A crise do judiciarismo
O caso Banco Master, ao comprometer a reputação de alguns ministros do Supremo Tribunal Federal, produziu um efeito que ultrapassa o escândalo imediato: trouxe ao centro do debate um tema que até há pouco permanecia confinado ao vocabulário da extrema direita — a crítica ao próprio Judiciário. Fala-se agora em impeachment de ministros, em revisão de prerrogativas, em limitação de competências da Corte. A mudança de clima é evidente. O que se alterou não foi apenas o volume da crítica, mas o campo em que ela circula.
A intolerância, bailarina, mudou de lado outra vez
Há poucos anos, bastava acompanhar o fluxo das redes sociais para identificar, com relativa clareza, quem acusava quem — e de quê. Entre 2015 e 2018, a nova direita brasileira construiu uma poderosa máquina de mobilização baseada na denúncia moral da esquerda. Grupos da nova direita, como o MBL, notabilizaram-se pelas táticas de denúncia digital, usando celulares e plataformas como recursos para engajar, mobilizar e promover cruzadas de cidadãos ultrajados pelas práticas correntes de imoralidade que a esquerda progressista supostamente praticava, apoiava ou incentivava.
Quatro contra um

Em pouco menos de seis meses o Brasil vai às urnas escolher o próximo presidente da República com um cenário inédito em sua história política, como mostra a mais recente pesquisa Meio/Ideia (íntegra). A esquerda, a despeito da fama de desunida, é representada apenas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tenta o quarto mandato. A direita, em geral pragmática e coesa, chega com quatro candidatos: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), encostado no presidente, e, mais atrás, os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD-GO) e Romeu Zema (Novo-MG) e o outsider Renan dos Santos (Missão). O centro? Ninguém sabe, ninguém viu.
O risco do radicalismo como normalidade

O Brasil está normalizando o radicalismo. Não o radicalismo de ideias — aquele que move transformações históricas e tem dignidade própria —, mas o radicalismo de postura: performático, calculado, alimentado pela lógica das redes sociais e pela economia da atenção. O problema não é apenas que esse fenômeno existe. É que ele passou a ser tratado por parcelas crescentes do eleitorado e da classe política como uma aposta legítima de poder. Quando o radicalismo deixa de ser exceção e vira método, a democracia não colapsa de uma vez — ela se esvazia por dentro. E o que se perde, antes de qualquer instituição, é a crença dos cidadãos comuns de que o sistema existe para protegê-los.
A ‘nova mentalidade’

Vendo o noticiário — os supersalários, a resistência corporativa da magistratura, as notícias de envolvimento de ministros do Supremo Tribunal Federal em negócios escusos, episódios como o de filhos recém-formados já participando de operações financeiras controversas — ficamos a nos perguntar quando começou essa mistura tão naturalizada entre o público e o privado, essa expansão contínua de privilégios no interior da administração.
Duas ou três coisas que aprendi com Habermas

A morte de Jürgen Habermas, no último sábado, encerra uma das mais longas e influentes trajetórias intelectuais na filosofia e na sociologia políticas contemporâneas. Fica para trás, contudo, uma obra que influenciará o debate democrático ainda por muito tempo.
O muro entre evangélicos continua de pé

A estabilidade do alinhamento eleitoral desde 2018 revela menos um comportamento religioso homogêneo e mais uma clivagem política que o país ainda não compreendeu plenamente.
A incógnita Trump

Os manuais de risco político trazem uma definição e uma premissa. A definição é nomear este tipo de risco como toda e qualquer possibilidade de dano potencial a uma organização empresarial causado pelo ambiente político em uma dada região. Esta, por sua vez, alimenta a premissa: a de que quanto maior for a instabilidade política em uma dada região, maior será o nível de risco político ali vinculado.
A polarização tem cura?
A política é atividade competitiva por excelência, pois o seu ponto de partida é a divergência e o conflito de interesses, vontades e valores. E não há nada de errado nisso; ao contrário, trata-se de forma mais civilizada de mediação dos inevitáveis conflitos que resultam da liberdade e da singularidade humanas.
Autoritarismo e gênero

A tendência atual de retrocesso democrático e autoritarismo pode também ser vista como um ataque a valores liberais como a igualdade de gênero. Líderes como Vladimir Putin, Viktor Orban e Recep Tayyip Erdogan chamaram a atenção da mídia por suas observações sexistas e declarações depreciativas sobre a “ideologia de gênero”. Essas figuras são frequentemente vistas como promotoras de uma reação ideológica contra as conquistas feministas das últimas décadas. O chauvinismo espontâneo de Orban, por exemplo, tem sido atribuído ao desejo de manter as mulheres fora da esfera pública e dentro da cozinha.