Precisamos discutir o identitarismo

Duas novas forças políticas de grande impacto no mundo precisam ser compreendidas: os identitários, progressistas e conservadores, e a extrema-direita

Precisamos falar sobre o identitarismo. Os constantes confrontos entre pessoas e grupos de diversas origens e os adeptos da política identitária, a crescente hegemonia identitária em muitos ambientes sociais, a pressão que identitários exercem sobre leis e políticas públicas que nos afetam a todos, e o temor disseminado de que alguém possa se tornar alvo de uma expedição punitiva identitária a qualquer momento, tornaram inevitável uma conversa sobre essa nova forma de ideologia e política.

Não é difícil reconhecer que há hoje no mundo duas novas forças políticas de grande impacto, cuja compreensão se impõe com urgência: os identitários, progressistas e conservadores, e a extrema-direita. Compreendê-los é necessário, primeiro porque afetaram profundamente o jogo político e a vida democrática, que foram projetados para lidar com a clássica contraposição econômica e política entre direita e esquerda, liberais e conservadores. Na última década, esse quadro se complicou porque essas duas novas forças estão menos interessadas na política instrumental, baseada no conflito de classes e na produção e distribuição de riqueza, e mais na política de status, na luta pela distribuição de prestígio e distinção sociais e outros capitais simbólicos.

Em segundo lugar, vivemos em sociedades onde esses novos grandes blocos de interesses e ideologias vieram para ficar. A extrema-direita, já podemos admiti-lo, não foi um acidente de percurso nem uma aventura política, como provam pilhas de exemplos acumulados nas democracias europeias e americanas. Dá-se o mesmo com os identitários, mesmo os de esquerda, que são um fracasso eleitoral embora sejam um exemplo de sucesso político no controle do debate público ou em setores importantes da sociedade.  E ainda temos os identitários conservadores que são parte ativa da extrema-direita emergente, como os ultraconservadores evangélicos e católicos que se amalgamaram ao bolsonarismo e ao trumpismo, ou os partidos e movimentos antimigrantes, xenófobos e ultranacionalistas abrigados na extrema-direita europeia.

Ninguém duvida que precisamos discutir a extrema-direita, uma vez que ela veio para ficar e, no caso brasileiro, marcha rapidamente para sua institucionalização por meio de mandatos parlamentares e da conquista das casas legislativas. A conversa sobre os identitários, entretanto, é diferente. Grande parte da esquerda e dos progressistas (nem todos de esquerda são progressistas, vale notar) está convencida de que, enquanto a extrema-direita é uma ameaça consistente à vida democrática, os identitários seriam, ao contrário, um avanço democrático necessário e bem-vindo. Essa conclusão, no entanto, é fruto de pensamento desejoso ou de uma compreensão equivocada da democracia.

Os identitários são hoje uma parte essencial dos problemas que afligem nossas democracias.

Na verdade, trata-se do oposto: os identitários são hoje uma parte essencial dos problemas que afligem nossas democracias. Reclamamos, com razão, da degradação do debate político nacional devido à “balcanização” da esfera pública, ou seja, a fragmentação política resultante da fratura e desagregação de blocos ideológicos em unidades menores, altamente hostis e em constante colisão. Reclamos também que vivemos uma situação política onde os lados ferozes de uma disputa inflamada e radicalizada mantêm a convicção de que o outro lado, errado e inaceitável, ainda pode ser vencido e varrido para o esquecimento. A política identitária é parte essencial dessa política de “fé cega, faca amolada”. E, insisto nisso, não é uma parte acidental e involuntária, mas é da sua natureza a beligerância permanente, que não apenas degrada o debate público e leva a briga de facas para praticamente todas as esferas da interação social.

Estratégias essenciais da política identitária

A política identitária, de esquerda ou de direita, é baseada em pelo menos três estratégias essenciais: a vitimização, o vigilantismo e o punitivismo. “Essenciais” porque não pode haver política identitária sem o emprego desses recursos.

Todo identitário reivindica ser percebido, considerado e tratado socialmente como vítima. As estratégias de vitimização dos identitários de esquerda e direita, contudo, são diferentes. No caso da esquerda, enfatizam narrativas de sofrimento e opressão. Suas identidades foram marginalizadas, despojadas de direitos e oportunidades, e estigmatizadas. Seus corpos são “historicamente marginalizados”, as opressões se entranharam na vida social e nas instituições do Estado ao ponto de se tornarem “estruturais”.

