O Meio utiliza cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar sua experiência. Ao navegar você concorda com tais termos. Saiba mais.
Assine para ter acesso básico ao site e receber a News do Meio.

Essa Eleição Vai Ser um Inferno

Receba as notícias mais importantes no seu e-mail

Assine agora. É grátis.

O PT fez seu oitavo Congresso, este fim de semana, e tirou dali uma penca de conclusões. Uma é a de que deve restabelecer a aliança com o Centro político nesta eleição. Outra, isso foi o presidente do partido, Edinho Silva, quem disse: precisam ter humildade para falar com jovens evangélicos ou quem vive na economia dos apps. “O PT não pode ficar irritado com as periferias quando perdemos votos.” Frase do Edinho. “Quando a nova classe trabalhadora, os motoristas de aplicativo, se revoltam conosco, evidente que gera indignação, mas temos que ter humildade e perguntar onde estamos errando, se queremos representá-los.”

PUBLICIDADE

Bacana. Aí o partido publicou um manifesto. Quero ler pra vocês só o primeiro parágrafo deste manifesto.

“Vivemos uma mudança de época, marcada pela crise do capitalismo neoliberal e pela crescente desordem global. Nessa conjuntura, se sobrepõem crises estruturais que atingem o sistema capitalista, a ordem internacional, as democracias liberais e as próprias condições de vida no planeta. A promessa neoliberal de crescimento econômico, estabilidade e bem-estar mostrou-se incapaz de oferecer futuro para a maioria. Em seu lugar, consolidaram-se a fome, a estagnação, a desigualdade, a precarização do trabalho, a insegurança e o enfraquecimento das instituições democráticas.”

Olha, é uma leitura perfeitamente legítima do que está acontecendo no mundo. É uma leitura de esquerda, de quem lê o mundo pelo prisma da luta de classes e considera que o capitalismo é um problema, um gerador de desigualdades. Está tudo certo mesmo. É um jeito de ver legítimo, antigo, muito consolidado no debate público.

Só tem um pequeno detalhe, tá? Não é como liberais democratas, como o centro político, lêem o que está acontecendo no mundo. Tampouco é como os jovens evangélicos ou a turma que está no corre dos apps se vê. Eles querem ser burgueses. Querem crescer na vida. Seu sonho, mesmo que não tenham vocabulário para dizer isso, é um sonho liberal.

Não tem nenhum problema o PT discordar de liberais e da garotada das periferias urbanas. Numa democracia liberal, cada grupo político faz seu diagnóstico, propõe o que tem de ser mudado, e vai a luta conquistar votos. Em democracias liberais, é assim que funciona. Quem ganha, leva. Aí faz, se conseguir.

A peça que é difícil de encaixar é como que o partido aprova um manifesto dizendo que os neoliberais, que é como eles chamam a nós liberais, são o problema e aí dizem que querem nosso apoio.

Bem, o que temos do outro lado? Todos os candidatos com peso nas pesquisas, pelo flanco da direita, dizem que vão anistiar Bolsonaro, os generais, os militares que tentaram dar um golpe de Estado. Segundo a nossa pesquisa, segundo a pesquisa da Quaest, se tem uma coisa que dá para dizer sobre o Centro político é a seguinte: de todos os grupos na sociedade, o único que põe como prioridade zero a defesa da democracia são os 6,5%, 7% de brasileiros que são liberais. Todos os outros grupos têm temas que lhes são mais caros, aparecem à frente. Menos, que surpresa, os liberais democratas. Pois é. Liberais criam o regime, gostam dele. Nenhuma surpresa.

Sabe, em democracia, democracia mesmo, a gente pode ter muitos debates. É claro que pode-se defender a anistia a golpistas. Juscelino Kubitschek era perfeitamente democrata e promoveu três ondas de anistias políticas. Agora, se você pensa com uma cabeça liberal e conhece história do Brasil, o que você enxerga?

Só uma coisa: nós temos uma história de golpes militares no Brasil. A partir de 1922, um século atrás, todos os golpes que deram certo, rigorosamente todos, foram dados por gente que foi anistiada ao tentar dar golpes antes. Isso não é uma coincidência. Golpe é algo que você aprende a fazer como a maioria das coisas na vida. Porque não é assim, trivial. Tem suas manhas. Com quem você articula, com quem combina, que alianças são necessárias.

Sabe, toda essa turma que participou do processo de organizar um golpe entre novembro e dezembro de 2022 tem, lá na cabeça, as coisas que aprendeu. Que reunião era desnecessária, com quem deviam ter falado mas ignoraram, que argumento poderia ter dado certo. O que aprenderam? Eu não sei. A gente não tem como saber. Mas, se um dia aparecerem as condições para eles tentarem novamente, se estiverem livres, eles saberão fazer. Eles sabem o que foi dito e não devia ter sido falado, ou o que não foi falado e poderia ter mudado o jogo. Um golpe é também política. O problema é que é um tipo de política que você não costuma ter a chance de praticar.

Anistiar golpes é um dos dois problemas centrais de toda história da República brasileira. Ao invés de punir com rigor o crime mais grave contra a democracia, você passa a mão na cabeça e solta o sujeito que vai tentar de novo. Porque é crime fácil, é crime que você comete e é sempre perdoado. Sempre perdoado.

