Flávio não empolgou bolsonaristas
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Em fevereiro de 2024, exatamente dois anos atrás, o ex-presidente Jair Bolsonaro levou 185 mil pessoas para a Avenida Paulista. Ele já estava sendo investigado por tentativa de golpe de Estado mas o julgamento não havia começado. Naquele dia, o mote do protesto era a soltura da turma que depredou os palácios dos três Poderes, no 8 de janeiro de 2023. Agora nesse domingo, dois anos depois, Flávio Bolsonaro conseguiu juntar 20 mil e 400 pessoas. Em ambos os casos, a contagem foi feita pela mesma equipe da Universidade de São Paulo, agora em conjunto com a ONG More in Common. Mesma técnica, mesmo software. E, sim, a manifestação do domingo ocorreu num contexto muito específico. Flávio está crescendo nas pesquisas de uma eleição presidencial que vai acontecer este ano. O que isso quer dizer?
Bem, vamos lá. Pra gente ter uma média. No dia 7 de setembro do mesmo 2024, Bolsonaro levou 45 mil e quatrocentas pessoas pra Paulista. Em abril do ano passado, 44 mil e novecentas. No 7 de setembro, eles adoram um sete de setembro, 42 mil e duzentas. Rolam atos mentores, tá? Em junho do ano passado, foram 12 mil e quatrocentas. Mas, juntando-se os grandes eventos bolsonaristas dos últimos anos, está clara uma coisa. O ato de domingo foi um fracasso retumbante. Ai, de novo, como pode se Flávio parece estar crescendo nas pesquisas.
A equipe da USP e More in Common fez uma pesquisa entre os manifestantes de 1º de Março. Ouviu deles que 95% apoiam o impeachment do ministro Alexandre de Moraes e 93% apoiam o de Luiz Antonio Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal. Nikolas Ferreira, o deputado mineiro que convocou a manifestação? Citou tanto Alexandre quanto Toffoli. Pediu cadeia para o ministro Alexandre. Silas Malafaia, mesma coisa. Citou a ambos. Falou em “ditador de toga”. Aquelas coisas tipicamente bolsonaristas, sabe? Zero surpresa, o discurso típico, carregado de violência, radical.
Mas e Flávio? Flávio falou em liberdade para seu pai, para os presos do 8 de janeiro. Falou contra Lula, falou contra o “Sistema”, e apenas deu uma passadinha rápida pelo Supremo. Comparado com o discurso da turma radical-raiz, ele saiu fraco. Vejam, esse bolsonarismo fiel, que olha para o ex-presidente e grita Mito, Mito, que sai às ruas no domingo, veste a camisa da Seleção, se motiva, se entusiasma, não é gigante. Corresponde a 12, 13% dos brasileiros.
Vamos seguir esse raciocínio, aqui. Sim, essa é a turma abertamente golpista. Agora, mesmo os movimentos políticos populares integrados à democracia precisam da militância mais engajada. O que faz de um movimento popular forte é essa paixão que este perfil de liderança política inspira. Leonel Brizola tinha isso. Lula tem isso. Olha, até Ciro Gomes tem isso. Como Bolsonaro tem.
Essa militância mais engajada é quem defende seu líder todo dia, toda hora. Antigamente, ia a reuniões de partido, comprava pins, distribuía panfletos, organizava reuniões de convencimento com os vizinhos. A expressão “veste a camisa” vem disso, né? Usar a camiseta do político. Hoje em dia, o trabalho é bastante mais fácil. É quem trabalha pelo projeto no WhatsApp, nas redes sociais. Mas, mesmo no digital, tem muita emoção envolvida. É a emoção que mantém a pessoa engajada. Claro, cada projeto político vai ter suas características. A paixão vem de razões muito diferentes. No caso do bolsonarismo, é a virulência. É a disposição de botar tudo abaixo para reconstruir do zero com a cara de Jair.
Esse eleitor responde ao líder político. Quem viu Leonel Brizola na rua ou no palanque sabe a potência que o cara tinha. O eleitor gritava, ele gritava junto. Eu lembro, até hoje, da sensação de força e calor de um abraço que o Brizola me deu quando eu tinha sete anos. O cara não poupava energia nessa entrega. Líder popular não tem superego, não se sente ridículo, não guarda cautela no momento da relação com o eleitor. A barbárie que emana de Jair Bolsonaro é o que comove seu eleitor. Essa energia violenta que Bolsonaro põe, o fato de que ele consistentemente ameaça com ruptura democrática, é o que alimenta esses 12, 13% que estão no coração do movimento. Que impulsionam o movimento.
