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Flávio pode ganhar

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Vai ser difícil, tá? Vai ser uma eleição bem difícil. Entre a primeira rodada da pesquisa Meio/Ideia, em janeiro, e agora a segunda, em fevereiro, o cenário mudou bastante.
Alguns números importantes. O primeiro: perguntamos aos brasileiros se eles acreditam que o presidente Lula deve continuar. 51% responderam que não. 47% responderam que sim.
O segundo: perguntamos em quem o eleitor não votaria de jeito nenhum. A gente teve o cuidado de fazer a pergunta de duas maneiras diferentes, tá? Em uma, o pesquisador pergunta um nome após o outro. Do outro jeito, ele é apresentado a uma lista e escolhe. Na mais espontânea, na qual o eleitor simplesmente reage de bate-pronto, a rejeição de Lula fica em 44%. A de Flávio Bolsonaro é 10 pontos menos. 34%.

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Sim, porque, veja, Flávio Bolsonaro subiu, subiu acima da margem de erro, enquanto Lula ficou no mesmo lugar. Em janeiro, o único candidato competitivo da direita, no primeiro turno, era Tarcísio de Freitas. Tarcísio segue um candidato muito forte, mas não está com qualquer cara de que vá disputar o Planalto. O tempo para ele tomar esta decisão vai indo embora. Enquanto isso, Flávio aparece entre 5 e 6 pontos abaixo de Lula, dependendo do cenário estimulado.

Em janeiro, ele estava a mais de dez pontos de diferença.

Soma a isso, outra questão. Em todas as eleições presidenciais nas quais venceu, o PT tinha com quem se aliar no Segundo Turno. Isto é algo que, curiosamente, ouvi de dois analistas diferentes com quem conversei, hoje. Em 2022, foi Simone Tebet. Em 2014, mesmo sem aliança herdou votos de Marina Silva. Dilma também levou consigo, em 2010, votos de Marina Silva e Plinio de Arruda Sampaio. Lula contou com os eleitores de Heloísa Helena e Cristovam Buarque, em 2006. Na sua primeira eleição, Ciro Gomes e Anthony Garotinho.
Sempre houve, ao chegar no segundo turno, um estoque de votos progressistas para ampliar a margem. Da maneira como a eleição está se organizando, é zero. E Lula fez uma escolha, durante o governo, de alienar o Centro.

Eu sei, eu sei. Vai ter uma penca de pessoas de esquerda pulando neste momento. Mas como! Flávio Bolsonaro no segundo turno! Bolsonaro golpista! Como pode!

O Centro não é grande, no Brasil. E, como o nome diz, não é de esquerda. Aliás, vamos combinar. A esquerda brasileira não gosta do Centro. Tem um certo desprezo. No mínimo acha que os centristas são isentões, mas o mais comum mesmo é ouvir que todo liberal serve de escada pro fascismo. As pessoas têm, realmente, o direito de acreditar no que desejarem. Não existe apetite, na esquerda, para sequer parar e entender em que uma pessoa de Centro é diferente de uma pessoa de Direita. Tudo certo.

Lula teve profundas dificuldades políticas neste mandato. A margem de manobra, com um Congresso profundamente conservador, foi mínima. Então ele fez escolhas. Uma delas foi tentar se destacar na política externa. Tanto sua posição inicial a respeito da Ucrânia, tratando a Ucrânia como corresponsável pela invasão russa, quanto depois seus ataques a Israel são completamente antagônicas em relação ao que pensa o Centro político. Os comentários de Lula sobre Israel, para quem não é de esquerda, são profundamente ofensivos até para os principais opositores do governo Benjamin Netanyahu.

Veja, as escolhas política de Lula fazem sentido para um presidente de esquerda que queria fazer acenos à esquerda. Que queria registrar que estava fazendo alguma coisa pelo seu time. Tudo certo. Toda escolha política traz um ganho e traz um custo. O ganho foi confirmar, para seu eleitor raiz, sua natureza. O custo foi alienar o Centro. Mais do que isso. Foi irritar profundamente o Centro. E, para muitos desses eleitores centristas, votar em Lula no segundo turno de 2022 já foi um esforço gigante. A sensação é, muito, votar e depois ser chutado porque não precisa mais.

