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Ponto de Partida

Pedro Doria em análises profundas e didáticas sobre a política do Brasil e do mundo.

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Lula não entendeu evangélicos

Tem três problemas e uma sapiência no discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no sábado, durante a reunião de aniversário do PT, na Bahia. A sapiência é a seguinte: Lula deu uma bronca na militância. Meia esquerda, nas redes sociais, está dizendo que a economia está uma maravilha, que Lula tem tudo pra ganhar no primeiro turno. Só tem um problema. A sociedade discorda. O governo é reprovado pela população. Sim, por margem estreita, mas não é um governo popular. Então um bom pedaço do discurso de Lula é tirar o naco mais dedicado da militância, aquela turma que vai às reuniões nacionais do partido, da zona de conforto. É mostrar que vai precisar ter muita energia para encarar esse pleito.

Lula x Flávio: Juntinhos?

A pesquisa Meio/Ideia de fevereiro mostrou uma aproximação de Flávio Bolsonaro nos números da corrida presidencial em comparação a Lula, que segue com a sua rejeição estagnada. O papo também passa pelas ramificações do caso Banco Master - escândalo financeiro, que envolve direta ou indiretamente desde ministros do STF até figuras políticas centrais do governo atual e do anterior.

Flávio pode ganhar

Vai ser difícil, tá? Vai ser uma eleição bem difícil. Entre a primeira rodada da pesquisa Meio/Ideia, em janeiro, e agora a segunda, em fevereiro, o cenário mudou bastante. Alguns números importantes. O primeiro: perguntamos aos brasileiros se eles acreditam que o presidente Lula deve continuar. 51% responderam que não. 47% responderam que sim. O segundo: perguntamos em quem o eleitor não votaria de jeito nenhum. A gente teve o cuidado de fazer a pergunta de duas maneiras diferentes, tá? Em uma, o pesquisador pergunta um nome após o outro. Do outro jeito, ele é apresentado a uma lista e escolhe. Na mais espontânea, na qual o eleitor simplesmente reage de bate-pronto, a rejeição de Lula fica em 44%. A de Flávio Bolsonaro é 10 pontos menos. 34%.

