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Edição de Sábado: A dúvida

Foto: Lula Marques/Agência Brasil

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Os altos

Com a luz principal apagada, um jogo de feixes indiretos azuis cortava o amplo auditório. Assim que o mestre de cerimônias chamou o pré-candidato e senador Flávio Bolsonaro (PL) para subir ao palco, os milhares de gestores ali presentes se levantaram e sacaram os celulares para filmar. Enquanto Flávio caminhava acenando, entre aplausos e gritos, a plateia presente na tarde da última terça-feira na Marcha dos Prefeitos se inflamou. “Ihuuu”, disparavam alguns, ressuscitando o som tantas vezes entoado por Bolsonaro, o Jair. O presidente da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), Paulo Ziulkoski, precisou pedir silêncio para iniciar a mesa. A ideia original era uma sabatina, mas o que aconteceu passou longe disso. Ziulkoski explicou que havia proposto ao Zero Um um formato com perguntas. Em vez disso, Flávio escolhera usar sua uma hora para discursar. Estava precisando.

Ao tomar a tribuna, um coro se sobressaiu ao som do microfone: “Flávio, Flávio, Flávio”. Ele iniciou perguntando “quem quer a volta do Bolsonaro?” e, na sequência, alfinetou a ausência do presidente Lula no evento. Daí em diante, a fala completou o bingo das preocupações da base presente: saudou “em especial” as mulheres, prometeu aos munícipes que, se eleito, barraria qualquer projeto do Congresso que aumentasse despesas dos municípios sem indicar fonte de receita e, à sua maneira, acenou para a segurança pública, tema no topo das inquietações do eleitorado. “Marginais de CV e PCC, ouçam: metam o pé do Brasil até dezembro deste ano porque, senão, a partir do ano que vem, vai todo mundo ser preso ou neutralizado pelas nossas polícias”, proferiu. Respirou fundo. Alinhou a postura e soltou o ar.

Flávio fez um “joinha” para a lateral do palco, onde fileiras de cadeiras eram ocupadas por rostos do bolsonarismo raiz: do senador Rogério Marinho, coordenador de sua pré-campanha, ao deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, passando pelo pastor e senador Magno Malta. Também estavam ali rostos desconhecidos, mas fundamentais para sustentar, dia após dia, a empreitada de alçar Flávio ao Palácio do Planalto. Rostos que não se colocaram à toa. “Eu subi no palco, até de última hora, para dar uma força para o Flávio. A gente não sabia como seria, se ele seria vaiado. E acabou não sendo nada disso, pelo contrário. Acabou com o pessoal se dando cotovelada pra tirar foto com ele. A Marcha foi fundamental para dar um respiro para ele, uma revigorada”, confessou uma assessora, sob anonimato. Um respiro porque, horas antes, Flávio atravessava o pior momento de sua pré-campanha (até aqui) segurando o ar. Entre a crise e o calor da plateia, cabia apenas uma tarde.

Os baixos

Aquela manhã havia sido marcada por uma tentativa de realinhamento que saiu pela culatra. O núcleo duro do PL, incluindo o presidente Valdemar Costa Neto, marcou uma reunião com toda a bancada em um auditório do centro empresarial Brasil 21, onde fica a sede nacional do partido, em Brasília. Deputados e senadores chegaram aos montes. Depois de horas de conversa, muitos saíram com cara fechada ou o olhar distante. A equipe de comunicação de Flávio informou que ele daria uma declaração. Ressaltaram: “é declaração, não coletiva”. Sem sabatinas, sem perguntas.

Ali, o Zero Um admitiu que, além dos áudios publicados pelo Intercept Brasil no qual cobra o pagamento de R$ 134 milhões de Daniel Vorcaro para concluir o filme Dark Horse, havia ainda se encontrado com o banqueiro após a primeira prisão dele, quando Vorcaro já usava tornozeleira eletrônica. A notícia, que já circulava na imprensa, caiu como uma bomba nas bancadas do partido, que souberam do novo desenrolar da crise apenas dentro do auditório. Outra informação omitida por Flávio. Mais uma “surpresinha”.

