Vai ter briga na direita

A entrada de Ronaldo Caiado no PSD muda radicalmente o jogo da eleição de 2026. Tudo indica que vai ter briga na direita e vamos ter uma disputa contra o bolsonarismo.
A ICE, Trump e o fascismo

Donald Trump é fascista. Mas espera aí. Não simplesmente ouve o que estou dizendo e reage de presto na base da emoção. Calma. Não sai gritando “isso aí” ou “comunista”. Vamos conversar. Me perdoem os militantes de esquerda, mas a maneira como a esquerda usa essa palavra, “fascismo”, a contamina. Num mundo em que “fascismo” é a maneira de xingar aqueles de quem não gostamos, fascismo de verdade não é nada. E, olha, desde que me interesso por política, a turma de esquerda mais radical sempre chamou qualquer adversário de fascista. Nossa. Fernando Henrique era chamado de fascista em passeata no Centro do Rio, de São Paulo. Ainda hoje, tá? Metade da turma de esquerda que milita nas redes sociais não sabe distinguir um fascista de um liberal. E, se você abrir qualquer livro de ciência política descente, a primeira coisa que lerá na primeira linha de uma tentativa de definir fascismo é que, ora, é iliberal. É da oposição ao liberalismo político que o fascismo surge. É da convicção que a Democracia Liberal é fraca. Quando você não sabe distinguir liberalismo de fascismo, é claro que fascismo vira xingamento. Então, vem cá: o que é fascismo de verdade? No meio da crise econômica terrível dos anos 1920 e 30, formou-se a convicção de que democracias não funcionavam mais. À esquerda, muita gente apostou que o comunismo era a alternativa. À direita, a solução apontada foi o fascismo. O fascismo é menos uma ideologia, no sentido de um conjunto de modelos mentais que explicam como a sociedade funciona, e mais um estilo. Fascismo é um estilo de fazer política. Esse estilo leva a uma estratégia para chegar ao poder primeiro e, depois, reorganizar o Estado. A ideia liberal, em essência, é a seguinte: todos nós, seres humanos, temos o mesmo conjunto de direitos. Devemos ser tratados com dignidade pelo Estado. O Estado, na verdade, serve para garantir estes direitos de todos. O fascismo se vira e diz, não, não é assim. Existe o povo de verdade e os outros. Os intrusos. Os que sugam os recursos e fazem com que a vida para o povo fique mais difícil. A democracia liberal é leniente com estes e, por isso, enfraquece o povo. Sacrifica o povo. Para restaurar aquele tempo passado de grandeza, precisamos expurgar essa turma aí. Os que sugam. Neste fim de semana, a ICE, a polícia imigratória americana, matou o segundo cidadão americano em Minnesotta. Alex Pretti foi executado com dez tiros nas costas quando estava de joelhos, imobilizado e desarmado. O primeiro tiro foi dado a queima-roupa. Dez tiros em dez segundos. Como eu disse, o fascismo é um estilo que leva a uma estratégia de tomada do Estado. Vamos entender como esses dois assassinatos de cidadãos americanos pela ICE mostram o caminho? Como estilo, o fascismo tem alguns componentes. Primeiro, um líder forte e carismático. Em geral, muito bom no uso de tecnologia de comunicação de ponta. Mussolini e Hitler eram excelentes de rádio e cinema. Inspiravam. A história que contam tem sempre dois pedaços. Um passado glorioso, um povo heróico. Agora esse povo é humilhado por quem é de fora. Esse de fora tem o componente externo, os outros países que nos traíram, e o interno, os que não pertencem a nós e estão ao redor. A partir da história contada, o grande líder reconhecido, o fascismo é tribal. Ele se uniformiza. Todo movimento fascista usa uma mesma roupa em manifestações. Faz parte da identificação de tribo. É sempre muito masculino. E o líder fascista estimula que seus seguidores mais leais se armem. Estimula ataques às instituições de Estado. No início, o fascismo é um movimento popular com um braço armado frouxo, desorganizado. Os nazistas tinham a SA, os italianos tinham os camisas negras. Donald Trump tinha grupos como os Proud Boys e outras milícias. A gente os viu no ataque ao Capitólio de 6 de Janeiro. O objetivo é intimidar. Só que, tem uma hora, essa coisa meio bagunçada não funciona muito mais e o fascista está no governo. Às vezes demora mais, às vezes menos. Mas as milícias são desarticuladas e substituídas por algum tipo de força policial. Para os nazistas, a SS. Para os italianos, a polícia política, a ÒVRA. Estas forças que substituem as milícias são paramilitares. Têm função de polícia mas operam como militares. Seu objetivo declarado é expurgar da nação aqueles de fora do povo. Mas, na verdade, a maneira como funcionam vai bem além disso. O objetivo é intimidar aqueles que ainda não abraçaram o novo estilo de liderança. Você mora num prédio de apartamentos e, na calada da noite, alguém bate forte à porta ao lado. É a daquele seu vizinho com uma cor de pele diferente, com uma cultura diferente, com uma religião diferente. Você ouve