Que mundo Trump está criando?
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Tem uma pergunta que tem me atormentado estes dias: o quanto o mundo mudou após a captura de Nicolás Maduro? Porque, vejam, se você passeia pelas redes sociais existem duas leituras predominantes. Pela direita, tem uma turma eufórica achando que os americanos derrubaram a ditadura bolivariana, que democracia vai voltar pra Venezuela e tudo o mais. Já está claro que não foi nada disso, não é? Pela esquerda, a coisa é vista como os americanos são imperialistas, sempre foram imperialistas, seguirão sendo imperialistas. E, olha, é um lugar confortável de estar para quem é de esquerda, não perturba em nada sua zona de conforto cognitivo e resolve tudo. É só que, para apostar nesse caminho, você precisa achar que as motivações de Donald Trump são as mesmas de todo presidente americano. E, não, não são. Nem suas motivações, nem sua visão de mundo. Trump é uma ruptura radical na política americana, seja democrata, seja republicana. Trump é algo novo e diferente. E o diabo é o seguinte: dizer que é diferente é fácil. Dizer no que ele é diferente, nem tanto.
O problema dessas duas visões é que, em ambos os casos, trata-se de olhar para um mundo onde há vilões claros, mocinhos claros, e eu estou do lado do bem. Política nas redes sociais é sempre assim. A do mundo real, nunca é. E aí, o quanto o mundo mudou? Deixa, de partida, eu dizer para vocês: não sei responder. Não sei se alguém sabe. Ao menos, ainda não.
Mas vamos começar falando de imperialismo? Se você pega o discurso do governo americano, ele é puro imperialismo. Sequer disfarça. Os Estados Unidos não podem tolerar que exista um país em sua área de influência, quer dizer, as Américas, que venda petróleo para os adversários mas não para eles. Imperialismo, aquele que existia lá no século 19, o que era? Você tem o império, a capital do império monta em uns tantos países do mundo para sugar seus recursos. Manda diretamente no governo desses países. Imperialismo é Londres mandando na Índia, Londres mandando no pedação da Palestina ao Iraque. Imperialismo clássico é isso. O discurso americano de “nós estamos mandando na Venezuela”, de “o petróleo deles vem pra gente”, é isso sem tirar nem por.
Claramente a intenção é imperialista. Isso quer dizer que a esquerda está certa? Calma.
Donald Trump descartou María Corina Machado. Por quê? Porque ela ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Para quem acha que não é inveja, presta atenção no discurso do cara. Lê os posts dele em mídias sociais. Hoje mesmo estava se queixando que não lhe deram o Nobel. O cara fixou nisso. Trump é esse tipo de gente simultaneamente megalomaníaca e meio infantilizada nos seus quereres. Aí o discurso do governo é “vamos deixar a vice-presidente lá”, “vamos manter esse governo aí”, a condição é que nos garantam o petróleo. O governo americano até agora não pediu, sequer, a libertação dos presos políticos. Nada. Absolutamente nada. A única coisa que pediu é petróleo. Enquanto isso, jornalistas estão sendo presos ou impedidos de entrar no país, o pau está comendo nas ruas de Caracas, e o Exército está substituindo a polícia nas operações de segurança pública e fronteira. Ou seja, é uma ditadura militar se fechando para sobreviver. Algum americano está pedindo democracia no governo? Não estão nem aí.
A direita brasileira que achou que esta era uma operação de trazer democracia para a Venezuela, faça-me o favor. Abre o olho para ver, desentope os ouvidos para ouvir. Os americanos não estão nem aí pra ditadura venezuelana. Desde que ela esteja a seu serviço. Se eu tivesse de fazer uma aposta, esses generais todos bolivarianos estarão a serviço dos americanos. Se vão falar ainda “viva Simón Bolívar” ou não, não sei. Mas ninguém ali vai se incomodar de virar regime fantoche. De novo, puro imperialismo. Quanto tempo dura? Não sei. Não dá para dizer.
Olha, os Estados Unidos do pós-Segunda Guerra para cá não foram imperialistas, não, tá? Sim, deram golpes de Estado, invadiram países, produziram guerras. Você pode achar que foram vilões, pode achar que foram heróis. Na cabeça dos americanos, eles têm uma coisa quase messiânica com a ideia de democracia. É, culturalmente na base está uma visão meio religiosa, sim. Até a queda do Muro de Berlim, eles entendiam o dilema do mundo como um de evitar o avanço comunista. O Vietnã e a Coreia, o golpe do Irã, o do Brasil, Chile, Argentina, tudo isso tem no fundo a meta de evitar que os comunistas tomassem esses países. Beneficiava economicamente os americanos? Claro. E isso fazia parte da equação. Quanto maior o mundo não-comunista, melhor para a economia americana.
