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Edição de Sábado: A conta que dá trabalho

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Nos últimos meses, o debate sobre o mundo do trabalho voltou ao centro da política brasileira. A escala 6x1 e o trabalho por plataformas estão na agenda do Congresso e do governo, embora a discussão sobre pejotização esteja paralisada no Supremo. À primeira vista, parecem discussões distintas. Na prática, elas esbarram no mesmo problema: em um país marcado por informalidade alta, renda instável e proteção desigual, mudar a regra não basta para garantir que ela alcance a maioria dos trabalhadores.

Então, para além de conversarmos sobre como repartir a riqueza existente, também precisamos considerar quais são as condições que permitem ampliá-la de forma duradoura. Quando economistas falam obsessivamente sobre produtividade, a preocupação vem dessa tentativa de entender por que algumas sociedades conseguem sustentar salários mais altos, mais proteção aos trabalhadores e mais oportunidades, enquanto outras seguem marcadas por baixa renda, informalidade e relações de trabalho mais frágeis.

Produtividade é a medida desse processo de enriquecimento: quanto valor se gera por trabalhador ou por hora trabalhada. Ela depende de qualificação, gestão, tecnologia, organização do processo produtivo, capital físico e instituições. Durante muito tempo, porém, a explicação da riqueza de uma sociedade passou sobretudo pela acumulação de trabalho e capital. No exercício clássico de Robert Solow para os Estados Unidos, apenas cerca de um oitavo do aumento do produto por hora entre 1909 e 1949 podia ser atribuído ao aumento de capital por trabalhador; o restante aparecia como mudança técnica, isto é, um ganho de eficiência não explicado pela maior quantidade de insumos.

Ou seja, dizer que a produtividade brasileira é baixa, portanto, não é dizer que o trabalhador brasileiro se esforça pouco. É dizer que a sociedade usa mal trabalho, capital, tecnologia e gestão. Entre 1981 e 2022, a renda per capita cresceu 0,9% ao ano, enquanto a produtividade por hora avançou apenas 0,5%; boa parte do crescimento de renda foi sustentada pela maior participação da população em idade ativa, um impulso demográfico que não se repete indefinidamente. Ao debater jornada, formalização, pejotização ou plataformas, convém compreender em que condições esses direitos se tornam viáveis e abrangentes numa economia heterogênea marcada por desigualdades persistentes.

Uma das formas de se aumentar a produtividade é por meio da educação, seja aumentando os anos de estudo via universidade e formação técnica, seja através da melhoria da qualidade. Claro que a educação básica importa não só por dignidade e autonomia, mas porque amplia a capacidade de ler, escrever, resolver problemas e desenvolver todas as potencialidades. O Brasil avançou muito no acesso e praticamente universalizou a entrada das crianças na escola. O problema é que estar na escola não virou aprendizagem na mesma proporção. No Pisa 2022, o país ficou em torno do 65º lugar em matemática, 52º em leitura e 62º em ciências, entre 81 participantes. Então, conseguimos colocar quase todos na escola, mas ainda entregamos uma formação básica fraca demais para sustentar ganhos mais consistentes de renda para os jovens e suas famílias.

Outro canal de melhoria está na qualidade das instituições. A literatura de Daron Acemoglu, Simon Johnson e James Robinson mostrou que diferenças de desenvolvimento não decorrem apenas de mais trabalho, mais capital ou mais escolaridade, mas da qualidade das regras que organizam a vida econômica. Quando direitos de propriedade são frágeis, contratos são pouco previsíveis, o Estado regula mal ou concede privilégios, investir, inovar e contratar se torna menos atraente. Robert Hall e Charles Jones organizaram esse argumento ao tratar essas condições como parte da “infraestrutura social” que torna a atividade produtiva mais ou menos vantajosa. Isto é, segurança jurídica, qualidade regulatória e clareza tributária não são detalhes técnicos. Quando não funcionam bem, travam a possibilidade de empresas surgirem e novos empregos aparecerem.