Identitários de direita, recorrem a outra narrativa de vitimização, desta vez entendida principalmente como a ideia de cerco ou ameaça de iminente destruição do seu modo de vida ou como a crença de estar sendo vítima de uma ocupação de estrangeiros “inassimiláveis”, que consomem os seus recursos, drenam as suas oportunidades, sentem-se livres para praticar seus estranhos costumes, mas não aceitam os valores nacionais nem respeitam sua identidade. Supremacistas étnicos querem ser entendidos como pessoas que veem a miscigenação como ameaça à sobrevivência de sua integridade racial; xenófobos alegam que querem apenas que cada cultura permaneça em seu próprio território, sem ameaçar a cultura dos outros por processos forçados de convivência ou por sincretismo.

O identitarismo, além disso, faz de cada militante um vigilante, que se dedica a duas tarefas: procurar ativamente infratores, patrulhando o vasto mundo das interações sociais, atentos a quaisquer atitudes e comportamentos que possam ofender, ameaçar ou atacar a identidade do grupo; atuar como parte de um coletivo que, identificada a transgressão, fará justiça com as próprias mãos. Constatada a infração, inicia-se o alarme (às armas, companheiros) e mobiliza-se toda a rede para o justiçamento, que costuma ser rápido, brutal e exemplar, destinado a desencorajar comportamentos semelhantes e a instaurar o temor ao grupo. Como todos sabem, não há vigilantismo sem linchamentos e sem um senso de superioridade moral.

A “infração” merece uma consideração à parte. Quando se trata da violação clara de alguma norma social, como no caso de racismo, discriminação, preconceito ou ofensa, um democrata pode condenar a precipitação da justiça tomada nas próprias mãos e o desrespeito ao devido processo legal, mas pode reconhecer que uma punição era devida. O problema é que, na maioria das vezes, sequer se trata disso.

Pessoas podem ser punidas porque divergem de uma tática empregada num desses episódios de assédio e exposição identitária, por violarem uma regra que o grupo identitário quer enfiar goela abaixo da sociedade apesar das resistências, por causa de uma má interpretação ou de uma compreensão maliciosa e distorcida de uma expressão. Pune-se até quem examinou e discordou de forma argumentada de um dogma identitário.

Em suma, pune-se a divergência intelectual e moral, a diferença de visão de mundo ou valores, e até mesmo a hesitação na adoção da Bíblia identitária. Divergência, diferença, dúvida e até ceticismo são “infrações” detectadas pelo vigilantismo e que não passarão em branco, sem sofrer as devidas punições da polícia moral identitária.

E assim já entramos na seara da punição. O fato é que não há política identitária sem punitivismo. Muita gente que gosta de confundir – por ingenuidade ou esperteza – política identitária e militância por direitos e estima social para as minorias, esforça-se particularmente para advogar que a sanha punitivista dos identitários seja vista ou como excessos que eventualmente ocorrem ou como um fato acidental, secundário e não necessário. No entanto, a frequência com que isso se dá, o papel que as expedições punitivas têm no recrutamento e na mobilização dos grupos, e o quanto a cultura do cancelamento e do assédio está entranhada na autoimagem e na autoestima do militante, invalidam essa tentativa de evasão de responsabilidade de forma cabal.

Grande parte da energia despendida em política identitária é gasta justamente em razias, quer dizer, em incursões rápidas, geralmente em ambientes digitais ou conjuntamente com a mídia de massa, com fins hostis e para causar danos aos adversários ou inimigos. De fato, para os “de fora” dos grupos de identidade e do círculo mais restrito de cumplicidade com eles, a primeira representação que fazem dos identitários são de comunidades extremamente ferozes, que vivem de ataques coletivos cuja meta é destruir ativos importantes, tais como imagens e reputações, dos indivíduos e organizações que se tornam seus alvos.

Identitarismo e intolerância

A radicalização, o abandono de posições moderadas, e a recusa de construir pontes e ouvir o outro lado são inerentes à política identitária. Tolerância, racionalidade e confiança recíproca, bases para uma convivência política não beligerante e para a negociação de projetos comuns, são valores da democracia, mas não valores para a atitude identitária.

A extrema-direita e os identitários, apesar de todas as diferenças, são capazes de conviver em simbiose.