O buraco do Master é fundo

Vocês já entenderam o tamanho do problema que é o Banco Master? Eu acho que talvez não, tá? A maioria do Brasil ainda não percebeu o tamanho do buraco. O ministro Edson Fachin abriu hoje o ano do Judiciário. De presto, indicou que a ministra Cármen Lúcia será responsável por construir um código de ética. Enquanto isso, outro ministro, José Antonio Dias Toffoli, segue responsável pelo caso do Banco Master. Mais antiético, impossível. Os irmãos de Toffoli, que vivem de forma muito humilde, são sócios indiretos de Daniel Vorcaro, do Master, num resort milionário. Toffoli ele próprio, frequenta o resort de jatinho e helicóptero. Apesar de que donos, donos mesmo, eram seus irmãos. Que não frequentam o resort. A gente não sabe, do conto do Master, a metade. Por quê? Porque Toffoli declarou sigilo máximo. Mas vamos dissecar aqui. Ele é o juiz e está envolvido. Como também está o ministro Alexandre de Morais. A mulher de Alexandre fechou, com o Master, um dos mais valiosos contratos da história dos escritórios de advocacia do Brasil. Mas calma. Não fica aí. Toffoli abriu este sigilo para o presidente do Senado, David Alcolumbre, do União Brasil do Amapá. Por quê? Ninguém sabe. Mas o presidente do Senado tem acesso a detalhes da investigação sobre a fraude do banco que outros ministros do Supremo não têm. Por quê? Olha, o Fundo de Previdência dos Servidores do Amapá aplicou cerca de 400 milhões de reais no Master. Perdeu tudo. Por que fez esse investimento num banco que a Faria Lima inteira sabia que era sujo e ia dar problema? Por incompetência? Ou tinha algum esquema? Só o Rio de Janeiro jogou mais dinheiro fora no Master. Mas, se você comparar a economia de um estado e do outro, nada é pior do que o Amapá. E Alcolumbre é um dos raros sujeitos em Brasília que sabe como está realmente a investigação. Não para. Ciro Nogueira. O senador, presidente do Progressistas. Que, como ministro da Casa Civil, mandava no Palácio do Planalto de Jair Bolsonaro. Pois então. Nogueira apresentou, no Senado, uma proposta para aumentar o Fundo Garantidor de Créditos. Esse fundo, o FGC, é um dinheiro que todos os bancos são obrigados a manter lá no Banco Central. Quando um banco qualquer fecha as portas, o FGC indeniza os correntistas até um certo limite. Hoje, 250 mil. Ciro quis muito, junto com Alcolumbre, aumentar esse valor pra um milhão. Ia ser um baita prejuízo para todo mundo, menos para, ora, quem estava com medo de terminar pendurado. Quando tentaram articular isso, em 2024, não rolou. Alguém tem dúvidas de para quem Ciro estava trabalhando? Eu poderia citar Antonio Rueda, gente, o presidente do União Brasil, seus jatinhos e a relação dos seus jatinhos com o dono do Master. Mas aí não daria tempo para falarmos do PT e de como o Banco Master chega, agora, na Casa Civil de Lula. Ou, ao menos, muito perto dela. De como chega, também, na liderança do governo no Senado. Vem comigo porque a história é longa. Em 2018, o hoje ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, era governador da Bahia. O hoje líder do governo no Senado, Jacques Wagner, era secretário de Desenvolvimento Econômico de Rui. Wagner privatizou, nesta época, a EBAL, Empresa Baiana de Alimentos. O principal produto dessa estatal era um cartão de crédito, o CredCesta, que permitia aos funcionários públicos do estado fazerem compras e a fatura era paga descontando-se diretamente da folha. É tipo um empréstimo consignado, só que via cartão de crédito. Pois bem. Quem comprou a empresa foi um empresário chamado Guga Lima que, ora, era sócio de Daniel Vorcaro. Dono do Master. Foi com o CredCesta que a gigantesca fraude bancária do Master começou. Porque, ali, estava um vínculo com garantia de crédito, dada pelo governo baiano via a folha salarial dos funcionários, que gerou a crescente bola de neve que nos trouxe até aqui. Nós sabemos que foi graças a um pedido de Jaques Wagner, que o ex-ministro da Fazenda de Dilma, Guido Mantega, terminou funcionário de Vorcaro ao módico salário de um milhão por mês. E, nessa toada, foi Mantega com Rui Costa que conseguiu costurar um encontro de Vorcaro com o presidente Lula. Veja, para ser bem claro: não há qualquer indício de que Lula tenha feito qualquer coisa por Vorcaro. Nenhum. Como não há, por enquanto, qualquer indício de que Jair Bolsonaro ou qualquer pré-candidato à presidência tenha relações diretas com o Master. Zero. Há uma relação indireta, via Fabiano Zettel, pastor, outro dos ex-sócios de Vorcaro, que comprou dos irmãos de Toffoli parte do resort Tayayá. Aquele, que Toffoli frequenta mas não é dele. Zettel foi doador da campanha de Tarcísio e de Bolsonaro. A gente pode ir além e além e além. Paulo Gala, economista-chefe do Banco Master. Foi posto no cargo quando? Janeiro de 2022. Adivinha o que havia acontecido em janeiro de 22? Começou o governo Lula. Gala, ora, próximo de meio ministério da Fazenda. De novo, importante ressaltar: o ministro Fernando Haddad é um que circula alertando para o problema do Master faz um tempo. Não tem nada a ver com a turma do PT baiano, que fez negócios ativamente com o Master. O método de Vorcaro sempre foi esse: sair embrenhando no esquema, pagando dinheiro alto, todo mundo que conseguisse para, assim, abrir as portas do poder. Quem quis fazer negócios e estava próximo do governo Bolsonaro, conseguiu. Quem quis fazer negócios e estava próximo do governo Lula, conseguiu. Quem quis fazer negócios e estava próximo do Supremo, conseguiu. Quem quis fazer e era ligado ao Senado, aos governos estaduais, a municípios mais ricos. Todo mundo conseguiu e, no meio desse lamaçal, muita gente abriu portas de gente mais poderosa. Não escapa ninguém. Vorcaro se meteu como pode no Estado brasileiro e as defesas do Estado são tão baixas que ele entrou. Não temos controles. Foram desmontados. E a gente tem as instituições funcionando aos trancos e barrancos. O procurador-geral da República protege Toffoli, Toffoli protege Vorcaro, o Supremo está travado, o Senado também, enquanto ao menos a Polícia Federal ainda vai trabalhando. Essa bomba vai explodir. E, se tudo der certo, uma CPI lá dentro do Senado vai trazer a público muita coisa. Lula está planejando fazer uma campanha dizendo que o problema do Brasil é o sistema. Na versão petista, o sistema é a Faria Lima, é o setor financeiro. Se depender do ministro Sidônio Palmeira, responsável pela comunicação de campanha, não vai ter Lulinha Paz e Amor, vai ser aquele Lula populista “a culpa é das elites”. O fato de que meia elite está dentro do partido dele é só um detalhe. Flávio Bolsonaro, ora, vai ser outro candidato que deseja ser anti-sistema, porque dizer que a culpa é do sistema é só o que a família sabe fazer. E o sistema? O sistema é a democracia. O sistema é o Estado. Que, sim, pós-Dilma, pós-Lava Jato, pós-Bolsonaro, pós-tomada do Centrão, piorou. Ficou mais disfuncional. Some a crise econômica seguida da crise de confiança seguida do sufocamento dos meios de controle e dois governos muito ineptos, temos um Estado com mais espaço de corrupção do que havia. Temos um Supremo mais politizado do que havia. E a gente ainda sofreu uma tentativa de golpe. Se Lula e Flávio Bolsonaro fizerem uma campanha contra o sistema, como parece que será, vão ser os dois líderes das pesquisas dizendo que o Brasil não funciona. É uma mensagem bem perigosa num momento de tanta fragilidade. Porque, embora impopular e sem o apelo populista, a verdade é que aos trancos e barrancos o Estado ainda funciona. Apesar de Toffoli, apesar de Alexandre, apesar do PT baiano, apesar do presidente do Senado, apesar dos presidentes de Progressistas e do União Brasil, apesar de tudo, o Master foi liquidado, há uma CPI no Senado, a Polícia Federal está investigando pesado e, veja só, a imprensa segue apurando e publicando. A notícia é que o Brasil vai mal. A notícia é, também, que apesar de mal ainda temos uma democracia. E esta democracia é transparente o suficiente para mostrar onde estão os pedaços podres. Isto é uma vitória. Não é o momento de fazer campanha eleitoral jogando nossa democracia no lixo. Quem faz campanha anti-sistema está fazendo exatamente isso.

