e a região metropolitana da capital gaúcha com as águas que já haviam causado estragos na região serrana do Rio Grande do Sul.

Edição de Sábado: Depois da tempestade

Na noite de quarta para quinta-feira, no Brasil dos vira-latas caramelos, muitos concordavam em ceder o apelido mais clássico e carinhoso dos cachorros sem raça definida para outra espécie. Imóvel, a imagem de um cavalo em cima de um dos telhados ainda parcialmente visíveis de Canoas (RS) provocava uma enxurrada de perguntas em cada mente. Como ele chegou até ali? Há quanto tempo? Até quando resistirá? Como resgatá-lo? Com helicóptero? Como içar um bicho tão grande e pesado. Melhor levar uma balsa? Tem profundidade suficiente? Dá para tirar de barco? É melhor se concentrar em salvar gente? E mais: parecia sonho, parecia filme.

Edição de Sábado: Nossa Senhora de Copacabana

Hoje à noite Madonna sobe ao palco erguido nas areias de Copacabana, no Rio de Janeiro, para o encerramento da Celebration Tour. Esta é a única parada da turnê que comemora os 40 anos de carreira da rainha do pop na América do Sul. Mais do que o show em si e a excepcionalidade de ser um espetáculo gratuito — o que está fazendo com que um bando de forasteiros, eu incluído, invadam a orla carioca seduzidos pela promessa de que a praia vá virar uma gigantesca pista de dança para 1,5 milhão de pessoas —, o público vai ver se encontra ali a resposta para uma pergunta. Como uma estrela do pop, gênero efêmero por natureza, consegue galvanizar a atenção de tanta gente, de gerações tão diferentes, depois de quatro décadas de superexposição?

Edição de Sábado: O jogo duplo de Pacheco

Rodrigo Pacheco não colocou os pés no Congresso Nacional na última quarta-feira. Um fato atípico, considerando que a esse é, costumeiramente, o dia mais agitado da semana no plenário. O mineiro do PSD, presidente do Senado, preferiu ficar na residência oficial, onde as chances de vazamento de suas conversas eram bem mais remotas. O único compromisso no plenário seria a sessão conjunta do Congresso, que ele também preside, marcada para 19h, com o objetivo de apreciar vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do governo anterior a projetos aprovados pelos parlamentares. Para o governo, porém, aquele era um dia crucial para dar uma virada nos humores com o Legislativo, que andavam especialmente azedos nas últimas semanas.

Edição de Sábado: A política da vingança

Os versos de Chico Buarque vieram à mente do conselheiro Luiz Fernando Bandeira de Mello Filho na terça-feira de julgamento no Conselho Nacional de Justiça, o CNJ: “Roda mundo, roda-gigante. Rodamoinho, roda pião. O tempo rodou num instante”. A imagem de uma imensa roda empurrada ladeira acima, que muda de direção e passa por cima de quem a empurrava, dava ao conselheiro uma perspectiva menos comezinha e mais poética sobre o que ocorria no plenário. Na visão de muitos dos presentes, o relatório apresentado pelo corregedor Luís Felipe Salomão contra magistrados da Operação Lava Jato tinha ares de vingança. O texto destrinchava mandos e desmandos da força-tarefa. “Mais do que a imagem da vingança, eu prefiro ver esse processo político como uma roda-viva”, disse o conselheiro ao Meio, após o julgamento.

Edição de Sábado: A ideologia de Elon Musk

Elon Musk e alguns de seus pares do Vale do Silício têm uma visão muito específica do que é liberdade e do sistema político que lhes permite atuar sem qualquer regulação. Isso quer dizer que estão a serviço de uma rede global de extrema direita? Bem, sim e não. As ideologias não são as mesmas. Mas definitivamente têm pontos de contato. É uma aliança de conveniência. A Edição de Sábado esmiuça como pensam os libertários das big techs e os pontos de encaixe dessa ideologia com a extrema direita.

Edição de Sábado: Eu, tu, eles

Nada mais brasileiro que a suruba. Afinal, o termo vem do tupi e, dependendo do etimologista, significava originariamente “forte, bom” ou “tronco desgastado pelo uso”. Entrou no português como gíria equivalente ao “porreta” ou “ponta-firme”. Jânio Quadros, por exemplo, foi um candidato suruba. Quando e por que suruba virou sinônimo de sexo grupal é um mistério.

Edição de Sábado: Condenados a repetir

Em 1994, Carlos Fico era um aspirante a doutor em busca de uma tese. Atento ao fortalecimento ou nascimento de movimentos sociais, como o negro, o feminista, e o LGBTQIA+, o historiador começou a montar, com dificuldade, uma proposta para os contrapor a outra força social, o movimento operário. Seu orientador, o decano Carlos Guilherme Mota, não se comoveu com o projeto. Naquele mesmo ano, o historiador britânico Eric Hobsbawm lançava A Era dos Extremos. Fico ouviu uma entrevista — ou foi a uma conferência, não se lembra bem — com o lendário intelectual em que ele falava de otimismo e pessimismo e, mais precisamente, de seu espanto ao ver como os brasileiros estavam pessimistas depois da “década perdida”. Foi o estalo.

Edição de Sábado: Nísia na mira

Entre tantas emergências, o assunto era o mais crítico para a pasta na última quarta-feira: a epidemia de dengue. O país estava prestes a ultrapassar 2 milhões de casos prováveis da doença em 2024. Desde o início da série histórica, em 2000, a marca representa um recorde de contágios em apenas três meses, segundo o Painel de Monitoramento de Arboviroses do Ministério da Saúde. Com sua equipe de cientistas, a ministra Nísia Trindade desembarcou do elevador no primeiro andar do prédio do Ministério da Saúde para a entrevista com quase uma hora de atraso. “Estavam finalizando os dados”, justificou um dos assessores que a aguardavam. Ela se encaminhava para a mesa e conversava, sorridente, com a secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, Ethel Maciel, e com o pesquisador da Fiocruz Rivaldo Venâncio, autoridade em matéria de dengue.