tumulto, ouve berros, desespero e truculência. E não faz nada. Fica em silêncio. Por que você se cala? Porque você já entendeu que, mesmo sendo cidadão daquele país, mesmo pertencendo à cultura, à etnia ou à religião okay, se você se intrometer com aquela polícia especial, vai apanhar, vai morrer. Porque a ninguém é permitido proteger os que devem ser expurgados. Ataque cidadão os suficiente e, assim vai a lógica, tem uma hora que as pessoas se calam. Um último detalhe aqui, importante. Comunicação. Comunicação é tanto forma quanto mensagem. Na forma, esse aparato novo de segurança precisa parecer intimidador. Eles se vestem como militares em guerra, usam veículos de guerra dentro das cidades. Greg Bovino, o comandante da ICE, usa um sobretudo de couro. Eles vão negar até o fim que são o que parecem ser. Mas a imagem tem objetivo. E aí, claro, a mensagem. Minta. Repita a mentira. Repita mais uma vez a mentira. Não importa se o vídeo contradiga. Uma mentira repetida mil vezes vai virar verdade. Neste momento, quando uniformemente toda a sociedade se rendeu ao medo, a nação é fascista e o Estado fascista se impôs. Qual é a diferença, aqui? Quando Benito Mussolini chegou ao poder, em 1922, a democracia italiana tinha, formalmente, 60 anos de idade. Mas, vá. Só a elite da elite da elite pôde votar na maior parte desse período. Sufrágio universal masculino, quer dizer, todo homem italiano pode votar, só a partir de 1912. E tem a Primeira Guerra entre 14 e 18. A Itália nunca teve uma experiência realmente democrática. Na Alemanha, a história era pior. Sua experiência democrática, quando Hitler chegou ao poder em 1933, era a República de Weimar e só. 14 anos de uma democracia fraca, que os alemães consideravam imposta por estrangeiros para ser fraca. Nenhum destes países tinham uma cultura democrática. Os Estados Unidos têm 240 anos de cultura democrática. Claro, teve escravidão, direitos plenos para negros em muitos estados só veio nos anos 1960. Mas é uma experiência contínua em que os direitos foram paulatinamente sendo ampliados e integrando cada vez mais gente. Nunca houve uma retirada de direitos. Eu sei, eu sei, vai ter gente que vai discordar. É porque não entende o que é democracia. Vamos encarar essa? O que é a democracia? Foi oligárquica no mundo todo durante todo o século 19, com pouca gente votando. Nos países multiétnicos, multiculturais, democracias sempre foram mais pruns grupos do que para outros. É o processo histórico. Democracia é uma promessa, é uma meta de futuro, e um conjunto de ferramentas. Entender a democracia, se engajar na democracia, é entender que é contigo. Que é com cada cidadão. Que nunca é com o governo. O governo vai para onde a gente aponta. Nós, aqui, temos uma democracia fraca porque, para nós, a culpa é sempre dos outros. Sempre do governo da vez. O buraco na rua em frente à casa? O problema é do governo. Nos engajamos pouco em nossas comunidades. Nos Estados Unidos, como em outras democracias bastante mais maduras, não é assim. As pessoas são muito ativas. Frequentam as reuniões dos conselhos locais das escolas públicas, Fazem campanhas comunitárias o tempo todo. Bate-se à porta dos vizinhos para conversar sobre um tema importante da região. Criar um parque, restaurar uma praça, essas coisas, na cabeça do americano médio, é parte do viver cotidiano. O que tanto Renee Good quanto Alex Pretti estavam fazendo era agir como cidadãos. Tem ali agentes do Estado que, eles compreendiam, estavam passando por cima de direitos. Então estavam ali para, simultaneamente, protestar e prestar testemunho. Registrar em vídeo. Por que este reflexo? Porque partem do princípio de que haverá um momento em que estes casos vão para um tribunal e haverá julgamentos. Porque, na sua cabeça, no país em que vivem esse tipo de ação não existe, não pode existir e uma hora vai parar. Basta que cidadãos resistam. Donald Trump é um líder fascista. O Estado americano não é um Estado fascista. Mas o líder está usando o método para fascistizá-lo. No fim das contas, é a sociedade que se entrega ou não. Temos uns 80 anos de estudo profundo sobre como democracias funcionam. Se a ciência política liberal estiver correta, Trump é um pesadelo que pode impor muito estrago aos Estados Unidos, pode ser capaz de fazer o país retroceder em décadas, demorar a se recompor. Mas não vai ser capaz de convertê-lo num Estado totalitário. Num Estado fascista. Por uma razão muito simples. Quando a cultura de cidadania ativa está muito embrenhada numa sociedade, você não consegue mais dobrá-la. Uma sociedade com tanto tempo de cultura democrática não se entrega a um ditador totalitário. É um caminho sem volta. Se a ciência política liberal estiver errada e os americanos entregarem as pontas? Bem, aí a gente vai ter de rever tudo o que compreendemos sobre democracia.
As ideologias brasileiras e a crise do liberalismo

