Edição de Sábado: A armadilha
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Flávio Bolsonaro foi a Washington buscar um alívio à imensa pressão que sofria desde que vieram à tona seus áudios e mensagens com Daniel Vorcaro. Voltou com um álbum de fotografias de encher os olhos de sua própria militância e da direita brasileira. Mas ainda pairava sobre a viagem a dúvida do quão proveitosa e eficaz ela seria para a pré-campanha do senador.
Pois a Casa Branca decidiu, no dia do retorno de Flávio a Brasília, anunciar que passaria a classificar, a partir de 5 de junho, as facções de traficantes Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como terroristas. Dois dias antes, Flávio dissera que esse havia sido um de seus pedidos a Donald Trump e Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos. Guilherme Casarões, cientista político e professor da Florida International University, conta que mapeou como o assunto segurança pública não estava presente no lobby de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo junto à Casa Branca, mas entrou na pauta depois da operação policial que deixou mais de 120 mortos no Rio.
Embora o tema seja novo no discurso de Flávio e já viesse sendo debatido entre EUA e Brasil há mais de ano, a proximidade das coisas fez parecer que a decisão era consequência da sua visita. E, com isso, o pré-candidato do PL, enrolado até a tampa com caso Master, não só ganhou um baita respiro como jogou para o presidente Lula a dificílima tarefa de explicar por que é contra a medida. “Se criticar, vai ficar parecendo que o governo defende bandido. E agora que esses grupos são classificados de terroristas, é muito fácil acusar o próprio Lula de ser defensor do terrorismo”, diz Casarões. Confira os principais trechos da entrevista que ele concedeu ao Meio.
Em que medida essa decisão da Casa Branca de classificar PCC e CV como terroristas foi influenciada pela visita de Flávio Bolsonaro?
Essa é uma pergunta difícil de responder, porque, como se aprende em metodologia científica básica, uma coisa acontecer depois da outra não quer dizer que a primeira causou a segunda. Ou seja, afirmar que a decisão do governo americano de classificar o PCC e o CV como grupos terroristas vem da reunião com Flávio é algo que vai ser explorado narrativamente pelo bolsonarismo, mas que não necessariamente guarda alguma relação. O governo Trump, desde o começo do ano passado, vem fazendo isso com outras organizações de crime organizado e narcotráfico da América Latina. Isso por conta do chamado Corolário Trump, aquela ideia que Trump enunciou na doutrina de segurança nacional em novembro do ano passado e que basicamente coloca a América Latina como um quintal renovado dos EUA. Dentro desse quintal, o governo americano atua da maneira como bem entende nas questões ligadas a migração, tráfico de drogas, recursos estratégicos e interferências políticas eventuais, quando achar necessário. A vontade de denominar CV e PCC como terroristas já vem de há algum tempo no governo Trump. E isso sequer era tratado pelo bolsonarismo naquele primeiro lobby que Eduardo Bolsonaro começou a operar junto à Casa Branca.
Ah, não?
Não. Os temas que estavam ali presentes não falavam disso. Eu mapeei para um artigo que escrevi, e ainda não foi publicado, toda essa agenda do lobby bolsonarista desde antes de Trump ser eleito, passando pela crise aguda de julho a setembro, até o início das negociações com o governo Lula. Esse mapeamento extensivo mostra que o debate de segurança pública não aparecia. O que aparecia era o tema da liberdade de expressão e o inquérito das fake news ligado ao [ministro do STF] Alexandre de Moraes. Era uma tentativa de sancionar pessoalmente o ministro, naquele momento o grande inimigo dos bolsonaristas. Falava-se muito em Lei Magnitsky, mas mesmo as tarifas, quando impostas pelo governo americano, acabaram surpreendendo o campo bolsonarista. O pacote — tarifas, investigações comerciais, a 25 de março, etanol, desmatamento, Pix — veio a reboque de uma alegada perseguição política a Jair Bolsonaro. Paulo Figueiredo foi algumas vezes à Câmara dos Deputados americana dar depoimentos em comissões temáticas falando do Brasil. Projetos de lei foram propostos por deputados da Flórida contendo possíveis penalizações a países cujos ministros violassem a liberdade de expressão de empresas americanas. Era uma questão muito ligada às big techs e à liberdade de expressão como um tema ideológico. PCC e CV passavam ao largo disso.
Quando esse tema entra na preocupação do bolsonarismo?
Ainda que de maneira muito lateral, quando foi feita a operação no Rio que matou mais de 120 pessoas, num contexto em que Flávio Bolsonaro faz uma postagem dizendo que é hora de os EUA virem bombardear a Baía de Guanabara. E chama atenção o fato de que o candidato da extrema direita colombiana, Abelardo de la Espriella, falou coisa muito semelhante. Então, não é algo estrutural da narrativa bolsonarista, que aflorou num contexto em que eles entenderam, corretamente, que a situação de insegurança do brasileiro, principalmente nos centros urbanos, está periclitante e que eles poderiam explorar esse campo da segurança pública como forma de se opor ao governo federal. Mas é importante que se façam algumas ressalvas. A primeira: o tema da segurança pública não é de capacidade exclusiva do governo federal. E as tentativas que o governo federal fez de criar instrumentos coletivos de segurança pública foram torpedeadas pela oposição: o Sistema Único de Segurança Pública, proposto pelo [ex-ministro Ricardo] Lewandowski, toda tentativa de fazer parcerias foi rechaçada até por governadores bolsonaristas como Tarcísio, Caiado, Zema. Portanto, esse é um tema que apareceu de uma maneira fundamentalmente distorcida. Chamar os Estados Unidos para intervir e livrar o Brasil do crime organizado não é algo que faça sentido em nenhuma hipótese. Mas era algo que o governo americano já queria fazer. E tudo que Lula vinha fazendo, desde a química mutuamente declarada com Trump, era tentar evitar isso.