E agora, José? Se nossa pesquisa de fevereiro for confirmada pelas outras pesquisas, se o desenho da eleição seguir deste jeito até outubro, vai ser uma eleição muito apertada, muito difícil. Como será o julgamento de Jair Bolsonaro no Superior Tribunal Militar? Ele será expulso do Exército? Ou não será? A longa folha corrida de Flávio Bolsonaro, de rachadinhas, casas pagas em dinheiro vivo, empréstimo inexplicável do BRB, Kopegnagen superfaturada, vai ter custo eleitoral? Ou o eleitor de direita vai ignorar isso? O escândalo do Banco Master e a maneira descarada com a qual o Supremo Tribunal Federal está lidando com a investigação vai ter custo para a Corte? Esse custo de imagem vai afetar a percepção do julgamento do golpe de Estado? E agora, você?

Aliás, Ratinho Jr, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite não cresceram. Não estão particularmente bem na pesquisa Meio/Ideia. E agora, Kassab? Vamos mergulhar um pouco mais fundo? A militância de esquerda nas redes vai continuar chamando de extrema-direita os eleitores destes candidatos? Ou tem limite pra burrice eleitoral?Eleições viram. Gente que parecia fora do radar aparece de repente. Tradicionalmente, o brasileiro nem presta atenção nisso antes de julho, agosto, até setembro. Mas eleições, quando viram, raramente é por conta de um acontecimento gigante. Sim, às vezes tem um atentado à vida, ou cai um avião. Mas isso é raro de acontecer. Na maioria das vezes em que algo acontece, é porque houve trabalho. Aquele trabalho que o TSE finge que não existe antes de agosto chamado campanha eleitoral.

Se o PSD de Gilberto Kassab quer se apresentar como alternativa à direita bolsonarista, precisa entrar em campanha. Goiânia é uma cidade um milhão e quatrocentos mil habitantes. Curitiba, de um milhão e oitocentos mil. Porto Alegre, um milhão e trezentos mil. Ninguém se elege presidente ganhando o pleito em Goiás, Paraná ou Rio Grande do Sul. Não se elege vencendo o Centro Oeste. Eleição se ganha no Sudeste e no Nordeste. Quase metade do eleitorado brasileiro está entre Rio, São Paulo e Minas.

Está na hora de Ratinho Jr, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite saírem a campo. Saírem mesmo. É falar com todos os veículos jornalísticos, com todos os grupos de empresários, com todas as associações comerciais. É pegar pesado com redes sociais para impulsionar na direção destes três estados muito conteúdo. É falar de grandes questões nacionais. Precisam, cada um deles, entender qual sua estratégia para pautar o debate nacional. Para você começar a pautar uma eleição, precisa antes consolidar um eleitorado que o defenda. Nenhum dos três começou a fazer isso.

É hora de começar se querem estar no jogo.

Agora, embora não seja impossível, o jogo está bem encaminhado para ser jogado entre Lula e Flávio Bolsonaro. E tem um detalhe, tá? Se Lula puder escolher seu adversário, será Flávio. Claro.

Para o eleitor de Centro, essa eleição vai ser o inferno na terra. Mas, perante Flávio, muitos ainda assim vão se contorcer todos e, no final, votar ainda assim em Lula. Não todo mundo, mas muitos vão. Se Lula puder escolher, ele vai de Flávio. E isso quer dizer, também o seguinte. Ninguém vai bater em Flávio Bolsonaro, pela esquerda, antes de agosto ou, se puder, setembro.

Se ninguém bate em Flávio pela esquerda, alguém baterá pela direita? Alguém, além da imprensa, vai lembrar quem Flávio Bolsonaro é? Sim, sim, muita gente vai se ofender, ficar indignada, “Bolsonaro tentou um golpe militar”! Jura que estamos cogitando botar seu filho no segundo turno? O Brasil está, sim. E com chances de vitória. Mas, sabe o que é? O Brasil é conservador, Lula não é. O antipetismo é forte. Como o ministro Fernando Haddad já disse, a economia não vai eleger ou derrubar ninguém, nesta eleição. E as pessoas, elas não entendem direito o que é um golpe militar. Não entendem direito o que é uma democracia. As pessoas não entendem direito muita coisa. Na internet, a experiência de lidar com as vozes mais presentes da esquerda é uma de lidar com quem te olha de cima.

A gente vai, coletivamente, reorganizar a conversa que temos sobre o cenário eleitoral? Ou vamos ficar nisso aqui mesmo?

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