Então, uma sinfonia desgovernada tomou todas as frentes. Na mesma reunião em que revelara o encontro com Vorcaro, sem pausa para um café que ornasse com a novidade amarga, Flávio mudou o disco e pautou seu ponto de vista sobre o fim da escala 6x1. Mesmo na declaração à imprensa, trocou de assunto com a normalidade e rapidez de uma conversa de elevador. Justificou que o encontro presencial com Vorcaro ocorreu para colocar “um fim” ao patrocínio do filme. Depois, sugeriu que a CLT fosse flexibilizada para permitir o pagamento do trabalhador por hora trabalhada. Simultaneamente, sua assessoria publicou o trailer de Dark Horse dizendo que a peça havia “vazado”.

Enquanto isso, no Brasil 21, a ordem era clara: alinhar o discurso. Todos firmes no apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro. Todos uníssonos sobre a narrativa de que o longa-metragem foi bancado com financiamento privado e ponto, e que não há nada de errado nisso. E que o Master é um escândalo do PT. Todos preparados para minimizar qualquer aparência de crise. E assim se deu, à primeira vista — com a exceção da incontinência facial do senador Sergio Moro. Até que a boca miúda começou a falar. E os bochichos escapuliram.

“Ninguém fecha um financiamento deste valor em uma conversa só. Ninguém é besta de pensar isso. Claro que teria mais coisa. E deve aparecer mais coisa”, confidenciou um deputado experiente. “O problema foi ele não ter contado antes”, disse outro. Para tentar amenizar o mal-estar, o herdeiro político de Bolsonaro prometeu que qualquer nova revelação que possa aparecer estará ligada estritamente ao Dark Horse. Não pôde prometer que não haverá nada novo, contou mais uma fonte. Quase ninguém quis dar declarações abertas, se identificar. Só aqueles que poderiam faturar com toda a crise.

A debandada

“Pessoal, estou aqui com o Flávio fazendo um convite para ele ser o meu vice. O que vocês acham?”, brincou o pré-candidato à Presidência pelo Novo, Romeu Zema, em um vídeo publicado no Instagram, em abril. “Será?”, respondeu Flávio Bolsonaro, entrando na trend. A postagem havia sido uma ideia do deputado federal Marcel Van Hattem (Novo), em meio às especulações de que Zema ganhava corpo para compor a chapa como vice de Flávio. Um mês depois, a lua de mel terminou de supetão. Assim que o Intercept Brasil publicou o áudio de Flávio, ainda no dia 13, Zema apareceu nas redes sociais para dizer que ouvir o senador cobrando dinheiro de Vorcaro era “imperdoável”, um “tapa na cara dos brasileiros de bem”. Os dias passaram e o mineiro seguiu elevando o tom.

Nesta semana, Zema também passou pela Marcha dos Prefeitos. Chegou um dia depois de Flávio, quando a crise envolvendo o senador já corria rápido pelos corredores de Brasília impulsionada pela admissão do encontro com o banqueiro preso. O cenário, porém, era outro. Diante de um auditório bem menos cheio, com cadeiras vazias até nas primeiras fileiras, o mineiro optou por responder as perguntas na sabatina e aproveitou a deixa para alfinetar o adversário sem citá-lo diretamente.

“Prefeitos e prefeitas, vereadores e vereadoras: governar, vocês sabem, exige coragem, mas exige, principalmente, credibilidade. Quem quer mudar o Brasil precisa, acima de tudo, ter credibilidade. Credibilidade para liderar, para unir, para tomar decisões difíceis”, afirmou o ex-governador. Mais tarde, na coletiva à imprensa, ressaltou que havia se decepcionado com Flávio e que as explicações apresentadas até ali não eram convincentes. As falas eram calculadas. Na corrida para se viabilizar ao Planalto, Zema tenta capturar a fatia do eleitorado bolsonarista que passou a olhar o Zero Um com desconfiança. Só que o movimento reabriu uma fissura antiga dentro do Novo: de um lado, a ala bolsonarista, que considera inaceitável que um presidenciável da direita ataque enfaticamente Flávio Bolsonaro; de outro, os defensores de um distanciamento maior do bolsonarismo.