Acesso e desenvolvimento de tecnologia também entram nessa conta. Mercados mais abertos tendem a pressionar firmas a se adaptar, incorporar métodos mais eficientes e abandonar práticas menos produtivas. No Brasil, a abertura comercial dos anos 1990 foi um dos choques que empurraram esse tipo de ajuste. Seus efeitos não foram uniformes, mas ajudam a mostrar que a produtividade também depende do ambiente competitivo em que as empresas operam. Em alguns casos, esse tipo de mudança teve inclusive efeitos distributivos relevantes. Guilherme Hirata mostra que o aumento da concorrência reduziu o diferencial salarial entre trabalhadores brancos e negros no Brasil, sugerindo que mercados mais fechados e concentrados podem preservar ineficiências que não são apenas econômicas, mas também distributivas.

Um mercado de trabalho dividido

O mercado de trabalho brasileiro chegou a 2025 aquecido, com taxa anual de desocupação de 5,6% — a menor da série iniciada em 2012 —, encerrando o quarto trimestre em 5,1%. Nem por isso deixou de ser um mercado segmentado: a informalidade ainda atingia 37,6% da população ocupada ao fim do ano, e mesmo entre os empregados do setor privado, 25,6% seguiam sem carteira assinada.

A informalidade não aparece só entre empresas inteiramente fora do sistema, na chamada margem extensiva, como aponta o pesquisador Gabriel Ulyssea em um estudo do Ipea. Ela também aparece dentro de firmas formalizadas, que mantêm parte da força de trabalho sem a proteção correspondente. Isso significa que aqui não separamos apenas o informal está também no interior das próprias empresas, o que faz com que a cobertura da legislação seja desigual mesmo dentro de um mercado aparentemente organizado. Nesse contexto, ampliar direitos no papel não produz automaticamente ampliação equivalente de proteção na prática.

Esse retrato enquadra o debate atual sobre a escala 6x1. Na Câmara, a PEC 221/2019 recebeu parecer favorável à admissibilidade na CCJ, mas a votação foi adiada por pedido de vista. Ela prevê reduzir a jornada das atuais 44 para 36 horas semanais em dez anos. Em paralelo, o governo Lula enviou o PL 1838/2026, em regime de urgência, reduzindo a jornada legal para 40 horas semanais, garantindo dois descansos remunerados por semana e vedando redução salarial. Dado o provável custo político de se opor ao projeto, é razoável supor que algo nessa linha seja aprovado. Mas o que levar em conta para que a mudança faça sentido num mercado com tantas desigualdades?

Há uma razão substantiva para que a revisão da 6x1 mobilize apoio. Tempo fora do trabalho não é apenas lazer: é descanso, cuidado, estudo e recuperação física e mental. A defesa da mudança parte da ideia de que uma economia melhor também depende de trabalhadores menos exaustos e com mais controle sobre o próprio tempo. O problema é que esse ganho potencial não opera no vazio: seus efeitos dependem do desenho da política, da transição e da estrutura do mercado em que ela incide.

De um lado, em coluna no Valor, o economista Naercio Menezes Filho argumentou que a redução de 44 para 40 horas não deve ser tratada como sinônimo automático de desemprego ou retração econômica. Ele se apoia em nota técnica recente do Ipea, assinada por Felipe Pateo, Joana Melo e Juliana Círiaco, segundo a qual a mudança para 40 horas elevaria em média em 7,84% o custo do trabalho celetista, mas com impacto inferior a 1% do custo operacional em grandes setores empregadores, como indústria e comércio. Na coluna, Naércio também recupera a experiência brasileira de 1988, analisada pelo estudo dele próprio com Gustavo Gonzaga e José Márcio Camargo, que concluiu que a redução constitucional de 48 para 44 horas diminuiu a jornada efetiva, elevou o salário real horário e não teve efeito negativo sobre o emprego no curto prazo.

