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21 de janeiro de 2022

Para Elza Soares

Por Tay Oliveira

Três da tarde de domingo, mais um 6 de janeiro. Aquele, em 2018. Feijão na panela, o cheiro de coentro e os muitos pedaços de linguiça num restaurante na Pedra Sal, na Pequena África do Rio de Janeiro. Cerveja gelada e samba. Definitivamente, dia de almoço em família. Quatro mulheres negras conversavam sobre as dores e as delícias de serem quem são nesse Brasil. Da mesa, enxergo o feijão carregado de carne e a janela, que divide o restaurante do resto do mundo. No muro à frente da janela, o grafite que marcava: “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. Coincidência ou não, a música que ecoa no ambiente é “A carne”, que ganhou o mundo na voz de Elza Soares. Enquanto nossa conversa se dissipa, a canção reverbera mais alto – no restaurante e aqui dentro. Dentro de nós quatro. Até que minha tia corta o silêncio: “essa música é tão linda, mas dói tanto”. Não vou nem me dar ao trabalho de tentar explicar esta dor a você, caro leitor. Quem sente, sente. E Elza sentia tanto que chegava a escorrer pelas suas cordas vocais.

Elza Soares também é cria de onde me criei. Quase sete décadas e um viaduto separam nossos primeiros lares. Pode parecer muita coisa, mas o legado de Elza sempre foi vivo e inspira as meninas negras de Padre Miguel, iguaizinhas a mim. Antes de ser considerada pela BBC, em 1999, a Voz do Milênio, nossa Elza foi apenas mais uma das muitas sonhadoras que conhecemos por aí a fora. O Planeta Fome se localizava na antiga favela de Moça Bonita (atual Vila Vintém) e terminava no bairro da Água Santa. Entre favelas e cortiços, driblando tantas violências simplesmente por ser quem foi, emergia a voz que vai cantar até o fim do mundo.

A vida nunca facilitou para Elza. Com doze anos foi forçada, pelo seu próprio pai, a se casar. Esse foi apenas o início de um caminho repleto de violências. O machismo, racismo e pobreza nunca foram capazes de silenciar sua voz. Elza usava a música para gritar para um mundo que fingia não escutá-la. Sua primeira aparição na rádio foi tão icônica quanto sua personalidade. Motivada pela necessidade de salvar seu filho da morte, Elza foi atrás do prêmio oferecido pelo programa de calouros de Ary Barroso, na rádio Tupi, em 1953. A cantora, que na época tinha somente treze anos, ficou conhecida pela resposta dada ao apresentador, que debochadamente perguntou “De que planeta você veio menina?”. Então Elza respondeu: “Eu vim do Planeta Fome”.

Nem mesmo depois de conquistar os palcos deixou de ser interpelada. Seu relacionamento com Mané Garrincha foi motivo de conflitos e acusações públicas Elza que apesar de todos os sentimentos contraditórios, nunca escondeu sua paixão pelo jogador e teve sua partida atrelada a uma série de coincidências, jamais pode ser reduzida à mulher de Garrincha. Sorte a dele ter dividido parte da vida com Elza.

Sua carreira foi brilhante. Elza Soares deixou 35 discos e centenas de músicas que transbordam toda sua intensidade. O legado está para além das suas denúncias em forma de canção, ao ouvir sua voz é quase impossível explicar o sentimento causado. Vou apenas dizer, caro leitor, que sinto um arrepio que vai da espinha à planta dos meus pés. Ouvir sua voz rouca é quase uma epifania.

Tão geniosa, parece que Elza partiu no dia que quis. Fez sua passagem no dia 20 de janeiro, uma data emblemática para os cariocas. É dia de São Sebastião, o padroeiro da cidade, dia que se completaram 39 anos que Garrincha também partiu. O cozido, como de costume, estava rolando solto na quadra da sua escola, Mocidade Independente de Padre Miguel, que compartilha o padroeiro com a cidade. A notícia abalou a todos, os festejos deram lugar a homenagens e um decreto de luto de três dias.

Elza me ensinou tanto, mesmo sem me conhecer. Me ensinou a ter garra para lutar contra esse sistema que nos mastiga e cospe. Me ensinou que sentir não é uma fraqueza, muito pelo contrário.  Ela é símbolo de resistência e dedicou sua arte a dar voz a quem não podia falar. Suas músicas são gritos de guerra à violência contra as mulheres, ao racismo e as desigualdades socioeconômicas que persistem no nosso país. Elza cantou até o seu último dia de vida por um outro Brasil, que infelizmente não viveu.

Quando recebi a notícia que ela havia falecido fiquei abaladíssima. Fui para o Twitter checar se era verdade. Chegando lá, entre tantas homenagens, me deparei com um Tweet dizendo como foi a passagem de Elza. Assim que comecei a ler, gelei inteira. Como tudo nessa passagem foi marcado por supostos acasos, a morte em si também tem. Essa morte calma, quase poética, foi a mesma que levou duas pessoas da minha família. Minha Bisa Neném e minha Tia Garota. Duas mulheres negras, com histórias tão fortes, que assim como Elza, morreram na paz.


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