Mercedes e os Pretos Novos
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Era o primeiro dia de reforma na casa de Mercedes Guimarães e sua família, quando ela recebeu uma ligação que mudaria sua vida, a de seus filhos e de uma parte importante da história do Rio de Janeiro. Era 8 de janeiro de 1996. O mestre de obras ligou para sua pequena empresa, falando sobre os achados da construção. Mercedes e seu marido haviam decidido sair do aluguel depois de terem a terceira filha e alguns bichos para criar em um apartamento alugado no bairro da Saúde, região próxima à Gamboa, onde cresceram, se conheceram e se casaram.
A casa foi comprada em 1990, dias antes do Plano Collor também marcar o país pelos históricos confiscos de contas corrente e poupança de milhões de pessoas. Por pouco, a família de Mercedes não fica sem fundos para adquirir o imóvel. Mas esse não foi o único sufoco que eles passaram desde então por conta da realização do sonho da casa própria.
A família mudou-se para o imóvel no mesmo ano. Logo perceberam que a moradia precisava de muita reforma: telhado quebrado, madeira podre, falta de estrutura basilar e necessidade de ajustes na parte hidráulica. O casal passou seis anos juntando dinheiro para realizar os consertos. Após fazer um projeto, começaram a reforma estrutural, mas, logo nas primeiras horas de serviço, ao cavarem buracos para levantar novas colunas, os pedreiros encontraram ossadas.
Tem bicho enterrado aqui
Ao entrar em contato com Mercedes, o pedreiro disse que os antigos moradores tinham o costume de enterrar animais de estimação no quintal quando morriam, pois estava cheio de ossos de bichos misturados à terra. A proprietária resolveu sair de seu escritório para observar os achados. Ao chegar na residência, percebeu que não se tratava de animais enterrados. Notou que parte dos ossos pareciam humanos. “Quando eu vi a arcada dentária, falei: isso aqui não é bicho, não. Isso aqui é gente”, relembra. No primeiro momento, ela pensou se tratar do resultado de uma chacina, pela quantidade de ossos encontrados no terreno.
Nem era o fim da tarde quando os trabalhadores foram embora e deixaram Mercedes com os montes de ossos misturados ao entulho no quintal. Ela acabou organizando as ossadas em caixas que conseguiu em uma quitanda próxima. “Eu enchi 11 caixas grandes de papelão”, conta. Tentando entender o que aconteceu, procurou um antigo vizinho, Antônio Carlos Machado, que conhecia bem a história daquele bairro. Antes, Machado e um grupo de moradores se reuniram para preservar o bairro contra a compra da área para a construção de uma área comercial e industrial. A luta gerou o Projeto SAGAS, que criou uma Área de Proteção Ambiental nos bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, visando preservar seu patrimônio cultural e histórico contra a especulação imobiliária. Ao longo desse tempo, pesquisando sobre a região, Machado descobriu que havia naquele lugar o caminho que ia para um cemitério.
Cemitério dos Pretos Novos
Usado para despejar corpos de africanos cativos, o Cemitério dos Pretos Novos funcionou entre 1769 e 1830 na Zona Portuária do Rio. Eram dois cemitérios que atenderam a essa função: um no Largo de Santa Rita, na Praça XV de Novembro, enquanto seu substituto era no Caminho da Gamboa, quando o mercado de escravos foi transferido para o Valongo. No terreno de 700 metros quadrados, foram depositados os restos mortais de cerca de 30 mil pessoas – alguns estudiosos chegam a falar em 60 mil africanos, a maioria jovens e crianças. Pela pequena dimensão do terreno, comparado ao número de mortos, os corpos eram desmembrados, queimados e espalhados pelo espaço, sendo cobertos por apenas algumas pás de terra. Após o fim das atividades do cemitério, moradores locais passaram a usar o ambiente como ponto de descarte do lixo doméstico, como restos de comidas e cacos de louça e vidro.