No Ponto de Partida React de hoje, Pedro Doria e Luiza Silvestrini conversam sobre os resultados da pesquisa Meio/Ideia que mapeou as ideologias dos brasileiros e também sobre a fala de Mark Carney em Davos. Durante o Fórum Econômico Mundial, Carney disse que mundo passa por uma "ruptura" na ordem mundial.
O premiê canadense está certo

O primeiro ministro canadense Mark Carney fez, ontem, talvez o melhor e mais importante discurso deste ano em Davos. E esse discurso é, essencialmente, um convite às médias potências do mundo a caminharem juntas. É com a gente, tá? Brasil, hoje, é a décima economia do mundo. O Canadá é a nona. Coreia do Sul, a décima segunda. Índia, a quarta. França, Itália, sétima e oitava. Agora, neste pacote do Carney, está também uma leitura muito pragmática de como o mundo funcionava e como parece que está caminhando para funcionar.
A ideologia de Lula e a de Bolsonaro

Qual é a sua ideologia? Você já parou pra pensar nisso? Um pedaço importante da Pesquisa Meio/Ideia foi mapear, pela primeira vez, a ideologia dos brasileiros. E uma das coisas que a gente descobriu, de cara, é que esse mapa ideológico explica muito sobre a crise da democracia brasileira.
Barbárie no Irã & Eleições no Brasil

No Ponto de Partida React, desta sexta-feira (16), Yasmim Restum e Pedro Doria falam sobre a violenta repressão no Irã, onde cidadãos exaustos se arriscam sob pena de fuzilamento e a tortura bárbara para protestar contra um regime que nunca esteve tão isolado de seus antigos aliados regionais. A conversa também passa pela dificuldade da direita brasileira se unir em torno de um nome para as Eleições de 2026, o que corrobora o favoritismo de Lula. A prioridade em eleger grandes bancadas na Câmara e no Senado, visando o controle do orçamento e a pressão sobre o Judiciário, muitas vezes se sobrepõe à construção de uma candidatura única e viável ao Palácio do Planalto. Yasmim Restum e Pedro Doria te guiam nessa jornada com uma seleção dos comentários que vocês enviam nas redes sociais e canais do Meio. Para participar, comente nos vídeos do Ponto de Partida de segunda ou quarta. Assista em vídeo no Youtube, e acompanhe em áudio no seu tocador de podcasts preferido.
A direita não se une nem na cadeia

Agora temos duas pesquisas já de 2026. A nossa, Meio/Ideia, e a Genial Quaest. Elas mostram que Lula é favorito, que a direita tem chance mas segue dividia. Pois é. Diferentemente da esquerda.
Quem está certo no Irã?