De outro, o também economista Gabriel Ulyssea sustentou, em artigo no Globo, que a versão mais ambiciosa da mudança, de 44 para 36 horas em arranjo de 4x3, sem redução salarial, pode produzir o efeito oposto ao desejado. Em um contexto onde a informalidade já atravessa inclusive empresas formalizadas e 68% das empresas são de pequeno porte, uma redução brusca da jornada pode aumentar fortemente o custo do trabalho formal e empurrar o ajuste para a margem menos protegida do mercado. Esse processo ocorreria por meio de demissões, maior rotatividade, compressão salarial na entrada e mais informalidade.

A literatura internacional reforça essa necessidade de separar o desejo legítimo de melhorar a qualidade de vida do trabalhador do desenho institucional concreto da política. Na pesquisa de Marcello Estevão e Filipa Sá sobre a França, a redução de 39 para 35 horas não teve efeito significativo sobre o emprego agregado, mas aumentou a rotatividade e levou parte dos trabalhadores diretamente afetados a buscar segundos empregos ou a migrar para firmas menores, sugerindo que a política restringiu escolhas em vez de apenas ampliar bem-estar. Isso não prova que uma redução de jornada fracassará no Brasil. Mostra apenas que o efeito depende da transição, da capacidade de organizar escalas, do porte das firmas e, no caso brasileiro, do peso da informalidade.

A segmentação também atravessa as zonas cinzentas criadas pela pejotização, pelo MEI e pelo trabalho por plataformas. Tratar esses arranjos como se fossem uma coisa só atrapalha. O mesmo rótulo pode encobrir fraude trabalhista, arbitragem entre regimes jurídicos e tributários distintos ou arranjos que, embora incompletos, são de autonomia.

Há, sem dúvida, casos em que a pejotização é apenas uma forma de mascarar a relação de trabalho e subordinação. A distinção jurídica continua sendo: quando há pessoalidade, habitualidade, onerosidade e subordinação, a contratação como pessoa jurídica não muda a natureza do vínculo. O aumento do contencioso indica que esse problema está longe de ser irrelevante. Com base nas estatísticas do CNJ, as ações trabalhistas pedindo reconhecimento de vínculo passaram de 167 mil em 2020 para 443 mil em 2024. Ou seja, tem muita gente trabalhando fora das regras por necessidade e imposição do empregador.

Ao mesmo tempo, a fraude não dá conta do processo de pejotização por completo. Em artigo, Nelson Marconi mostra que os trabalhadores por conta própria com CNPJ tinham escolaridade média mais alta: 34% dos pejotizados tinham nível superior ante 23% entre os celetistas. No mesmo estudo, Marconi mostra que a remuneração média dos trabalhadores com CNPJ supera a dos empregados com carteira em vários segmentos, inclusive em áreas como mídias, atividades profissionais, científicas e técnicas e educação. Assim, existe um segmento mais qualificado, mais bem pago e concentrado em ocupações de projeto, consultoria, aula, parecer ou produção intelectual. Nesses casos, a escolha entre renda maior acompanhada de flexibilidade e cobertura menor de direitos sociais pode ser realmente livre, e não apenas imposição patronal.

A própria sondagem do FGV IBRE sobre trabalhadores por conta própria aponta nessa direção: 67,7% disseram que gostariam de ter carteira assinada, 55% podem ser classificados como autônomos por opção e 44,9% afirmaram não saber ao certo quanto ganharão no mês seguinte. O regime do MEI reforça essa ambiguidade. De acordo com o Sebrae, 76% dos microempreendedores individuais têm na atividade empresarial sua única fonte de renda e 33% estavam na informalidade antes da formalização. Ou seja, o MEI serviu, em parte, como porta de entrada para a formalidade, mas também criou uma moldura jurídica barata que pode ser usada tanto por empreendedores genuínos quanto por empresas que desejam deslocar custos e riscos para o trabalhador.

