Caiu, caiu…
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Do hospital de Roma no qual está internado, o Papa Francisco baixou ontem um decreto canônico alterando o código de vestimenta da missa e de demais rituais católicos em regiões tropicais. Doravante, devido ao calor, os fiéis poderão frequentar a igreja de shorts e minissaias (estas exclusivamente para mulheres) e camisas regata e crop. Também foi aprovada uma versão da batina com os braços de fora e comprimento até o joelho. Na próxima semana, o Colégio de Cardeais vai se reunir para avaliar se autoriza, nas áreas de litoral, o uso de roupas de banho nas igrejas. O topless, esclareceu a Santa Sé, segue proibido.
Caiu, caiu, primeiro de abril.
Todas as culturas do mundo louvam formalmente a verdade, a ponto de João (8:32) enfatizar: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. E, no entanto, a mentira segue popular a ponto de ter um dia dedicado só a ela. Existem mentiras de todos os tipos: as grandes, capazes de mobilizar uma infinidade de pessoas; as maldosas, que destroem reputações e até mesmo a vida de indivíduos; as aparentemente leves etc. Assim como existem tipos de mentirosos: os que ruborizam até a alma, os que se entregam por pequenos sinais e os que mantêm a fleuma ao mentirem escandalosamente. Mas afinal, qual a maior mentira?
“A maior mentira que existe é ‘eu nunca minto’”, afirma a psicóloga clínica Mônica Portella, autora do livro Como Identificar A Mentira (2013). Segundo ela, embora não haja uma estatística fechada, estudos indicam que cerca de 25% das interações de um ser humano são mentiras. Mais, aprendemos a mentir antes de aprendermos a falar, pois a manha de uma criança é basicamente um choro falso para obter algo. Conseguir vantagens, aliás, costuma ser a motivação das grandes mentiras.
Ferramenta social
No filme O Mentiroso (trailer), de 1997, Jim Carey interpreta um advogado que construiu sua carreira mentindo compulsivamente. Até que, num recurso de realismo fantástico, fica não apenas incapaz de mentir, mas compelido a falar a verdade o tempo todo. É uma tragédia para a causa que está defendendo, baseada em pura falsidade, e ainda o torna incapaz de interagir com qualquer pessoa. Isso porque, como explica Mônica Portella, a “mentirinha” é uma ferramenta social.
Segundo a psicóloga, existem dois motivadores das pequenas mentiras do dia a dia. O primeiro é a autopreservação. “A pessoa mente para evitar uma punição. Por exemplo, um casal. Um dos dois chega tarde do trabalho, e o outro pergunta o motivo. A pessoa foi numa happy hour, mas, temendo uma represália, mente, fala que fez uma hora extra”, diz ela. O segundo é a proteção ao outro. “Às vezes, falar a verdade é extremamente deselegante. ‘Amor, eu perdi peso?’ ‘Não, está mais gordo ainda.’ Ninguém vai dizer isso”, explica, ressalvando que não se trata de uma apologia da mentira.
Na mesma linha, o artigo Lying motivations: Exploring personality correlates of lying and motivations to lie (Motivos da mentira: Explorando correlações de personalidade da mentira e motivações para mentir), do Jornal de Ciência Comportamental do Canadá, sustenta que as intenções altruístas ou pró-sociais estão entre as principais motivações da mentira.
Me engana que eu gosto
O ato de mentir só é eficiente se alguém acreditar. A pessoa está sendo enganada, mas não necessariamente (ou somente) pelo mentiroso. Mônica Portella conta que o autoengano é um fator importante na aceitação da mentira. Não raro em busca de conforto. “Um exemplo trivial é o início de um relacionamento. As pessoas próximas estão dizendo, por exemplo, à mulher que o homem está mentindo quando diz que a ama, e ainda apontam sinais claros disso. Mas, como aquela relação lhe dá conforto e alimenta sua autoestima, ela coloca antolhos. Escolhe não ver a realidade e ainda procura enxergar sinais do contrário”, explica a psicóloga.
Na avaliação dela, o mundo online propicia a proliferação de mentiras de todos os tipos por ser um ambiente de simulação. “Nas redes sociais nós vemos mentira o tempo inteiro, sobre o que a pessoa faz, seu padrão de vida, seu estado de espírito etc. E começa a gerar uma piração na cabeça dos usuários. Também temos distorções maldosas de fatos, difamações de indivíduos”, diz Mônica Portella, para quem a pandemia de covid-19 aprofundou essa situação. “Como psicóloga clínica, eu observei que a pandemia foi um marco. Foram mentiras criadas sobre temas complexos como vacinas, medicações, tratamento etc. E essa conta está sendo paga agora”, afirma.
O mesmo pode ser visto em quase todas as áreas. A agência de checagem Aos Fatos compilou centenas de mídias na plataforma Golpeflix mostrando a rede de mentiras que levou à tentativa de golpe de Estado no Brasil em 8 de janeiro deste ano. Mesmo na arte, a mentira e sua aceitação vão se tornando normais. Tido como anátema há algumas décadas, o playback em shows ficou comum na música pop. No meio de um passo de dança, o artista cai no chão, seu microfone voa longe, mas sua voz continua saindo das caixas.
Seja qual for o tipo de mentira, a melhor postura é o bom senso. “Algumas mentiras têm consequências perigosas para as pessoas individualmente e para a humanidade como um todo. Cada vez mais o ser humano vai precisar de discernimento, o que é particular de cada pessoa, e ter os pés no chão”, diz Mônica Portella.
Mas por que 1º de abril?
O Dia da Mentira, ou Dia dos Bobos, é uma tradição em diversos países, mas sua origem é controversa. A versão mais comum – a menos mentirosa, talvez – remete à disputa pelo ano novo. Em boa parte do Norte da Europa, por herança pagã, ele era celebrado numa série de festas que começava no equinócio da Primavera (fim de março) e terminava no dia 1º de abril. O calendário juliano, estabelecido por César em 46 A.C., marcava 1º de janeiro como início do ano, coincidindo com a posse dos cônsules que governavam Roma. Segundo a tradição, com o passar dos séculos, o calendário romano foi se tornando prevalente, com o ano novo em 1º de abril sendo tido como falso, uma mentira na qual só os bobos acreditavam.
Mas, se lembrarmos que os Júlios, família de César, afirmavam descenderem da própria Vênus, é capaz de o calendário ser mentira também.






