Não por acaso havia tantos corpos no mesmo local. Com a expansão do negócio negreiro nos anos de 1640 para cultivo de cana-de-açúcar e criação de novos engenhos, o mercado de compra e venda de escravizados se estabeleceu na Rua Direita (atual Rua Primeiro de Março) até 1774, quando o vice-rei Marquês do Lavradio mandou transferir as operações, incluindo o enterro de cativos, para a região do Valongo. Estima-se que mais de um milhão de africanos capturados para a escravidão tenham passado por lá.
O mercado escravagista atingiu seu auge no Brasil em 1808, após a chegada da família real portuguesa ao país, fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte. Foi nesse período que o Complexo do Valongo se tornou a área mais rentável da cidade do Rio. Alto fluxo de pessoas (na época, tratadas como mercadorias), maior também o número de baixas. Por conta das péssimas condições de viagem, cerca de 40% dos africanos chegavam debilitados, feridos, desnutridos ou doentes. Aqueles que não sobreviviam eram descartados no Cemitério dos Pretos Novos. Aliás, o termo “preto novo” era usado para designar o africano recém-chegado, que, apesar de cativo, ainda não havia sido vendido para ninguém. Um produto por conta da cor da pele, um preto novo.
O descaso
Após seis meses desde que o departamento de Patrimônio Cultural do Rio visitou o local com equipes de físicos, arquitetos, geólogos, paleontólogos, nada saiu do lugar. Dois anos depois, uma pessoa recomendou que Mercedes procurasse o Museu Nacional para buscar recursos de pesquisa e tratamento do local, porque a prefeitura carioca não teria condições. Sem solução ou desdobramentos do caso, a família foi fazendo a obra de reforma da casa, que só foi concluída em 2001, apesar dos desentendimentos com a prefeitura.
Buscando manter a história viva, mas sem saber como, fizeram um site, em 2003. “Não tinha noção do que fazer porque ninguém queria saber de cemitério”, pensou Mercedes. Também começaram a expor quadros de pintura afro-brasileira na sala da frente. Foi quando começaram a surgir jornalistas e pesquisadores querendo saber da história. Sem ter nenhum apoio ou interesse do Estado para resolver, um grupo de pessoas convenceu Mercedes a abrir um CNPJ, em 2005, e fazer um memorial onde era a garagem de sua residência.
Naquele ano, a família Guimarães comprou o imóvel do lado para fazer uma garagem e receber as pessoas interessadas, que chegavam para visitar o espaço diariamente. Surge, então, o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), em 13 de maio de 2005. Desde então, mais de 300 mil pessoas já visitaram o IPN.
Realizações e desafios
“O cemitério transformou a região”, afirma Mercedes. “Se não achassem o cemitério, o Cais do Valongo ia ser ser encontrado, mas não teria um arqueólogo acompanhando as obras.” Para ela, uma das maiores conquistas no período é oferecer aos mais diversos públicos uma história importante do passado sombrio do nosso país. Por exemplo, às mais de 60 mil crianças de escolas públicas levadas ao local porque o IPN freta ônibus de ida e volta com a ajuda de emendas parlamentares. Ou aos membros de um clubinho de leituras afrocentradas, que promove o letramento racial para jovens do ensino fundamental.
Um dos maiores desafios do IPN é a falta de recursos para tirar projetos do papel e expandir os já existentes. Mesmo podendo ter acesso à Lei Rouanet, Mercedes relata ter dificuldades em fazer captação, devido à falta de patrocinadores. “Infelizmente, essas empresas grandes só querem investir em grandes festivais e eventos, e não querem investir na história brasileira”, conta.
Mais do que história, o Cemitério dos Pretos Novos é um registro vivo da crueldade humana e da dimensão da violência a que os negros foram submetidos desde o período colonial. Uma chaga que não pode ser simplesmente curada, mas precisa ser conhecida para que a consciência coletiva possa encarar seu passado e pensar melhor seu futuro.

