Entre os primeiros, o desconforto não é apenas ideológico. Também coloca em xeque os acordos que o Novo vinha costurando ao lado do PL nos estados. No Rio Grande do Sul, Novo e PL oficializaram uma aliança em torno da pré-candidatura de Luciano Zucco (PL) ao governo estadual. Em Santa Catarina, o arranjo une o governador Jorginho Mello (PL) ao prefeito de Joinville Adriano Silva (Novo). Já no Paraná, Deltan Dallagnol (Novo) planeja disputar uma vaga ao Senado com o apoio do senador Moro (PL), que vai concorrer ao governo estadual. A tensão chegou a escapar das reuniões reservadas quando o presidente do diretório do Novo em Santa Catarina, Kahlil Zattar, divulgou uma nota afirmando que não houve alinhamento prévio com Zema sobre o vídeo em que o mineiro classificava como “inaceitável” o contato de Flávio com Daniel Vorcaro. O comunicado dizia ainda que a publicação havia sido “precipitada e desnecessária”.

Do outro lado do cabo de guerra, interlocutores próximos à cúpula do partido enxergam algo maior em curso. Zema, descrito por uma fonte como uma “invenção de Salim Mattar”, teria passado a integrar uma estratégia mais ampla, possivelmente incentivada pelo cofundador da Localiza, de figuras influentes da direita começarem a soltar a mão de Flávio. Entre elas, o influenciador Rodrigo Constantino, supostamente também ligado a Mattar.

(Aqui vale um parênteses: além de Constantino, alguns influenciadores e formadores de opinião umbilicalmente ligados ao bolsonarismo juraram que nunca declararam isso. Roger Moreira, o músico; Ana Paula Henkel, a ex-atleta; Alexandre Garcia, o jornalista; entre outros. Alguns já haviam tentado retornar aos seios da família Bolsonaro no fim da semana. E com atenção particular a Constantino, os irmãos Bolsonaro massacraram os dissidentes, como de hábito.)

Salim Mattar foi próximo do bolsonarismo, chegou a secretário de Desinvestimento no ministério da Economia de Paulo Guedes. Mas vê em Zema, governador de Minas Gerais, seu estado e onde se define, em boa medida, a eleição presidencial, sua chance de um voo independente. Em terras mineiras também reside outra dissidência muito relevante. O deputado Nikolas Ferreira, hoje acusado no bolsonarismo de traidor para baixo, passou a semana postando sobre sua viagem ao Paraná e ao Acre (ele é candidato à reeleição por Minas), sobre os povos indígenas, sobre homeschooling. Deixou Flávio na chuva.

Mas Zema teve, num primeiro momento, razões para comemorar. Seu barulho cavou algum resultado, ainda que tímido. A pesquisa Atlas/Intel divulgada no mesmo dia da participação de Flávio na Marcha, o primeiro levantamento após a divulgação do áudio envolvendo Vorcaro, mostrou o mineiro subindo de 3,1% para 5,2%. Outro azarão, Renan Santos (Missão), avançou de 5,3% para 6,9%. Flávio, por sua vez, caiu 5,3 pontos percentuais: foi de 39,7% para 34,3%.

Os números colocaram a Faria Lima sob alerta. O Centrão também. Preocupados com uma eventual derrota de Flávio para Lula, passaram a articular alternativas, um possível “plano B”. O nome da ex-primeira dama Michelle Bolsonaro (PL) voltou a ganhar força. Não só o dela como o da senadora Tereza Cristina (PL). Uma chapa de direita formada só por mulheres em uma eleição marcada justamente pela falta de mulheres na disputa ao mais alto cargo da República. Uma, carregando o sobrenome da família, embora não seja herdeira de sangue. Outra, com alta adesão do agronegócio e empresariado. O casamento perfeito, garantem alguns.

Questionada sobre como a crise teria fortalecido o apelo por seu nome na chapa presidencial, Tereza Cristina não olhou nos olhos. Disparou, secamente: “essa semana eu não quero falar com jornalista, não adianta”. Apressou os passos e saiu pelo Túnel do Tempo do Senado Federal. Também questionada sobre a crise que atingiu a pré-campanha de Flávio, a ex-primeira dama não saiu em defesa do enteado. Sorriu largamente e desconversou. “Você tem que perguntar pra ele”.

