O corpo do presidente

À primeira vista, o vídeo parece banal: Lula, de férias, caminhando pela praia, de sunga, torso nu, em imagens divulgadas no Instagram da primeira-dama. Nada que não se enquadrasse na categoria já banalizada da “humanização” do poder, esse esforço recorrente de mostrar líderes como gente comum, em situações privadas, longe do figurino cerimonial do cargo. Enquanto caminha pela bela Restinga da Marambaia (RJ), com a água do mar fluindo à esquerda e à direita, Lula filosofa sobre tolerância, complementariedade e realismo. A mente afiada e a sabedoria viriam com a experiência e com os anos; o corpo em forma, do autocuidado. Um homem em paz consigo mesmo, em equilíbrio.
Os reais perigos da IA para a democracia
O ano de 2024 começou com previsões de que uma onda de desinformação e informações falsas impulsionadas pela inteligência artificial (IA) em eleições logo se tornaria a maior ameaça à estabilidade global. De fato, surgiram esforços de influência impulsionados pela IA. Chatbots imitaram políticos online e campanhas usaram avatares de desenhos animados para reabilitar a imagem pública de seus candidatos. Candidatas foram vítimas de imagens íntimas geradas por IA, apenas para citar alguns exemplos.
Aos impérios cabe exibir os seus troféus

No ano de 46 A.C., Vercingetórix, líder militar gaulês que se opôs à ocupação romana, foi exibido como um troféu de guerra por um triunfante Júlio César pelas ruas de Roma. A procissão, um marco do processo de transformação da República Romana em Império, serve como um marcador importante de uma premissa que encontra recorrência no tempo: Impérios se perpetuam pelos seus triunfos, que são exibidos como troféus em praça pública.
Os limites éticos do ‘poder moderador’ da República

O Supremo Tribunal Federal não se tornou o centro do sistema político brasileiro por acaso, nem por voluntarismo de seus ministros. Esse deslocamento é resultado de um longo processo iniciado com a Constituição de 1988, aprofundado pela fragmentação do sistema partidário, acelerado pela crise de governabilidade do presidencialismo de coalizão e consolidado após 2013, quando a política passou a transferir sistematicamente seus impasses para o Judiciário. Desde então, o STF deixou de ser apenas uma corte constitucional para se tornar instância arbitral permanente de conflitos estruturais — eleitorais, federativos, econômicos e culturais — que a política já não consegue resolver por si mesma.
O feminicídio como problema democrático

O feminicídio é tema público há bastante tempo. Discutem-se leis, aumento de penas, atuação policial, abrigos, delegacias especializadas, reincidência, dados estatísticos, políticas públicas de proteção e acolhimento. Há debates morais e educacionais, campanhas, protocolos. O assunto está na agenda. Não é tabu, não é doméstico nem periférico. O que me interessa aqui é um passo adiante nessa discussão: não o feminicídio apenas como violência, crime, expressão de ódio ou falha de políticas públicas, mas como problema democrático.
Há bolsonarismo sem Bolsonaro?

O bolsonarismo é o movimento de direita mais bem-sucedido da história da Nova República. Venceu uma eleição presidencial, chegou ao segundo turno em outra e, mesmo desobedecendo alguns marcadores do receituário de construção de um movimento político, prosperou. A consequência direta deste sucesso foi a possibilidade deste grupo de alterar a janela de percepções, transformando o bolsonarismo em sinônimo de direita.
Os estertores do bolsonarismo

Não será simples aos futuros historiadores compreender o bolsonarismo como fenômeno político e social brasileiro no limiar da década de 2020. Há nele algo simultaneamente ridículo, trágico e farsesco, que marcou não apenas o retorno da direita assumida, mas o reaparecimento de uma extrema-direita que a sociedade civil democrática julgava ter sido sepultada junto com a degradação final da ditadura militar.
O autoritarismo por todos os lados
Nos últimos meses, uma sucessão de episódios cotidianos — em universidades, câmaras municipais, espaços legislativos, escolas públicas, redes sociais e debates culturais — esfrega em nossa cara um fenômeno espantoso que, infelizmente, não vem sendo acompanhado com o cuidado que mereceria: o crescimento acelerado do autoritarismo político entre nós.
A direita radical não se resume a Bolsonaro

As instituições brasileiras — incluindo dois dos três comandantes das Forças Armadas — resistiram a uma tentativa de golpe de Estado na virada de 2022 para 2023. Seus orquestradores, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), foram julgados e condenados, e a expectativa é que comecem a cumprir as penas até o fim deste ano. Mas, mesmo com esta dura e inédita resposta ao golpismo e a prisão de seu principal líder, o populismo de extrema direita não vai sair de cena. Até por não ser um fenômeno circunscrito ao Brasil.
O que o Rio nos ensina?

O Rio de Janeiro certamente é uma das capitais culturais do Brasil. Ao lado de cidades como Salvador, São Luís e Ouro Preto, possivelmente, forma aquilo que poderíamos chamar de um quadrilátero de construção da brasilidade. Este, remontando historicamente à chegada dos portugueses, ao contato com os indígenas, aos embates de conquista e à incorporação forçada de corpos escravizados provenientes do continente africano.