O trabalho por plataformas também é reflexo dessa complexidade. Como observa a OIT, a gestão algorítmica passou a organizar, distribuir, monitorar, supervisionar e avaliar o trabalho. O trabalhador até mantém alguma margem para decidir quando se conectar, mas os elementos centrais da coordenação continuam nas mãos da plataforma. Por isso, a relação não cabe bem nem na ideia de autonomia plena nem na noção clássica de subordinação.

O quadro das empresas ganha outra dimensão no caso brasileiro, como mostram Nicholas Bloom e John Van Reenen. Parte das diferenças sobre a efetividade da gestão entre países decorre da presença de uma parcela expressiva de firmas mal geridas. Temos aqui uma grande fatia de empresas muito ineficientes, então, dado o contexto, a expansão de vínculos cinzentos não resulta apenas de inovação organizacional. Ela também reflete empresas que, diante de custos elevados, baixa capacidade gerencial e regras rígidas, buscam saídas laterais de contratação. Daí por que uma resposta regulatória única tende a errar o alvo: fraude exige coibição, arbitragem tributária exige revisão de incentivos, e vínculos descontínuos exigem formas de proteção compatíveis com essa realidade.

Uma agenda de produtividade

No fim, o ponto não é só mudar a regra trabalhista, mas criar as condições para que ela possa valer para mais gente. Num mercado de trabalho segmentado, a proteção tende a alcançar com mais força quem já está em posições mais estáveis e a chegar de forma mais fraca a quem circula entre informalidade, ocupações precárias e renda irregular. Por isso, a discussão sobre jornada, vínculo e direitos precisa desembocar em outra pergunta: que agenda econômica torna essas mudanças sustentáveis fora de um grupo restrito?

Parte da resposta passa pela educação, mas não por uma visão mecânica de escolaridade. Como mostram Eric Hanushek e Ludger Woessmann, anos de estudo dizem pouco quando não vêm acompanhados de aprendizagem real e habilidades cognitivas. Isso ajuda a entender por que o avanço educacional brasileiro não se converteu automaticamente em ganho sistêmico de produtividade. Melhorar a escola continua sendo central, mas com foco em qualidade e em desenvolvimento de habilidades relevantes para o mundo do trabalho.

Também é preciso um ambiente econômico mais favorável ao investimento e à adaptação produtiva. Isso inclui regras mais claras, menos insegurança jurídica, sistema tributário menos confuso, abertura maior à concorrência, incorporação de tecnologia e difusão de inovação. Sem esses elementos, a economia reage pior a mudanças regulatórias, e a distância entre o direito formal e sua aplicação concreta tende a continuar grande.

Há ainda uma frente decisiva para quem está mais distante do mercado de trabalho estável: a inclusão produtiva. O trabalho de Abhijit Banerjee, Esther Duflo e coautores mostra que políticas que combinam transferências de renda, ativos produtivos, capacitação e acompanhamento podem gerar efeitos sobre renda e capacidade de gerar meios de vida. Afinal, para muitos trabalhadores, proteção e formalização dependem antes de tudo da possibilidade concreta de sobreviver muito antes de encontrar bons empregos ou criar pequenos negócios.

No fim, a agenda do trabalho não se sustenta sem uma agenda de produtividade mais ampla. Isso envolve educação que gere aprendizagem, ambiente de negócios menos hostil, segurança jurídica, tecnologia e inclusão produtiva para quem hoje só encontra espaço em vínculos frágeis. A pergunta, então, é política: quem está disposto a defender esse pacote mais completo, e que coalizão é capaz de levá-lo adiante?


*Colunista do Meio. Economista pela UFPE e especialista em gestão pública no Insper. Estudou economia comportamental na Warwick University (Reino Unido) e é associada do Livres. É também colunista da Folha de São Paulo desde 2023.

O brasileiro gosta da poupança

Apesar de investimentos em renda fixa terem melhores retornos financeiros entre as aplicações de menor risco, a velha conhecida poupança segue sendo a preferida da maior parte do público brasileiro. Uma pesquisa da Anbima em parceria com o Datafolha revelou que, em 2024, a tradicional caderneta ainda é o investimento mais comum entre a população brasileira, com 32 milhões de pessoas (23%) apostando exclusivamente nessa modalidade. Outros 27 milhões já diversificam suas carteiras, aplicando em dois ou mais produtos financeiros.