Desde a Brazil Week, em Nova York, o assunto atravessou almoços e reuniões reservadas. Para tentar conter os danos no mercado financeiro, Flávio Bolsonaro desembarcou em São Paulo para uma sequência de encontros com executivos do setor. Entre os compromissos, um almoço com investidores e agentes da Faria Lima e um jantar com empresários do turismo. Quais empresários? Quantos? Não foram divulgados. O pedido de confidencialidade, aliás, partiu dos empresários. A avaliação é que a aproximação pública com o senador, neste momento, não pegaria bem. Por isso, a assessoria divulgou apenas se tratar de "agendas fechadas", sem acesso para a imprensa. Ainda assim, publicamente, quase ninguém parece disposto a abandonar o senador de imediato. “Está cedo”, resumiu Paulo Skaf.

Outra relação estremecida, mas não rompida, é com as lideranças evangélicas. Pedra basilar da ponte entre a família Bolsonaro e o eleitorado evangélico, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, declarou que a relação “esfria se tiver comprovação de que recebeu mais coisa que o filme”. Ele completou que “se tiver mais coisa, será difícil apoiar”, mas ressaltou que o clima ainda é de cautela. Prometeu um vídeo com seu posicionamento completo para sexta-feira à tarde, estrategicamente pós-Datafolha. Até o fechamento desta edição, o vídeo não havia sido publicado.

A desconfiança atravessou também o grupo de WhatsApp “Aliança”, onde estão nomes como Robson Rodovalho, Renê Terra Nova e Estevam Hernandes. O clima era de irritação contida. Não apenas pelo áudio em que Flávio Bolsonaro cobra dinheiro de Vorcaro, mas pela sensação de que o senador vinha revelando a relação com o banqueiro em capítulos, sempre aos poucos, sempre depois. O bispo Rodovalho, líder da Sara Nossa Terra, resumiu o sentimento como um “balde de água fria” na pré-campanha. Ainda assim, prevalece a espera, o banho-maria.

A contenção

Quinze dias. Foi este o prazo estipulado por Valdemar Costa Neto, ainda na quarta-feira, para medir o tamanho do estrago provocado pelo escândalo na pré-campanha de Flávio Bolsonaro e, consequentemente, sua viabilidade eleitoral. Horas depois, o PL divulgou uma nota negando que tivesse imposto um ultimato ao senador. “De forma oportunista e distorcida, tentaram inverter completamente o sentido da minha fala, atribuindo a ela uma interpretação que jamais existiu”, diz o texto. O comunicado pontua que Valdemar havia apenas comentado internamente sobre um prazo estimado para o início da recuperação de Flávio nas pesquisas. Interlocutores presentes na conversa, porém, confirmam o recado dado pelo presidente. Pesquisas internas já foram encomendadas para medir a profundidade da sangria.

Na cúpula do partido, a avaliação predominante ainda é de que trocar Flávio, a esta altura, segue sendo uma hipótese remota, mesmo diante de quedas nas pesquisas. A grande obsessão de Valdemar, afinal, não é necessariamente eleger um presidente da República. É montar uma bancada de 100 deputados federais, como o próprio alardeia, ampliar o número de senadores eleitos e administrar um fundo eleitoral de R$ 1 bilhão. A escolha do nome ao Planalto, contam aliados, foi terceirizada ao ex-presidente Jair Bolsonaro. E talvez não seja o momento de comprar mais uma guerra com o clã. “Não adianta ventilarem uma troca. Bolsonaro escolheu. Só ele pode trocar”, revela outra pessoa próxima ao núcleo duro do PL.

O cenário muda de figura, porém, se a crise começar a contaminar os palanques estaduais e ameaçar candidaturas proporcionais e o projeto legislativo de Valdemar. Aí, dizem integrantes da campanha, a reavaliação se tornaria inevitável. “Os parlamentares estão preocupados, sim, em respingar nas candidaturas”, admite um integrante da equipe de Flávio. Um dos poucos a falar publicamente sobre o tema, o vice-líder do PL na Câmara, Alberto Fraga, resumiu a percepção: “Receio todo mundo tem. Mas vamos avaliar o tamanho disso em uns dez dias”.