Eu falei um dos dois problemas centrais de toda história da República, né? Sabe qual é o outro? No início de 1955, quando Juscelino Kubitschek chegou à presidência, a inflação era de 12% ao ano. Aí foi aquela coisa, né? Gastou os tubos num projeto nacional-desenvolvimentista para impulsionar a economia. Déficit fiscal, o governo gastar mais do que recolhe, não é uma coisa que tem repercussão imediatamente. A coisa tem um retardo duns anos. JK entregou, pro Jânio, uma inflação de 30% ao ano. Triplicou. Em 1964, estava em 90% ao ano. Foi uma inflação que foi crescendo, crescendo, crescendo e só foi resolvida pelo Plano Real.

Sabe quando mais tem crise fiscal? 1889. Crise aguda das contas públicas. O que aconteceu? Queda do Império. Sabe quando teve crise fiscal? 1822. Sabem o que aconteceu? Não está escrito em pedra que toda crise fiscal leva a mudança de regime. Mas mudança de regime sempre acontece em meio a crise fiscal. Não é coincidência.

Os petistas acham que chamar de liberal é ofensa, prometem um Estado indutor de crescimento econômico. A direita promete anistia. E, pela primeira vez, não tem um só candidato liberal à presidência. O PSDB ainda quer mandar o Ciro. Se você é do Centro político, bem-vindo. Essa eleição vai ser um inferno.

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Se você chegou até aqui, tem chance de ser do tipo de pessoa que lê o mundo por uma cabeça liberal e não consegue votar em paz nessa eleição. Não é pouca gente — são uns 7% do Brasil, exatamente as pessoas que criaram e sustentam o regime em que todos nós vivemos.

No Meio, você não precisa fingir que o PT não chamou você de problema. Nem que a direita não está prometendo soltar quem tentou dar um golpe. A gente analisa os dois. Sem precisar torcer pra nenhum campo.

Se você quer entender o que está acontecendo sem engolir a narrativa de nenhum lado, seu lugar é o Meio. Assine.

E este aqui? Este é o Ponto de Partida.

Quem diz que sabe a origem da crise da democracia está te enganando. O problema não é brasileiro, é mundial. Só acontece de a versão brasileira ter características próprias. Agora, não é só que o manifesto do PT seja um ponto de vista do qual eu discorde. Ele está factualmente errado. Diz lá, logo no primeiro parágrafo: no período que eles chamam de “neoliberal”, “consolidaram-se a fome, a estagnação, a desigualdade.”

Pois bem, em 1990 havia 1 bilhão de pessoas com fome no mundo. Números da FAO, da ONU. Hoje são 800 milhões de pessoas com fome. Com um pequeno detalhe, tá? Em 1990, a humanidade se contava em pouco mais de 5 bilhões de pessoas. Hoje já passou de 8 bilhões. A gente pôs mais de três bilhões de pessoas mais no mundo e ainda assim diminuímos a fome. Em 22 anos, a proporção de pessoas abaixo da linha de pobreza caiu pela metade, números do World Bank. Veja bem: a proporção, o percentual, mesmo aumentando muito a população. Houve crescimento econômico em rigorosamente todos os continentes. O menor foi na Europa, os dois maiores foram nos continentes mais pobres, a Ásia e a África.

Então, não, não é verdade que o período sob o Consenso de Washington gerou pobreza e fome. Os números provam exatamente o contrário.

Agora, a globalização gerou sim um problema para as democracias do Ocidente. Um, a classe média travou na Europa e nas Américas. Ela não perdeu poder aquisitivo, mas também não ganhou. Enquanto na Ásia o número de pessoas na classe média alta aumentou 40%, puxado por China e Índia, aqui estagnou. Os ricos ficaram bem mais ricos. Os pobres ascenderam à classe média, ainda que classe média baixa. Para a classe média tradicional, qual é a impressão? Os ricos ficaram inalcançáveis, os pobres encostaram. A sensação é de perda de status social. E é uma sensação real. Aconteceu.

E tem os operários. Automação, mudança para uma economia de serviços, manufatura estupidamente mais barata na Ásia, promoveu o fim de um tipo de emprego seguro para homens com ensino médio completo no Ocidente. Veja, esses homens gostam de controlar seu tempo e de não ter chefe. Não tem muita gente neste universo masculino, com ensino médio, pedindo quero CLT, quero macacão azul, quero linha de montagem. Aqui no Brasil, não tem. E, sim, o mundo das plataformas é bem duro.

A pressão sobre a classe média e a dureza de ser homem na periferia urbana levou a uma radicalização ao menos parcial desses grupos. Dizer que a culpa é do capitalismo, ou do liberalismo, é dizer no fim das contas que a culpa é da ciência que levou ao digital, da tecnologia que nasceu dali, é dizer que a culpa é da história que não para de mudar os ambientes em que vivemos. Tudo certo, está valendo.

A gente tem problemas para resolver, sim. Muitos. Mas, desculpe, os vinte anos de liberalismo econômico e político após a queda do muro fizeram do planeta um lugar melhor para a maior parte da humanidade. É o que os números mostram. Factualmente. E podemos ter um debate sobre isso.

A esquerda pode discordar e dizer que o problema somos nós, os liberais. É seu direito. Na democracia, podem. Aí, depois de falar que o problema somos nós, pedem nosso voto. Afinal, se a gente não votar neles, que nos odeiam, o outro lado pode ganhar.

O ano eleitoral só está começando.

Encontrou algum problema no site? Entre em contato.