O teste de Messias

Receba as notícias mais importantes no seu e-mail
Assine agora. É grátis.
O que Lula está medindo ao insistir na indicação do advogado-geral da União ao STF — e o que pode perder
A reapresentação do nome de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal não é um ato de teimosia. É um teste. O que o Presidente da República parece querer medir, ao insistir num nome já rejeitado pelo Senado, não é a disposição de Davi Alcolumbre em recuar — é o grau de engajamento real de sua própria base em uma causa identificada com sua figura. Essa hipótese, mais do que qualquer outra, organiza o comportamento político de Lula nas últimas semanas e oferece a chave de leitura mais precisa para o momento atual.
O diagnóstico que alimenta esse movimento não é novo para quem acompanha o governo de perto. Há algum tempo, Lula se queixa publicamente da acomodação das principais lideranças petistas — da incapacidade do partido de defender o governo com o mesmo nível de energia que mobilizou em contextos adversos anteriores. O comportamento de lideranças legislativas no caso Messias — com destaque negativo para as posturas dos senadores Jacques Wagner (BA) e Randolfe Rodrigues (AP) — e em outras votações relevantes reafirma um padrão de recuo sistemático de figuras que deveriam atuar como âncoras da coalizão. Tudo isso parece ter produzido no presidente duas compreensões distintas, uma estrutural e outra conjuntural, cujas resultantes se reforçam mutuamente.
Em termos estruturais, Lula parece ter se dado conta de que o espaço de diálogo efetivo não se estende além de seu próprio campo político e ideológico. O recuo de Rodrigo Pacheco, os esforços reiteradamente infrutíferos de aproximação com Gilberto Kassab e a necessidade de manter equidistância operacional do STF colapsaram, em um só movimento, dois projetos que o governo havia tentado sustentar simultaneamente: a reconstrução do presidencialismo de coalizão — essa arquitetura que Sergio Abranches descreveu como a solução brasileira para governar num sistema multipartidário de alta fragmentação — e a manutenção do presidencialismo jurisdicional. Ambos se tornaram, nas condições atuais, praticamente inoperantes.
O que se desenha é um palanque estruturalmente restrito, onde alianças regionais eventuais garantem pouco espaço de manobra no plano nacional
A resultante conjuntural desse isolamento progressivo é igualmente clara. Lula vislumbra um PT capaz de liderar a esquerda, mas sem contrapesos à direita que confiram ao palanque amplitude nacional. A migração de nomes da centro-direita para o PSB — casos de Simone Tebet, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do próprio Pacheco, que sinaliza saída da política — não resolve o problema: o que se desenha é um palanque estruturalmente restrito, onde alianças regionais eventuais garantem pouco espaço de manobra no plano nacional. Esse déficit de amplitude é, em si, um vetor de risco eleitoral autônomo — independente do desempenho do governo em outras frentes.
Diante desse quadro de solidão institucional progressiva, a resposta politicamente mais instintiva de Lula parece ser o reforço ao único elemento que ainda funciona como reserva de lealdade: o apego àqueles que não viraram as costas quando ele estava preso. Jorge Messias encarna esse arquétipo com precisão. A reapresentação de seu nome ao Senado, nesse sentido, é simultaneamente um sinal interno para a militância — de que o presidente ainda governa — e uma medição hipotética do quão disposto o campo petista está a mobilizar-se em torno de sua figura num momento de fragilidade crescente.
É aqui que a análise cognitiva do processo decisório se torna indispensável. Herbert Simon mostrou que decisões políticas raramente são produto de cálculo racional perfeito — são respostas satisfatórias diante de informação incompleta e capacidade cognitiva limitada. Daniel Kahneman aprofundou esse diagnóstico ao demonstrar que, sob pressão e incerteza, o pensamento rápido — intuitivo, ancorado em padrões conhecidos — tende a prevalecer sobre o pensamento lento, analítico e atento ao que é novo na situação. O comportamento recente de Lula sugere exatamente esse movimento: a prevalência de padrões historicamente bem-sucedidos sobre a análise fria do que o presente efetivamente impõe.
O dilema desse movimento, porém, é estrutural. Ao colocar seu nome, seu governo e seu projeto de reeleição no mesmo vetor de risco, Lula abre duas possibilidades igualmente consequentes: uma vitória com alto custo político, que sinaliza capacidade de resistência; ou uma derrota que comunica, antes mesmo da definição das candidaturas em agosto, que a presidência encontrou seu fim precoce. Não há resultado neutro nessa equação. E o que torna a aposta ainda mais custosa é que ela não está sendo feita num ambiente de força — está sendo feita num ambiente de erosão acumulada, onde cada derrota adicional no Legislativo alimenta a percepção de que o pêndulo do poder já começou a se mover.
A rejeição ao nome de Messias para o STF e a derrubada do veto presidencial ao PL da Dosimetria não devem ser lidas como episódios isolados. São sinais de que o Congresso — essa instituição de sobrevivência que Abranches chamaria de parceiro indispensável de qualquer presidencialismo de coalizão funcional — começou a precificar um horizonte diferente do atual para o ciclo de poder.