O Bill Clinton foi um presidente importantíssimo, transformador mesmo, porque ele apontou o rumo do país após o desmanche da União Soviética. Ali, os americanos abraçaram a visão que já vinha crescendo desde o governo Carter de que quanto mais democracias, melhor para os Estados Unidos. Democracias fazem mais comércio, crescem mais, produzem mais riqueza. Na planilha, temos fortes indícios de que isso é verdade. Mesmo nações ricas fazem mais dinheiro e crescem mais suas economias num ambiente de livre-comércio do que sugando países subdesenvolvidos como no tempo dos impérios.
Houve duas visões de como espalhar essas democracias. Tem a visão liberal, do Clinton, do Obama, de desenvolver democracias a partir das sociedades. De baixo pra cima. Dando dinheiro para ONGs, universidades, imprensa, sindicatos. Essas ações que a turma reacionária chama de “comunistas” são puro liberalismo, puro Tocqueville. Quanto mais debate a participa uma sociedade, mais ela exigirá um país democrático. Mas teve também a visão neoconservadora de George W. Bush. Impor democracias de cima para baixo. Invade militarmente, derruba um ditador, implanta um governo, despeja consultores explicando como cria parlamento, como escreve Constituição. O modelo liberal deu muito certo na América Latina e no Leste Europeu. Investiu-se nas sociedades civis. O modelo neoconservador foi um fracasso retumbante. Mas ambos tinham no centro uma visão comum: mais democracias, mais negócios, melhor para o PIB.
Deu certo na planilha. A fome no mundo despencou no período da globalização, a pobreza despencou, nunca tanta gente pelo mundo ascendeu à classe média. O que aconteceu no Brasil nessa época aconteceu na América Latina, na África toda, na Ásia toda. Mas esses grandes movimentos históricos nunca são uniformes. Dois grupos, apenas dois grupos, ficaram de fora. A classe média das Américas e da Europa ficou estagnada. Ela não mudou de patamar, ficou no mesmo lugar. E viu muita gente pobre encostar. E a classe operária das Américas e da Europa perdeu o emprego seguro das fábricas, que no livre mercado foram pra Ásia onde os trabalhadores são melhor preparados, topam salários mais baixos e não exigem garantias de bem-estar social. Esta classe média e estes operários guinaram pra direita anti-liberal. Nós vivemos isso, os alemães, os italianos, os americanos.
Donald Trump representa a ruptura com o modelo liberal do mundo. Com a ideia de que os Estados Unidos se dão bem com livre-comércio. Com a ideia de que a ordem liberal é melhor para todos. A ação pode parecer com outras ações americanas no passado, mas o que guia a ação é outra coisa. Donald Trump não acredita que mais democracias são melhores para os americanos. Não acredita em nada do que todo presidente americano do século 20 acreditava. Ele acredita em império, em tomar, em crescer assim. Todos os dados históricos e econômicos que temos dizem que é uma má ideia. Gerenciar impérios é muito caro e o tipo de coisa que eles entregam, commodities, vale muito pouco perante o custo.
Então as duas questões são as seguintes. Estados Unidos e Rússia são as maiores potências militares do Planeta. Estados Unidos e China são as maiores econômicas. O que vai acontecer nos próximos três anos de governo Trump? Rússia tomou um pedaço da Ucrânia, americanos invadiram a Venezuela para prender seu presidente, estão ameaçando a Groelândia. A China vai tentar tomar Taiwan? Consegue tomar Taiwan? Se este movimento ocorrer, acho que dá para dizer que não há mais reversão para o curto prazo. Voltamos a um mundo em que países poderosos se impõem pela força e pelo peso. É um mundo no qual o Brasil não tem muito espaço, não.
Agora, se a China não fizer isso, o que acontece daqui a três anos em Washington? Donald Trump terá mudado por completo a mentalidade do país, ou republicanos e democratas voltam a um modelo liberal? Voltam à visão dominante nos Estados Unidos do último século? Se voltam, quanto trabalho terão para refazer as pontes com antigos aliados? Não está claro. E, claro, vai depender de muita coisa.
Porque, olha, se os americanos tentarem tomar a Groelândia da Dinamarca, caramba. É uma guerra europeia. Maluquice? Claro. Impossível de acontecer. Só tem um problema. Quem, a essa altura, tem coragem de dizer que Donald Trump não ousaria fazer algo absurdo?


