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Meio Ideia: Michelle Bolsonaro é o preço que Tarcísio terá de pagar para disputar 2026?

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A primeira pesquisa do ano eleitoral está no ar, foi feita pelo Meio e pelo Instituto Ideia e traz o retrato inicial da corrida presidencial de 2026.

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O presidente Lula segue favorito em todos os cenários. Sempre ali na casa dos 40% no primeiro turno e perto dos 45% no segundo. Sua aprovação segue em torno dos 47%, mesmo número dos que respondem que ele merece continuar no poder.

Este é o cenário pelo lado do governo e do campo progressista, com as pequenas margens que um eleitorado polarizado permite para se manobrar. Mas, sim, Lula chega como favorito, como são virtualmente todos os presidentes candidatos à reeleição.

O que ameaça a reeleição de Lula é justamente o fato de que 50% dos eleitores dizem que ele não merece seguir no Planalto. É aqui que a oposição enxerga a oportunidade de nadar no mar do antipetismo, se encontrar um bom discurso para isso.

E aí a direita está fragmentada. A Pesquisa Meio Ideia testou os nomes dos governadores de direita e centro-direita: Tarcísio de Freitas, Ratinho Jr., Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Eduardo Leite.

Também testou Flávio e Michelle Bolsonaro, além de Aldo Rebelo e Renan Santos.

O que a gente não fez? Não testamos cenários de primeiro turno em que apareça Tarcísio concorrendo contra alguém da família Bolsonaro, porque acreditamos que esta é uma configuração que simplesmente não vai acontecer.

Seja por lealdade pessoal a Jair Bolsonaro, seja por pragmatismo puro, Tarcísio não vai bater de frente com alguém do clã. Ele só entra se o caminho estiver politicamente limpo para ele ser o cabeça de chapa da direita.

Agora, para os Bolsonaros desistirem de estar na urna com uma candidatura própria, eles provavelmente cobrariam um pedágio bastante caro, bem ao estilo das estradas paulistas: alguém da família, com o sobrenome do ex-presidente, precisa estar na vice.

E aí é que entra o fator Michelle Bolsonaro. Sem uma carreira tradicional na política, sem jamais ter sido eleita para qualquer cargo, Michelle pontua melhor que Flávio Bolsonaro em todos os cenários que testamos, inclusive no segundo turno. A diferença entre eles não é tão grande. Mas o fato de ela não ser a candidata escolhida até aqui por Jair e, ainda assim, despontar como o nome da família com mais recall e aceitação entre os eleitores não é nada desprezível.

Sua rejeição também é um pouco menor que a de Flávio. E ela é uma mulher evangélica, com apelo e retórica moldada para atrair mulheres conservadoras que não necessariamente votariam em

Jair, Tarcísio ou Flávio, mas que se identificam com ela.

Mas, cá entre nós, antes de discutir se Michelle Bolsonaro deveria ou não estar numa eventual chapa presidencial com Tarcísio de Freitas, a pergunta que precisa ser feita é outra. Tarcísio precisa mesmo de um Bolsonaro na chapa?

Se a gente olhar apenas para os números da Pesquisa Meio Ideia, a resposta é não. Tarcísio é hoje o nome da direita que melhor enfrenta Lula. É o único que chega perto num segundo turno, eles praticamente empatam tecnicamente; é o único que não depende exclusivamente do bolsonarismo, porque agrega a centro-direita, dialoga com o eleitor moderado e tem algo que pesa muito numa eleição apertada: a confiança do mercado e da Faria Lima. Nenhum outro nome da direita reúne esse conjunto.

Veja, quem me conhece sabe que eu não estou aqui pra dizer que Tarcísio não está ligado a Bolsonaro e não é fiel à quase totalidade do corolário bolsonarista. Eu tenho uma coluna com o título “Tarcísio é Bolsonaro”, inclusive. E o próprio governador tem feito um esforço tremendo pra se provar bolsonarista o suficiente, tendo brigado ferozmente pela anistia ao ex-presidente, vestido boné Maga, etc.

Mas, do ponto de vista estritamente eleitoral, Tarcísio não precisaria de um Bolsonaro na chapa porque é bolsonarista o suficiente para os eleitores de Bolsonaro e é distante o suficiente da família para que a direita não-bolsonarista se sinta confortável com ele. É a percepção que se tem dele. Ou o pretexto que se usa pra justificar o voto nele.Acontece que eleição não se ganha só com número. Ganha-se com correlação de forças e com condições favoráveis para a disputa.