E por que fracassou?
Lula teve uma ligação telefônica com Trump, que eu também mapeei, em dezembro do ano passado — ou seja, já tinham se encontrado na Malásia, já tinham retomado as conversas —, e, nessa ligação, isso foi divulgado pelo próprio portal do Planalto, Lula trouxe o tema da segurança, em que ele saúda a possibilidade de cooperação com os Estados Unidos no combate ao crime organizado. Não fala de PCC ou CV, mas dá ali uma perspectiva de que o Brasil estaria disposto a cooperar em frentes que os EUA julgassem relevantes. Lembrando que crime organizado não é só o traficante que fica na boca de fumo, no morro do Rio. O traficante está envolvido com o sistema financeiro, com setores produtivos como o etanol. O Pix é um instrumento utilizado amplamente por esses traficantes como forma de lavagem de dinheiro. Há uma infinidade de instrumentos. E o governo Lula, ao se mostrar receptivo nessa conversa com Trump, parecia estar de alguma forma evitando que o pior acontecesse, que seria essa classificação como grupos terroristas. No encontro com Trump no começo de maio, ele novamente se mostrou aberto a cooperar com os EUA no combate ao crime organizado transnacional. E todos achamos, a despeito das primeiras manifestações de interesse do governo americano, que depois da conversa com Lula isso estaria fora do horizonte. Me surpreendeu a decisão da Casa Branca e de Marco Rubio.
Antes de entrarmos nas consequências internas, o que a decisão revela sobre as relações EUA e Brasil neste momento? Isso pode ser lido como uma ameaça de interferência na eleição brasileira?
Temos de fazer uma distinção muito sutil entre interferência no processo eleitoral e interferência no quadro político-eleitoral, porque algo que se especula que a Rússia já fez, que a China já fez e que os EUA já fizeram seriam, por exemplo, operações secretas para interferir no resultado eleitoral de maneira direta. Pré-1964, a gente via os EUA lavando dinheiro para poder financiar candidaturas de deputados de oposição ao Jango. A Rússia foi acusada de mobilizar fazendas de perfis fake em redes sociais. Não acho que estejamos no campo dessas operações de natureza tecnológica e estratégica para mudar resultado eleitoral ou para violar a integridade eleitoral. O sistema eleitoral brasileiro é seguro o suficiente — ou se espera que seja — para impedir esse tipo de coisa. E eu nem acho que seja do interesse do Trump, nesse momento, fazer uma interferência direta para assegurar a vitória de um aliado como Flávio Bolsonaro. Outra coisa é o que o Trump vem fazendo.
Declarar apoio a aliados?
A verdade é que isso, lamentavelmente, se tornou algo mais recorrente nas últimas duas décadas, com essa personalização da política impulsionada pela globalização da comunicação etc. Vamos lembrar que Jânio Quadros, em 1960, embora fosse de direita, foi para Cuba na campanha prestar uma espécie de tributo ao anti-imperialismo da revolução. Os jornais não davam manchetes do tipo “Fidel Castro está interferindo na eleição do Brasil”. Collor, Lula e Brizola fizeram viagens longuíssimas durante a campanha de 1989. Collor tirou foto com Margareth Thatcher, então premiê do Reino Unido. Isso se banalizou um pouco e se tornou algo muito pessoal, ideológico. Não é só uma questão de “ah, você pode ser o futuro presidente do Brasil, então vou te receber”. E Trump faz isso com facilidade, recebeu vários candidatos latino-americanos que eventualmente viraram presidente. Ele jogou o peso político da Casa Branca nas eleições do Canadá (e se deu mal), da Austrália (e se deu mal), da Hungria (e se deu mal). Eu não consideraria uma interferência direta nas eleições no sentido de intervir no processo eleitoral. É um endosso que, infelizmente, bagunça a linha entre o interno e o externo, mas que tem feito parte do jogo político.
Esse endosso pode aumentar daqui em diante?
Até dois dias atrás, conversando com algumas pessoas mais próximas do governo americano e colegas diplomatas, eu tinha a sensação de que Trump havia encontrado um modus vivendi com o Brasil: “Olha, dá para lidar com Lula, dá para conseguir dele aquilo que queremos, sem necessariamente precisar substituir o presidente”. O encontro do começo de maio era uma mostra disso. É óbvio que no longo prazo é melhor ter um aliado obsequioso, tipo Javier Milei, mas o Brasil é um parceiro com quem dá para trabalhar. A grande questão é que Trump delega muita coisa, ele não está atento a todos os temas. Ele está preocupado com o Irã, com Jeffrey Epstein. Nos níveis abaixo do Trump no governo e no movimento Maga mais amplamente, existem simpatizantes abertos do Bolsonaro e do bolsonarismo, como Darren Beattie, Jason Miller e Marco Rubio.
É possível imaginar que a decisão tenha sido mais de Rubio?
Ele tem uma influência muito grande e foi professor da universidade onde dou aula. Rubio é uma figura que tem uma agenda muito bem definida há décadas sobre a América Latina, que é “temos de expulsar o comunismo da região”. Isso é uma herança familiar de gente que saiu de Cuba por causa da revolução. Aparentemente nem foi o caso dos pais dele, mas o fato é que existe uma comunidade cubana muito volumosa e influente aqui no sul da Flórida. Não é no país inteiro. Só para você ter uma ideia, dos latinos nos EUA, são 38 milhões de mexicanos e 2,9 milhões de cubanos. Mas os cubanos têm uma influência desproporcional, pelo peso da Flórida e pela proeminência de algumas figuras como Rubio. Ele é um senador conservador tradicional ou um neoconservador dentro do espectro político republicano, favorável a intervenções no Oriente Médio, um hawk. Mas não era um trumpista. Disputou com Trump as primárias de 2016, se opôs a Trump durante um pedaço do governo, foi crítico de algumas decisões. Agora, Trump deu a ele a possibilidade de realmente ter poder concreto por meio do cargo de secretário de Estado e de assessor de segurança nacional. E isso, claro, fascinou Rubio e deu a ele uma chance real de se tornar o sucessor de Trump. A leitura geral é a de que o Trump está fritando [o vice-presidente] JD Vance em todas as oportunidades que pode.
