Com Mercadante definido no BNDES, futuro ministro pode chegar com poder esvaziado, avalia Christian Lynch

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Mesmo sem uma definição clara de qual será o destino do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) dentro da área econômica, o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou nesta terça-feira, dia 13, que o próximo presidente do banco será o ex-ministro petista Aloizio Mercadante. Mas o cientista político Christian Lynch vê com desconfiança a nomeação de Mercadante para o BNDES sem ter sido anunciado quem será o ministro que comandará os bancos estatais no próximo governo. Ele avalia que a medida faria sentido caso a estatal ficasse subordinada ao Ministério da Fazenda, definido sob o comando de Fernando Haddad, “mas se colocar o Mercadante no BNDES, e depois alguém do Centrão para comandar o ministério da Indústria e Comércio [caso esse seja o destino do banco], o cara já chega com a autoridade esvaziada” para assumir a pasta. Em conversa durante o programa #MesaDoMeio, ele questiona a decisão de anunciar o presidente do banco, sem ter definido os ministérios. “Como você anuncia primeiro quem vai ficar embaixo, para depois dizer quem ficará em cima [da estrutura ministerial]?”

O atual Ministério da Economia será desmembrado em três: Fazenda, Planejamento e Indústria e Comércio, que deverão ser heterogêneos. A repórter especial do Meio Luciana Lima explica que ainda não está claro em qual pasta ficará o BNDES, que será presidido por Mercadante, mas que o banco poderá deixar de financiar apenas as grandes empresas e empreendimentos, incluindo também os micro e pequenos empreendedores, além de projetos de economia sustentável.

A editora-executiva do Meio Flávia Tavares comenta que Mercadante precisou reconstruir sua imagem política dentro do Partido dos Trabalhadores, após seu desempenho negativo durante o governo de Dilma Rousseff. Por não ter traquejo político com parlamentares, ela avalia que Lula teria dificuldade em emplacá-lo como ministro em seu governo, fazendo mais sentido deixá-lo no BNDES.

A nomeação de Mercadante para o banco de fomento é vista com muita preocupação pelo editor-chefe, Pedro Doria, porque esse seria o indicativo de que Lula pretende fazer uma política econômica mais parecida com a de Dilma Rousseff do que a de sua gestão há 20 anos. “E o governo Dilma foi um desastre econômico”, ressalta. Para Pedro, a nomeação indica que Lula dará autonomia ao futuro presidente do BNDES para definir quem receberá investimentos públicos. “Ele está dizendo que quem vai ditar a política industrial será Mercadante, e não o ministro [que chefiará a pasta ao qual o banco ficará subordinado]”.

Flávia discorda, por entender que o futuro ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem dado indicativos de que se preocupa com responsabilidade fiscal e reforma tributária, e que Lula age apenas com sua própria visão de mundo, podendo incluir aspectos tanto liberais quanto desenvolvimentistas. Como a terceira via não vingou durante as eleições, a frente ampla que se formou em torno dele deveria prever essa conduta. “É de se esperar que esse governo entregue coisas de uma visão do Lula. Seria estranho se não fosse assim.” O cientista político Christian Lynch ressalta que para ter uma frente ampla, seria preciso incluir os liberais nas negociações, mas o problema é que o Brasil não tem um partido liberal e por isso as alianças que o governante precisa fazer são com o Congresso Nacional. Ele avalia que Lula precisa garantir alguns espaços centrais dentro do poder para depois distribuir cargos “de maneira que ele não perca o direito de dar a última palavra sem precisar demitir alguém”.

Lula foi diplomado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesta segunda-feira, encerrando o processo eleitoral deste ano. Mas a cerimônia quase foi ofuscada pelas manifestações antidemocráticas que ocorreram pelas ruas de Brasília na mesma noite. Christian Lynch lembra que já eram previstos atos parecidos com os que ocorreram em 6 de janeiro de 2021, quando trumpistas invadiram o Capitólio americano na tentativa de impedir a confirmação da vitória de Joe Biden à presidência dos Estados Unidos. Ele diz que as instituições estão sendo lenientes com as ações dos apoiadores de Bolsonaro, que ainda está no poder. “Isso é revoltante do ponto de vista politicamente ético.” Pedro avalia que os protestos golpistas desta semana estão sendo menores e menos organizados do que se esperava. Para ele, mesmo sendo capaz de gerar violência, esse grupo oferece pouco risco de repetir a invasão do Capitólio. “Essa turma não entra em prédio público de relevância.” Flávia pondera que se não houver punição e investigação, outras células golpistas podem se animar para tomar atitudes semelhantes. “Se passar batido, acho que mais gente poderá se mobilizar.”

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