‘Cleópatra’ continua encantando 60 anos depois
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Uma obra prima, uma extravagância, um oportunismo, um erro de avaliação, um sucesso retumbante e um desastre financeiro. Todos esses adjetivos, mesmo os que parecem contraditórios, se aplicam a Cleópatra (trailer), longa estrelado por Elizabeth Taylor e cujo lançamento completa 60 anos na próxima segunda-feira, dia 12 de junho. Nove indicações ao Oscar com quatro vitórias — incluindo melhor ator para Rex Harrison como Júlio César — e o título de maior bilheteria de 1963 não refletem o caos da produção e a mudança de paradigma que o longa provocou, não só na indústria cinematográfica, mas na própria relação do público com seus ídolos.
Levar às telas a vida da última rainha do Egito era um sonho antigo do produtor Walter Wanger. A personagem era perfeita, uma monarca ambiciosa e brilhante, governante de um dos mais antigos reinos da Humanidade, ligada por amor e política a dois dos homens mais poderosos de Roma, Júlio César e Marco Antônio, e com um desfecho trágico. Além disso, Cleópatra tinha sua história contada por autores clássicos como Plutarco, Flávio Josefo e Plínio, o Velho, e era tema de peças extremamente populares de Shakespeare.
Wanger também sabia quem deveria viver a rainha: Elizabeth Taylor, já uma das mais glamurosas (e caras) atrizes de Hollywood. Faltava um estúdio. Foi quando a Fox se interessou pelo projeto. A empresa não vivia seu melhor momento, após uma sequência de fracassos em 1958, e seus executivos queriam apostar num “grande filme” para reerguer a marca. E, claro, épicos estavam em alta. Em 1959, Ben-Hur (trailer), estrelado por Charlton Heston, arrastou multidões aos cinema e salvou a Metro da ruína.
Mas o estúdio e o produtor não tinham a mesma visão do projeto. A Fox pensava num orçamento em torno de US$ 2 milhões estrelado por uma das atrizes com as quais já tinha contratos, em particular Joan Collins. Wagner não abriu mão da megaprodução nem de sua estrela, mesmo com Liz Taylor exigindo um cachê de US$ 1 milhão (equivalentes hoje a quase US$ 10 milhões) e mais 10% da bilheteria. Foi a primeira atriz a receber tal fortuna por um único filme.
O barato saiu caro
Fosse uma maldição de Seth, o deus do deserto, fosse apenas má visão, a produção começou a sair do controle já no início. Em vez de investir em roteiristas, a direção da Fox resolveu reciclar o script de uma outra biografia de Cleópatra, estrelada em 1917 por Theda Bara. Só que aquele era um filme mudo, e seu roteiro não tinha diálogos, apenas instruções de enquadramento e direção. Resultado? Entre dezembro de 1958 e maio de 1960, quatro autores diferentes foram contratados (e pagos) para fazer o roteiro, que não estava concluído quando as câmeras começaram a rodar, em setembro daquele ano.
Taylor também exigiu que as filmagens acontecessem na Europa. Para aproveitar os incentivos oferecidos pelo governo inglês, a Fox decidiu rodar o longa em Londres. Má ideia. A capital inglesa estava lotada e inflacionada devido aos Jogos Olímpicos de 1960, a mão de obra era escassa, e o célebre mau tempo britânico cobrou um preço alto: Liz adoeceu logo no início das filmagens. O que parecia uma gripe forte evoluiu para um meningite, e a produção foi interrompida até janeiro do ano seguinte — com mais dois roteiristas diferentes trabalhando no texto.
Até aquele momento, o diretor Rouben Mamoulian gastara US$ 7 milhões (quase quatro vezes o pretendido pela Fox) e entregara dez minutos de filme, considerados ruins. Ele foi substituído por Joseph L. Mankiewicz, que também assumiu o roteiro. Quando tudo parecia andar, Liz Taylor teve pneumonia, e ficou claro que não poderia mais filmar em Londres. Toda a produção foi transferida para a Itália, que não tinha infraestrutura para um filme daquelas proporções. Consta que o país enfrentou uma escassez de material de construção por conta das compras para criar os cenários.
Para completar o descontrole da produção, as filmagens tiveram de ser lineares, já que o roteiro ainda estava sendo escrito. Normalmente são rodadas de uma vez todas as cenas de um ator ou em um cenário, fora da ordem, o que barateia a produção. Em vez disso, atores passavam semanas esperando suas novas cenas.
A cama imita a arte
O atraso nas filmagens também implicou mudanças no elenco. Peter Finch (César) e Stephen Boyd (Marco Antônio), pularam fora e foram substituídos respectivamente por Harrison e Richard Burton, este uma indicação de Liz Taylor, que o vira na peça Camelot, na Broadway. Não demorou muito para a imprensa descobrir que ela e Burton levaram para a vida real o romance de seus personagens.
Foi um escândalo, já que os dois eram casados. E Liz era reincidente. O marido que ela estava traindo era o cantor e ator Eddie Fischer, que ela “roubara” em 1959 de sua melhor amiga, a atriz Debbie Reynolds, a “Namoradinha da América”. O público misturou reprovação e avidez por notícias envolvendo o casal, já chamado de “Liz e Dick”, o que chamou mais atenção para Cleópatra. Os dois se casariam em 1964, formariam uma dupla de sucesso nas telas e levariam uma vida glamurosa diante dos olhos do mundo por mais de dez anos.