Enquanto isso, Flávio trabalha para aparar arestas, evitar novos desgastes e se provar forte. Demitiu o ex-policial Marcello Lopes, o “Marcelão”, do comando da comunicação de sua pré-campanha. Amigo pessoal do senador, ele deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos na semana mais dramática da caminhada presidencial do Zero Um. Saiu com direito a soco na mesa. Para reorganizar a estratégia, foi chamado o marqueteiro Eduardo Fischer.

Novos números já começam a movimentar o compasso de espera em Brasília. A pesquisa Datafolha divulgada ontem mostrou que o presidente Lula ampliou de três para nove pontos sua vantagem sobre Flávio em um eventual primeiro turno e em quatro pontos, de 47% a 43%, no segundo. Michelle pontua modestamente. Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos mal se moveram. Outro número de destaque, porém, é o que revela que 36% dos entrevistados disseram não ter conhecimento do caso envolvendo Flávio e Vorcaro. Ou seja, o potencial de o estrago, assim como as revelações, vir a conta-gotas existe. Mas a pesquisa é menos desastrosa do que a Atlas e Flávio se apressou a ir às redes agradecer o apoio que recebeu nos últimos dias. Por via das dúvidas, diante da vulnerabilidade exposta pelo Zero Um ao longo das últimas duas semanas, uma parte da cúpula do PL ensaia usar o Datafolha para desgastar a candidatura do senador, espalhando a noção de que “ele já perdeu para Lula”. Neste momento, todos estão recalculando suas rotas.

Hello, goodbye

Do telhado do teatro Ed Sullivan, em Nova York, Stephen Colbert e David Letterman, ambos de terno e com sorrisos serelepes, atiraram (com a ajuda de homens mais jovens e fortes) duas poltronas ao solo. Depois, eles mesmos jogaram uma cadeira de escritório preta e várias melancias. A mira era um enorme logotipo da CBS, a emissora que abrigava, até a noite de quinta-feira, o programa The Late Show. Letterman foi o apresentador pelos 22 anos iniciais; Colbert, pelos 11 últimos. O canal anunciou o cancelamento do Late Show em julho do ano passado, encerrando a franquia mais bem-sucedida dos programas do tipo em qualquer métrica. Em audiência, com Colbert, o programa ficava à frente dos concorrentes apresentados por Jimmy Kimmel, da ABC, e Jimmy Fallon, da NBC. Em inteligência, sofisticação e prestígio, ainda mais adiante.

A CBS argumentou que cancelou Colbert porque vinha perdendo US$ 40 milhões por ano, à medida que o público migrou para o streaming. Mas a indústria cultural sabe que o que está por trás do movimento — se não exclusivamente, com muito mais peso — é o desejo da Paramount/Skydance, controladora da CBS, de silenciar Colbert, ferrenho crítico de Donald Trump, e, com isso, abrir caminho na Casa Branca para a aquisição da Warner Bros. Discovery. Colbert havia criticado o pagamento da quantia absurda de US$ 16 milhões pela Paramount a Trump para encerrar um processo sobre o programa 60 Minutes, chamando o acordo de “propina”. A aprovação do acordo pela FCC, o órgão regulador do governo americano para mídia, ocorreu dias após o anúncio do cancelamento.

A piada se virou contra os executivos e Trump. Se pode ser lida como uma decisão financeira da CBS, o cancelamento do Late Show não pode ser compreendido fora da era Trump e de sua desfaçatez ao se imiscuir com o mundo dos negócios, seja para tirar proveito financeiro também, seja para pressionar politicamente — e, no melhor dos mundos para ele, conseguir as duas coisas. Acontece que a tradição da livre expressão nos Estados Unidos transcende, em muito, a vulgaridade de Trump. Então, nos 10 meses em que esteve cancelado, mas no ar, Colbert tripudiou sobre os patrões sem qualquer cerimônia. Seguiu sapateando sobre Trump sem temor, vira e mexe com a sacada “o que vão fazer, me cancelar?”. E, na reta final do programa, convidou o antecessor para “destruir propriedade da CBS” com transmissão pela CBS.