Criada em 1861, ainda durante o Brasil Império, a poupança foi lançada como um instrumento nacional para que as pessoas pudessem guardar dinheiro de maneira segura. Para isso, Dom Pedro II também fundou a Caixa Econômica da Corte, com o objetivo de ser a opção mais acessível e adequada para todos os públicos. E ficou mais acessível nos anos seguintes, quando uma lei de 1872 possibilitou que pessoas escravizadas também pudessem depositar na poupança (desde que autorizadas por seus proprietários) para que depois pudessem comprar suas alforrias.

Hoje, o governo federal utiliza os recursos investidos na poupança para financiar programas habitacionais. Sem essa verba, o sistema de financiamento habitacional teria sua capacidade reduzida. A caderneta torna-se um meio importante para o país ao reduzir os juros de financiamento da casa própria, já que a oferta de crédito livre dos bancos costuma ser mais cara. Uma fuga deliberada de recursos da poupança levaria a uma retração do crédito, restando as linhas disponíveis das entidades privadas, que veriam crescer as filas para pedidos de empréstimos. Isso elevaria ainda mais as taxas de juros e, por consequência, a busca por novos empreendimentos imobiliários cairia, reduzindo a produtividade da construção civil, fazendo com que a atividade econômica e a renda das pessoas caíssem.

Vale esclarecer que o termo poupança é mais amplo, mas acabou sendo ofuscado pela caderneta de poupança dos bancos. Poupança é a diferença entre as receitas e as despesas de uma pessoa. Essa sobra financeira é direcionada para algum tipo de investimento para que seja remunerada e gere algum lucro para o depositante. Já a caderneta é apenas um dos tipos de investimento de poupança. Ou seja, poupar também pode significar investir em outros fundos, como títulos públicos, CDBs e CDIs.

A poupança faz parte do imaginário dos brasileiros por ser secular. Quem está na casa dos 40 anos deve lembrar dos cofrinhos oferecidos pelos bancos, que vinham com uma caderneta para que o poupador anotasse os valores guardados antes de ir até a instituição para fazer o depósito e ter um controle do montante guardado. Os porquinhos e outros objetos em formato de cofres eram distribuídos para estimular o público a poupar. Com a automatização dos sistemas bancários, ficou mais simples realizar os depósitos e acompanhar os rendimentos. “A poupança tem uma história muito longa com o brasileiro. Essa reputação foi construída na história”, diz Pedro Paulo Silveira, economista e sócio da A3S Investimentos.

Com garantia pelo Tesouro Nacional, a caderneta segue sendo um meio seguro de poupar, já que o depositante recebe todos os valores investidos sem limite de resgate, diferentemente do que acontece com famosos CDBs e CDIs, que são limitados a R$ 250 mil por CPF.

Por que poupança?

A reputação e a estabilidade da caderneta ao longo de mais de um século foram fatores cruciais para que esta se mantivesse como a maneira preferida de poupar pelos brasileiros, sendo aspectos importantes para o cliente que valoriza a credibilidade e o relacionamento de longo prazo com o banco, segundo Silveira. Apesar dos saques e depósitos ao longo dos anos, o estoque da poupança no Brasil se mantém estável, próximo de R$ 1 trilhão. “Um fator que é muito importante para o poupador em qualquer sociedade, em qualquer época da história, é a reputação do depositário, da instituição que está recebendo depósito. Isso explica, em grande medida, o fato de ela ter ainda cerca de R$ 1 trilhão depositados lá no final de todo mês”, explica.

“Nós estamos falando de uma concentração de massa na poupança justificada pelo perfil conservador, a baixa renda, e a falta de conhecimento e de acesso a essas outras aplicações”, justifica Pedro Leão Bispo, professor de finanças e controle da FGV. “O que vai explicar o acesso à poupança como opção é ser conservador, o recurso a se investir ser pouco e a garantia absoluta que o governo dá para a poupança.”

