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Khamenei não faz falta

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Nunca, na história de Israel, o país ordenou a morte de um chefe de Estado. Com os americanos a coisa é mais controversa mas, pela lei, tudo indica que a ordem de morte do aiatolá Ali Khamenei foi ilegal. A ruptura por ambos os países com sua tradição importa aqui porque é uma porta que se abre. Principalmente no caso americano. Agora pode assassinar presidentes, reis?

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Antes de tudo: eu sei, estamos acostumados a falar Khamenei. Mas que tal a gente falar como eles dizem?

Antes de tudo, contexto. Porque contexto é importante. Neste caso, é fundamental. Khamenei era um monstro. Ditaduras vêm de muitas formas, a iraniana é das mais abjetas do mundo. Só nesta década, tanto ONU quanto Anistia Internacional documentaram um nível de barbárie que, aqui nas nossas ditaduras da América Latina, jamais vimos.

Estupros em série de manifestantes. Homens e mulheres. Presos nas ruas enquanto cobravam o direito feminino de mostrar os cabelos, enquanto se queixavam de crise econômica ou mesmo da brutalidade do regime. Presos, jogados em celas imundas, despidos, cercados por oficiais da Basij, da Polícia Moral. Aí um depois do outro. Uma das vítimas de estupro pelas forças policiais tinha 12 anos, segundo um relatório a Anistia Internacional de dezembro de 2023. Mas não é só. Chibatas, muitas chibatadas, de deixar as costas em carne viva, para depois vir com choques elétricos.

E, claro, soltar a metralhadora contra passeatas. Agora em janeiro, o governo de Khamenei mandou abrir fogo contra quem protestava. Em dois dias, por baixo trinta mil pessoas foram mortas na rua. Raríssimas ditaduras chegam a este nível de violência. O regime cortou a internet, desligou as luzes, dificultou ao máximo que imagens fossem feitas, e aí, do alto de prédios, os soldados soltaram dedo no gatilho. Pânico, sangue, morte. Este é o Irã dos aiatolás nos anos 2020.

Ainda assim, os americanos consideram ilegal simplesmente mandar matar chefes de Estado. E isso tem razão de ser, tá? Na década de 1960, a CIA planejou o assassinato de alguns líderes nacionais. O caso mais famoso foi Fidel Castro, mas não só. Planejaram a morte de Patrice Lumumba, do Congo, como de Rafael Trujillo, da República Dominicana. Todas foram operações fracassadas. Na década de 1970, uma Comissão do Congresso Americano comprovou, com documentos, que estas operações foram planejadas. Foi um mega-escândalo. Como pode uma agência de espionagem, sem qualquer assinatura de presidente ou autorização do Congresso, tocar um ato deste tipo? Não quer dizer que presidentes não soubessem, no caso de Castro John Kennedy certamente soube. Mas era uma operação secreta, por baixo dos panos.

Então primeiro Gerald Ford, depois Jimmy Carter e, por fim, Ronald Reagan, assinaram ordens executivas, cada vez mais detalhadas e abrangentes, afirmando que não, não pode. Uma ordem executiva não é uma lei. É uma ordem presidencial. Pode ser revogada por qualquer presidente, mas é preciso que o faça como ato público. Esta ordem não vale para guerras, durante a Guerra do Iraque planejou-se a morte de Saddam Hussein num ataque militar. Mas, para uma guerra ser considerada guerra, é preciso que o Congresso autorize o ataque. Não há autorização pelo Congresso desta ação. Ela entra num limbo jurídico, considerado um ato de defesa, mas não parte de um conflito permanente e continuado.

Então, vejam, tem uma linha aqui, uma linha traçada por presidentes americanos logo após a renúncia de Richard Nixon, que foi cruzada. Os Estados Unidos, a partir de agora, se outorgam o direito de matar líderes nacionais quando decidirem que é de seu interesse. Quem decide tal interesse? Donald J. Trump. Há uma razão para nenhum presidente desde Ford ter tomado esta decisão, agora rompida. Você precisa manter algum nível de credibilidade internacional. Ao menos formalmente parecer estar tomando decisões com alguma legitimidade. Com algum nível de legalidade. O país é a maior potência militar do mundo, a maior economia, e a principal influência cultural do Ocidente. Quando este país passa a se outorgar o direito de definir que governos são legítimos e quais não são, o mundo deixa de ter regra. Deixa de ter mesmo que a aparência de regras.