A este conjunto de pressões internas soma-se um elemento externo que o governo ainda não absorveu em sua plenitude: a designação pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, do PCC e do CV como organizações terroristas — movimento em cuja articulação interlocutores do campo bolsonarista tiveram participação relevante — tem o potencial de redefinir o enquadramento da segurança pública como variável eleitoral. Num terreno em que o governo já parte em posição desfavorável, conforme confirmou o Datafolha de 17 de maio, a entrada dessa pauta com essa moldura representa um agravante que a estratégia atual do Planalto não contempla com clareza.
O mecanismo é direto: quando a segurança pública é enquadrada como questão de soberania nacional e combate ao terrorismo — e não apenas de política criminal doméstica —, o custo de comunicar uma posição de governo se eleva. Qualquer resposta que pareça tíbia é imediatamente recodificada como fraqueza. Qualquer resposta que pareça mais dura exige medidas concretas cuja execução o governo não controla inteiramente. É uma armadilha de enquadramento, e o governo entrou nela sem uma resposta qualificada pronta. E isto, por si já se coloca como marcador da permanência das dificuldades do modelo de tomada de decisão construído por este terceiro governo Lula.
É diante desse conjunto de pressões — internas pela incapacidade da base de defender o governo com efetividade, externas pelo avanço de uma narrativa de segurança que o Planalto não controla — que Lula parece inclinar-se para uma estrutura discursiva que guarda semelhança com a de 1989: a aposta no confronto de campos, na polarização como instrumento de mobilização, na construção de um inimigo suficientemente nítido para compensar a ausência de uma coalizão suficientemente ampla.
A lógica tem coerência histórica. Em 1989, a polarização funcionou como amplificador de uma candidatura que partia de posição desfavorável e que transformou a disputa eleitoral num referendo sobre projetos de país. O problema é que 1989 não é 2026 — e Kahneman diria que o risco do pensamento ancorado em padrões passados é precisamente este: ele permite reconhecer a forma de uma situação sem perceber o quanto seu conteúdo mudou.
Em 2026, polarizar pode fixar Lula num campo que já atingiu seu teto de crescimento sem conquistar a fronteira de que precisa
Em 1989, o adversário era Collor — uma candidatura nova, sem partido estruturado, sem governabilidade testada. Em 2026, o adversário é Flávio Bolsonaro — herdeiro de uma base eleitoral consolidada, com uma máquina partidária funcional e com o benefício estratégico de não precisar apresentar um programa detalhado para manter sua posição nas pesquisas. A geometria da polarização é distinta. Em 1989, polarizar era ampliar. Em 2026, polarizar pode ser restringir — ao fixar Lula num campo que já atingiu seu teto de crescimento sem conquistar a fronteira de que precisa.
Há um segundo elemento que diferencia os dois contextos e que raramente aparece na análise política cotidiana: o presidencialismo de coalizão de 1989 não existia como arquitetura consolidada. Lula disputou aquela eleição como outsider de um sistema que ainda estava se institucionalizando. Hoje, ele governa dentro desse sistema — e as regras desse sistema, como Abranches demonstrou, exigem capacidade permanente de negociação horizontal com o Congresso. A aposta na polarização vertical — presidente versus oposição — não substitui essa capacidade. No máximo, a suspende temporariamente. E suspensões temporárias de governabilidade, num terceiro mandato já desgastado, têm custo que se acumula.
O risco político da aposta não está em sua racionalidade interna, que é compreensível à luz dos padrões cognitivos que Simon e Kahneman descrevem. Está em partir do que se conhece para lidar com um presente que é estruturalmente distinto. Se o desejo de fazer história com um quarto mandato se tornar dependente da necessidade de forçar um embate em condições desfavoráveis, o que se cria é a possibilidade de que, tal como em 1989, a derrota derive menos da força do adversário do que da incapacidade de aceitar o que a realidade política efetivamente impõe.
O vetor a monitorar a partir daqui, portanto, não é a resposta do Senado a uma eventual reapresentação de Messias. É sim, a resposta do PT. Se o partido mobilizar com convicção em torno da indicação, Lula terá confirmado que sua reserva de lealdade ainda tem combustível. Se o partido recuar — ou mobilizar com a tibieza que o próprio presidente tem criticado em privado —, o diagnóstico de solidão institucional progressiva deixará de ser uma hipótese analítica e passará a ser um fato político com consequências eleitorais mensuráveis.
Esse é o teste real. E é um teste que o presidente parece saber que está fazendo — o que torna sua decisão de fazê-lo, neste momento e nestes termos, a informação política mais relevante da conjuntura.
Por que o PT surgiu? Por que o PSDB? Por que o PMDB? E o que cada um dos partidos brasileiros tem a ver com o Brasil que existia antes deles? Pedro Doria conta a história dos partidos políticos no novo episódio do Ponto de Partida, A Série — Nós, Brasileiros. Os Partidos é uma produção imperdível para entender este ano eleitoral. Exclusivo para você que é Premium. Assista no streaming do Meio.






