Além disso, a extrema-direita e os identitários, apesar de todas as diferenças, são capazes de conviver em simbiose. Essa é provavelmente a conclusão mais espantosa a que somos obrigados a chegar pela observação dos fatos. Não é mera coincidência que ambos tenham atingido o seu ponto mais alto no mesmo momento histórico.

Uma das estratégias políticas mais eficazes da extrema-direita é disseminar na população o pânico moral dos identitários progressistas. E quem não os teme? Os progressistas temem seus cancelamentos, os moderados e centristas tremem diante da perspectiva de linchamento e dos rituais de envergonhamento público. As pessoas comuns e os conservadores se apavoram diante das arrogantes listas de exigências de reformas morais e da perspectiva de feroz punição para quem sequer é capaz de entender as novas etiquetas que lhe estão sendo exigidas.

Os identitários de esquerda, por sua vez, usam o mesmo expediente de explorar o medo da extrema-direita em benefício próprio. Não é à toa que, enquanto a esquerda e os progressistas enfrentavam enormes dificuldades durante o período de trevas bolsonaristas, os identitários brasileiros progrediram em seus ambientes hegemônicos. A vitimização prospera na crise, e nada melhor do que mostrar o cerco “fascista” e reacionário dominando o mundo para aumentar a coesão interna do grupo minoritário e o recrutamento de membros para a resistência (ninguém larga a mão de ninguém).

Os dois sistemas, apesar de muito tóxicos para os demais, claramente são imunes um ao outro. As acusações dos identitários progressistas não só não afetam a autoimagem e a autoestima de alguém da extrema-direita como são convertidas em capital para incrementar o próprio valor na tribo. Os insultos raciais, misóginos e homofóbicos provenientes do campo da extrema-direita, por outro lado, reforçam o discurso de perseguição e cerco que os identitários de esquerda adotam, além de serem arrolados como evidências de que estão incomodando os fascistas.

Quem não é imune a tudo isso é a vida pública nacional, que há anos está paralisada no meio de uma guerra sem fim, incapaz de produzir um projeto de sociedade bom para todos e que mova o país numa mesma direção. Nem são imunes os progressistas, cuja autoimagem e autoestima são extremamente afetadas pelos cancelamentos e linchamentos dos identitários de esquerda, mas que, por isso mesmo, não se atrevem a desafiá-los, corrigi-los ou enfrentá-los.


*Wilson Gomes é doutor em filosofia, professor titular da Universidade Federal da Bahia e autor de "Crônica de uma Tragédia Anunciada".

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Europa Centro-Oriental: Os jovens e a extrema direita

17/07/24 • 11:00

Os partidos de extrema direita da Europa Centro-Oriental estão observando atentamente a mobilização de um segmento inesperado de eleitores: os jovens adultos. Os programas partidários deixam isso evidente. O partido Revival da Bulgária condena o “monstruoso colapso demográfico” do país e propõe “ações direcionadas a fim de criar incentivos para que os jovens búlgaros” lá permaneçam ou retornem ao país em vez de trabalharem no exterior. A Alliance for the Union of Romanians (Aliança para a União dos Romenos) afirma que “a Romênia deve deixar de ser uma grande exportadora de mão de obra barata” e que “seu estatuto garante o acesso de jovens às estruturas de liderança do partido, em todos os níveis, em proporções significativas”. O Homeland Movement da Croácia solicita que o Estado realize uma “revitalização demográfica” oferecendo aos jovens incentivos para que permaneçam na Croácia, tais como subsídios para moradia e programas de benefícios profissionais. A ala jovem do Estonian Conservative People’s Party (Partido Popular Conservador da Estônia — EKRE), conhecida como Blue Awakening (Despertar Azul), é responsável por apresentar aos jovens valores nacionalistas e uma visão de mundo conservadora, oferecendo-lhes a oportunidade de serem socialmente ativos e influenciarem a política do Estado estoniano, expandindo seus horizontes em questões sociais e proporcionando aos membros a possibilidade de criarem laços de amizade com pessoas de opiniões semelhantes. O Our Homeland Movement (MHM) da Hungria detalha um programa de um novo despertar “no qual os jovens não sonham com o trabalho e a vida no exterior”. A preocupação da extrema direita com o iminente colapso demográfico intensificou os esforços para conquistar o coração e a mente dos jovens eleitores.

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