Cinema de risco a uma distância segura

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Fazer cinema é uma atividade de risco – em muitos países, risco de vida mesmo, e esse é o tema de um dos destaques nas estreias desta semana. Produzido na Suécia por motivos óbvios, Águias da República, do sueco filho de egípcio Tarik Saleh, aborda o profundo controle que a ditadura militar egípcia exerce sobre a produção cinematográfica no país e como a usa para sustentar o regime. Feres Fares vive o célebre ator George El-Nabawi, coagido pelos militares, as “águias” do título, a estrelar produções ufanistas. Se trabalhar para um governo que não apoia não fosse complicado o bastante, ele se torna amante da jovem esposa do ministro da Defesa, praticamente um convite à morte. O suspense foi o candidato sueco ao Oscar de melhor filme em língua estrangeiram, mas não passou na pré-seleção.
Embora o Brasil seja um dos cinco países envolvidos na produção de Transamazônia, dirigido pela sueco-sul-africana Pia Marais, o longa não consegue disfarçar o olhar gringo sobre questões bem brasileiras, como a devastação em terras indígenas e a exploração da fé. Helena Zengel vive a adolescente Rebecca, filha de um missionário evangélico estrangeiro na Amazônia (Jeremy Xido). Quando menina, ela sobreviveu a um acidente aéreo na floresta, fato que o pai atribui a um milagre e que usa para cimentar a imagem dela como curandeira abençoada e facilitar a aculturaç… perdão, a conversão do povo indígena local. A ação de madeireiros e garimpeiros e a resistência da população originária estão lá, mas, como os atores brasileiros do elenco, são apenas coadjuvantes para o conflito entre pai e filha.
Entrando no campo do surrealismo e também esnobado no Oscar vem o tailandês A Useful Ghost: Uma Ajuda do Além, escrito e dirigido por Ratchapoom Boonbunchachoke. March ainda não se recuperou da morte de Nat, sua esposa, quando descobre que o espírito dela habita um aspirador de pó. Como o verdadeiro amor supera qualquer barreira, os dois retomam o relacionamento — não façam piadas sobre sucção, que isso não é bonito. A família dele não aceita a situação, claro, mas parece mais incomodada por Nat estar de volta do que por ela ser um eletrodoméstico. Para acalmá-los, ela se torna o “fantasma útil” do título, assumindo a função de limpar a fábrica da empresa, também cheia de espíritos.
Brendan Fraser, cuja carreira foi ressuscitada por A Baleia, estrela o longa nipo-americano Família de Aluguel, de Mitsuyo Miyazaki. Ele vive um ator americano radicado em Tóquio que, em crise pessoal e profissional, descobre um negócio inusitado: uma agência de aluguel de acompanhantes. Calma, não no sentido que você pensou. Ele deve servir como pai, irmão, namorado ou mesmo amigo substituto para estranhos, como fazer o papel de noivo em uma festa tradicionalíssima para agradar a família da noiva, que está, na verdade, se casando com outra mulher, ou ser o “pai” de uma menina sem figura paterna. Com o tempo, porém, ele começa a entrar de fato na realidade daquelas pessoas, rompendo a linha entre o real e o interpretado.
Timidez, de Thiago Gomes Rosa e Susan Kalik, não poderia ter um título mais explícito. Jonas (Dan Ferreira) é um artista plástico patologicamente tímido, que divide o apartamento com o irmão mais velho e autoritário — fonte de boa parte dos complexos do protagonista. A coisa complica quando ele se apaixona pela vizinha Lúcia (Evana Jeyssan) e precisa enfrentar todos os seus demônios a fim de convidá-la para jantar.
Paulo Gustavo morreu de Covid em 2021, mas deixou um projeto com o amigo Marcus Majella: Agentes Muito Especiais, finalmente levado a cabo, sob a direção de Pedro Antônio. A história gira em torno dos policiais Jeff (Majella) e Johnny (Pedroca Monteiro, no papel que seria de Paulo Gustavo), que enfrentam preconceito na corporação por serem gays (daquele jeito bem caricatural que a comédia gosta de mostrar). Para provarem sua competência, eles aceitam se infiltrar em um presídio para descobrir informações sobre uma quadrilha chefiada pela misteriosa “Onça”, vivida por Dira Paes.
Era uma vez uma série criada em 1940 baseada perseguições, um pouco sutil racismo e doses extravagantes de violência — tipo, um personagem atacar o outro com um cutelo de cozinha. Estamos falando, claro, do clássico desenho animado Tom & Jerry. O gato e o rato mais famosos do cinema já ganharam adaptações mais recentes, mas é complicado trazer sua dinâmica para uma época em que todos os protagonistas de produções infantis são positivos, compassivos e recicladores. A mais nova tentativa é Tom & Jerry: Uma Aventura no Museu, onde o gato é segurança no dito museu, e ao perseguir o rato, aciona uma bússola mágica que os leva para um reino mitológico de estética explicitamente chinesa. Confundido com um deus, Tom tem de se unir a Jerry para derrotar o vilão e voltar para casa. Diverte, mas dá saudades do cutelo.
Confira a programação completa nos cinemas da sua cidade. (AdoroCinema)