Imagine a seguinte situação: você está tão cansado, tão exausto de um governo que sai às ruas todo dia para protestar. Agora, dobra isso. Imagine que sair às ruas para protestar seja um risco de vida. Literalmente a polícia, ou o Exército, pode matar você. Ou talvez pior. Você pode ser preso e levado para uma cadeia onde será barbaramente torturado sem que ninguém, nenhum amigo, nenhum familiar, tenha qualquer ideia de onde você está, se vivo ou morto. Estou falando de tortura do pior tipo. Da mais dolorosa. E, ainda assim, você segue escolhendo sair às ruas. Processou esta ideia? Imagine, então, que você é pai ou mãe. Que o líder máximo do seu governo foi à televisão e disse o seguinte: não deixe seus filhos irem às ruas. Se deixarem, não reclamem se o pior acontecer com eles. E, ainda assim, o povo segue tomando as ruas. Segue protestando. Segue pedindo a queda do governo. É isso que está acontecendo no Irã neste momento. A ideia de liberdade é abstrata até o instante que deixa de ser. A gente não tem essa experiência, no Brasil, há muito, muito tempo. Mas, para estas pessoas no Irã, a vida está tão insuportável que não dá mais. Esse “não dá mais” tem este peso: arriscar a vida, arriscar o nível máximo de sofrimento físico, é preferível a continuar como está. Sabe, são momentos assim da história que nos fazem lembrar que a luta por liberdade, que o anseio por liberdade, move povos a situações de limite. Como construir uma opinião a respeito do Irã? Se acreditamos na autodeterminação dos povos, então só há um caminho a seguir. Se o povo do Irã derrubar o regime dos aiatolás, se o povo conseguir derrubar a ditadura do Irã, então viva os iranianos. Eles estão tentando. Agora vamos para um teste muito, muito duro de resiliência. De um lado, o quanto um povo consegue aguentar de violência, de brutalidade, de morte, até ser posto de joelhos. Do outro, enquanto as pessoas com mais poder dentro do regime acreditam que seguirão capazes de se manterem no poder. Quem piscar primeiro, perde. É isso que a gente vai ver nos próximos dias. Nas próximas semanas. Agora, tem algumas coisas inéditas. A coalizão que está nas ruas é totalmente diferente de todos os protestos, no Irã, neste século. São muito mais grupos sociais, pela primeira vez juntos. A ditadura dos aiatolás também nunca esteve tão frágil militarmente. É, igualmente, a primeira vez em que há um clamor visível pelo retorno do xá, o antigo rei, nas ruas do Irã. Não é que isto seja bom ou seja mal. É o que é, e é muito diferente do que foi. Mas, fundamentalmente, é importante não esquecer de um ponto, um único ponto crucial. A estimativa das organizações de direitos humanos é de que já morreram pelo menos 500 pessoas. E, ainda assim, as pessoas continuam enchendo as ruas. A gente precisa respeitar isso. A alternativa é, de longe, acreditar que nós estamos entendendo melhor o que acontece no Irã do que os próprios iranianos. A alternativa é considerar que sabemos melhor o que serve aos iranianos do que eles. É de uma prepotência inimaginável. Então, vem cá, quem está nas ruas? E por que o regime dos aiatolás está mais fraco do que jamais esteve? O que mudou desde a última onda de protestos, em 2022, para cá? Vem comigo, vamos dissecar esse jogo. Primeira coisa a entender, por que o regime está mais fraco? Bem, após o desmanche do Iraque pelos americanos, os aiatolás estenderam forte sua influência militar no Oriente Médio. Já tinham laços fora do país, reforçaram. Mantinham o Hizbolá, dentro do Líbano, o Hamas, em Gaza, e outros grupos. Isso garantia ao país, essencialmente, um nível altíssimo de controle sobre estes dois territórios. Além disso, estava também lá a ameaça nuclear. Em 2025, tudo mudou. Israel decepou a liderança do Hizbolá e e um bom naco da do Hamas. Israel também promoveu assassinatos seletivos de inúmeros líderes da Guarda Revolucionária, o principal braço armado do regime iraniano. Os americanos bombardearam pesado instalações nucleares dentro do país. O poder que o Irã tinha sobre a região simplesmente desapareceu. Sua capacidade de impor instabilidade não tem, nem de longe, o alcance que teve. Internamente, isso tem peso. Porque o povo olha para o regime com a compreensão de que ele está mais fraco. As revoltas populares no Irã são recorrentes. Em 2009, foi por conta da fraude eleitoral que tirou a vitória do candidato à presidência Mir Hossein Mousavi. Foi a Onda Verde. Quem foi pras ruas? A classe média cosmopolita de Teerã. Porque isso é importante de compreender sobre o Irã. O país é divido mais ou menos entre alguns grandes centros urbanos. A capital, gigante, com um quarto da população do país, aí Mashaad, Isfahan, Karahj, Shiraz e Tabriz. A cidade de Shiraz, aliás, diz a lenda que é a origem da uva Sirah. Estas grandes cidades têm uma população cosmopolita e com altíssimo nível educacional. Há mais mulheres do que homens com curso superior, no Irã. Estamos falando de uma das quatro civilizações da Antiguidade com histórico contínuo de produção artística e científica. Irã, Índia, China, Grécia. É um país sofisticado, que tem história de um período democrático no século 20. Essa classe média altamente educada foi às ruas em 2009 e, depois, em 2022. Essas são as passeatas do hijab, contra a polícia religiosa, a basij, que estava prendendo e torturando mulheres que permitissem um chumaço de cabelo escorregando para fora do véu. Entre 2017 e 2019, houve outra onda de protestos. Esta pegou comerciantes e trabalhadores mais pobres, inclusive no interior. O Irã é muito desigual. Esse interior é bastante pobre, com índices baixíssimos de educação formal. O motivo? Crise econômica. Foram protestos fragmentados, espalhados, pequenos em número de pessoas, mas em muitos lugares diferentes. O que está acontecendo agora é que juntou todo mundo. O Rial, a moeda do Irã, foi muito desvalorizada em dezembro. Há seca no país e escassez de produtos nos supermercados. O comércio não está vendendo nada. Então estão todos estes grupos nas ruas. A classe média cosmopolita e educada, a classe trabalhadora pobre e com pouca educação, a elite comercial que é muito importante. E, temos indícios, o baixo clero. Os clérigos que não têm acesso aos líderes de Qom, a cidade dos aiatolás. Nesse baixo clero, veem os aiatolás como uma elite corrupta que se distanciou dos verdadeiros valores da religião. Veja, estes grupos querem coisas muito diferentes e esse movimento revolucionário não tem um líder claro. Talvez seja por isso que, nos protestos iranianos, pela primeira vez se ouça cânticos e slogans clamando pelo retorno do xá Reza Pahlavi, que é o filho do antigo xá, derrubado pela Revolução Islâmica. Nada é dado, tá? Muita coisa diferente pode acontecer. Não é absurda a ideia de que a Guarda Revolucionária chute para fora os aiatolás, isso de alguma forma satisfaça a população, e feche numa ditadura diferente. Uma ditadura militar. Pode terminar numa solução espanhola. Põe o xá como chefe de Estado, numa solução que traz algum tipo de líder consensual simbólico, e vai pruma democracia constitucional. Pode ser que a matança siga e os aiatolás continuem no poder. Muita coisa pode acontecer. Mas, sabe, nessa história em particular só tem um lado no qual se deve estar. É o lado do povo iraniano que está arriscando muito. Que está arriscando tudo.
3,2,1…Feliz Nova ordem mundial?

