Nova República terá mais uma chance com Lula, afirma cientista político

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Impedido de concorrer à presidência na eleição de 2018, quando foi preso pela Operação Lava Jato, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se prepara para voltar ao poder, após vencer a disputa ao Planalto no último domingo. Ao pensar nas tensões democráticas por que passamos atualmente, o cientista político Bruno Wanderley Reis avalia que “a Nova República está tendo mais uma chance com Lula”, ao ter como presidente alguém à altura do desafio de trazer estabilidade política e institucional ao país. Em entrevista a Pedro Doria no programa Conversas com o Meio, ele relembra da corrosão democrática sofrida nos últimos anos e aposta no novo mandato petista como “uma espécie de segunda chance para o Brasil”.

Buscando entender como fomos chegar ao caos institucional que levou à eleição de Jair Bolsonaro em 2018, o editor-chefe do Meio, Pedro Doria, lembra que desde que cobria política no Rio de Janeiro nos anos de 1990, Bolsonaro era apenas “um golpista” e passou a se tornar um revolucionário, no sentido de querer destruir o sistema, quando se juntou às ideias de Olavo de Carvalho, assumindo uma postura fascista. Bruno Reis relata que “o sistema estava tão frágil em 2018, que o eleitorado foi buscar o último dos deputados, aquele mais desprezível entre todos do Plenário para dar o poder”. O cientista político chama de “fantasia revolucionária” o ideário de que é possível mudar a sociedade à força em um choque institucional. “Quando a rebelião é violenta é porque o sistema político fracassou, entrou em colapso.” Ele explica que o sistema político fica vulnerável a predadores quando está fragilizado, momento em que aparecem políticos como o que governa o Brasil atualmente.

Analisando as causas mais a fundo, Bruno Reis responsabiliza as instituições, que deixaram que a política fosse banalizada a ponto de enfraquecê-la, permitindo o surgimento do movimento bolsonarista no país. Ele criticou o papel da imprensa na cobertura dos escândalos de corrupção durante os desdobramentos da Operação Lava Jato, que tratou as acusações dos delatores “de maneira sensacionalista” e questionou se não houve alguma contradição dos jornalistas, que demonizaram a imagem de Lula durante os escândalos de corrupção e depois quiseram viabilizar sua candidatura contra o líder fascista no segundo turno, que havia prometido acabar com tudo o que estava posto, o status quo. “Eu fico me perguntando se o fato de que tão pouco tempo depois as mesmas fontes de informação estão tão receptivas em relação ao Lula como espécie de salvação, não corrobora mais ainda junto ao público a ideia de que é tudo uma grande sacanagem”, reflete.

Pedro Doria relembrou a cobertura jornalística na época dos desdobramentos das operações da Polícia Federal e do Ministério Público, ao dizer que teve como impressão da Lava Jato, nos primeiros anos, que “de alguma forma o Brasil estava começando a se ajeitar e, enfim, gente com poder estava sendo responsabilizada criminalmente pelo que fazia”, justifica, ao afirmar que até aquele momento, apenas pessoas negras e pobres iam para a cadeia por cometer alguma infração. Mas após o impeachment de Dilma Rousseff, ele começa a olhar com desconfiança para a Lava Jato e perceber que essas ações, que pareciam fazer parte da normalidade institucional, mais deterioravam do que ajudavam a manutenção do ambiente democrático. “E a cada novo ‘remendo’, que era de certa maneira uma violência institucional, a coisa ia piorando”, conclui. Pedro lembra que os petistas eram os únicos em seu entorno que criticavam as operações e o impeachment. “É evidente que Moro e Dalagnol são violentamente antipetistas e que isso foi o drive forte deles, mas eu não percebi isso na época e interpretei a defesa do PT como: ‘claro, eles vão falar o quê?’”.

Para Bruno Wanderley Reis, era claro que havia procuradores da Lava Jato fazendo um trabalho sério, enquanto outro grupo estava empenhado em buscar qualquer indício de envolvimento de Lula em algum esquema de corrupção. “Muito rapidamente eles perguntaram ‘como é que se pegava o Lula’. Estava muito claro que eles estavam indo atrás de Lula, ainda em 2015 era possível ver”, pondera o cientista político, ao ressaltar que as evidências encontradas pelos investigadores eram frágeis para incriminar o petista. “Você está falando de um mega escândalo de bilhões em superfaturamento de contratos numa estatal, então você tem de pegar o presidente da República porque ele teria pensado em comprar um apartamento no Guarujá, que qualquer um de nós com financiamento comprava? Esse é o capo?”, questiona. Ele ressalta que Lula quase perdeu a eleição por causa desse ativismo judiciário, que permitiu a Bolsonaro ter um argumento de chamar Lula de ladrão durante toda a campanha “quando é tão evidente que Bolsonaro tem muito mais coisas a responder que Lula em termos pessoais”, conclui.

Na avaliação de Bruno Reis, enquanto os governos do PT deram muito espaço para amplas investigações em seus governos, a ponto de não estabelecer limites e permitir que ocorressem os desvios da Lava Jato, Bolsonaro destruiu os controles quando teve a oportunidade. Apesar de os últimos casos de corrupção no país fazerem parecer que somos a nação mais corrupta do planeta, ele faz uma ressalva, comparando o Brasil com outros países que tiveram revelados grandes escândalos de corrupção, como o Panamá Papers, que, segundo o cientista político, mostra o Brasil em “um lugar menor” nas listas das nações mais corruptas. Ele analisa que ao permitir que as instituições agissem fora dos limites legais, os atores políticos não perceberam que colocavam em risco a própria democracia.

Em que pese a história recente do país, Reis aposta em um aprendizado por parte dos atores políticos, que deve funcionar como uma espécie de vacina, um antídoto para prevenir que movimentos antidemocráticos como o que tem tomado o Brasil nos últimos anos possam ser contidos com antecedência. Ele ressalta a importância que teve o papel da Justiça Eleitoral no pleito deste ano. “Imagina essa eleição sem a Justiça Eleitoral que tem o Brasil, com uma administração padrão internacional em vez da nossa. Nós estaríamos contando voto até agora e o pau já estaria quebrando nas ruas.”

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