A falta de educação financeira é um dos principais motivos para que a poupança siga sendo o principal meio de investimento dos brasileiros. Por não terem conhecimento sobre o assunto, esses poupadores ignoram outros instrumentos com uma segurança semelhante, mas com melhores rendimentos. Para se ter uma ideia, uma aplicação de R$ 1 mil na poupança renderia R$ 83,11 em 12 meses, enquanto um CDB pagaria R$ 120,86; e o Tesouro Selic, R$ 118,57, considerando a taxa selic em 14,65% ao ano.

Sobe e desce

Ainda que essa modalidade tenha apresentado seguidos déficits nos primeiros trimestres de vários anos — em 2026, foi de R$ 42 bilhões, o 12º seguido para o período —, Silveira explica que há uma estabilidade ao longo de 12 meses. O sobe e desce da poupança tem a ver com a sazonalidade de retiradas e depósitos. É comum que o último trimestre do ano seja de maior fluxo de entradas na caderneta, gerado pelo recebimento de férias e 13º salário dos trabalhadores, sobrando um pouco de dinheiro para guardar. Já o mês de janeiro costuma ter os maiores saldos negativos, com poupadores resgatando parte de suas economias para pagar contas dessa época, como IPVA, IPTU, matrículas e materiais escolares.

Outra explicação para as retiradas está no progressivo aumento da consciência do público sobre opções mais vantajosas de aplicações financeiras. “Quando aumenta o nível da informação sobre mercado financeiro, imediatamente a pessoa retira o recurso da poupança e coloca numa outra aplicação”, diz Bispo. “Então, quanto mais acesso você der ao público em geral de menor capacidade de acesso, menos dinheiro vai ter na poupança.”

Poupar e ganhar

Decidir em que tipo de investimento vale mais a pena depende muito do perfil de quem pretende fazê-lo. É comum classificar três perfis de investidores: conservador, moderado e arrojado. O conservador é o tipo clássico de quem investe na poupança, por conta da previsibilidade e segurança que ela oferece. São pessoas com aversão a risco, mesmo que isso implique em ganhar menos dinheiro. O moderado também busca segurança, mas está disposto a incluir alguma aplicação de risco, com maior volatilidade, para ganhar um pouco mais. Já o arrojado é o mais disposto a se arriscar em ativos com maior oscilação no mercado, incluindo ações e criptomoedas.

Para quem tem um perfil mais conservador de investimento, mas prefere maximizar os ganhos, há alternativas mais rentáveis que a poupança e igualmente seguras. Entre as opções estão os Certificados de Depósito Bancário (CDB), Letras de Crédito, tanto imobiliários (LCI) quanto do agronegócio (LCA), além de títulos do Tesouro Direto, como Tesouro Prefixado e Tesouro Selic.

Os moderados encontram opções em Fundos de Investimento Imobiliário (FII), Certificados de Recebíveis, como os imobiliários (CRI) e do agronegócio (CRA), e opções no mercado de ações. Já os arrojados podem preferir, além das ações, os mercados futuros (derivativos) e criptomoedas. Vale sempre lembrar que essas operações merecem atenção especial e conhecimento prévio do aplicador, para evitar perdas.

Uma dica adicional para quem quer lucrar no cotidiano é do professor da FGV Pedro Leão Bispo. Como exemplo, ele sugere ao consumidor que se depara com uma promoção de óleo no supermercado. Se hipoteticamente uma garrafa está custando em média R$ 6, mas surge a oferta de R$ 4,50 a unidade, por ser um bem não perecível e de uso diário, vale a pena criar um pequeno estoque para economizar 25% nas compras que faria do produto no ano. Na compra de um tênis novo, vale negociar com o vendedor um bom desconto no pagamento em dinheiro ou à vista.