O que Rubio pensa do Brasil?
Apesar de não ter uma ligação histórica com o bolsonarismo, pelas vias indiretas — porque muitos deputados da Flórida são próximos do bolsonarismo, como Maria Elvira Salazar — ele foi sendo trazido para esse campo. Todas as declarações que ele deu desde que virou secretário de Estado comprovam isso. Ele sempre foi muito aberto a ouvir as demandas bolsonaristas, e isso ajuda a entender o contexto dessa decisão. O que me surpreendeu não foi nem a decisão em si, mas foi o fato de ela ter sido tomada menos de 48 horas depois da visita do Flávio. E de novo, mesmo que não seja causa e efeito, criou-se muito claramente essa relação que vai ser explorada livremente pelo bolsonarismo.
Quais as consequências dessa decisão da Casa Branca para a política brasileira?
Isso é terrível para o governo Lula. Ao tomar essa decisão, o que o governo americano faz é abrir a possibilidade — ou o precedente — de usar instrumentos jurídicos, econômicos e militares de maneira unilateral contra o Brasil para supostamente combater o crime organizado. Mas, no caso da Venezuela, o que estava em jogo era praticamente a mudança de regime. Ela acabou não acontecendo, mas Nicolás Maduro não está mais no poder, né? As alegações foram as mesmas, de ligação com o tráfico. Veja, Maduro foi pego em Caracas por agentes da Drug Enforcement Agency (DEA), a agência antidroga dos Estados Unidos. O problema diz menos respeito à natureza do PCC e do CV, que, a meu ver, não são grupos terroristas; são grupos de crime organizado que representam um problemaço de outro tipo para o Brasil. Essa nova classificação, se for efetivada, coloca o Brasil com um alvo nas costas para interferências unilaterais, extemporâneas, indevidas dos EUA, sem que o Brasil possa fazer muita coisa.
E para a campanha de reeleição de Lula?
Para a campanha também é muito problemático em três dimensões. Primeiro, porque Lula tem uma dificuldade de lidar com o tema de segurança pública. Não quero dizer que ele não fez nada sobre isso, mas o brasileiro médio não consegue enxergar as limitações estruturais que o governo federal tem para lidar com o tema. Houve muitas operações da Polícia Federa bem-sucedidas durante esse período, mas o brasileiro está preocupado com a sua insegurança pessoal. O que melhora não é atribuído ao governo federal e o que piora vai para a conta do governo federal. Até porque os governos de esquerda, de uma maneira geral, têm um discurso diferente com relação à segurança pública, que envolve diminuir a população carcerária, políticas públicas em vários campos para lidar com o problema, enquanto a direita tem uma agenda mais assertiva: bandido bom é bandido morto, tem que prender todo mundo, vamos “bukelelizar” o Brasil, como diz o Renan Santos, do Missão. Do ponto de vista da narrativa, trazer o tema da segurança pública e colocar o Lula numa espécie de beco defensivo é muito problemático para a campanha de reeleição do presidente. E aí vem o segundo motivo: hoje o governo Lula vai ter de fazer uma escolha muito difícil entre ceder, aceitar essa denominação, essa classificação, sem crítica, sem ressalva; ou, se criticar, vai ficar parecendo que o governo defende bandido.
Enquanto conversamos, parece que Lula já fez essa escolha. Ele falou: “Não vamos aceitar ser tratados como moleques”. E partiu para um discurso de soberania. Agora, a soberania é um conceito bem mais difícil de explicar, sobretudo aplicado a este campo, do que o combate ao crime organizado.
Pois é. Parodiando Maria da Conceição Tavares: o povo não come soberania. As pessoas têm uma dificuldade muito grande de entender o que o conceito significa para além da abstração. Mas eu queria dar um passo atrás, porque falei que eram três desafios que a campanha de Lula teria. O primeiro sendo a possibilidade de interferência; o segundo sendo como responder para não ser fatalmente tachado o governo como defensor de bandido. Isso vai ser uma narrativa dominante daqui pra frente, o que pro Flávio Bolsonaro é ótimo, porque vira a página de Daniel Vorcaro, do Banco Master. Mas tem uma terceira coisa. Desde 2018, quando Jair Bolsonaro ainda estava construindo o movimento bolsonarista, ele ancora sua narrativa antipetista buscando associar Lula ao que há de pior. “Se Haddad, do Lula, for eleito, o Brasil vai virar Venezuela” foi um caminho. Depois vazou aquela história do “diálogo cabuloso” — a transcrição [depois apontada como falsa] de um áudio comprometedor que era uma tentativa de associar PCC com PT. Volta e meia ressurge a ideia de que Alexandre de Moraes teria algum vínculo com PCC também. Em 2022, Lula vestiu um boné escrito CPX, que virou um cavalo de batalha nas redes sociais, porque o campo bolsonarista acusava Lula de ser cupincha do Comando Vermelho. O bolsonarismo questionava por que Marielle Franco podia subir no morro e outros políticos não podiam. Essa narrativa que vai de Marielle Franco até 2022 busca realizar um sonho que Olavo de Carvalho tinha desde a década de 1990: vender a ideia de que PT, Foro de São Paulo e as Farc colombianas eram tudo-junto-e-misturado. Não há muito de verdade nisso. O PCC e o CV estão infiltrados no Estado, em todos os níveis. Mas não dá para fazer uma associação direta entre PT e crime organizado.