Nesses 10 meses, Colbert também recebeu o apoio fervoroso dos colegas de talk-shows concorrentes. Além de Kimmel e Fallon, Colbert é muito próximo de John Oliver e Seth Meyers. Juntos, os cinco conduziram o podcast Strike Force Five, criado durante a greve de roteiristas de Hollywood em apoio ao movimento. Os quatro também estiveram, de uma tacada só, entre os convidados da última semana de Colbert. Nos últimos dias, alternaram-se entrevistados do naipe de Tom Hanks, Steven Spielberg, Pedro Pascal e Julia Louis-Dreyfus. Na frente mais política, Jake Tapper, da CNN, e uma descontraída entrevista com Barack Obama. Uma síntese bastante adequada do tamanho da deferência dos dois mundos entre os quais Colbert sempre transitou.

Mentores de luxo

Esse trânsito foi uma herança de seus dois mentores. David Letterman foi o apresentador de talk-show que inaugurou o mix das entrevistas jocosas de celebridades com esquetes engraçados e leves pitadas de crítica política. Jon Stewart é o apresentador de talk-show que inventou o formato de bancada satírica de notícia política para além do Saturday Night Live, como um programa em si mesmo, e que, apesar da comicidade — ou por causa dela —, é capaz de gerar alto valor crítico. Colbert foi revelado pelo segundo e sucedeu o primeiro. No meio do caminho, conduziu um show solo, The Colbert Report, em que interpretava um personagem, o de apresentador conservador um tanto sem noção. Trump faz aquele Colbert caricato parecer alguém absolutamente razoável.

Quando assumiu o Late Show e uniu as duas vocações, criou uma identidade própria. Fazia entrevistas sobre o lançamento mais chinfrim de Hollywood com a mesma sagacidade com que pressionava políticos. Sua condução era genuinamente engraçada, imensamente corrosiva e, ainda assim, elegante e terna. Não é uma combinação banal de se obter.

Nos últimos dias, Colbert optou por celebrar seu show em vez de lamentar seu fim. Entregou dignidade em vez de birra. Numa entrevista à revista People, explicou que quem deveria se constranger era Trump por ter gastado tempo, energia e poder com uma figura como ele, Colbert, um mero “palhaço”. “Isso diminui a presidência.” E no grand finale, no episódio terminal, fez seu monólogo de abertura, aquele em que fazia a maior parte das piadas mais ácidas contra Trump, sem mencionar o nome do presidente. Aliás, não mencionou nenhuma vez no show todo. Não era mais sobre ele.

Colbert não precisou sublinhar que o cancelamento de um programa que é uma tradição, ao mesmo tempo, de liberdade de expressão e tolerância só poderia mesmo estar acontecendo sob a atual administração Trump, que censura com apetite sem precedentes, alterando as regras de acesso de jornalistas à Casa Branca, restringindo vistos a jornalistas estrangeiros, reprimindo protestos com tiros em cidadãos americanos, retaliando advogados de casos contra seu governo etc. Colbert passou os últimos 11 anos levando a crônica desses e de outros acontecimentos aos lares americanos dispostos a ouvir e rir da própria desgraça.

O derradeiro convidado foi Paul McCartney. Naquele teatro os Beatles fizeram sua estreia em solo americano, numa apresentação inesquecível. Juntos, acompanhados também de Elvis Costello, Jon Batiste e da banda do Late Show, eles cantaram Hello, Goodbye. No coro, a equipe do programa e os familiares de Colbert subiram ao palco. O apresentador e Paul foram juntos apagar as luzes do lendário teatro. É o fim.

Nove dedos e um piano

Existe uma cena que define bem quem é Vitor Araújo. Ele tinha 16 anos, estava no palco, e decidiu improvisar sobre uma peça do compositor Marlos Nobre, introduzindo modificações que o autor não autorizou e certamente não aprovaria. A indignação de Nobre foi pública e ruidosa, virando debate na crítica especializada sobre os limites da fidelidade ao texto na música clássica. Hoje, Araújo olha para o episódio com uma certa ironia: “Foi uma tremenda caretice do Marlos Nobre que, no final das contas, iniciou minha carreira.”

