Reinventar a democracia
Em recente artigo publicado no Financial Times, Martin Sandbu propõe uma releitura crítica da obra de Michael Sandel a partir de uma confissão intelectual geracional. Ex-aluno do filósofo em Harvard e participante direto do universo tecnocrático que moldou o liberalismo pós-1989, Sandbu retorna às advertências formuladas desde os anos 1980 contra a neutralização moral da política e pergunta, retrospectivamente, por que elas foram ignoradas justamente no momento em que pareciam mais pertinentes. O artigo não pretende oferecer um diagnóstico definitivo do populismo contemporâneo, tampouco uma teoria geral da crise democrática; seu interesse está em iluminar, a partir da trajetória de uma geração, os limites históricos de um tipo específico de democracia liberal que se consolidou durante o ciclo da globalização e hoje dá sinais inequívocos de esgotamento.
Eleições 2026: atores e tendências
O longo ano de 2026 parece entrar em sua reta final. Tal assertiva, longe de ser premonitória, se coloca em linha com os movimentos que são cada vez mais visíveis em torno daquele que é o cálice sagrado da política brasileira desde a promulgação da Constituição de 1988: as eleições para o Congresso, governadores e presidente da República.
Como começam as guerras civis

Todo regime autoritário, para se constituir contra a legalidade que o limita, precisa antes suspender simbolicamente a normalidade. O expediente é conhecido: a invocação permanente de uma ameaça à segurança nacional, suficientemente difusa para não poder ser verificada, mas suficientemente insistente para justificar a exceção. É em nome dessa ameaça que se desloca o centro da autoridade, que se relativizam direitos e que a arbitrariedade se torna rotina. Não há ditadura que não se apresente, em seu nascedouro, como governo de salvação.
O corpo do presidente

À primeira vista, o vídeo parece banal: Lula, de férias, caminhando pela praia, de sunga, torso nu, em imagens divulgadas no Instagram da primeira-dama. Nada que não se enquadrasse na categoria já banalizada da “humanização” do poder, esse esforço recorrente de mostrar líderes como gente comum, em situações privadas, longe do figurino cerimonial do cargo. Enquanto caminha pela bela Restinga da Marambaia (RJ), com a água do mar fluindo à esquerda e à direita, Lula filosofa sobre tolerância, complementariedade e realismo. A mente afiada e a sabedoria viriam com a experiência e com os anos; o corpo em forma, do autocuidado. Um homem em paz consigo mesmo, em equilíbrio.
Os reais perigos da IA para a democracia
Riscos vão além de vídeos falsos e ameaçam fundamentos das sociedades liberais
Aos impérios cabe exibir os seus troféus

No ano de 46 A.C., Vercingetórix, líder militar gaulês que se opôs à ocupação romana, foi exibido como um troféu de guerra por um triunfante Júlio César pelas ruas de Roma. A procissão, um marco do processo de transformação da República Romana em Império, serve como um marcador importante de uma premissa que encontra recorrência no tempo: Impérios se perpetuam pelos seus triunfos, que são exibidos como troféus em praça pública.
Os limites éticos do ‘poder moderador’ da República

O Supremo Tribunal Federal não se tornou o centro do sistema político brasileiro por acaso, nem por voluntarismo de seus ministros. Esse deslocamento é resultado de um longo processo iniciado com a Constituição de 1988, aprofundado pela fragmentação do sistema partidário, acelerado pela crise de governabilidade do presidencialismo de coalizão e consolidado após 2013, quando a política passou a transferir sistematicamente seus impasses para o Judiciário. Desde então, o STF deixou de ser apenas uma corte constitucional para se tornar instância arbitral permanente de conflitos estruturais — eleitorais, federativos, econômicos e culturais — que a política já não consegue resolver por si mesma.
O feminicídio como problema democrático

O feminicídio é tema público há bastante tempo. Discutem-se leis, aumento de penas, atuação policial, abrigos, delegacias especializadas, reincidência, dados estatísticos, políticas públicas de proteção e acolhimento. Há debates morais e educacionais, campanhas, protocolos. O assunto está na agenda. Não é tabu, não é doméstico nem periférico. O que me interessa aqui é um passo adiante nessa discussão: não o feminicídio apenas como violência, crime, expressão de ódio ou falha de políticas públicas, mas como problema democrático.
Há bolsonarismo sem Bolsonaro?

O bolsonarismo é o movimento de direita mais bem-sucedido da história da Nova República. Venceu uma eleição presidencial, chegou ao segundo turno em outra e, mesmo desobedecendo alguns marcadores do receituário de construção de um movimento político, prosperou. A consequência direta deste sucesso foi a possibilidade deste grupo de alterar a janela de percepções, transformando o bolsonarismo em sinônimo de direita.
Os estertores do bolsonarismo

Não será simples aos futuros historiadores compreender o bolsonarismo como fenômeno político e social brasileiro no limiar da década de 2020. Há nele algo simultaneamente ridículo, trágico e farsesco, que marcou não apenas o retorno da direita assumida, mas o reaparecimento de uma extrema-direita que a sociedade civil democrática julgava ter sido sepultada junto com a degradação final da ditadura militar.