O caso da Deolane também vem sendo usado assim.
Tudo isso é um prato cheio para que o campo bolsonarista. Agora que esses grupos são classificados de terroristas, é muito fácil acusar o próprio Lula de ser defensor do terrorismo. Vale lembrar que Eduardo Bolsonaro, antes da Covid, tentou passar um projeto de lei classificando o Hezbollah como grupo terrorista, que é uma demanda antiga dos Estados Unidos por conta da atuação do Hezbollah na Tríplice Fronteira de Foz do Iguaçu. E os legisladores dizendo: “Olha, a gente só qualifica como grupo terrorista aqueles grupos que são classificados assim na ONU”. Todas essas narrativas, esse acumulado de medidas que o bolsonarismo tomou, ou de coisas que o bolsonarismo disse como parte dessa grande narrativa de oposição, isso volta agora num momento crucial para a eleição. Flávio estava jogando na defensiva até anteontem, mas agora pode partir pra ofensiva. E coloca o presidente Lula numa situação bastante complicada, porque, ao contrário das tarifas do ano passado, em que houve aquela mobilização improvável, pra não dizer quase impossível, de empresários de vários setores, do agro, da indústria, do setor financeiro, que bancaram Lula, Alckmin e Mauro Vieira nas negociações, esse contexto não existe mais.
Por quê? Não pode haver uma mobilização pró-soberania agora?
Paradoxalmente, o tarifaço bateu no Brasil numa dimensão mais abstrata e chegou mais concretamente a quem está nos EUA, como eu, porque o preço no supermercado subiu. Então, para o empresariado, era muito mais fácil rebater as críticas e dizer: “Mas a gente está defendendo a economia, a democracia, a soberania do Brasil”, como foi o discurso correto, a meu ver, do presidente Lula ao longo de toda essa crise. Mas agora a coisa lida com uma dimensão tangível, pessoal, que é a sensação de insegurança do brasileiro e que, de novo, não depende exclusivamente do governo federal. É interessante ver que Flávio Bolsonaro, na coletiva que ele deu logo depois do encontro com Trump, fala que o Brasil perdeu o controle do seu território, o que não é bem o caso. Você tem enclaves territoriais dominados pelo Comando Vermelho. A atuação do PCC é diferente dentro dessa lógica. E faltou mencionar que as milícias no Rio controlam território também. Então, é tudo envolto por contradições. Mas, para efeitos da narrativa política, a quatro meses da eleição, o que importa é vender Lula como amigo do terrorismo, amigo do crime organizado, e que, portanto, não pode mais governar o Brasil.
Quem essa narrativa tende a convencer além dos bolsonaristas já convertidos?
Vamos ter de esperar as pesquisas daqui pra frente. Mas acho que ela tem muito pouco efeito sobre o bolsonarista convicto e o lulista convicto. Quem já está cristalizado nessas posições políticas dificilmente vai mudar de posição. O que ocorre é que o eleitor de centro ainda está em busca de uma alternativa. E para esse sujeito segurança pública deve ser um tema que preocupa, especialmente ligada a crime. Não necessariamente a tráfico de droga, mas essas coisas estão misturadas no imaginário do eleitor. Para Lula reverter essa narrativa vai ser muito difícil. E não adianta colocar promotores, operadores da lei, gente que conhece o assunto, para explicar no Meio, na CNN, na Globo, porque isso não alcança grande parte das pessoas e tem um efeito prático muito pequeno. O que circula no WhatsApp é bandido tomando tiro, é gente morrendo por causa de assalto. De uns dez anos para cá, vivemos uma “datenização” dessa questão do crime organizado, da segurança pública. Mesmo que os dados mostrem que há muito menos homicídio hoje do que dez anos atrás, que há menos crimes inclusive contra o patrimônio, a sensação permanente de insegurança é algo permanentemente abastecido no âmbito das redes sociais. E aí o bolsonarismo navega muito tranquilamente, né? Lula não tem uma resposta pronta. O governo federal e a campanha não têm o que dizer nesse momento para acalmar o ânimo dos brasileiros que estão com medo.
Por outro lado, ao radicalizar o discurso, o tiro bolsonarista não pode sair pela culatra e afastar aqueles eleitores de centro que temem justamente essa radicalização?
Esse raciocínio faria sentido se fosse outro tema. Ainda existe uma grande parcela dos brasileiros, inclusive não eleitores do Lula, que rechaçam Donald Trump e o que ele representa. Mas a questão não é mais Trump. A partir do momento em que há essa classificação, o problema deixa de ser a relação Brasil e Estados Unidos e passa a ser uma disputa sobre diferentes abordagens sobre segurança pública internamente. Por mais que dizer que “bandido bom é bandido morto” não signifique nada e não gere nenhuma política pública decente, por mais que dizer que “vamos dar arma para todo mundo” não vá resolver o problema da insegurança, ou dizer que Comando Vermelho e PCC são terroristas tampouco, a velocidade das narrativas em redes sociais é muito maior do que qualquer tempo de política pública para qualquer coisa. E é isso que está em disputa nesse momento. O governo precisa dar uma resposta — é claro que precisa construir uma narrativa —, precisa produzir resultados tangíveis e palpáveis para a vida das pessoas. Em quatro meses não se consegue fazer isso, enquanto as narrativas circulam no tempo que se deseja. Então, é uma disputa fundamentalmente desigual. Mesmo que nesse momento Flávio jogue parado, ele já fez o que tinha que fazer, e isso pode gerar uma sensação nesse eleitor de centro de que pelo menos alguma coisa foi tentada.
