Flávio Bolsonaro pede apoio de “todes” e testa versão paz e amor para as eleições
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Flávio Bolsonaro fez uma postagem na segunda-feira que causou um alvoroço e tanto nas redes. E tudo que causa confusão nas redes acaba extravasando pro mundo real, ainda mais em ano eleitoral.
Ele escreveu assim: “Tá todo mundo querendo vencer a discussão. Mas o que precisamos é ganhar a eleição! Gostaria de contar com todas, todos, todes , todys e todXs!”
Tem gente que se leva a sério demais — e por isso leva tudo a sério demais — e está chamando isso de “aceno ao centro”. Como se o centro ideológico do Brasil tivesse todo embarcado na defesa da linguagem neutra.
Mas eu queria propor outras leituras aqui dessa postagem. E dos movimentos de Flávio Bolsonaro em seu conjunto.
Primeiramente, esse post do Flávio claramente hashtag contém ironia. Em vários aspectos. Um deles foi uma alfinetada bem irônica na própria família, em particular na madrasta, Michelle
Bolsonaro, que, por sua vez, na véspera havia postado um vídeo fritando bananas, em clara alusão ao apelido de Eduardo Bolsonaro, vulgo “Dudu Bananinha”. Eduardo, por sua vez, havia dito na véspera que Michelle e Nikolas Ferreira não estavam apoiando Flávio o suficiente e isso mostrava que eles sofrem de “amnésia”.
Nikolas, por sua vez, disse, logo depois de visitar Jair na cadeia, que Eduardo “não está bem”, o que foi confirmado pela mulher do Eduardo em outra postagem.
Bom, Flávio foi às redes mandar uma indireta nada sutil convocando o clã e os aliados a parar de brigar e se unir em torno de sua candidatura. Vale lembrar, inclusive, que Nikolas já se vestiu jocosamente de mulher para fazer discurso transfóbico no plenário da Câmara. Todes se lembram, certo?
Mas a ironia de Flávio tem mais uma camada. Essa mais interessante, a meu ver, embora a gente adore uma fofoca familiar. Quando importa a linguagem neutra para seu discurso pontualmente, nesse contexto, ele está buscando demonstrar que tem senso de humor, algo raramente associado ao bolsonarismo, convenhamos.
Está aproveitando pra tirar sarro dos identitários, que estão cada vez mais sendo questionados fora de um núcleo político na esquerda, a ponto de o próprio Lula ter proibido a linguagem neutra nas comunicações oficiais do governo. Está pautando a conversa com algo absolutamente inconsequente, mas que, seguindo o manual de ideólogos da direita e da extrema direita, apenas por mobilizar já cumpre um papel. E está, ao mesmo tempo, reforçando um aspecto de sua candidatura que ainda foi pouco explorado, mas que tem muito potencial de conquistar votos: sua juventude.
Por isso que eu não quero ficar falando só desse post, né? Porque isso está inserido numa estratégia mais ampla. Vamos falar dela?
Flávio Bolsonaro está fazendo um esforço tremendo pra se apresentar como um Bolsonaro moderado. Ele já falou isso textualmente algumas vezes.
A tarefa não é fácil, porque, além do sobrenome que carrega, ele é cria política do pai. Suas pautas são as mesmas, suas homenagens a figuras ligadas às milícias no Rio são as mesmas, sua linguagem é a mesma. Se estava difícil pra Tarcísio se descolar do Jair, imagine pro Flávio.
Tanto que, quando anunciou sua candidatura, até a Faria Lima o rejeitou. Primeiro porque via em Tarcísio seu favorito e vinha construindo essa alternativa com muito mais convicção. Segundo porque, ao ver em Flávio a associação com o radicalismo do pai, entendia que ele é mais frágil contra Lula, o que os números das pesquisas vinham confirmando.
Acontece que Jair quis Flávio. Justamente pra manter seu legado e seu sobrenome como protagonistas. A candidatura nasceu como instrumento de preservação. Era uma candidatura tampão da família, que dava a derrota para Lula em 2026 como certa. Não era, no início, um projeto claramente estruturado para vencer. Era só manutenção de espaço. O que viesse além disso seria lucro.
