Governo Lula tenta conter danos de imagem enquanto resolve impostos sobre combustíveis

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O tema mais importante em Brasília segue sendo a reoneração de impostos nos combustíveis e a atuação da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, sobre os debates econômicos da equipe do governo e com integrantes do próprio partido. Em uma declaração em suas redes sociais, ela chegou a dizer que cobrar impostos sobre combustíveis seria “descumprir compromisso de campanha”. Para a colunista Mariliz Pereira Jorge, Gleisi não está satisfeita com sua posição fora do governo Lula e tenta um protagonismo no debate econômico. Durante bate-papo no programa #MesaDoMeio, ela avalia que as últimas declarações da petista atrapalham a atuação do governo federal. “Eu acho que essas falas dela são absolutamente desnecessárias nesse momento, e não ajudam o presidente, se ela acha que está ajudando”.

A repórter especial Luciana Lima explica que Gleisi continuará dando opiniões sobre a gestão, porque, além de presidir o partido, uma de suas missões é reposicionar a imagem do PT no contexto político brasileiro. Para o editor chefe do Meio, Pedro Doria, essa decisão dificulta a presidência de Lula. “Se Gleisi ficar constantemente batendo em tudo que não tem cheiro de esquerda pura no governo, vai ser problema para o presidente inúmeras vezes.”

Problema é o que não falta para o novo governo, principalmente quando o assunto é a política econômica e a relação com o Congresso. Luciana conta que o clima é de apreensão em Brasília com a volta da cobrança de impostos nos combustíveis. A comunicação do Planalto passou a trabalhar no modo de “redução de danos” para minimizar o desgaste político. O presidente Lula chamou uma reunião com os líderes da base no Congresso para evitar que a medida seja derrubada no Legislativo. É que o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, teria reclamado que não estava sendo ouvido no processo de decisão sobre a reoneração dos combustíveis. Ela pondera que o presidente se ocupou demais em resolver o debate econômico interno do próprio partido, deixando os parlamentares de fora da conversa. “Uma falha que pode render um desgaste que poderia ter sido prevenido simplesmente com um diálogo prévio com essas correntes políticas do Congresso.”

O cientista político Christian Lynch entende que falta um “primeiro-ministro” para pôr ordem nas decisões do governo. “É impossível um presidente gerir trinta e tantos ministérios e cuidar de política externa, isso é uma alucinação”. Ele defende que o sistema semipresidencial daria uma “racionalidade” ao presidencialismo, tendo uma pessoa específica que coordenaria os ministérios e faria uma interface com o Congresso. “Alguém precisa fazer esse papel e por isso está todo mundo se batendo e Lula está tendo de arbitrar tudo”, avalia.

A discussão dos debatedores do #Mesa também passou pela nota divulgada pelo Centro da Indústria, Comércio e Serviços (CIC) de Bento Gonçalves, na serra gaúcha, que relacionou o trabalho análogo à escravidão em colheitas de uva para vinícolas como Aurora, Salton e Garibaldi a “um sistema assistencialista” no país. Mariliz critica a nota e classifica a declaração como “nojenta e vergonhosa”. Ela questiona a entidade industrial, que em vez de contratar uma empresa para gerir a crise de imagem, prefere atacar as pessoas exploradas naquele trabalho. “É vergonhoso que a gente esteja passando por isso”. Pedro destaca que “a cultura escravocrata não acabou” e que diferentemente da Zara, que investiu na reconstrução de sua imagem após ter seu nome envolvido em trabalho análogo à escravidão em sua linha de produção de roupas, o grupo gaúcho de empresários resolveu “dobrar a aposta” e culpabilizar os programas sociais.

Christian lembra que o país tem uma longa herança escravista e que isso começa a modificar apenas com a Constituição de 1988, que trouxe um certo medo a essas elites com a proclamação dos direitos trabalhistas. Ele explica que, no modelo reacionário, o empregado é visto como dependente do chefe da família. Na mentalidade do patriarca, “no fundo, [o emprego] é um favor que o cara está fazendo pelo empregado”. Para o cientista político, o bolsonarismo reavivou esse pensamento por parte do empresariado.

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