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As fronteiras do chavismo

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Não fossem os quatro blindados e a dúzia e meia de soldados das Forças Armadas colombianas equipados com velhos fuzis de assalto, poucos diriam que algo mudou nesta última semana na Ponte Simón Bolívar, a principal ligação por terra entre a Colômbia e a Venezuela. Carros, motos e ônibus circulam de um lado ao outro sem interrupções. Milhares de pessoas cruzam a pé a ponte que liga Cúcuta, na Colômbia, a San Antonio del Táchira, na Venezuela, como se nada de especial tivesse acontecido no sábado passado, quando as forças especiais americanas atacaram Caracas e sequestraram o presidente venezuelano Nicolás Maduro. A calma e a normalidade, no entanto, são só aparentes.

Bastam cinco minutos de conversa com os venezuelanos que entram e saem do país para ficar claro que os sorrisos e as piadas tão ao estilo brasileiro escondem a tensão e a incerteza sobre o futuro. Muitos com quem conversei relatam um aumento sensível das forças de segurança nas ruas das cidades fronteiriças, tanto as oficiais como as extraoficiais, como os chamados “colectivos”, grupos armados que atuam em apoio ao governo. “No sábado passado, só porque eu estava na rua para comprar pão pros meus filhos, eles me pararam, levaram meu celular, minha carteira, sem ao menos dizer nada”, me contava Kevin Cristantes, um venezuelano de 45 anos que saiu do país um pouco antes da pandemia de Covid-19.

Kevin, como quase nove milhões de seus compatriotas, fugiu da fome, da pobreza e da opressão. Vivia na cidade de Barquisimeto, no estado de Lara, e encontrou refúgio em Cúcuta com os filhos de 11, 9 e 6 anos. Sua mulher seguiu para os Estados Unidos e o deixou com as crianças após ele decidir que não faria a perigosa viagem pela América Central. “Fomos passar as festas na casa da minha mãe e então aconteceu isso. Esperamos um pouco para voltar com mais segurança, porque tudo estava muito incerto”, me dizia ele após cruzar a ponte. “Não sabemos o que pode acontecer nas próximas semanas.”

As dúvidas aqui na fronteira permeiam o pensamento de todos os venezuelanos, dentro e fora do país, após essa primeira semana intensa, confusa e de poucas informações concretas sobre o que se passa no coração do chavismo. Desde que Nicolás Maduro se foi, ninguém sabe ao certo que caminhos tomarão os principais personagens do núcleo duro do regime que agora, ao menos em teoria, governam o país. Apesar da saída do presidente, as estruturas de poder se mantiveram inalteradas. Delcy Rodríguez, a vice de Maduro, foi alçada ao posto de presidente interina. Seu irmão, Jorge Rodríguez, se mantém como presidente da Assembleia Nacional, enquanto, na área de segurança, Diosdado Cabello segue controlando as forças de repressão internas, e Padrino López continua como chefe das Forças Armadas.

Ao menos pelos sinais externos, os quatro se mantêm coesos, mesmo diante das suspeitas de que o ataque contra a Venezuela fez parte de um acordo amplo entre os Estados Unidos e integrantes do alto escalão chavista. Nos discursos, nas cerimônias e nas atuações das forças de segurança, tudo parece estar ocorrendo com surpreendente eficácia e unidade, mesmo em um momento de tanta instabilidade como este, em que forças militares americanas simplesmente capturaram o presidente venezuelano de dentro de um quartel do Exército no coração de Caracas.

Apesar de uma relação histórica com Hugo Chávez e o movimento que ele criou e controla a Venezuela há 27 anos, os irmãos Rodríguez nunca fizeram parte do núcleo militar que tentou um golpe em 1992 e, depois, ajudou Chávez a se eleger presidente em 1999. Padrino e Cabello estiveram com ele em todos esses momentos, como companheiros ideológicos e de armas. Para quem conhece os dilemas do chavismo por dentro, a impressão sempre foi que Delcy e Jorge Rodríguez tinham uma visão mais pragmática sobre o futuro do regime do que Cabello e Padrino.

Os dois militares, que na prática comandam as forças regulares e não regulares que sustentam o regime, sempre foram vistos como antagonistas dos Rodríguez nos momentos de maior tensão nas disputas internas, em especial depois da morte de Chávez em 2013. Ao longo dos anos de crise, Delcy conseguiu se destacar por sua condução da economia e, em especial, pela revitalização — ainda que tímida — da indústria petroleira da Venezuela.

Sob seu comando, a estatal de petróleo saiu dos 300 mil barris diários que produzia em 2020 para os atuais 1,2 milhão de barris. De acordo com fontes ouvidas pelo New York Times, foi seu desempenho na economia que animou o presidente americano Donald Trump a escolhê-la como principal interlocutora dentro do regime.

Nesta primeira semana, Delcy tem se mostrado aberta às investidas americanas contra a Venezuela. Modulou o discurso, dizendo que o país quer paz e diálogo, e anunciou que retomará as relações diplomáticas com os Estados Unidos, rompidas há mais de 15 anos. Ela também permitiu que a PDVSA declarasse publicamente que está disposta a vender petróleo para os EUA e, numa ação surpreendente, iniciou a libertação dos cerca de mil presos políticos encarcerados no país. Esses movimentos levaram Donald Trump a afirmar que uma segunda onda de ataques à Venezuela foi cancelada. Mas ainda é muito cedo para acreditar que a Venezuela — e os venezuelanos, de tantas matizes e interesses distintos — irá simplesmente aceitar que o país se torne uma colônia americana pronta a suprir a metrópole com seus recursos naturais.