Isso quer dizer xeque-mate em Lula?
Olha, isso vai exigir uma criatividade diplomática e de comunicação política muito grande daqui pra frente da campanha lulista. E um ponto que eu não queria deixar de mencionar: o grande problema para Lula nesse momento é que, por mais que ele tenha respondido que não vão tratar o Brasil como moleque — e eu concordo que ele deva agora usar tudo para defender a dignidade e a soberania do Brasil —, o enrosco nesse caso é que, ao se colocar contra essa decisão, ele necessariamente vai criar um ruído diplomático com os EUA. Se Lula enfrenta a Casa Branca e Trump, imprevisível como é, decide, hipoteticamente, impor tarifas de novo ou levar a cabo a investigação da seção 301 da lei de comércio, ou criar algo para sancionar o Pix brasileiro, qualquer coisa vai cair na conta do Lula. Até duas semanas atrás cabia ao Flávio criar o fato novo dessa eleição para sair da crise Master, ele criou. Agora cabe ao Lula criar um fato novo, positivo, ou contra Flávio.
Dois candidatos à procura de um espaço
Em São Paulo, no escritório de campanha do pré-candidato à presidência da República e ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), estava agendada uma reunião para demarcar aproximação. Quem ali chegou na terça-feira foi Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas Gerais e também pré-candidato. Dois oponentes, que disputam a atenção do mesmo eleitorado, ensaiaram unir forças. Construir, talvez, uma chapa juntos. Ainda na terça, Zema foi cauteloso ao responder sobre a possível parceria a agentes do mercado financeiro. “Conversas sempre ocorrem e, com toda certeza, o desfecho disso vai ser lá na data limite”, disse o mineiro durante um evento na Genial Investimentos, na Faria Lima. No dia seguinte, Caiado também repercutiu o encontro. Disse que existe o “sentimento” de unir forças, que ambos se manteriam “cada vez mais próximos” e sinalizou uma nova reunião para a próxima semana.
Só que, na política, movimentos ensaiados numa semana nem sempre sobrevivem até a seguinte. A própria aproximação entre os dois nasceu como resposta a um momento específico. No início da semana, o pré-candidato mais competitivo da direita, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mastigava o desgaste provocado pela revelação de sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro. As pesquisas Atlas/Intel, Datafolha e Meio/Ideia mensuraram o tombo do Zero Um. Ainda assim, nem Zema, tampouco Caiado, conseguiram capitalizar o episódio ou herdar, de imediato, os desiludidos do bolsonarismo. E agora aliados de ambos descartam a possibilidade de uma composição entre os dois. As campanhas também já evitam confirmar a tal nova reunião.
Em meio a aproximações, recuos e testes de estratégia, as campanhas procuram clarear os caminhos que pretendem seguir, às vezes em direções opostas. Inclusive na forma de encarar o próprio ciclo eleitoral deste ano.
Paulo Vasconcelos, marqueteiro responsável pela campanha de Caiado, elenca a dificuldade de tornar seu candidato conhecido como principal desafio. E coloca em xeque a polarização do cenário eleitoral. “Você constrói na imprensa uma narrativa de polarização que é falsa. Porque você só pode polarizar quando se tem opções. E as opções são desconsideradas. Quando você tem um exército de gente desconhecida, estabelece essa polarização ao contrário, por ausência de oferta. Então, hoje o desafio é nível de conhecimento.”
Já o marqueteiro de Zema, Renato Pereira, não questiona a polarização. Mas aponta que a forma de olhar para essa solidificação é o que pode mudar o jogo. “Eu não tenho a menor dúvida que a gente está em um cenário polarizado e calcificado, mas também não tenho dúvida que o que está por baixo disso é uma sociedade onde a incerteza, a turbulência e o inesperado estão muito presentes. Então, não dá para afastar a possibilidade de que a calcificação possa ser quebrada”, analisa. Um dos elementos que poderiam romper essa cristalização, segundo ele, é o sentimento de indignação. Uma sensação potencializada, sobretudo, pela revelação de escândalos recentes, como o do banco Master e o do INSS.
Por isso, Pereira vê esta eleição como mais parecida com 2018 do que com 2022. No último pleito, explica, o Brasil saía de uma gestão Jair Bolsonaro (PL) marcada pelo “fracasso” na condução da pandemia, o que teria dado forças para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Já, em 2018, a agenda era outra: a indignação. “Agora a gente tem uma eleição novamente muito mobilizada pela indignação do brasileiro contra privilégios, contra corrupção, contra essa sensação que muita gente tem de estar do lado de fora, de viver em um país onde poucos se dão bem. E o escândalo do Master é um gatilho muito importante na mobilização da indignação e da revolta do brasileiro neste instante.”
(Assista à íntegra das entrevistas com Paulo Vasconcelos e Renato Pereira no nosso streaming.)
Na contramão de Pereira, Vasconcelos não tem certeza da força do Master para alterar os ponteiros da corrida. “O Master é vendido para a elite como um problema, algo que se discute com dados, números, o valor da taxa de juros. Mas lá embaixo, na raiz da sociedade, isso é um não assunto.” Ao traçar um paralelo com a Operação Lava Jato, que mobilizou amplos setores da sociedade, Vasconcelos argumenta que os casos têm naturezas diferentes, uma vez que a Lava Jato se desenrolou na televisão, em um tempo de uma internet ainda pouco desenvolvida, com menos alternativas de consumo de informação. Por esses motivos, o tema foi massificado. “Em que estágio nós estamos no Banco Master? Em 2014. Eu fiz a campanha do Aécio em 2014 e o primeiro comercial já falava da Petrobras, quando ainda existia apenas um cheiro de desgaste. Quando o Banco Master chegar em 2018, se chegar, aí sim, você pode ter uma sociedade completamente abastecida de informação – e especialmente a base da pirâmide.”
