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Lula não entendeu evangélicos

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Tem três problemas e uma sapiência no discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no sábado, durante a reunião de aniversário do PT, na Bahia. A sapiência é a seguinte: Lula deu uma bronca na militância. Meia esquerda, nas redes sociais, está dizendo que a economia está uma maravilha, que Lula tem tudo pra ganhar no primeiro turno. Só tem um problema. A sociedade discorda. O governo é reprovado pela população. Sim, por margem estreita, mas não é um governo popular. Então um bom pedaço do discurso de Lula é tirar o naco mais dedicado da militância, aquela turma que vai às reuniões nacionais do partido, da zona de conforto. É mostrar que vai precisar ter muita energia para encarar esse pleito.

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O que a Pesquisa Meio/Ideia mostrou, na semana passada, é que Flávio Bolsonaro já está competitivo no segundo turno. E ainda é fevereiro, gente. Vai ser uma eleição muito suada, muito difícil, para todo mundo que está na competição. Vai ter muitos altos e baixos. Veja, se você pergunta lá no Palácio do Planalto, ninguém estava achando que ia ser moleza. Só que, de alguma forma, o recado não havia chegado à militância. Hora de arregaçar as mangas e descer do Olimpo imaginário. Claro, o cenário está longe de definido, não sabemos quem serão os candidatos todos à presidência, as alianças não foram traçadas nem nacionalmente, nem regionalmente. O momento de começar o trabalho é agora. E, vejam bem, o bolsonarismo e Gilberto Kassab já estão trabalhando duro. O PT ainda não tem candidato a governador nem em São Paulo, nem em Minas Gerais, que são os estado nos quais o partido precisa avançar forte para ter segurança de vencer as eleições. Daqui a pouco Romeu Zema aparecerá filiado ao PSD, sim essa conversa rola, e o PT ainda sem candidato em Minas e São Paulo.

Esta é a sapiência de Lula. O jogo que ele entende, que conhece. Agitar a militância, injetar ânimo e botar para trabalhar. Não há político como Lula com esta habilidade, no Brasil. Só que, ao mesmo tempo em que ele tem essa capacidade, em que a põe em jogo, Lula também tem seus vícios.

Primeiro, Lula afirmou que não tem mais Lulinha Paz e Amor. Direito dele. Só tem um detalhe: Lulinha Paz e Amor é a persona do presidente que atrai o voto não-petista e moderado da classe média urbana. Este é um eleitor que votou nele, em 2022. A versão jararaca agita a militância de esquerda, da gás no pessoal, mas perde aquele voto. Pode funcionar estrategicamente. Só que, aí, vai precisar de algum outro voto nalgum lugar. O PT parece querer o voto mais popular das periferias urbanas.

Então, aí vem o segundo. “90% dos evangélicos ganham benefícios do governo. Nós não podemos esperar que eles falem bem de nós. Nós precisamos ir para lá, conversar.” Frase de Lula. Mas isso é de uma estupidez. É inacreditável. Gente, não existe mais falar numa reunião do PT e só quem lê jornal sabe o que rolou. Não é mais assim. Essas coisas viram corte e, justamente este trecho, é o corte que mais circulou no meio evangélico desde sábado. E sabe o que os evangélicos ouviram? Uma ofensa profunda. Lula achou que estava ofendendo? Possivelmente, não. A esquerda brasileira não entende a periferia urbana, não compreende seus valores, e é em momentos assim que isso fica óbvio. A gente precisa falar mais sobre isso.

Por fim, o terceiro problema. Lula pediu que a militância petista vá pras redes brigar porque, afinal, os bolsonaristas estão nas redes brigando. Talvez seja boa estratégia eleitoral. Mas é também uma capitulação. É concluir que o jeito de fazer política, no tempo das redes e algoritmos, é se metendo na lama. Veja, a esquerda já vem fazendo muito disso. Tem alguns influenciadores de esquerda que defendem portar-se como bolsonaristas no ambiente digital, gente que dá cursos de comunicação dentro do Partido dos Trabalhadores. Permitir que a família Bolsonaro dite a maneira como todos os grupos políticos atuem na internet é uma derrota da sociedade e um ataque à própria democracia. É ajudar a fazer com que nosso ambiente de conversa apodreça ainda mais.

Parte da defesa democrática inclui trabalhar por um ambiente político melhor. Não cooperar para que piore. Aí, de novo. Lula incentiva, a militância vai.

Mas vamos nos aprofundar nessas duas últimas discussões? Por que a periferia se ofendeu com o comentário? Por que o corte de Lula sobre os 90% de evangélicos circulou tanto? E por que agir qual bolsonarista piora a democracia? Vem comigo.