Nascido em Recife em 1989, Araújo começou a estudar piano aos nove anos no Conservatório Pernambucano de Música. Ele aprendeu a ler partitura antes mesmo de aprender a tocar. Entrou em primeiro lugar no vestibular da UFPE, saiu no primeiro ano. Preferiu construir sua formação de outro jeito: aulas com Mário Ficarelli, Itiberê Zwarg e Maria Teresa Madeira, entre outros, e uma escuta voraz que atravessa Villa-Lobos, Stravinsky, Radiohead, Debussy e a percussão dos terreiros recifenses. Em 2008, ganhou o prêmio de Revelação da Música Brasileira da APCA. Em 2011, tocou na Wiener Konzerthaus para uma plateia que o fez retornar ao palco várias vezes.

Desde então, acumulou trilhas para os filmes de Petra Costa, incluindo Democracia em Vertigem, indicado ao Oscar, e colaborações teatrais com Christiane Jatahy. Ao lado de Arnaldo Antunes, gravou Lágrimas no Mar num sítio em Piracaia, num formato despido de voz e piano que, segundo ele, “fez uma bifurcação no meu jeito de tocar”. Fez três anos de turnê com Antunes, mais do que o planejado.

Agora chega o filme-concerto Toró, gravado ao vivo em Amsterdã com a Metropole Orkest, no Holland Festival. Com o dedo anelar infectado, inchado “do tamanho de uma linguiça toscana”, Araújo passou a tarde antes do show redigitando todas as músicas e subiu ao palco assim mesmo. Falamos dessas histórias, de seu processo de composição e do novo álbum. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

No Toró você junta ritmos brasileiros a uma orquestra bem europeia. Como foi equilibrar a percussão de terreiro e elementos eletrônicos com a formalidade da escrita orquestral?

Isso depende muito do processo composicional. O meu processo, na maioria dessas músicas, se deu no piano, através de ostinatos [técnica de composição por repetição de padrão] que eu criei. A maioria das músicas partiu de uma ideia de ostinato que gerava alguma melodia. Basicamente, tenho duas maneiras maiores de abordar os ostinatos nas composições. Alguns são fixos, em que a harmonia e a melodia se desenrolam por cima deles. E outros são móveis, que se movem junto com a harmonia, se modificando a partir de cada novo acorde. Quando eu estava compondo essas músicas, pensava muito nos meus amigos recifenses tocando percussão, sabia que eles iam saber vesti-las de maneira muito bonita e muito significativa. Tem um grupo de amigos, boa parte deles do Morro da Conceição, que é um lugar na zona norte do Recife com uma cultura percussiva muito forte. Alguns deles foram pupilos diretos do Naná Vasconcelos. Daí vieram as orquestrações, como um véu encobrindo tudo isso, dando uma espécie de profundidade e de perspectiva. Existe um desafio em fazer as duas coisas funcionarem juntas, mas principalmente quando você está rodeado de músicos bons, esses desafios vão se resolvendo. Difícil é trabalhar com músico que não é bom.

Você chamou alguém para orquestrar junto?

Fiz quase todos os arranjos, mas tive um auxílio muito grande do Mateus Alves, que é um ótimo orquestrador, muito mais experiente do que eu. A gente pegou junto tudo que eu tinha escrito. Pensando em literatura, ele foi quase como um editor, pegou as partituras junto comigo e foi lapidando. Eu também estava nervosíssimo de chegar para uma orquestra sinfônica gringa com a minha escrita. Não sabia se era caótica ou não. Falei: “Vou chamar alguém que estudou na gringa”, porque o Mateus se formou em composição na Inglaterra. É alguém que já sabe como os gringos gostam das partituras.

Como a infecção no dedo no concerto do Holland Festival impactou a performance daquela noite?