Olha o que disse Nikolas Ferreira: “Eles estão achando que vai derrubar um e vai parar. Se a gente derrubar um, cai outro, cai Moraes, cai todo mundo.” Ele está prometendo o caos. Para o eleitor mais radical dentro os mais radicais, é tudo que deseja ouvir. Lembram de Eduardo Bolsonaro, no ápice da crise das tarifas? “Se houver um cenário de terra arrasada, pelo menos eu estarei vingado desses ditadores de toga.”
O Flávio não tem isso nele. O Flávio é político de Alerj, a Assembleia Legislativa do Rio. Vindo de uma família movida a radicalismo, ele é mais o cara do conchavo, do acordo, da rachadinha, do Centrão. Nikolas Ferreira queria fazer uma grande manifestação Fora Xandão, Fora Toffoli. Flávio, não. Queria fazer uma manifestação Bolsonaro Livre e só citar o STF ali meio como parte desse sistema. Sempre que a mensagem não é clara, as manifestações bolsonaristas esvaziam. E a mensagem não é clara quando, ironicamente, eles hesitam em radicalizar. No domingo, aconteceu isso. Um pedia uma coisa, o outro queria outra, debateram publicamente, ficou torto. Claro, Nikolas trouxe a energia radical, Malafaia trouxe, mas o candidato, a estrela da festa, não trouxe. Deu metade do que costuma dar de gente, deu uma fração do que costuma ser quando a coisa é grande.
Pra gente, o importante é o seguinte: dá para concluir alguma coisa para as chances eleitorais de Flávio? Olha, parece que sim. Vem comigo.
Flávio é um ator racional. Esquece o que você acha dele, se ama, se odeia. Não é disto que trata a conversa. Ele tem uma meta: soltar o pai. Sua candidatura existe por duas razões e apenas duas razões. Soltar Jair e manter o nome Bolsonaro como o líder da direita. A primeira coisa se faz elegendo-se presidente da República. A segunda, não deixando ninguém ocupar o lugar. Ou seja, Flávio tem de ir pro segundo turno contra Lula, mesmo que perca. O que não pode é outro candidato ir. Porque, aí, acabou.
Nikolas Ferreira tem outro objetivo. Ele pode e deve radicalizar porque o que ele quer é se eleger deputado federal com tanto voto, mas com tanto voto, que carrega consigo um monte de outros deputados juntos.
Flávio tem de tomar cuidado. Porque, se ele se elege e, no primeiro dia, dá graça presidencial para o pai, a soltura não é imediata. Antes, a ordem do novo presidente Flávio passa pelo Supremo e, se o Supremo diz que é inconstitucional perdoar o próprio pai, acabou. E sabe o quê? O Supremo vai dizer que é inconstitucional. Então Flávio precisará negociar. Com Alexandre não terá discussão. Com Toffoli? Com Toffoli, tem. E Toffoli pode ajudar a conseguir outros votos lá dentro. Flávio precisará negociar com o Supremo, e é por isso que ele fica dois tons abaixo. Flávio pensa como Centrão, pensa em negociata, não pensa como Eduardo, como Carlos, como o pai. Claro, claro, dá medalha pra miliciano assassino, é corrupto pra cacete, ele é um Bolsonaro. Só que é um Bolsonaro com esse jeito Centrão.
Seu ponto forte, caso se eleja presidente, é a capacidade de negociar. Vai contar horrores para tentar libertar o pai. Seu ponto fraco como candidato é a dificuldade que terá para empolgar a militância mais engajada. Hoje, quando o eleitor que não gosta do PT vê a lista dos eleitores, conhece seu nome. Conhece pouco Ratinho, pouco Caiado, pouco Eduardo Leite.
O que não está respondido é: Flávio conseguirá empolgar a militância? Precisa muito. Ainda não conseguiu. Talvez consiga. Talvez baste o nome. Por enquanto, está na frente nas pesquisas mas não gera paixão. Descobrimos isso domingo. Olha, essa eleição ainda está aberta.