A cientista política do INCT/SANI/CNPq e doutora em ciência política pelo IESP/UERJ Carolina Botelho também diagnostica que é cedo para medir o impacto do Master nas campanhas eleitorais. Ela reconhece, porém, que a candidatura de Flávio se desgastou nas últimas semanas. “A grande questão é saber se isso vai se manter ao longo do tempo e se novas denúncias vão surgir até outubro. Mensurar o impacto real disso, a gente só vai conseguir no momento da eleição.” Botelho ressalta, no entanto, a resiliência do eleitorado bolsonarista. “As pesquisas mostram que esse abalo não teve tanto impacto nesse núcleo mais fiel. Acabou influenciando mais uma parcela ainda indecisa e provavelmente é essa parcela, ainda pequena, que vai decidir a eleição presidencial de 2026”, aponta.
Caiado, por exemplo, escolheu adotar um tom menos agressivo em relação à ligação entre Flávio e o banqueiro. Vasconcelos pondera que Caiado agiu assim porque “ainda é preciso acompanhar a evolução dos fatos.” Diferente de Zema, que foi mais enfático. “Mas aí é uma escolha estratégica. Zema ganha muito mais buzz, muito mais movimento em rede com isso. E nós somos uma bolha. Essa entrevista aqui interessa ao mundo político e a quem gosta disso. O cara que não acorda de manhã pensando em política tem outras preocupações muito mais urgentes”, completa Vasconcelos.
Logo após o Intercept divulgar o áudio em que Flávio pede dinheiro a Vorcaro para concluir as gravações do filme Dark Horse, o ex-governador mineiro gravou e publicou em suas redes um vídeo classificando o episódio como “imperdoável”. Pereira esmiúça a atitude: “Como alguém que pede impeachment de ministro do Supremo por contratos suspeitos vai pegar leve quando um líder da direita aparece pedindo dinheiro da forma como apareceu ali? Ainda mais se contradizendo depois? Isso contraria toda a linha que ele vinha trabalhando na campanha.” Após a subida de tom, Zema confirmou nesta semana que apoiará Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno da eleição presidencial.
A centralidade das redes
Na campanha do mineiro, as redes sociais ocupam um papel central. Funcionam como um laboratório permanente de testes para discursos, reações e estratégias de comunicação. No entorno de Zema, a lógica defendida é a de operar no modo “SpaceX”, não “NASA”. Renato Pereira lembra que, até pouco tempo atrás, campanhas presidenciais funcionavam de maneira quase linear. Primeiro, vinham as pesquisas quantitativas. Depois, a interpretação dos dados, a formulação da estratégia e os testes em grupos qualitativos. Só então a mensagem era levada ao público. “Você refinava tudo em laboratório antes de o candidato falar ou de a propaganda ir para o ar. Hoje, buscar informação, pensar a informação e produzir informação acontecem simultaneamente. Não dá tempo de ser linear.” É aí que surge a comparação com a corrida espacial. “A NASA sempre trabalhou com a lógica de testar exaustivamente para nada dar errado no lançamento. A SpaceX lança, erra, aprende, lança de novo. Descobre o que performa melhor e investe nisso.”
Na prática, diz Pereira, o erro passou a integrar o próprio método de campanha. Mensagens diferentes são colocadas em circulação ao mesmo tempo para medir, em tempo real, o que gera mais engajamento e repercussão. Pereira cita como exemplo a resposta rápida de Zema ao episódio envolvendo Flávio e Vorcaro. “Teve gente dizendo que foi precipitado. Mas ou você entra no timing ou você não existe.”
O avanço digital de Zema, no entanto, ainda não se refletiu de maneira expressiva nas pesquisas eleitorais. Nem mesmo após o tombo de Flávio, o que, segundo Pereira, já era esperado pela campanha. Para o marqueteiro, o crescimento nas redes cumpre, neste momento, uma função mais ligada à construção gradual de relevância política do que à conversão imediata de votos. “Eu digo para o Romeu e para o Novo que não dá para esperar movimentação forte em pesquisa antes de setembro, quando o brasileiro realmente estiver conectado com a eleição”, argumenta.
Vasconcelos segue por outro caminho. Desconfia do potencial de conversão de curtidas, visualizações e engajamento em voto efetivo. Para ele, uma campanha excessivamente moldada pelas redes corre o risco de construir apenas um personagem digital. “Se você governar sua campanha pelas redes, chega só até a metade do caminho. Ganha likes, views, buzz, mas não necessariamente chega ao voto ao vivo”, assegura. A estratégia que traça, portanto, é mais lenta e baseada na construção gradual da imagem do candidato. “Tem coisas que dão muito mais repercussão, muito mais barulho. Mas aí é um estilo de trabalho.”
Na avaliação de Vasconcelos, o embate com o Supremo Tribunal Federal, por exemplo, já pertence ao repertório consolidado do bolsonarismo. “A briga com o STF é uma narrativa do bolsonarismo raiz. Ela pertence a eles. Então, existe o risco de você virar uma linha acessória dessa história e não ser dono do resultado.” Ele reconhece que esse tipo de posicionamento ajuda a moldar a imagem pública do candidato. “Claro que coloca no imaginário um cara brigando com o STF. Mas a pergunta continua sendo: quanto isso converte em voto?”. Assim, Vasconcelos enxerga a estratégia de Zema como uma tentativa de ocupar um espaço antissistema. “Zema é um sujeito ainda muito desconhecido nacionalmente e consegue construir essa posição de outsider. Já Caiado tem quarenta anos de vida pública, sai do governo com 88% de aprovação, é reconhecido até por quem não votou nele. Tenho dificuldade de enxergar esse personagem antissistema.”