O bolsonarismo, enquanto movimento político, não está disposto a abrir mão da corrida presidencial sem manter o sobrenome Bolsonaro no centro do jogo. Não é só apego simbólico. É cálculo de poder. A família sabe que o sobrenome ainda organiza uma base relevante e que sair completamente da disputa presidencial seria admitir um rebaixamento político que eles não pretendem aceitar.Quando Flávio Bolsonaro falou que tinha um preço pra desistir, depois justificou que o preço seria o próprio Jair concorrer, a partir de uma anistia. Hoje, me parece que a cobrança vem em outra moeda, convertida para o sobrenome Bolsonaro na chapa.

É nesse ponto que a comparação entre Flávio e Michelle se torna decisiva. Michelle não é herdeira direta do projeto da família. Ela é madrasta. É daí que nasce a desconfiança dos filhos com ela. Mas é daí que pode vir também a vantagem vista por Valdemar Costa Neto, presidente do PL, que claramente a tem como favorita.Não à toa ele investiu nela como presidente do PL Mulher e a botou pra rodar o país construindo uma base política que ela não tinha. Retoricamente, a plataforma é toda em torno do marido. Na prática, ela foi erguendo um código político próprio, profundamente religioso e feminino.

E os números provam isso. A Pesquisa Meio Ideia mostra que Michelle tem desempenho melhor do que Flávio em todos os cenários de primeiro turno testados. Na espontânea, ela aparece à frente de todos os governadores, com exceção de Tarcísio. E, no segundo turno contra Lula, perde por um pouco menos do que Flávio. Em uma eleição que o próprio instituto estima que pode ser decidida por poucos pontos percentuais, isso não é mero detalhe.

Além disso, Flávio não acrescentaria nada a Tarcísio. Nem eleitoralmente, nem politicamente. Ele não amplia a base, não conversa com o centro, não tranquiliza o mercado e ainda transforma a chapa numa disputa interna desde o primeiro dia. Esse é um risco que Tarcísio não tem nenhum incentivo a correr.

Porque há um fator decisivo nessa equação: Tarcísio não precisa da Presidência a qualquer custo. Ele tem uma reeleição praticamente garantida ao governo de São Paulo. Não vai abandonar essa segurança para entrar numa corrida presidencial travada por uma guerra interna com o bolsonarismo.

Michelle ocupa uma posição singular. Ela como vice manteria o sobrenome Bolsonaro na chapa, mas poderia ter uma postura mais de aprendiz do que de protagonista. Além disso, entrega dois públicos absolutamente cruciais numa eleição nacional: o eleitorado evangélico e o voto feminino conservador, segmentos onde a direita tem vantagem e onde Lula encontra mais resistência.

Tem mais uma coisa: ela já tem se tornado bastante próxima do governador. A parte bolsonarista raiz do governo de São Paulo foi toda pescada dentro dos círculos próximos de Michelle. Entre outros nomes, o irmão dela foi assessor especial do governador e era considerado um dos auxiliares mais próximos de Tarcísio. Ele era responsável pela interlocução com a Assembleia Legislativa de São Paulo e funcionava como ponte entre Tarcísio e a família. Diego Torres deixou o governo. Mas pra se dedicar a ajudar a estruturar a campanha de Tarcísio, seja à reeleição ou ao Planalto.

Depois do anúncio de Flávio, que magoou Tarcísio, ela se aproximou ainda mais do governador. E hoje mesmo, após a divulgação da pesquisa Meio Ideia e de uma visita a Jair, ela postou um vídeo no Instagram com um discurso de Tarcísio sobre a economia no Brasil, com críticas ao governo Lula, num tom claro de quem está de olho mesmo na presidência.

É como se ela estivesse, ao mesmo tempo, endossando Tarcísio, escanteando Flávio e se apresentando pra vice.

Claro que, pra isso, ela teria de abrir mão de uma eleição praticamente garantida também ao Senado pelo Distrito Federal. Mas o bolsonarismo tem outros nomes por lá. E algo me diz que Michelle toparia correr esse risco para se tornar vice-presidente do Brasil se as pesquisas começarem a apontar isso como uma possibilidade real.

 

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