Resgate da utopia

Poucos diretores de documentários conseguem transformar a indignação com as desigualdades em matéria sensível como Eliza Capai. Jornalista de formação, ela construiu uma trajetória pautada pela investigação das disparidades sociais e de gênero, aliando engajamento político à busca por novos horizontes. Capai iniciou a carreira com o chamado “método da mochila”, viajando sozinha e assumindo funções de direção, câmera e som num período em que a presença feminina nesses postos era uma exceção. “Eu era a mulher abelhinha, não existiam outras. Lembro de ser violento muitas vezes, porque não ocupava um lugar de mulher”, recorda.

Ao longo de mais de uma década, a diretora transitou das produções independentes para o reconhecimento em festivais de cinema. Espero Tua (Re)volta (2019) foi premiado no Festival de Berlim, e Incompatível com a Vida (2023) foi o grande vencedor do É Tudo Verdade daquele ano. Agora ela integra a mostra competitiva do festival de documentários brasileiro com seu novo filme A Fabulosa Máquina do Tempo (2026), que estreou na Berlinale.

Conversamos sobre seu novo filme e o uso político da imaginação infantil, além de falar sobre a própria vulnerabilidade diante das câmeras e a importância da escuta livre de hierarquias no ofício de documentarista: “Eu converso com alguém de 90 anos e converso com uma criança de cinco, e me sinto junto, que é um lugar do humano de entender que cada um tem seu conhecimento”. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Você escolheu acompanhar as meninas em Guaribas, no Piauí, uma cidade que já foi marcada por uma miséria extrema e que mudou completamente a partir do Bolsa Família. Como a escolha de usar a imaginação infantil se tornou uma ferramenta política para processar traumas geracionais com essas meninas?

Fui a Guaribas pela primeira vez como jornalista em 2013, porque tinha lido um livro que falava sobre a saída da miséria e o questionamento desse machismo estrutural. Quando chego na cidade eu fico muito chocada, porque as mulheres da minha idade, na época eu tinha 30 anos, falavam: “Eu vivia a escravidão”. Essa frase me dilacerou. Não é 1888, são as pessoas da nossa idade que viveram a escravidão. Quando eu perguntava quais eram os seus sonhos de menina, todas responderam: “pegar um marido que me desse valor”. Ou seja, o meu sucesso enquanto mulher é ter um homem que me valorize. Essas mulheres tinham a cara da fome, eram pessoas muito maltratadas pela vida, o sofrimento fazia parte daqueles corpos.

E era diferente nas novas gerações?

Realmente se via outra realidade econômica e social no corpo daquelas crianças. E quando eu perguntava qual era o sonho, todas me respondiam que era ser médica, advogada e que não queriam casar nem ter filho. Pensei que muito provavelmente elas iriam casar e ter filho, mas a simples possibilidade subjetiva de se imaginarem como autônomas, e de isso ser o sucesso, já é uma transformação. Saio de lá em 2013 com a certeza de que eu voltaria para fazer um filme com essas crianças. Pensei que seria um filme apenas de melhoras sociais.

Como entra a máquina do tempo?

No governo Temer, tinham cortado parte do Bolsa Família, e eu entendi a complexidade do tempo, que ele não era linear. De alguma forma ali começa um esboço dessa máquina do tempo. Esse tempo não é uma seta para frente e o destino de desenvolvimento eterno. A estrutura da vida e do mundo é espiralada. Eu volto a Guaribas em 2021 para acompanhar as famílias e ver o que tinha acontecido, só que nesse momento eu conheço parte das protagonistas da Fabulosa. Eu piro nas meninas dançando TikTok na praça e eu fico passada vendo como elas são muito ligeiras. A gente retorna em 2024 e decide fazer também oficina com as crianças para entender, a partir da visão delas, como é essa saída da miséria e a questão do machismo estrutural. Guaribas é perto da Serra das Capivaras. Lá na pedra você vê o rio, vê que foi fundo de mar, visualiza no tempo presente os 400 milhões de anos de história. É um lugar em que os tempos coexistem. A máquina do tempo é aqui e o presente é a máquina do tempo. E quando vi as meninas brincando, entendi que queria fazer um filme sobre a brincadeira. Sabendo que o passado miserável e o futuro dos sonhos coexistem nesse presente e que a infância e o brincar colocam todos os tempos juntos.

