Uma direita sem vergonha

Cesar Zucco, professor da FGV-Ebape, e Timothy Power, da Universidade de Oxford, dedicam-se há décadas a compreender o que pensam os parlamentares brasileiros. Conduzem pesquisas que buscam descortinar suas ideologias a cada legislatura. E já no ressurgente período democrático, em meados dos anos 1980, detectaram o fenômeno da direita envergonhada no Brasil. Políticos que haviam sido parte da máquina autoritária do regime militar se despiram dessas vestes com tremendo desapego, trocando de filiação partidária e de discurso — mas não de visão de mundo. A noção de direita envergonhada era tão palpável que, além de conceito teórico, penetrou no imaginário político do país.
Quando a maioria deve governar?
A democracia liberal não é simplesmente um sistema de governo da maioria: ela combina o governo da maioria e a proteção dos direitos das minorias. Para evitar que maiorias temporárias privem indivíduos de direitos fundamentais ou legislem para eliminar minorias políticas, as democracias devem garantir que alguns domínios permaneçam, nas palavras do ministro da Suprema Corte dos EUA Robert H. Jackson, “fora do alcance das maiorias”.
O Coliseu moral
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É possível desestimular o extremismo?

O comício de Jair Bolsonaro no último domingo em São Paulo chamou menos a atenção pelo baixo número dos que a ele compareceram do que pelo fato de que sete governadores subiram no seu palanque – entre os quais, três pré-candidatos à presidência da República: Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) e Ratinho Junior (PSD-PR). É verdade que o fizeram como os sobrinhos do tio moribundo, que promete entregar sua herança àquele que mais o bajular. No caso concreto, prevendo sua condenação por tentativa de golpe de Estado e subversão das instituições democráticas, Bolsonaro faz um leilão para ver, antes de ungir o sucessor, qual deles se compromete mais com o projeto de garantir a impunidade pelos crimes que cometeu. O cientista político compreende a racionalidade de todos os aspirantes à sua sucessão. O cidadão não tem como deixar de lamentar, porém, o endosso que todos fazem a teses de que não houve tentativa de golpe. Parece que, no fim das contas, a direita não terá um único candidato confiável para a democracia.
A extrema direita vai às ruas

Os atos nas ruas mobilizados pelo campo bolsonarista, mesmo em torno de pautas que buscam acobertar ou anistiar crimes, sejam eles eleitorais ou de atentado ao Estado de Direito, mostram que o bolsonarismo segue com forte base social, apesar de ter perdido alguns tentáculos de seu núcleo duro político.
Musk, Zuckerberg e o ‘primeiro-emendismo radical’

Hoje, às 19h — Aula inaugural gratuita do curso Política Brasileira: Origens, com o cientista político Christian Lynch. Na aula, Christian vai traçar o fio histórico das ideias que moldaram nossa vida política, desde as revoluções europeias até a formação do Estado brasileiro. Não perca.
O que há de novo (e velho) no populismo do século 21?
Torce-se o nariz para o populismo desde sempre. Já na Antiguidade, os primeiros filósofos que examinavam a recém-criada experiência democrática faziam questão de mostrar que, assim como a aristocracia poderia degenerar em oligarquia, a democracia, que a tantos entusiasmava, podia também se corromper como populismo. Ou, em bom grego, demagogia.
‘Ainda Estou Aqui’ e as direitas em cena no Brasil de hoje
O filme Ainda Estou Aqui rompeu várias barreiras de diálogos interditados sobre democracia e política no Brasil, faturou quase R$ 105 milhões de bilheteria no Brasil e levou de volta milhares de jovens aos cinemas para assistir a uma produção nacional sobre um período autoritário no país que nenhum deles viveu. Trouxe um Oscar inédito para o país e foi celebrado pelos quatros cantos como se fosse uma Copa do Mundo. Fala sobre humanidade, sobre resistência, sobre a força de uma mãe e sobre uma família. Foi celebrado por todos, ou quase todos. Muitos políticos e parlamentares da direita brasileira, seja ela extrema ou não, ironizaram, criticaram e ignoraram o filme.
O imperialismo trumpista e a reconfiguração da política brasileira
O mundo vive um novo ciclo histórico de retração da globalização, e com ele ressurgem formas de dominação que pareciam superadas. O trumpismo, mais do que um fenômeno político interno dos Estados Unidos, emerge como um projeto imperialista de reordenação do sistema internacional, retomando, sob novas roupagens, o velho princípio da Doutrina Monroe e do Destino Manifesto. Ele se articula em torno de três frentes principais: a econômica, que emprega tarifas punitivas para fechar seu mercado e ao mesmo tempo obrigar os países mais fracos a abrir os deles; a ideológica, pela captura das redes sociais como instrumentos de propaganda da extrema direita, seja fascista, reacionária ou libertariana; e a política, pelo cerco a instituições e lideranças que resistam à nova ordem imposta dentro e fora dos EUA.