Carolina Botelho, todavia, pondera que a própria ideia de outsider talvez já não carregue o mesmo peso eleitoral de 2018. Aquele contexto era marcado por uma crise institucional profunda, desgaste dos partidos tradicionais e forte descrença do eleitorado. Ela também vê limites para que Zema sustente essa imagem. “Ele já está na cena política há muitos anos. Vai ser difícil se vender como alguém de fora.”
Sobre o papel das redes, como define Botelho, elas já se consolidaram como parte incontornável da disputa eleitoral desde 2018. “Elas potencializam e vocalizam os discursos dos políticos de outra forma e colocam o eleitor mais próximo do candidato.” As falas e agendas dos presidenciáveis passaram a circular de maneira mais dinâmica, mais acelerada do que em ciclos anteriores. Por isso, colocar uma campanha presidencial de pé em 2026 passa por entender duas coisas ao mesmo tempo: a perspectiva democrática consolidada a partir da lógica lulismo versus bolsonarismo e o papel das redes sociais como espaço central da disputa política. E, em meio a recuos, aproximações e disputas por um eleitorado ainda fortemente concentrado em Flávio Bolsonaro, é nesse ambiente que os pré-candidatos de segunda fileira da direita tentam encontrar seus espaços — e, eventualmente, uns aos outros.
O custo do clima
No filme O Dia Depois de Amanhã, de 2004, o climatologista Jack Hall (Dennis Quaid) tenta convencer líderes globais de que o colapso climático poderia estar mais próximo do que imaginávamos. Durante décadas, a crise ambiental foi retratada exatamente assim: como uma ameaça futura, distante e quase abstrata. Nos anos 2000, manchetes alarmistas e imagens de ursos polares isolados em pequenas ilhas de gelo ajudaram a consolidar a ideia de um planeta à beira de um colapso. Mas um colapso futuro.
No entanto, com a maior incidência de enchentes, furacões e ondas de calor, começamos a perceber um certo “descontrole” na natureza. E quando a imprevisibilidade passou a ser regra, sentimos o impacto, finalmente percebendo que aquele futuro é agora, e que a questão do clima já está por toda parte. “A gente sente que o clima faz parte de absolutamente tudo: da cultura, da comida, da moda, do ar que respiramos, e ainda assim é considerado uma área totalmente científica”, opina Shereen Daver, diretora de inovação da Syli, empresa britânica que impulsiona o jornalismo.
Na conversa com a especialista, que está no Brasil para palestrar no Festival 3i de jornalismo, que acontece neste final de semana no Rio de Janeiro, ela exemplifica. “Quem não ama comer, certo? Você tem orgulho da comida do seu país, e eu quis experimentar essa tapioca maravilhosa. Agora, se secas frequentes ou enchentes inviabilizassem a compra e o preparo dela, isso feriria o tecido social”, argumenta.
Hoje, a geração Z, que nasceu entre 1997 e 2012, enxerga o mundo como um lugar assustador, de acordo com estudo da Universidade de Montclair, nos EUA, e um dos motivos desse estresse existencial é a mudança do clima. Existe até um conceito na psicologia para descrever essa sensação de desesperança: ecoansiedade.
As gerações que estão no mundo há mais tempo também não trabalham com otimismo. Shereen Daver lembra como o clima muda até hábitos mais rotineiros para determinados grupos. “Idosos na faixa dos 70, 80 anos costumavam sentar do lado de fora, nas calçadas, em grupos. Só que está ficando quente demais, então eles ficam no ar-condicionado dentro de casa e mal se sentam com os amigos.” Com isso, não só a conta de luz fica mais cara, mas eles também não se conectam e podem se sentir solitários.
Na opinião dela, não é que a abordagem catastrofista não tenha impacto, mas sim que falar de crise com alarmismo e jargões é um erro de narrativa. Mesmo que 92% dos brasileiros confiem na ciência, engajar o público em assuntos climáticos fica difícil quando o jornalismo não transforma números em vida cotidiana. “Você sofre para sair de casa porque está muito quente, vê um aumento de doenças transmitidas por mosquitos, a conta de luz e o preço de alimentos básicos subirem. Tudo isso são questões econômicas refletidas em situações diárias, e, quando uma pessoa sente isso, ela tende a mudar de opinião e agir”, explica.
Mas qual a melhor forma de agir? O conceito climateXchange (cXc) propõe uma virada na comunicação climática, para que ela possa ser inserida de maneira transversal nas conversas sobre política, moda, economia ou decoração — encontrando pontos de intersecção que importem para os seres humanos. “Ao retratarmos clima como desastre, não trazemos uma história cativante, e assim assustamos as pessoas a ponto de gerar inação”, defende Shereen.
A nova narrativa precisa combinar quatro elementos: crise, soluções, esperança e ação. Ou seja, falar do problema para dar contexto; então, pensar em uma linguagem ou em iniciativas que já estejam lidando com a crise; em seguida, mostrar o potencial ou os resultados já obtidos; e, por fim, demonstrar ou citar maneiras práticas de agir, fazendo com que as pessoas se sintam empoderadas para fazer parte da solução. Aliás, já existem exemplos práticos.
Em uma reportagem do portal Nonada, financiada pela cXc, músicos amazônidas mostram como traduzem jargões técnicos e o tom alarmista para a realidade local, cantando sobre os impactos do clima nas alterações dos rios, e até mesmo na escassez de matéria-prima para a construção de instrumentos.