Os sinais que chegam de Caracas e de outras regiões da Venezuela até aqui são contraditórios e podem demonstrar que a coesão não é tão sólida quanto estes primeiros dias insistem em fazer crer. Ao mesmo tempo em que anuncia a libertação de presos políticos, o regime tem endurecido a repressão no país. Prisões, detenções e interrogatórios arbitrários têm sido registrados não só em Caracas, mas em diferentes regiões. Grupos paramilitares, como os temidos “colectivos”, têm atuado com imensa liberdade mesmo na capital, agora carregando rifles — não apenas pistolas, como até o ano passado.

Enquanto Delcy promete distensão e diálogo, o cerco à imprensa está mais forte do que nunca. Nesta primeira semana, quase duas dezenas de jornalistas foram presos enquanto trabalhavam em Caracas, e um número ainda maior foi proibido de entrar no país, mesmo aqueles que já tinham visto de imprensa expedido pela chancelaria com o aval do Ministério das Comunicações. Na prática, a Venezuela impôs um bloqueio quase total à imprensa internacional. Aqui em Cúcuta, centenas de jornalistas passaram a semana esperando a autorização de Caracas para entrar como repórteres. Aqueles que não precisam de vistos para entrar na Venezuela, como os brasileiros, foram barrados na fronteira ao terem seus nomes pesquisados por agentes do serviço de contrainteligência militar, o DGCIM, que é quem de fato controla a entrada e saída do país.

“Veja, por mim vocês entravam, mas o problema é que Caracas determinou que nenhum jornalista entre no país sem uma nova autorização expedida pelo Ministério das Comunicações”, me explicava a agente de imigração venezuelana em “La Boca Fría”, uma cidadezinha fronteiriça no estado de Táchira. Sua explicação doce, quase compadecida, foi o final de uma tarde tensa que enfrentei com outros dois jornalistas brasileiros ao tentarmos entrar na Venezuela no início desta semana. O começo da conversa com ela e com um agente da contrainteligência militar não teve a mesma amabilidade.

Por longas quatro horas fomos interrogados no pequeno posto de fronteira que divide “Boca Fría” de Puerto Santander, no lado colombiano. Havíamos chegado ali no início da tarde para nos encontrar com um integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que vive há anos no país e com um funcionário do governo venezuelano. Eles nos haviam prometido ajuda para cruzar a fronteira e chegar até Caracas. Caminhamos confiantes pela ponte estreita que separa os dois países, conversamos animadamente com os guardas que cuidavam da segurança e, certos do sucesso, fomos carimbar nossos passaportes.

Foi aí que surgiu o agente de contrainteligência. Logo tomou todos os celulares, passaportes e carteiras de identificação. Um a um, iniciou pesquisas na internet, mandou que desbloqueássemos os telefones e, com uma lenta curiosidade, passou a ler as mensagens guardadas no aparelho. “Jornalistas, né?”. Confirmamos. E repetidas perguntas se seguiram. Fomos fotografados e alertados a nunca tentar cruzar para a Venezuela. Em nenhum momento os agentes nos desrespeitaram, foram agressivos ou tiveram atos de violência. Mas as ordens estavam claras: jornalistas não podem entrar, mesmo como turistas.

Por pouco, a aventura não termina mal para o integrante do MST que saíra de Caracas para nos apoiar. Desconfiado, o agente de contrainteligência afirmou que ele, como nós, seria expulso do país. O integrante do movimento campesino brasileiro ficou apavorado com a possibilidade de não conseguir voltar para casa. Falando em português com algum sotaque espanhol, tentava explicar que vivia na Venezuela há anos, em uma “comuna”, que trabalha para o governo venezuelano e que, diferente de nós, nada tinha a ver com a imprensa. Diante das negativas do agente, decidiu largar sua última cartada: “Tenho mulher venezuelana, ela vai me matar se eu não voltar para casa, você sabe como elas são”. Pela primeira vez, o agente pareceu compadecido com a história do chavista brasileiro. Fez algumas ligações, reviu os passaportes, fez novas perguntas e, finalmente, permitiu que ele voltasse.

Tivemos destino oposto. Fomos escoltados por um soldado até a ponte que separa a Venezuela da Colômbia e obrigados a posar para mais uma foto — dessa vez para provar aos superiores que estávamos, de fato, indo embora. Tomamos um táxi e retornamos ao encontro de tantos jornalistas que haviam tentado o mesmo, sem sucesso. Um dos meus colegas brasileiros vive em Caracas, tem visto permanente de residência e autorização oficial do governo venezuelano para atuar como jornalista. Como nós, foi impedido de entrar. “Nem sei o que farei, minha casa, minhas roupas, minhas coisas estão em Caracas”, contava ele, enquanto voltávamos frustrados para a Colômbia.

Mas se a imprensa não vai à notícia, a notícia — ainda que manca — vai à imprensa. Na ponte Simón Bolívar, um grupo de meia dúzia de venezuelanos cruzou a fronteira no dia seguinte para mostrar apoio a Maduro. Os jornalistas, sem novas histórias, foram ouvir os barulhentos e coloridos chavistas sobre a ponte. Diziam que a Venezuela sofreu um ataque, que Chávez seguia vivo em seus corações e que lutariam para trazer Maduro de volta. Um dos manifestantes, vestido como o herói da independência venezuelana, Simón Bolívar, tentava dissipar as dúvidas que agora pairam sobre quem ficou no poder. “Qualquer acordo com os gringos é traição à pátria”, dizia ele, com as suíças falsas derretendo sob o calor intenso. De pronto, desembainhou sua espada e gritou: “La patria o la muerte”.

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