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A caminhada de Nikolas Ferreira e seu discurso religioso

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Eu recomendo que você ouça a entrevista de Nikolas Ferreira no Pânico, na Jovem Pan. Sim, recomendo mesmo, sem gracinha.

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Nikolas Ferreira, deputado federal do PL por Minas Gerais, é um fenômeno. O grau de capacidade de mobilização que ele demonstra é algo que tem um imenso valor em tempos de desinteresse por política e disputa do voto conservador.

E ele vem demonstrando uma inteligência no discurso que reflete seus desejos, e seu potencial, de alcançar um posto mais sênior na hierarquia bolsonarista.

A caminhada que ele promoveu em defesa de Jair Bolsonaro e dos condenados por tentativa de golpe foi o movimento político mais forte da direita e do bolsonarismo desde que o ex-presidente foi preso. E teria sido maior não fosse a tempestade que caiu sobre Brasília no domingo.

Foram 18 mil pessoas, segundo o Monitor do Debate Público. A queda de raios deixou feridos, levantou debates sobre a responsabilidade de Nikolas de ter mantido o ato mesmo com a previsão de intempéries, mas o fato é que ele capturou toda a conversa da direita em torno de si por dias.

Isso não é pouco, se a gente considerar que Flávio Bolsonaro se lançou candidato, Eduardo Bolsonaro tentou criar um movimento a partir dos Estados Unidos, Michelle vem viajando o país para se firmar como figura na política e Tarcísio de Freitas já foi e voltou como aliado escancarado do clã e presidenciável.

O bolsonarismo sempre se gabou de ter muitas lideranças — especialmente mais jovens. E de fato tem. Mas nenhuma, nem mesmo com a herança do sobrenome, conseguiu reacender a vontade de ir às ruas pelo líder como Nikolas fez. Tanto que os filhos e a mulher de Bolsonaro foram tragados pra caminhada em vez de a liderarem.

Pois no dia seguinte à caminhada, Nikolas deu uma entrevista ao programa Pânico, da Jovem Pan. É um programa que, como tantos, vai pro rádio, mas também é mesacast. No YouTube, ele já está com mais de um milhão e duzentas mil visualizações, quando a média do programa é ali, de 35 mil, 45 mil.

Eu ouvi a entrevista toda. Tem, claro, o fato de que era um ambiente muito amigável. O papo foi aberto pro Emilio Surita, declaradamente bolsonarista, em tom de ode a Nikolas. Os apresentadores levantavam, o jovem deputado só tinha de cortar.

Ainda assim, não é qualquer político que tem habilidade pra dar cortadas certeiras. Nikolas tem.

Nessa entrevista, Nikolas deu todas as respostas “certas” sobre sua caminhada, seu papel na direita, sua religiosidade, e sobre a família Bolsonaro. E ainda fez acenos importantes pra conservadores jovens, que estão em massa naquela audiência, mas que não curtem 100% o papo religioso na política.

E, num momento em que a direita se divide e se reacomoda para o pós-Bolsonaro, que está preso e inelegível, ignorar essa ascendência de Nikolas é tolice. Entender suas estratégias é mais útil.

A primeira que eu gostaria de apontar aqui é a dubiedade dele na questão religiosa. É óbvio que o discurso religioso é a base de sua trajetória política. Nikolas é filho de pastor evangélico e se elegeu e se mantém com essa mistura. Toda a caminhada teve esse tom. Os vídeos são num sentido de martírio, de sacrifício espiritual. Os posts falam de Deus invariavelmente.

Mas Nikolas quer se eleger senador. Quer ser mais que deputado, talvez ter um cargo executivo em breve. São cargos majoritários, que exigem que ele fale com muito mais gente no campo conservador do que os reacionários religiosos, aqueles que na nossa classificação da Pesquisa Meio/Ideia são perto de 7% dos brasileiros e que querem impor que o Estado defenda a fé cristã.

Então, o que ele faz? Adota uma estratégia antiga de Silas Malafaia e Jair Bolsonaro, de dizer que Jesus é o único Messias e que político algum pode salvar o Brasil. Nikolas entremeia suas falas com muita religiosidade para, em seguida, dizer que sabe separar as coisas.