Só que o ambiente eleitoral mostrou que Flávio vem se consolidando como o antagonista de Lula e com números que apontam para uma eleição apertada, talvez até mais do que em 2022. Na pesquisa Meio/Ideia de fevereiro, Flávio saltou para 16,3% das intenções de voto na pergunta espontânea, vindo de 6,6% em janeiro. No segundo turno, na estimulada, já aparecia com 41% contra 45,8% de Lula, sendo que tinha 36% menos de um mês antes. Isso tudo antes de a campanha começar e diante da inércia dos outros candidatos da direita, é verdade. Ou alguém sabe cadê Ratinho Jr?
Mas o fato concreto é que Flávio está aglutinando o voto da direita rapidamente e, por isso, está precisando profissionalizar sua campanha.
Tanto é que, conforme informa Andreia Sadi, no g1, Flávio sondou o marqueteiro Paulo Vasconcelos, responsável pela campanha presidencial de Aécio Neves em 2014, e que trabalha atualmente com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que também se movimenta como pré-candidato ao Planalto. Vasconcelos conhece bem Minas Gerais, terreno fundamental pra quem quer realmente se eleger.
Antes mesmo de ter a consultoria formal de um marqueteiro, Flávio já vem agindo nessa chave do bolsonarismo moderado, do bolsonarismo sabor centrão, pra usar a expressão de uma de nossas espectadoras.
E essa estratégia tem chance de colar. Não tanto porque ele seja mesmo um grande moderado, nem tanto porque o público acredite piamente que ele o seja. Mas porque pode se estar construindo uma percepção de que, simplesmente por ser mais jovem que o pai, ele é mais “moderno” ou mais “evoluído”, menos radicalizado, menos reacionário.
Essas construções, na política, costumavam ser lentas e sutis. Só que já não são mais tão lentas com as redes sociais e sutileza não é virtude da direita bolsonarista. Explorar a fragilidade de Jair é algo que o torna mártir e tem o efeito simultâneo de virilizar seus filhos, jovens e ativos.
Explorar a idade de Lula já seria uma estratégia de qualquer maneira, porque deu muito certo nos EUA, com Joe Biden — noves fora o fato de que Lula está com boa saúde e, pra quem o viu pulando no trio elétrico na Bahia, está claramente com energia de sobra. Isso pouco importa, a campanha vai ter de tudo, até mentira, gente.
Mas onde estou vendo que a coisa pode prosperar e que não parece estar tanto no radar de muitos. Ao tentar se vender como Flavinho Paz e Amor, como versão “evoluída” da extrema direita, como bolsonarismo centrônico, Flávio Bolsonaro se apresenta como um conservador mais jovem, mais antenado com seu tempo e explora, em contraposição, o cansaço de parte grande do eleitorado com Lula, não necessariamente por sua idade, mas pelo fato de que ele já governou três vezes.
O Brasil está à direita de Lula, é um dado. Ele se elegeu com votos conservadores, fato também. Entre esses conservadores, alguns só não votaram em Bolsonaro porque viam nele um radicalismo que não veem automaticamente em Flávio, sua versão “atualizada”, “mais jovial” — palavras que ouvi de eleitores de Lula que não querem mais votar nele, tá?
Esse desgaste de material que Lula representa é real, tanto que coisa de 60% dos ouvidos em pesquisas recentes dizem que ele não devia se candidatar à reeleição. Tem gente que topou votar nele em 2022 e, como não entende que ele entregou à altura do que prometeu, não quer votar nele de novo, topa qualquer alternativa, principalmente se representar algum tipo de frescor, de novas promessas. Flávio não representaria isso naturalmente, sendo herdeiro de quem é. Mas, na ausência de outros competidores e em contraposição a Lula, pode emplacar essa percepção. É hora de a campanha de Lula apresentar algo “fresco” de volta.