Agora, o que tudo isso diz a respeito do Irã? Ou melhor: dos iranianos. Porque, vejam, a comemoração da morte de Khamenei é real. Este sujeito era odiado. Vai ser difícil encontrar um único iraniano no exterior que não esteja exultante e, principalmente, com alguma esperança de que a ditadura carniceira possa estar no fim. Eu sei, eu sei. A vida ia ser mais fácil se no mundo as pessoas fossem ou mocinhos, ou bandidos, e torcer pra um quisesse dizer ser contra o outro. Muita gente na internet faz força pra acreditar que o mundo é assim. Só que não é. Vamos falar da esperança iraniana?

O Irã não é o Iraque, muito menos o Afeganistão. O Estado iraniano é vasto, com uma imensa burocracia, com parlamento funcional, umas 400 estatais, mais três mil companhias de capital misto. Existe uma cultura política milenar, foi império por muito tempo. Tem uma vasta produção cultural consumida amplamente, especificamente poesia, que é muito popular, música e cinema. Mais de 40% da sociedade tem mais do que ensino médio, e isso inclui ensino técnico. Números do Banco Mundial, 23% da sociedade tem ensino superior. Mais mulheres do que homens, tá? É ligeiramente mais alto do que o Brasil. É um país repleto de engenheiros, físicos, químicos, advogados, médicos. O ponto aqui é o seguinte: este país não desmonta. Nunca, na pior crise, jamais se desmontou. Um regime sai, outro entra. Por uma razão simples, quando você tem um Estado estruturado, não é preciso reconstruir tudo. Há um vasto conhecimento burocrático sobre como o país funciona que pode ser reativado no instante em que há uma nova estrutura de governo montada.

Agora, isso não quer dizer que não vá desembocar numa ditadura militar. Pode ser que a Guarda Revolucionária faça um acordo, entregue os aiatolás, e assuma o país que eles já controlam um bocado. É um cenário bastante possível e isso quer dizer que a brutalidade pode se manter. Pode acontecer, também, de se implantar uma ditadura monárquica, embora aí seja mais difícil. Talvez uma monarquia parlamentarista, como era nos anos 1950. Ou sei lá. É bastante possível que não aconteça nada. Que o Conselho de Especialistas escolha um aiatolá supremo novo, e a ditadura tenha seu terceiro líder em 50 anos.

A sociedade é dividida. O governo escolhe entre os jovens mais pobres e menos educados, em geral vindos do interior mais rural, aqueles que recruta para a Basij. A Polícia Moral. São pobres e têm um imenso ressentimento contra respeito da classe média cosmopolita, que assiste BBC, gosta de cinema cabeça, lê poesia uns pros outros. Estes rapazes são incentivados a agir com toda a brutalidade que podem. Descem o cacete na rua, mesmo. E, quando levam gente presa, aí é o pior do pior. Incentivar o ressentimento contra a classe média que compõe boa parte dos manifestantes e incentivar a violência mais asquerosa é parte do jogo. Porque, na cabeça dessa turma que compõe a máquina de repressão ao regime, tudo que eles têm eles devem ao governo dos aiatolás. E o nível de violência que impuseram nas últimas décadas, eles temem, pode se voltar contra eles se o regime cair. Então, enquanto nos prédios de classe média soltam fogos porque Khamenei morreu, nos porões está um pessoal que não ganha absolutamente nada se o governo cair.

E é isto, o fato de quem está na repressão dificilmente será convencido a se juntar a quem deseja o fim da ditadura, que sustenta o governo. As ondas de protesto são cada vez maiores. Não tem fissura na ditadura. Então, sim, estes ataques do fim de semana afetaram duramente o governo. É possível que todo o comando militar mais sênior tenha sido decapitado. Um sinal disso é a irracionalidade da reação. O Irã está disparando contra todos os vizinhos, inclusive contra aliados como o Catar. Não faz sentido você comprar uma briga com toda a região, com todo o mundo árabe, ao mesmo tempo. Mas isto quer dizer que o regime tenha sido atingido a ponto de poder quebrar?

Tudo o que o governo dos aiatolás tem mostrado, até hoje, é que é um sobrevivente. Ao mesmo tempo, nunca foi atingido e enfraquecido como agora. E, sim, é possível simultaneamente estar chocado com o fato de os Estados Unidos decidirem que podem escolher que chefes de Estado deve morrer e, ao mesmo tempo, afirmar. Ali Khamenei não faz falta no mundo.

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