Infelizmente, por mais que eu deteste ter que dar essa resposta, só posso dizer que se houve alguma influência, ela foi negativa. Não teve nada de positivo. Eu queria poder dizer que essa limitação fez surgir algo mais incrível, mas não. Me atrapalhou muito, porque o meu dedo latejava numa dor lancinante, era igual dor de dente, que você não consegue pensar em outra coisa, a sua vida se resume àquela dor. Em muitas das faixas eu estou tocando e cantando ao mesmo tempo, o que para mim já é desafiador. Durante toda a minha educação musical, dos 9 até os 20 anos, fui treinado para tocar sem cantar. Então me concentrar na redigitação de todas as músicas durante a tarde para não passar pelo dedo que não tinha como usar, e ao mesmo tempo cantar, foi muito difícil. O dedo ficou do tamanho de uma linguiça toscana, era grotesco, tipo um filme do Cronenberg, Videodrome.

No Toque N.2 você usa o rádio de pilha, o que me lembrou John Cage, mas também o Radiohead. Como foi integrar essa imprevisibilidade à paisagem sonora orquestral?

Gosto muito de usar rádio de pilha como instrumento, não é a primeira vez. Essas duas referências estão absolutamente corretas. A primeira vez que vi um rádio ser usado num contexto musical foi adolescente, assistindo um show do Radiohead no YouTube. O Jonny Greenwood, no meio de The National Anthem, pega o rádio, enche de delay e fica por cima daquela base improvisativa da música, você ouvia umas vozes muito processadas. Depois, quando eu estava estudando composição de maneira mais profunda, o Cage apareceu com as peças dele para rádio, que são incríveis. Sempre foi uma pira minha colocar rádio. Quando faço concerto de piano solo, sempre tem uma música chamada Baião, em que faço uma série de loops no piano ao vivo e depois vou para um rádio de pilha, improviso um pouco. Já fiz uma performance no Museu de Arte Moderna de Salvador com seis rádios, ressintonizando todos ao vivo. Já usei rádio numa parada que fiz com o Arnaldo Antunes, de poesia, ele recitava e eu colocava o ruído branco dos rádios por cima. E aí eu queria realizar o meu sonho de adolescência: colocar o rádio como solista de uma orquestra. A improvisação que eu faço joga com a música. Eu fico tentando usar o rádio musicalmente. Antes do show, eu fico ouvindo todas as estações e marco as que são rádio de notícia ou de fala, porque elas me facilitam — música por cima de música pode complicar. Fico passeando entre elas, brincando com o degradê entre o chiado absoluto e a voz limpa.

Como foi com a orquestra?

Foi muito legal porque, assim que eu liguei o rádio naquela noite na Holanda, estava tocando Knockin' on Heaven's Door, com o Guns N' Roses. A voz do Axl Rose veio limpa para todo mundo ouvir. Todo mundo, o público, a orquestra, os músicos, caiu na gargalhada. Eu deixei um pouco o Guns N' Roses tocando e depois fui mudando as estações. No álbum a gente teve que cortar esse começo por causa de direitos autorais, mas foi muito divertido.

Desde menino, você transita entre o erudito e o popular. Como é a sua relação hoje com tocar a obra dos outros?

Eu continuo estudando muito. Gosto do período barroco e de Beethoven para cá, principalmente dos franceses, Ravel, Debussy. Tenho dificuldade com o período clássico, com Haydn, Mozart. Mas eu gosto de tocar música dos outros compositores. Estudei a vida toda para ser intérprete, a composição veio depois. O que acontece talvez seja uma coisa meio infantil, mas é real: a vontade de ouvir um certo som que ainda ninguém fez. Às vezes estou ouvindo música em casa e falo: “Estou com vontade de ouvir uma música, só que essa música não existe.” Então você tem que fazer para poder ouvir. E é um paradoxo, porque quando você finalmente faz a música que queria ouvir, você não ouve mais. Depois que eu lanço um disco, não ouço mais.

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1. Metrópoles: Reação de Sergio Moro após Flávio Bolsonaro admitir visita a Daniel Vorcaro viraliza.

2. Globo Esporte: Web reage à convocação de Neymar para a Copa do Mundo; veja os memes.

3. YouTube: O trailer, exibido por Flávio Bolsonaro, de Dark Horse, polêmico filme sobre Jair Bolsonaro.

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