No primeiro Ponto de Partida React de 2026, nesta sexta-feira (9), Yasmim Restum e Pedro Doria falam sobre a possível ruptura da ordem mundial do nosso último século a partida da invasão dos Estados Unidos na Venezuela no início de janeiro. A conversa passa por comparações entre as potências China e Estados Unidos, e os riscos inerentes a democracias liberais em um contexto de lideranças autoritárias. No entanto, o movimento do presidente estadunidense não é algo novo no mundo, e remonta um perigoso anacronismo que põe em xeque a soberania das nações e acordos multilaterais. Dá pra chamar de imperialismo? E se essa moda pega? Como o Brasil e outros países semelhantes ficam nesse cenário? Junte-se a Yasmim Restum e Pedro Doria nessa jornada de perguntas e respostas orientada pelos comentários que vocês enviam nas redes sociais e canais do Meio. Para participar, comente nos vídeos do Ponto de Partida de segunda ou quarta no Youtube. Acompanhe em áudio no seu tocador de podcasts preferido e assista em vídeo no Youtube.
Que mundo Trump está criando?

Tem uma pergunta que tem me atormentado estes dias: o quanto o mundo mudou após a captura de Nicolás Maduro? Porque, vejam, se você passeia pelas redes sociais existem duas leituras predominantes. Pela direita, tem uma turma eufórica achando que os americanos derrubaram a ditadura bolivariana, que democracia vai voltar pra Venezuela e tudo o mais. Já está claro que não foi nada disso, não é? Pela esquerda, a coisa é vista como os americanos são imperialistas, sempre foram imperialistas, seguirão sendo imperialistas. E, olha, é um lugar confortável de estar para quem é de esquerda, não perturba em nada sua zona de conforto cognitivo e resolve tudo. É só que, para apostar nesse caminho, você precisa achar que as motivações de Donald Trump são as mesmas de todo presidente americano. E, não, não são. Nem suas motivações, nem sua visão de mundo. Trump é uma ruptura radical na política americana, seja democrata, seja republicana. Trump é algo novo e diferente. E o diabo é o seguinte: dizer que é diferente é fácil. Dizer no que ele é diferente, nem tanto.