Há uma interação muito legal entre você e as personagens no filme, com elas fazendo perguntas e questionamentos. Como é quebrar a hierarquia do criador ao tratar da infância e estabelecer essa horizontalidade no cinema documental?

Tinha esse lugar assim de a gente brincar. Eu, a Carol Quintanilha, que estava na fotografia, a Luísa Lemgruber no áudio, a gente se propôs a olhá-las de forma horizontal, com a câmera na altura delas. Eu tinha uma curiosidade autêntica: sabia que podia ensinar sobre técnica e contação de história, mas quem podia me ensinar sobre o que estava acontecendo ali eram elas. Elas sacaram que estávamos genuinamente interessadas. O documentário me fascina quando todos estão curiosos com a história. Faço documentário para aprender sobre coisas que eu quero aprender. Quando eu tenho o privilégio de estar com as pessoas que podem me ensinar, não estou hierarquicamente acima. Pelo contrário, elas são as estrelas e sabem o que pode acontecer.

Você começou fazendo cinema com uma mochila, como uma repórter-abelha, hoje trabalha com equipes maiores, mas não perdeu essa essência de pensar a transformação social. Seu cinema tem sempre uma motivação política?

Eu vejo o mundo de forma política. Tem um lugar de revolta muito grande com a organização do mundo, com a injustiça social, com a miséria, a pobreza. A gente vive um pós-escravidão que não consegue terminar com a estrutura escravocrata na nossa sociedade. Para mim é muito revoltante. Se for pensar, tem um lugar central que é da escravidão, porque ela traz o racismo. Sou branca e reconheço esse lugar de privilégio, e tenho vontade de escancarar a falta de privilégio da maioria da população. Me dei conta, no meio da minha trajetória, que eu sempre busco situações de injustiça, mas com algum ponto de luz. A gente cresce com a distopia no cinema, no jornalismo, como se tudo fosse piorar. E aí eu me sinto nessa missão do cinema, no pequeno grão que é o cinema documental, de permitir a utopia a partir da dureza do real, da nossa realidade social sofrida.

Falando dessa dureza, em Incompatível com a Vida você se coloca como protagonista em um momento difícil seu. Como foi lidar com essa exposição e com o sofrimento que vem junto com o filme?

Quando recebi, em Portugal, o diagnóstico e o aconselhamento médico para interromper a gravidez, fiquei muito triste. Fui para um lugar emocional que eu nunca tinha ido, um lugar muito estranho, porque eu racionalizava e falava: “Gente, mas é um fetinho, por que eu tô triste assim?”. Fiquei com muita raiva ao pensar que, se estivesse no Brasil, talvez tivesse que fazer um aborto clandestino ou levar a gravidez até o fim, não sabia naquela época que poderia judicializar. Senti que precisava fazer um filme, mas percebi que não teria o direito de documentar o sofrimento alheio se não fosse capaz de me expor nessa tristeza abissal. Mas, se fosse para eu me expor, a pessoa teria de assistir e entender que isso é um tema urgente. Quis fazer um filme para que as mulheres e casais que estivessem passando por isso não sentissem a solidão que eu senti. Hoje eu percebo que dei sentido à coisa mais sem sentido que me aconteceu.

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Entre ditaduras que caem, que resistem e aspirantes de ditadores, uma viagem à Lua e outra gastronômica. Aqui estão os links mais clicados da semana:

1. Fantástico: Os impactos da guerra no Irã.

2. g1: Resgate de astronautas da Artemis II teve gritos e euforia.

3. New York Times: Donald Trump e as sérias dúvidas sobre sua sanidade.

4. Meio: Ponto de Partida — Como se derrota um ditador?

5. Panelinha: Robalo em acqua pazza — vulgo ensopadinho de peixe.

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