Na entrevista ao Pânico, Nikolas constrói um movimento retórico que ajuda a entender o ajuste fino que ele vem fazendo no uso da linguagem religiosa. Ele faz questão de se apresentar como alguém que busca “equilíbrio” e rejeita a caricatura do crente que vê intervenção divina em tudo. Diz que aprendeu com CS Lewis que existem “dois tipos de pessoas mais perigosas no mundo, aquelas que espiritualizam tudo e aquelas que não espiritualizam nada”, e afirma que aprendeu a ter “equilíbrio nesse sentido da espiritualidade”. E diz que faz questão de esclarecer isso “para ninguém achar que eu sou… um excessivo espiritual nesse sentido” .

No instante seguinte, ao explicar o que o levou a iniciar a caminhada, desloca o raciocínio para um enquadramento moral e quase metafísico da conjuntura política: relata estar “extremamente angustiado, incomodado” com “escândalo atrás de escândalo” e afirma que as pessoas se sentem impotentes “para poder combater o mal”, descrevendo o STF e a corrupção. Chama de milagre o fato de ninguém ter morrido pela queda dos raios.

O contraste é revelador: ao mesmo tempo em que nega ser um “excessivo espiritual”, Nikolas recorre a categorias morais e simbólicas típicas do campo religioso para dar sentido à política — não abandona essa gramática, apenas a reenquadra.O campo da direita é maior do que o bolsonarismo. E mesmo o bolsonarismo é múltiplo. Agrega o agro, os defensores da linha duríssima na segurança, os religiosos. E, pra ser ainda mais precisa no corte, mesmo dentro do campo religioso, há bolsonaristas e outros grupos políticos que defendem que se fale menos de política dentro das igrejas. Estão cansados da mistura.

Quem me alertou pra isso foi minha amiga Carô Evangelista, nossa parceira no Meio, cientista política e diretora do Iser, que estuda as relações entre religião e poder. Eles lançaram uma pesquisa com mulheres evangélicas agorinha que mostra esse cansaço.

Então, sim, claro que o discurso religioso ainda tem imenso apelo na direita. Vai seguir tendo. Michelle Bolsonaro baseia toda sua retórica nisso. Flávio Bolsonaro, que nunca foi vocal nessa parte e sempre tratou mais de segurança e outros temas caros ao campo, intensificou as postagens orando e foi dar início à sua campanha em Israel, super simbólica para evangélicos. A pauta vai seguir girando em torno da martirização de Bolsonaro, da luta do bem contra o mal, da perseguição a cristãos.

Só que esse apelo tem um teto, por mais alto que ele seja. Nikolas é esperto o suficiente pra entender isso e calibrar sua retórica. Ele diz na entrevista, por exemplo, que Bolsonaro é o líder, mas que não o idolatra. Que é errado ter de “concordar 100% com o outro para não se tornar um traidor”. É um descolamento muito profícuo pra ele, porque o libera para se dissociar do bolsonarismo quando for hora.

E é algo que ele sabe fazer muito melhor que Tarcísio de Freitas, diga-se de passagem. Nikolas cravou que o líder máximo da direita é Jair Bolsonaro. E, como ele é o líder, se ele diz que é Flávio o candidato não tem nem que debater. Mas elogiou demais a primeira-dama Michelle e é frequentemente paparicado por Silas Malafaia, ambos da cota tarcisista da direita.

E sabe o que mais ele diz? Que sabe seu lugar na hierarquia e que só tem 29 anos. Isso é música para os ouvidos tanto do clã Bolsonaro quanto dos conservadores que valorizam a ordem.

Mas ainda sobre o papo sobre religião, eu queria apontar mais uma coisa no sentido dessa mistura com política. Otoni de Paula, deputado pelo MDB do Rio, é pastor. Foi bolsonarista e se desligou do movimento. Num papo mediado pelo meu amigo Juliano Spyer, que promove os debates Conversas Difíceis, Otoni fala daquele cansaço que eu mencionei e dos caminhos de conversa com evangélicos que votaram em Lula. Dos caminhos de conciliação dentro das igrejas. “A minha cruzada é para dizer que a igreja não é de esquerda ou de direita. Eu quero simplesmente dizer aos meus irmãos que votam em Lula que eles são tão cristãos quanto eu.”

O assunto religião ainda vai ser muito relevante em 2026, eu não tenho dúvida disso. O Brasil é um país religioso e isso sempre vai ser pauta. Mas há formas de conduzir esse debate e parece que novas maneiras já estão se apresentando e até forçando políticos a adaptar seus discursos. Algo a acompanharmos por aqui.

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