O risco do radicalismo como normalidade

O Brasil está normalizando o radicalismo. Não o radicalismo de ideias — aquele que move transformações históricas e tem dignidade própria —, mas o radicalismo de postura: performático, calculado, alimentado pela lógica das redes sociais e pela economia da atenção. O problema não é apenas que esse fenômeno existe. É que ele passou a ser tratado por parcelas crescentes do eleitorado e da classe política como uma aposta legítima de poder. Quando o radicalismo deixa de ser exceção e vira método, a democracia não colapsa de uma vez — ela se esvazia por dentro. E o que se perde, antes de qualquer instituição, é a crença dos cidadãos comuns de que o sistema existe para protegê-los.
A ‘nova mentalidade’

Vendo o noticiário — os supersalários, a resistência corporativa da magistratura, as notícias de envolvimento de ministros do Supremo Tribunal Federal em negócios escusos, episódios como o de filhos recém-formados já participando de operações financeiras controversas — ficamos a nos perguntar quando começou essa mistura tão naturalizada entre o público e o privado, essa expansão contínua de privilégios no interior da administração.
Duas ou três coisas que aprendi com Habermas

A morte de Jürgen Habermas, no último sábado, encerra uma das mais longas e influentes trajetórias intelectuais na filosofia e na sociologia políticas contemporâneas. Fica para trás, contudo, uma obra que influenciará o debate democrático ainda por muito tempo.
O muro entre evangélicos continua de pé

A estabilidade do alinhamento eleitoral desde 2018 revela menos um comportamento religioso homogêneo e mais uma clivagem política que o país ainda não compreendeu plenamente.
A incógnita Trump

Os manuais de risco político trazem uma definição e uma premissa. A definição é nomear este tipo de risco como toda e qualquer possibilidade de dano potencial a uma organização empresarial causado pelo ambiente político em uma dada região. Esta, por sua vez, alimenta a premissa: a de que quanto maior for a instabilidade política em uma dada região, maior será o nível de risco político ali vinculado.
A polarização tem cura?
A política é atividade competitiva por excelência, pois o seu ponto de partida é a divergência e o conflito de interesses, vontades e valores. E não há nada de errado nisso; ao contrário, trata-se de forma mais civilizada de mediação dos inevitáveis conflitos que resultam da liberdade e da singularidade humanas.
Autoritarismo e gênero

A tendência atual de retrocesso democrático e autoritarismo pode também ser vista como um ataque a valores liberais como a igualdade de gênero. Líderes como Vladimir Putin, Viktor Orban e Recep Tayyip Erdogan chamaram a atenção da mídia por suas observações sexistas e declarações depreciativas sobre a “ideologia de gênero”. Essas figuras são frequentemente vistas como promotoras de uma reação ideológica contra as conquistas feministas das últimas décadas. O chauvinismo espontâneo de Orban, por exemplo, tem sido atribuído ao desejo de manter as mulheres fora da esfera pública e dentro da cozinha.
Reinventar a democracia
Em recente artigo publicado no Financial Times, Martin Sandbu propõe uma releitura crítica da obra de Michael Sandel a partir de uma confissão intelectual geracional. Ex-aluno do filósofo em Harvard e participante direto do universo tecnocrático que moldou o liberalismo pós-1989, Sandbu retorna às advertências formuladas desde os anos 1980 contra a neutralização moral da política e pergunta, retrospectivamente, por que elas foram ignoradas justamente no momento em que pareciam mais pertinentes. O artigo não pretende oferecer um diagnóstico definitivo do populismo contemporâneo, tampouco uma teoria geral da crise democrática; seu interesse está em iluminar, a partir da trajetória de uma geração, os limites históricos de um tipo específico de democracia liberal que se consolidou durante o ciclo da globalização e hoje dá sinais inequívocos de esgotamento.
Eleições 2026: atores e tendências
O longo ano de 2026 parece entrar em sua reta final. Tal assertiva, longe de ser premonitória, se coloca em linha com os movimentos que são cada vez mais visíveis em torno daquele que é o cálice sagrado da política brasileira desde a promulgação da Constituição de 1988: as eleições para o Congresso, governadores e presidente da República.
Como começam as guerras civis

Todo regime autoritário, para se constituir contra a legalidade que o limita, precisa antes suspender simbolicamente a normalidade. O expediente é conhecido: a invocação permanente de uma ameaça à segurança nacional, suficientemente difusa para não poder ser verificada, mas suficientemente insistente para justificar a exceção. É em nome dessa ameaça que se desloca o centro da autoridade, que se relativizam direitos e que a arbitrariedade se torna rotina. Não há ditadura que não se apresente, em seu nascedouro, como governo de salvação.