Encrenca com o Egito ontem e hoje
As filmagens finalmente avançavam, quando surgiu um novo problema. Algumas cenas deveriam ser rodadas em locação no Egito, mas o governo local proibiu a entrada da atriz. Em 1959, Liz se convertera ao judaísmo e, desde então, era uma ativa militante sionista. Egito e Israel estavam em guerra desde 1948, situação que só chegaria ao fim em 1979. Com a estrela barrada, apenas cenas com o resto do elenco puderam ser filmadas no país.
Cabe aqui um parêntese. A caracterização de Cleópatra segue sendo tema de polêmica no Egito. Recentemente houve protestos contra uma série pseudodocumental da Netflix que retratou a rainha como negra, embora as moedas que ela própria fez cunhar e o mais famoso busto autêntico dela em vida deixem clara sua etnia grega, como dos demais faraós de sua dinastia.
Seriam dois, mas foi um
A pós-produção de Cleópatra foi outra novela. Mankiewicz escreveu seu roteiro final pensando em dois filmes: Cleópatra e Júlio César e Cleópatra e Marco Antônio. Tanto que a edição de apresentou à Fox tinha cinco horas e 20 minutos. A pedido do estúdio, fez uma cópia reduzida para quatro horas e meia, mas os executivos sentiram falta de algumas das cenas cortadas. Para revolta do diretor, decidiu-se por um único longa, e um editor foi contratado para encaixar tudo em três horas e 40 minutos. E ainda houve refilmagens de cenas, especialmente de Burton, já que os executivos achavam que seu personagem estava “emasculado” pela força de Cleópatra. Não que as soluções para ganhar tempo tivessem sido ruins. O assassinato de César vira um fantasmagórica visão de Cleópatra no fogo, enquanto o célebre discurso fúnebre feito por Marco Antônio é visto à distância em um curto trailer. Nos dois casos, o filme ganhou agilidade sem perder carga dramática.
Naquele momento, a decisão de lançar um único longa parecia lógica. A Fox queria fazer caixa logo e achava que um primeiro filme sem conclusão desestimularia o público. Além disso, o affair entre Taylor e Burton era um grande chamariz da produção, mas seus personagens só engrenavam um romance na segunda parte. O público queria “Liz e Dick”, não “Liz e Rex”.
No fim, porém, foi mais uma má ideia. Duas partes poderiam ter significado o dobro da bilheteria. Não que o filme tenha ido mal, pelo contrário. Foi o maior sucesso de 1963, arrecadando US$ 26 milhões de dólares nos EUA e no Canadá. O problema é que o custo final de produção e distribuição chegou a estratosféricos US$ 41 milhões de dólares, receita que só foi alcançada em 1973, graças a reexibições em todo o mundo. A Fox só não faliu por conta do estrondoso lucro, em 1965, de A Noviça Rebelde (trailer).
Cleópatra marcou o fim de uma era. Seu prejuízo – e o fracasso no ano seguinte de A Queda do Império Romano (trailer) – mostrou que a fórmula dos épicos faraônicos (perdão) se tornara inviável. Seu impacto cultural foi enorme, com a maquiagem e alguns adereços da protagonista virando moda. Liz Taylor foi ao mesmo tempo a última estrela da Era de Ouro de Hollywood e uma pioneira da “cultura de celebridades”, onde a fama deriva tanto ou mais da vida pessoal.
Mas as seis décadas não pesaram sobre o filme. Ele ainda impressiona pela opulência, pelo cuidado na reconstituição histórica e pela performance de seu elenco. Cleópatra segue obrigatório para qualquer um que pretenda gostar de cinema.
Um tiquinho de história
Cleópatra VII Téa Filopátor foi uma mulher notável sob todos os aspectos. Filha do faraó Ptolomeu XII Auleta e, possivelmente, de sua irmã e esposa Cleópatra VI Trifena, nasceu em 69 A.E.A. em Alexandria, então principal centro cultural do mundo ocidental. Com os recursos da Grande Biblioteca e sob os cuidados de seus tutor, o filósofo ateniense Filóstrato, aprendeu filosofia, retórica e astronomia. Segundo Plutarco, dominava com fluência sete idiomas, além do grego falado na corte, do latim e da língua comum dos egípcios – foi, aliás, a primeira de sua dinastia, de origem macedônia, a aprender a linguagem dos súditos.
Com a morte do pai, tornou-se cogovernante com o irmão Ptolomeu XIII, com quem possivelmente se casou e entrou em guerra. Iniciou um romance com o ditador romano Júlio César, que deveria mediar o conflito e, com a ajuda dele, tornou-se única regente. Atribuía ao romano a paternidade de seu primogênito, Cesário, e viajou com o filho para Roma buscando fazê-lo herdeiro e sucessor de César. Frustrou-se quando este adotou o sobrinho-neto Otaviano, futuro imperador Augusto, e foi em seguida assassinado por rivais no Senado.
De volta ao Egito, manteve boas relações com o triunvirato romano formado por Otaviano, Lépido e Marco Antônio, até que iniciou um relacionamento amoroso com este, gerando três filhos. A concessão por Antônio de territórios romanos no oriente a seus filhos e a Cesário foi o estopim do conflito com Otaviano. Após uma esmagadora vitória na batalha naval de Áccio e o suicídio de Antônio, Otaviano tomou Alexandria. Para não ser levada prisioneira para Roma, Cleópatra se matou com veneno em agosto de 30 A.E.A. A célebre picada de cobra foi só uma das muitas lendas associadas à última rainha do Egito.






























