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O escândalo Master não é de esquerda nem de direita

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Afinal, escândalo Master é de direita ou de esquerda? E isso realmente importa?

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As redes sociais, como de costume, transformaram o caso Master numa guerra de paixões. Eu quero descrever alguns dos argumentos de cada campo ideológico pra gente analisar junto o saldo do que se sabe até aqui e pra mostrar como, talvez, isso não importe muito, não.

De um lado, a esquerda militou pelo “BolsoMaster”. Fabiano Zettel, pastor que é cunhado e operador de Daniel Vorcaro, e que também foi preso pela Polícia Federal, foi o maior doador pessoa física das campanhas de Jair Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas em 2022.

Nikolas Ferreira, deputado mineiro e um dos maiores expoentes da direita, voou num jato da empresa de Vorcaro por dez dias fazendo campanha para Jair pelo Nordeste e por Minas Gerais.

Aí a gente chega nas lideranças do Centrão, essa direita pragmática que ficou confortável em se assumir de direita de uns tempo pra cá. Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro e a quem Vorcaro chamava de “grande amigo da vida” em mensagens pra namorada, foi o pai da emenda que quadruplicaria o Fundo Garantidor de Crédito — a “bomba atômica” que salvaria o Master e foi muito comemorada pelo banqueiro.

E, ainda no plano aéreo, um e-mail da Prime You, a empresa de aeronaves de Vorcaro, registra helicópteros fretados para Ciro e para Antonio Rueda, presidente do União Brasil, depois da prova de Fórmula 1 de Interlagos. Todos negam envolvimento com o escândalo.

Do outro lado, a direita rebateu com o “LulaMaster”. Vorcaro teve uma reunião fora da agenda com Lula no Planalto, e a considerou “ótima”. O encontro foi articulado pelo ex-ministro de Dilma Guido Mantega — que recebia um milhão de reais por mês como consultor do banco. Jaques Wagner, líder do governo no Senado, foi quem indicou Mantega e Ricardo Lewandowski para trabalhar para o Master. O escritório de Lewandowski recebeu mais de seis milhões enquanto ele era ministro da Justiça de Lula.

E olha que a gente nem começou a falar ainda dos governos estaduais, certo?

Para a militância e para o cidadão comum, mas engajado nas redes, faz sentido enxergar a política por essa lente. É assim que a maioria das pessoas politizadas organiza o mundo — esquerda contra direita, nós contra eles. Ainda mais em tempos de polarização. Ainda mais em ano de eleição. Isso não é errado. Mas é contraproducente.

Quem tenta entender o que está acontecendo com um mínimo de honestidade intelectual precisa resistir a esse enquadramento. Porque ele não dá conta do que o escândalo do Master está revelando. E nem do que vai ser necessário fazer para consertar as estruturas que permitiram que ele acontecesse.

Vamos aos fatos, então. É verdade que até aqui os nomes do campo da direita e do Centrão apareceram em maior número e com vínculos mais concretos com o Master. As doações de Zettel para Bolsonaro e Tarcísio são dados do TSE. Os ex-diretores do Banco Central que recebiam propina de Vorcaro foram nomeados para seus cargos na gestão Bolsonaro, por Roberto Campos Neto, e o Estadão mostrou que Campos Neto sabia dos problemas de liquidez do Master e não interveio.

Cláudio Castro, governador do Rio pelo PL, aplicou recursos públicos de fundos de pensão no banco quando já era sabido que as práticas do banco eram, no mínimo, duvidosas. Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal, mal tinha se livrado do imbróglio do 8 de janeiro e já estava atuando para que seu banco estatal, o BRB, comprasse o Master e seus títulos podres.

O presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, que resiste a instalar a CPMI mesmo com assinaturas de sobra, aparece nas mensagens de Vorcaro em que o banqueiro relata que chegaria de surpresa para uma reunião na residência oficial do Senado à meia-noite. Coisa de quem tem intimidade, certo? Alcolumbre também é o padrinho político dos responsáveis no Amapá por botar grana do fundo de pensão dos servidores no Master.

Dito isso, quem acha que este é um escândalo exclusivamente de direita está sendo tão ingênuo quanto quem tentou colar o Petrolão exclusivamente na esquerda.

Vou desenhar aqui o caso Master com o PT baiano. O Credcesta nasceu em 2018, quando o governo Rui Costa privatizou uma rede estatal de supermercados na Bahia e, poucos dias depois, criou por decreto um cartão de crédito consignado com desconto direto na folha dos servidores públicos — operado com exclusividade pelo comprador da estatal, o empresário Augusto Lima, próximo de Jaques Wagner.

Em 2020, Lima se associou a Vorcaro e levou o produto para dentro do Banco Master, que o expandiu para 24 estados. Em 2022, Rui Costa assinou outro decreto proibindo servidores de migrar suas dívidas para bancos com juros menores, trancando milhares de funcionários nos quase 6% ao mês cobrados pelo Master. O Credcesta virou a principal engrenagem de captação do banco — e quando o castelo caiu, Lima foi preso junto com Vorcaro.

Abrindo uma nova aba que ilustra perfeitamente o meu ponto: na CPMI do INSS, que é vizinha ao escândalo do Master, aparecem Lulinha, filho do presidente, e Flávia Arruda, ex-ministra de Bolsonaro — nomes que embaralham qualquer tentativa de colar tudo num lado só.