Fascismo de Trump avança; Direita no Brasil se divide

No Ponto de Partida React de hoje Pedro Doria e Luiza Silvestrini conversam sobre as reações da audiência do Meio à discussão sobre o governo fascista de Donald Trump e o cenário que se desenha para a disputa da Direita na eleição presidencial no Brasil.

Vai ter briga na direita

A entrada de Ronaldo Caiado no PSD muda radicalmente o jogo da eleição de 2026. Tudo indica que vai ter briga na direita e vamos ter uma disputa contra o bolsonarismo.

A ICE, Trump e o fascismo

Donald Trump é fascista. Mas espera aí. Não simplesmente ouve o que estou dizendo e reage de presto na base da emoção. Calma. Não sai gritando “isso aí” ou “comunista”. Vamos conversar. Me perdoem os militantes de esquerda, mas a maneira como a esquerda usa essa palavra, “fascismo”, a contamina. Num mundo em que “fascismo” é a maneira de xingar aqueles de quem não gostamos, fascismo de verdade não é nada. E, olha, desde que me interesso por política, a turma de esquerda mais radical sempre chamou qualquer adversário de fascista. Nossa. Fernando Henrique era chamado de fascista em passeata no Centro do Rio, de São Paulo. Ainda hoje, tá? Metade da turma de esquerda que milita nas redes sociais não sabe distinguir um fascista de um liberal. E, se você abrir qualquer livro de ciência política descente, a primeira coisa que lerá na primeira linha de uma tentativa de definir fascismo é que, ora, é iliberal. É da oposição ao liberalismo político que o fascismo surge. É da convicção que a Democracia Liberal é fraca. Quando você não sabe distinguir liberalismo de fascismo, é claro que fascismo vira xingamento. Então, vem cá: o que é fascismo de verdade? No meio da crise econômica terrível dos anos 1920 e 30, formou-se a convicção de que democracias não funcionavam mais. À esquerda, muita gente apostou que o comunismo era a alternativa. À direita, a solução apontada foi o fascismo. O fascismo é menos uma ideologia, no sentido de um conjunto de modelos mentais que explicam como a sociedade funciona, e mais um estilo. Fascismo é um estilo de fazer política. Esse estilo leva a uma estratégia para chegar ao poder primeiro e, depois, reorganizar o Estado. A ideia liberal, em essência, é a seguinte: todos nós, seres humanos, temos o mesmo conjunto de direitos. Devemos ser tratados com dignidade pelo Estado. O Estado, na verdade, serve para garantir estes direitos de todos. O fascismo se vira e diz, não, não é assim. Existe o povo de verdade e os outros. Os intrusos. Os que sugam os recursos e fazem com que a vida para o povo fique mais difícil. A democracia liberal é leniente com estes e, por isso, enfraquece o povo. Sacrifica o povo. Para restaurar aquele tempo passado de grandeza, precisamos expurgar essa turma aí. Os que sugam. Neste fim de semana, a ICE, a polícia imigratória americana, matou o segundo cidadão americano em Minnesotta. Alex Pretti foi executado com dez tiros nas costas quando estava de joelhos, imobilizado e desarmado. O primeiro tiro foi dado a queima-roupa. Dez tiros em dez segundos. Como eu disse, o fascismo é um estilo que leva a uma estratégia de tomada do Estado. Vamos entender como esses dois assassinatos de cidadãos americanos pela ICE mostram o caminho? Como estilo, o fascismo tem alguns componentes. Primeiro, um líder forte e carismático. Em geral, muito bom no uso de tecnologia de comunicação de ponta. Mussolini e Hitler eram excelentes de rádio e cinema. Inspiravam. A história que contam tem sempre dois pedaços. Um passado glorioso, um povo heróico. Agora esse povo é humilhado por quem é de fora. Esse de fora tem o componente externo, os outros países que nos traíram, e o interno, os que não pertencem a nós e estão ao redor. A partir da história contada, o grande líder reconhecido, o fascismo é tribal. Ele se uniformiza. Todo movimento fascista usa uma mesma roupa em manifestações. Faz parte da identificação de tribo. É sempre muito masculino. E o líder fascista estimula que seus seguidores mais leais se armem. Estimula ataques às instituições de Estado. No início, o fascismo é um movimento popular com um braço armado frouxo, desorganizado. Os nazistas tinham a SA, os italianos tinham os camisas negras. Donald Trump tinha grupos como os Proud Boys e outras milícias. A gente os viu no ataque ao Capitólio de 6 de Janeiro. O objetivo é intimidar. Só que, tem uma hora, essa coisa meio bagunçada não funciona muito mais e o fascista está no governo. Às vezes demora mais, às vezes menos. Mas as milícias são desarticuladas e substituídas por algum tipo de força policial. Para os nazistas, a SS. Para os italianos, a polícia política, a ÒVRA. Estas forças que substituem as milícias são paramilitares. Têm função de polícia mas operam como militares. Seu objetivo declarado é expurgar da nação aqueles de fora do povo. Mas, na verdade, a maneira como funcionam vai bem além disso. O objetivo é intimidar aqueles que ainda não abraçaram o novo estilo de liderança. Você mora num prédio de apartamentos