Pelo mundo, claro, as mudanças climáticas já provocam aumento nos preços e reconfiguram a economia global. Mas será que a população em geral consegue conectar o medo da inflação às mudanças do clima?
A conta chegou?
Na mesa dos brasileiros, a conta climática já chegou há um tempo. Eventos climáticos recentes, como as secas históricas na Amazônia e no Pantanal — que registraram chuvas até 40% abaixo da média — e as enchentes sem precedentes no Rio Grande do Sul, reduziram drasticamente a produtividade agrícola e forçaram o setor a repensar a sua logística de abastecimento.
Quando as safras quebram, ocorre uma disparada na volatilidade dos preços dos alimentos frescos, o que empurra populações mais pobres para produtos ultraprocessados. A desigualdade de renda é, então, evidenciada e aprofundada. Gabriel Junqueira, sócio e gestor da Santa Fé Investimentos, cita mudanças na dieta das pessoas. “A demanda por um tipo específico de proteína é altamente sensível ao preço relativo. Qualquer alta na carne bovina leva o consumidor a substituir por opções mais baratas, e foi exatamente isso que impulsionou o consumo de frango nos últimos anos”, explica.
Aliás, para Junqueira, os eventos climáticos extremos já mudaram estruturalmente a dinâmica da inflação de alimentos. “É uma mudança estrutural, não um choque pontual. Quando olhamos para o arroz na prateleira do supermercado, esquecemos que por trás dele existe uma cadeia inteira: desenvolvimento de sementes, defensivos, fertilizantes, a operação agrícola em si, transporte e armazenagem”. No entanto, ele lembra que o clima é um amplificador desse quadro, não a causa isolada.
Além disso, o especialista cita que a margem do produtor está “apertadíssima”. O contexto econômico marcado por custo de capital alto, risco elevado e preços de commodities em queda formam o cenário atual. Para Junqueira, fica difícil até mesmo para o mercado financeiro precificar a crise climática. Isso porque o impacto é altamente regionalizado, podendo chover demais numa região e de menos em outra.
Juros não fazem chover
Se a inflação sobe, os Bancos Centrais, por prerrogativa, precisam tentar combatê-la, mas o desafio não tem sido trivial. Isso porque subir juros ataca a inflação de demanda, ou seja: quando muitas pessoas, com renda disponível, procuram um item de forma mais elevada do que as empresas têm capacidade de produzi-lo. Mas a inflação de alimentos é de outra natureza. Por ter a chamada “demanda inelástica” — isto é, as pessoas precisam continuar comprando comida, mesmo mais cara, pois não podem simplesmente parar de comer — a inflação não é a de demanda, mas a de oferta. O analista pontua que, pela ótica da política monetária, a crise climática é um choque de oferta, e os juros são um instrumento desenhado para conter excesso de demanda, não para fazer chover.
Por isso, os BCs tendem a olhar os chamados núcleos de inflação, que são as métricas que excluem itens voláteis, como alimentos e energia, do número cheio da inflação. “O problema é quando o choque deixa de ser pontual e contamina expectativas e os demais preços, gerando os chamados efeitos de segunda ordem”, diz Junqueira.
Neste caso, o Banco Central é obrigado a reagir, mesmo que o choque seja de origem climática. Aliás, o clima já está formalmente no balanço de riscos. A autoridade monetária brasileira integra uma rede global de Bancos Centrais para o tema climático e, desde 2021, exige que as instituições financeiras gerenciem riscos físicos e de transição, afinal uma quebra de safra vira inadimplência no balanço dos bancos.
Em meio a um cenário de tamanha desesperança, a principal virtude a ser preservada é justamente a esperança. Shereen argumenta que não é como se falar de meio ambiente tivesse de se tornar apenas notas positivas ou reportagens sobre soluções. A decisão de abandonar o catastrofismo é incentivar a ação diante das consequências climáticas que já enfrentamos. Uma abordagem transversal é, portanto, o reconhecimento da nossa habilidade adaptativa. “Se você pensar em como evoluímos ao longo dos séculos, temos uma capacidade incrível de nos adaptar. Então, é esse o papel que o jornalismo climático tem que assumir”, ela atesta.
Enquanto Flávio Bolsonaro e o Banco Master tomam conta das conversas, você pensa a partir de números. A nova Pesquisa Meio/Ideia confirmou a queda do senador e mostrou onde ele recuou: entre jovens, alta renda e centro-direita. Lula melhora, mas ainda não convence o eleitor de que merece continuar. Leve esses dados adiante: envie a pesquisa para os seus grupos. E tem mais para quem é Premium: segunda-feira é dia de lançamento no streaming. Em Ponto de Partida, A Série – Nós, Brasileiros, Pedro Doria investiga como o Brasil chegou a ter 30 partidos sem que ninguém se sinta representado. O novo episódio, Os Partidos, vai à origem desse sistema e ao momento em que ele deixou de funcionar. Quem sabe antes sabe melhor. Seu lugar é o Meio.
Numa semana cheia de emoções na corrida eleitoral, era natural que a política (a sério e em memes) fosse praticamente a única a atrair a atenção dos assinantes do Meio. Confira os links mais clicados:
1. Poder360: Encontro de Flávio e Trump vira meme nas redes sociais.
2. Meio: A íntegra da nova rodada da Pesquisa Meio/Ideia.
3. Meio: No Ponto de Partida, Pedro Doria mostra, pela ordem cronológica, como a versão de Flávio Bolsonaro para sua relação com Daniel Vorcaro não se sustenta.
4. UOL: Deputados aprovam fim da escala 6x1; veja como cada um votou.
5. Panelinha: Pudim de abóbora com especiarias.






