Mas, acima de todos esses atores, até aqui, de tudo que já veio à tona, na opinião pública, quem mais se machuca com o escândalo do Master não é a esquerda nem a direita — é o Supremo Tribunal Federal. Dias Toffoli, o primeiro relator do caso, foi constrangido a deixar a relatoria depois que apareceu a conexão de seu resort com um fundo ligado ao Master.

Alexandre de Moraes tem a esposa, Viviane Barci, com um contrato de 129 milhões de reais com o banco, que ela mesma confirmou que existe e ainda tem gente alucinada tentando negar. Alexandre trocou mensagens diretamente com Vorcaro no dia de sua primeira prisão, em novembro. Os dois ministros frequentavam o círculo de Vorcaro — jantares, viagens, fórum em Londres patrocinado pelo Master, com degustações de uísque.

O Supremo é percebido em alguma medida pela esquerda como fiador da legitimidade do governo Lula por ter agido contra a tentativa de golpe bolsonarista. E, por isso mesmo, é tido pela direita como agente de uma perseguição ao bolsonarismo.

Atacar o STF pelo Master é, para a direita, o caminho mais eficiente: descredita o tribunal que julga Bolsonaro e, de quebra, respinga em Lula. Para uma parte mais radical da direita, esse movimento não é para reformar a instituição, mas para neutralizá-la. Reparem que a direita não está falando muito de Mantega ou do PT da Bahia — os alvos são Moraes e Toffoli.

A esquerda, por sua vez, passou os últimos sete anos defendendo até o que muitos já consideravam abusos do Supremo — inquéritos sem prazo, restrições duras de discurso. Agora, quando membros da Corte aparecem enredados por Vorcaro, o reflexo é o mesmo: defender o Supremo. Porque qualquer ataque ao STF soa como ataque ao campo não-bolsonarista. E aí a esquerda se enreda numa defesa impossível e abre mão de debater genuinamente como aprimorar o STF, seus mecanismos de controle e, assim, a própria democracia.

Essa conta não vai fechar. É evidente que, ao ficarmos presos a esse fla-flu de quem é o pai ideológico do escândalo nos impede de avançar nos debates que realmente importam sobre como reformar as instituições mais vulneráveis a esse tipo de corrupção e escândalo. Vamos pensar juntos?

Então, fica aqui comigo. Eu sou a Flávia Tavares, editora do Meio. Você sabia que a gente tem uma parceria com o Instituto Ideia e está fazendo pesquisa eleitoral todo mês? Pois amanhã sai uma fresquinha, quentíssima. Assinantes premium do Meio recebem antes de todo mundo, meia-noite e um já está no seu email pra espalhar informação de qualidade por aí. Esse é só um dos conteúdos que a gente está oferecendo no pacote Eleições 2026. Assine o Meio. São só 15 reais por mês.

Os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes são a prova ambulante de que as categorias de esquerda e direita não funcionam como critério para separar o joio do trigo nesse tipo de escândalo. Toffoli foi advogado do PT, depois chamou o golpe de 1964 de “movimento” e se aboletou no bolsonarismo. Moraes era o homem forte de Temer, execrado pela esquerda quando cortava pés de maconha, e depois virou herói progressista por enfrentar Bolsonaro. Eles não são de esquerda nem de direita. São do poder. E o poder, no Brasil, muda de lado ideológico — mas os que se agarram a ele permanecem.

A Lava Jato deveria ter nos ensinado isso. Enquanto o PT ficou publicamente demonizado, os partidos do Centrão se reagruparam e partiram para o esquema seguinte. E depois se descobriu que parte do que a operação produziu serviu a um projeto de poder de Sergio Moro e Jair Bolsonaro. A esquerda, então, se armou para dizer que só existe malfeito na direita. Igualmente ingênuo. Porque a corrupção na Petrobras aconteceu de fato, com anuência e proveito do PT também.

Conforme a gente se agarra a essas pechas ideológicas, a gente perde a chance de promover uma reforma política pra valer, que impeça tanto os petrolões e mensalões da vida quanto os orçamentos secretos. E, obviamente, os casos Master.

Olha, o elo político que conecta os dois lados do Master tem nome: Centrão. Ciro Nogueira, do PP, fazia campanha para Lula antes de ser ministro de Bolsonaro. Valdemar Costa Neto ficou preso com José Dirceu e preside o PL. Rueda comanda o União Brasil. São os mesmos atores, trocando de figurino conforme o governo muda.

Eleitoralmente, todos estão querendo colar o escândalo no outro. E é compreensível — quiçá necessário. Lula, o incumbente, tende a sair mais prejudicado pelo clima de “está tudo muito errado mesmo no país”. Mas o Brasil precisa amadurecer esse debate. Precisa fazer discussões sérias sobre como reformar e aprimorar as instituições.

Precisa enxergar político como servidor público e tirá-lo do serviço quando for incompetente ou corrupto, independentemente da camisa que veste. E reservar a divisão ideológica para o que ela realmente deveria servir: a discussão sobre o modelo de nação que queremos. Sobre educação, saúde, desigualdade, política externa. Sobre o que importa. Ou a gente vai ficar vivendo de eita atrás de vixe pra sempre.

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