e, na calada da noite, alguém bate forte à porta ao lado. É a daquele seu vizinho com uma cor de pele diferente, com uma cultura diferente, com uma religião diferente. Você ouve tumulto, ouve berros, desespero e truculência. E não faz nada. Fica em silêncio. Por que você se cala? Porque você já entendeu que, mesmo sendo cidadão daquele país, mesmo pertencendo à cultura, à etnia ou à religião okay, se você se intrometer com aquela polícia especial, vai apanhar, vai morrer. Porque a ninguém é permitido proteger os que devem ser expurgados. Ataque cidadão os suficiente e, assim vai a lógica, tem uma hora que as pessoas se calam. Um último detalhe aqui, importante. Comunicação. Comunicação é tanto forma quanto mensagem. Na forma, esse aparato novo de segurança precisa parecer intimidador. Eles se vestem como militares em guerra, usam veículos de guerra dentro das cidades. Greg Bovino, o comandante da ICE, usa um sobretudo de couro. Eles vão negar até o fim que são o que parecem ser. Mas a imagem tem objetivo. E aí, claro, a mensagem. Minta. Repita a mentira. Repita mais uma vez a mentira. Não importa se o vídeo contradiga. Uma mentira repetida mil vezes vai virar verdade. Neste momento, quando uniformemente toda a sociedade se rendeu ao medo, a nação é fascista e o Estado fascista se impôs. Qual é a diferença, aqui? Quando Benito Mussolini chegou ao poder, em 1922, a democracia italiana tinha, formalmente, 60 anos de idade. Mas, vá. Só a elite da elite da elite pôde votar na maior parte desse período. Sufrágio universal masculino, quer dizer, todo homem italiano pode votar, só a partir de 1912. E tem a Primeira Guerra entre 14 e 18. A Itália nunca teve uma experiência realmente democrática. Na Alemanha, a história era pior. Sua experiência democrática, quando Hitler chegou ao poder em 1933, era a República de Weimar e só. 14 anos de uma democracia fraca, que os alemães consideravam imposta por estrangeiros para ser fraca. Nenhum destes países tinham uma cultura democrática. Os Estados Unidos têm 240 anos de cultura democrática. Claro, teve escravidão, direitos plenos para negros em muitos estados só veio nos anos 1960. Mas é uma experiência contínua em que os direitos foram paulatinamente sendo ampliados e integrando cada vez mais gente. Nunca houve uma retirada de direitos. Eu sei, eu sei, vai ter gente que vai discordar. É porque não entende o que é democracia. Vamos encarar essa? O que é a democracia? Foi oligárquica no mundo todo durante todo o século 19, com pouca gente votando. Nos países multiétnicos, multiculturais, democracias sempre foram mais pruns grupos do que para outros. É o processo histórico. Democracia é uma promessa, é uma meta de futuro, e um conjunto de ferramentas. Entender a democracia, se engajar na democracia, é entender que é contigo. Que é com cada cidadão. Que nunca é com o governo. O governo vai para onde a gente aponta. Nós, aqui, temos uma democracia fraca porque, para nós, a culpa é sempre dos outros. Sempre do governo da vez. O buraco na rua em frente à casa? O problema é do governo. Nos engajamos pouco em nossas comunidades. Nos Estados Unidos, como em outras democracias bastante mais maduras, não é assim. As pessoas são muito ativas. Frequentam as reuniões dos conselhos locais das escolas públicas, Fazem campanhas comunitárias o tempo todo. Bate-se à porta dos vizinhos para conversar sobre um tema importante da região. Criar um parque, restaurar uma praça, essas coisas, na cabeça do americano médio, é parte do viver cotidiano. O que tanto Renee Good quanto Alex Pretti estavam fazendo era agir como cidadãos. Tem ali agentes do Estado que, eles compreendiam, estavam passando por cima de direitos. Então estavam ali para, simultaneamente, protestar e prestar testemunho. Registrar em vídeo. Por que este reflexo? Porque partem do princípio de que haverá um momento em que estes casos vão para um tribunal e haverá julgamentos. Porque, na sua cabeça, no país em que vivem esse tipo de ação não existe, não pode existir e uma hora vai parar. Basta que cidadãos resistam. Donald Trump é um líder fascista. O Estado americano não é um Estado fascista. Mas o líder está usando o método para fascistizá-lo. No fim das contas, é a sociedade que se entrega ou não. Temos uns 80 anos de estudo profundo sobre como democracias funcionam. Se a ciência política liberal estiver correta, Trump é um pesadelo que pode impor muito estrago aos Estados Unidos, pode ser capaz de fazer o país retroceder em décadas, demorar a se recompor. Mas não vai ser capaz de convertê-lo num Estado totalitário. Num Estado fascista. Por uma razão muito simples. Quando a cultura de cidadania ativa está muito embrenhada numa sociedade, você não consegue mais dobrá-la. Uma sociedade com tanto tempo de cultura democrática não se entrega a um ditador totalitário. É um caminho sem volta. Se a ciência política liberal estiver errada e os americanos entregarem as pontas? Bem, aí a gente vai ter de rever tudo o que compreendemos sobre democracia.

