As chamas se apagaram, a dor permanece

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Agravados ainda mais pelas mudanças climáticas, os incêndios florestais produzem imagens dantescas e muita destruição. E o mal que causam não se extingue com as chamas. Esse é o tema de Depois do Fogo, dirigido por Max Walker-Silverman. Não se trata de um filme catástrofe cheio de efeitos especiais, mas de um drama no qual o fazendeiro Dusty (Josh O’Connor) perde seu rancho e sua casa para as chamas. Como vive nos Estados Unidos, governo e sistema bancário estão se lixando para sua desventura, e ele vai parar em uma comunidade de moradores de trailers na mesma situação. Dusty terá de reconstruir sua vida e, ao mesmo tempo, se reconectar com a ex-mulher e a filha, um poço de ironia pré-adolescente.
Responsável pelo premiado O Brutalista, o casal Mona Fastvold e Brady Corbert nos traz agora O Testamento de Ann Lee, um drama musical baseado na vida de uma líder religiosa do século 18. Os papéis desta vez estão invertidos: os dois assinam o roteiro, mas Mona dirige. Amanda Seyfried vive a personagem título, que migrou da Inglaterra para a América colonial em 1774, após ter fundado os “Shakers”, grupo religioso cristão cujo nome derivava de suas danças características. O culto defendia o celibato, a igualdade de gêneros, o pacifismo e a vida em comunidades igualitárias, tendo seguidores até hoje. Com experiência em musicais, especialmente os dois Mamma Mia, Seyfried leva o filme nas costas, melhor dizendo, nas cordas vocais e na coreografia.
Como pacifismo tem limites, o brucutu Jason Statham está de volta para distribuir tiros e bordoadas em Missão Refúgio, de Ric Roman Waugh. Ele vive Mason, um homem recluso numa ilha remota, um bom lugar para desaparecer do mundo, até que, numa noite tempestuosa, resgata uma moça órfã (Bodhi Rae Breathnach) cujo tio morreu em um acidente de barco. Acontece que Mason é um ex-supersoldado das Forças Especiais identificado como terrorista nos arquivos do MI6 e, ao resgatar Jesse, tem sua imagem captada por um satélite. O serviço secreto manda então seus melhores agentes, todos com a pontaria de um stormtrooper e a sorte de um “camisa vermelha”, para serem mortos como moscas até se tocar que a identificação do terrorista recluso pode não estar correta. Não tem qualquer novidade, mas isso não é algo que incomode os fãs do gênero.
Combatidas pela turma do “bandido bom é bandido morto”, as câmeras corporais da polícia são, ao mesmo tempo, protagonistas e ótica do terror POV: Presença Oculta, de Brandon Christensen. Filmado no estilo Bruxa de Blair pela ditas câmeras corporais, o longa acompanha dois policiais de dedo nervoso e pouco cérebro que vão atender a um chamado de violência doméstica num bairro cheio de viciados em drogas. A dupla acaba baleando um homem com um bebê, e sua única preocupação é se livrar das malditas câmeras e inventar um auto de resistência qualquer. Isso até perceberem que estão em uma situação sobrenatural muito mais sinistra.
Também terror, mas com um pé na ficção científica, Iron Lung é escrito, dirigido e estrelado por Mark Fischbach, mais conhecido como o youtuber Markiplier, especializado em videogames independentes. O próprio filme é adaptação de um jogo homônimo de 2022 no qual um condenado anônimo tenta conduzir um pequeno submarino por um oceano de sangue em uma lua alienígena. Se for bem-sucedido, o protagonista vai localizar recursos que podem garantir a sobrevivência da humanidade. O problema é que 12 missões anteriores fracassaram, custando as vidas dos pilotos.
Racismo (estrutural ou não), bullying, violência doméstica e até questionamentos sobre o valor da educação permeiam Hora do Recreio, semidocumentário de Lúcia Murat. O “semi” se deve a contingências que atrapalharam os planos da cineasta de fazer o longa totalmente com depoimentos de estudantes de escolas públicas em sala de aula. Um colégio não autorizou a filmagem, enquanto em outro o trabalho foi interrompido por uma operação policial — devidamente registrada e incluída no documentário. Para suprir os espaços vazios, Murat apelou para encenações teatrais que não comprometem o tom documental.
E, encerrando, há a animação francesa A Pequena Amélie, de Maïlys Vallade e Liane-Cho Han. A personagem do título é uma menina que nasce em estado vegetativo, mas com uma “consciência interna” que a faz ver a si própria como uma divindade. Um terremoto a desperta e um pedaço de chocolate branco a torna ciente de seus sentidos e do mundo a seu redor. Se fosse meio amargo, seria capaz de ela virar uma deusa de verdade.
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