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Parte do nosso esforço de ter uma pesquisa eleitoral mensal é que ela nos ajuda a entender o que está acontecendo. É informação. É ter o pulso da eleição. É compreender os desejos, as vontades do eleitor. É poder reagir com tempo de reagir. Nem sempre, a informação é aquela que a gente quer ouvir. Pra gente, a pesquisa não é algo em separado do jornalismo. Não. Pensamos juntos, pesquisadores e jornalistas, sobre o que precisamos compreender para aí ir às ruas perguntar.

Uma das novidades do jornalismo político que a internet trouxe é a dos veículos que contam o que desejamos ouvir. É ótimo. Dá calorzinho no coração. Tá valendo, não é o que a gente faz. Queremos entender. Porque, mais do que nunca, precisamos entender cedo quando ainda há tempo para agir. Para dissecar. Se você assina o Meio, você está entre os primeiros a receber a Pesquisa Meio/Ideia. Em PDF. Para se juntar à campanha de injetar informação de qualidade nos seus grupos de WhatsApp. Seja quem traz informação no mundo de desinformação. Seja quem começa as conversas importantes. No segundo em que o Tribunal Superior Eleitoral liberar a gente, você recebe o arquivo. E distribui para todo mundo. Distribua. Assine.

E este aqui? Este é o Ponto de Partida.

No início de 2022, o PT escolheu jogar na gaveta uma pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo com os eleitores não-polarizados. A pesquisa é pública, está lá no site para baixar. Tinha, direta e indiretamente, coisas que já conhecemos bem. A impopularidade da CLT, o franco desejo de ascensão social, essa relação dúbia com o Estado. As conclusões batiam de frente demais com convicções profundas da esquerda brasileira sobre que tipo de política pública é ideal para o Estado. Construir um discurso para este pedaço da sociedade, o da periferia urbana, exigiria rever políticas públicas muito caras, defendidas há muitas décadas. O partido escolheu, não, a gente não quer, muito obrigado.

Uma cultura protestante é diferente de uma cultura católica. São olhares diferentes, ideologias diferentes, compreensões distintas da vida. Nenhum conhecimento novo, aqui. Max Weber escreveu seus ensaios sobre a Ética Protestante do Trabalho em 1904 e 1905. São 120 anos. O protestante considera trabalhar duro uma missão divina, uma honra. A palavra aqui é essa: missão. Disciplina. Autocontenção. Crescer por conta do próprio trabalho é o prêmio de quem agiu com a disciplina devida. As leis trabalhistas que temos foram construídas para garantir estabilidade no serviço e proteção em relação ao empregador. Tudo certo, tudo importante. O que os evangélicos brasileiros querem não é se estabilizar, garantir o salário todo mês e ter segurança em caso de ficarem desempregados. O que querem é trabalhar por conta própria, construir alguma coisa, e ascender socialmente. Vamos falar de um jeito claro: querem virar burguês.

Isto quer dizer que o tipo de política pública que você desenvolve para este público é aquela que facilita a vida de quem deseja trabalhar, trabalhar duro, trabalhar muito, e sentir que, mesmo lentamente, esse trabalho está levando a uma vida mais confortável. Que um dia essa pessoa poderá ter uma casa no campo, um carro mais bacana. Se firmar na classe média. Não é o mesmo tipo de política pública que leva à criação de mais empregos estáveis para operários.

Muita gente na esquerda considera que essas pessoas vivem em autoengano, que esse cenário não é possível. Tudo certo. Mas é o que elas querem. Aí vem o presidente da República e diz que todos eles estão em programas do governo. Não importa se é verdade. Sabe o que bateu no ouvido? Ele está dizendo que a gente precisa de bolsa família. Quando eles têm orgulho de não precisar. Quando se sentem mal se precisam. Mas que tiro no pé. Sem Lulinha Paz e Amor, a classe média centrista vai embora. Dizendo que evangélico precisa de governo, a periferia urbana vai embora. A estratégia, qual é?

Aí a gente volta para a democracia. Para a crise da democracia. Democracia é discurso. Democracia é opinião, é debate. Democracia é voto. Se você abandona a possibilidade do discurso civilizado, do debate público e passa a se comportar como um selvagem que ataca todo mundo que discorda, nas redes sociais, não se engane. Não é pela democracia que você está lutando. Você está lutando por poder.

E este é o ponto mais grave do discurso de Lula. A realidade não mudou. Ele precisa, para ganhar, dos votos de quem não é de esquerda porque, se você junta a esquerda toda, dá só um terço do Brasil. Lula sempre se elegeu com uma aliança maior do que isso. Será que não tem ninguém por aí que queira fazer uma campanha defendendo o regime democrático, os seus valores, desde o início?

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