As ideologias brasileiras e a crise do liberalismo

No Ponto de Partida React de hoje, Pedro Doria e Luiza Silvestrini conversam sobre os resultados da pesquisa Meio/Ideia que mapeou as ideologias dos brasileiros e também sobre a fala de Mark Carney em Davos. Durante o Fórum Econômico Mundial, Carney disse que mundo passa por uma "ruptura" na ordem mundial.

O premiê canadense está certo

O primeiro ministro canadense Mark Carney fez, ontem, talvez o melhor e mais importante discurso deste ano em Davos. E esse discurso é, essencialmente, um convite às médias potências do mundo a caminharem juntas. É com a gente, tá? Brasil, hoje, é a décima economia do mundo. O Canadá é a nona. Coreia do Sul, a décima segunda. Índia, a quarta. França, Itália, sétima e oitava. Agora, neste pacote do Carney, está também uma leitura muito pragmática de como o mundo funcionava e como parece que está caminhando para funcionar.

A ideologia de Lula e a de Bolsonaro

Qual é a sua ideologia? Você já parou pra pensar nisso? Um pedaço importante da Pesquisa Meio/Ideia foi mapear, pela primeira vez, a ideologia dos brasileiros. E uma das coisas que a gente descobriu, de cara, é que esse mapa ideológico explica muito sobre a crise da democracia brasileira.