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Deus nos proteja da maldade política de gente boa
O leitor deve ter notado como, ultimamente, nas discussões sobre a vida pública, o vocabulário moral tem substituído a terminologia peculiar da política. Mesmo que as caracterizações do outro lado pareçam políticas, como quando se diz que não se deve votar “neles” por serem comunistas ou fascistas, porque são da extrema direita ou da esquerda, na verdade os termos não mantêm o seu significado tradicional. “Fascista”, por exemplo, não passa de um atalho verbal para remeter a tudo o que eu, progressista, moralmente reprovo, a qualquer ideia ou posição que considero eticamente deplorável.
O dilema do governo minoritário
O mês de abril terminou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sofrendo as duas mais sérias derrotas em seus três mandatos no Planalto. No dia 29, o plenário do Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias, homem de confiança do presidente, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) — algo que não acontecia desde 1894. No dia seguinte, o Congresso derrubou, por ampla maioria, o veto presidencial à Lei da Dosimetria, que reduziu as penas dos condenados por atos contra a democracia.
As perguntas aos principais candidatos
Num ambiente político marcado pela temperatura alta e pela escassez de análise fria, há uma pergunta que o eleitor indeciso raramente se faz com rigor: o que, exatamente, preciso saber antes de decidir? Não o que meu campo prefere que eu saiba — o que eu preciso saber? A diferença entre as duas perguntas é a distância entre o voto como expressão de pertencimento e o voto como exercício de soberania. E exercício de soberania exige que as perguntas difíceis sejam feitas a todos os candidatos relevantes — não apenas ao adversário preferido de cada leitor.
As mulheres e o papel das mediações na eleição
Quando se fala sobre o papel das mulheres nas eleições, o ponto de partida costuma ser a representação: quantas são candidatas, quantas são eleitas, quantas ocupam posições de liderança dentro dos partidos. A pergunta é relevante e continua sendo um indicador importante da qualidade democrática brasileira. A representatividade é, sim, fundamental e o exercício do poder real uma vez presentes nesses espaços, idem. Mas, isoladamente, ela não dá conta de explicar o funcionamento das disputas políticas no Brasil contemporâneo, nem ajuda a compreender por que, mesmo com avanços pontuais, persiste uma sensação generalizada de distanciamento entre a política e a sociedade.
A crise do judiciarismo
O caso Banco Master, ao comprometer a reputação de alguns ministros do Supremo Tribunal Federal, produziu um efeito que ultrapassa o escândalo imediato: trouxe ao centro do debate um tema que até há pouco permanecia confinado ao vocabulário da extrema direita — a crítica ao próprio Judiciário. Fala-se agora em impeachment de ministros, em revisão de prerrogativas, em limitação de competências da Corte. A mudança de clima é evidente. O que se alterou não foi apenas o volume da crítica, mas o campo em que ela circula.
A intolerância, bailarina, mudou de lado outra vez
Há poucos anos, bastava acompanhar o fluxo das redes sociais para identificar, com relativa clareza, quem acusava quem — e de quê. Entre 2015 e 2018, a nova direita brasileira construiu uma poderosa máquina de mobilização baseada na denúncia moral da esquerda. Grupos da nova direita, como o MBL, notabilizaram-se pelas táticas de denúncia digital, usando celulares e plataformas como recursos para engajar, mobilizar e promover cruzadas de cidadãos ultrajados pelas práticas correntes de imoralidade que a esquerda progressista supostamente praticava, apoiava ou incentivava.
Quatro contra um

Em pouco menos de seis meses o Brasil vai às urnas escolher o próximo presidente da República com um cenário inédito em sua história política, como mostra a mais recente pesquisa Meio/Ideia (íntegra). A esquerda, a despeito da fama de desunida, é representada apenas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tenta o quarto mandato. A direita, em geral pragmática e coesa, chega com quatro candidatos: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), encostado no presidente, e, mais atrás, os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD-GO) e Romeu Zema (Novo-MG) e o outsider Renan dos Santos (Missão). O centro? Ninguém sabe, ninguém viu.
O risco do radicalismo como normalidade

O Brasil está normalizando o radicalismo. Não o radicalismo de ideias — aquele que move transformações históricas e tem dignidade própria —, mas o radicalismo de postura: performático, calculado, alimentado pela lógica das redes sociais e pela economia da atenção. O problema não é apenas que esse fenômeno existe. É que ele passou a ser tratado por parcelas crescentes do eleitorado e da classe política como uma aposta legítima de poder. Quando o radicalismo deixa de ser exceção e vira método, a democracia não colapsa de uma vez — ela se esvazia por dentro. E o que se perde, antes de qualquer instituição, é a crença dos cidadãos comuns de que o sistema existe para protegê-los.
A ‘nova mentalidade’

Vendo o noticiário — os supersalários, a resistência corporativa da magistratura, as notícias de envolvimento de ministros do Supremo Tribunal Federal em negócios escusos, episódios como o de filhos recém-formados já participando de operações financeiras controversas — ficamos a nos perguntar quando começou essa mistura tão naturalizada entre o público e o privado, essa expansão contínua de privilégios no interior da administração.
Duas ou três coisas que aprendi com Habermas

A morte de Jürgen Habermas, no último sábado, encerra uma das mais longas e influentes trajetórias intelectuais na filosofia e na sociologia políticas contemporâneas. Fica para trás, contudo, uma obra que influenciará o debate democrático ainda por muito tempo.