Edição de Sábado: Vinte anos divididos

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O Brasil que elegeu pela primeira vez Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2002, já não existe mais. Naquele país, o eleitorado era majoritariamente jovem e de baixa escolaridade, e a disputa presidencial ainda cabia no velho eixo entre PT e PSDB. Vinte anos depois, o Brasil que devolveu Lula ao Planalto, por uma margem apertada, tornou-se outro. Mais velho, mais feminino, mais escolarizado, mais evangélico. Nesse percurso, as bases sociais do voto se deslocaram. O PT perdeu força entre homens, nas grandes cidades e entre jovens de escolaridade média. A direita avançou justamente nesses segmentos, enquanto mulheres negras consolidaram o grupo de maior coesão eleitoral do país.
No livro O País Dividido, que será lançado no início de junho, Jairo Nicolau, professor e pesquisador da FGV CPDOC, reconstrói duas décadas de eleições presidenciais a partir de um extenso cruzamento de dados eleitorais, pesquisas de opinião e séries históricas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), compondo um retrato que, quadro a quadro, revela como o Brasil fracionado entre petistas e tucanos tornou-se uma nação organizada pela lógica do lulismo versus bolsonarismo. Mostra ainda como a entrada de Jair Bolsonaro (PL) transformou a própria natureza da polarização no país: menos ideológica, mais emocional e personalizada. Aliás, a partir de uma metodologia inédita para medir esse fenômeno, o cientista político identificou um salto expressivo no contingente de eleitores polarizados, que passou de 31%, em 2002, para 64%, em 2022.
Durante uma longa conversa com o Meio, disponível na íntegra em vídeo no nosso streaming, Nicolau detalhou os bastidores da pesquisa que deu origem ao livro e explicou as mudanças silenciosas, de longo prazo, e também as rupturas abruptas que identificou no comportamento do eleitor. Para além das páginas, compartilhou suas leituras sobre o peso decisivo das mulheres na vitória de Lula em 2022, a consolidação do voto evangélico à direita e as razões pelas quais algumas clivagens parecem cada vez mais cristalizadas, talvez até impermeáveis a escândalos da grandeza do revelado pelo Intercept Brasil nesta semana, com áudio de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro. Confira os principais trechos da entrevista.
Que país dividido é esse descrito nos anos que você cobriu em seu novo livro?
Minha ideia inicial de título para o livro era 20 Anos: o PT Versus a Direita. Mas essa ideia do país dividido me pareceu resumir bem. Especialmente numa eleição de dois turnos, como nas seis eleições dessas duas décadas, o país quase que, por natureza, se divide no segundo turno. Talvez o livro mostre que a natureza dessa divisão mudou. Ela passou de uma divisão em que um dos atores está sempre presente, que é o PT, e, do outro lado, nas primeiras quatro eleições, nós tínhamos uma força de centro-direita, uma direita moderada, que é o PSDB. Não estou dizendo que os 20 anos foram de divisão como a gente entende o termo hoje: polarização, radicalização. Houve uma divisão entre o PT e os seus adversários, para ser mais preciso, mas esses adversários mudaram. Um dos esforços foi mostrar o que aconteceu em 2018 e se confirmou em 2022, e por que isso era discrepante em relação ao que nós tínhamos antes no país. Então, o “dividido” fica como uma sinalização de que existe alguma divisão no país, mas não necessariamente de que ele seja um país polarizado. Se eu chamasse de “país polarizado”, estaria sendo injusto com os meus achados.
Por quais mudanças essa divisão passou?
Nós sabemos que o Brasil mudou muito e em várias dimensões. Era um país que tinha uma forte base industrial, e hoje grande parte das pessoas está no setor de serviços, além de ter aparecido uma nova versão do setor de serviços, que é dessa economia de entregas e transporte. Mas a minha escolha foi olhar para o eleitorado. Por sorte, o TSE publica frequentemente um banco de dados com o perfil dos eleitores de cada eleição. Claro, tem uma série de cuidados para trabalhar com esses dados. O TSE não tem dados sobre renda, cor, economia ou religião. Então, eu não poderia falar sobre isso. Escolhi três temas que eu pudesse, de certa maneira, contemplar com os dados do TSE e que são muito relevantes: sexo — eleitores homens e mulheres, como é a divisão do TSE —; idade — e eu fiz ali uma agregação à minha maneira, porque as faixas de idade da Justiça Eleitoral são mais de 20 —; e, por fim, escolaridade. A escolaridade é um dado mais difícil, porque há uma diferença entre a escolaridade registrada quando a pessoa tira o título aos 18 anos e depois ela pode continuar ou não estudando. Mas é um indicador presente em todos os levantamentos do TSE.
E o que você encontrou?
Primeiro, algo que já sabíamos: o eleitorado ficou mais envelhecido, por razões da demografia brasileira. A expectativa de vida aumentou, a taxa de fecundidade diminuiu, é um país que tem mais idosos e menos jovens. Ao mesmo tempo, quando Lula foi eleito em 2002, nós tínhamos mais ou menos metade dos eleitores homens e metade mulheres, classificados dessa maneira. Vinte anos depois, há um predomínio das mulheres no eleitorado, numa taxa maior do que a presença delas na própria população. Há também uma divisão educacional entre homens e mulheres. Elas são, em média, bem mais escolarizadas que os homens. Há muito mais eleitoras com Ensino Médio e superior do que homens nessas faixas. E uma última mudança, que talvez resuma melhor a dimensão social, é que, quando o Lula foi eleito em 2002, o Brasil era um país de baixíssima escolaridade. Cerca de 70% dos eleitores tinham ensino fundamental. Era um país com muitos analfabetos ainda, uma herança da nossa péssima política educacional. Vinte anos depois, e pouca gente assinala isso, o eleitorado é dominantemente de Ensino Médio, completo ou incompleto. Então, o típico eleitor brasileiro, em 2002, seria um homem de ensino fundamental. Hoje é uma mulher de Ensino Médio. O país é mais envelhecido, mais escolarizado e mais feminino.
Vamos focar primeiro na questão de gênero.
Há uma tendência em todo o livro e que eu, obviamente, não sabia que ia encontrar. Se eu soubesse, talvez o título fosse algo como As Mulheres e a Política. Porque fui descobrindo que um aspecto permanente, em todos os capítulos, é a questão das mulheres. Um deles é que, em 2014, 2018 e 2022, anos em que há dados sobre isso, as mulheres comparecem às urnas em maior número proporcionalmente. E, pelo menos em 2022, quanto faltam, as mulheres também justificam mais a ausência do que os homens.
Que outras diferenças de gênero surgiram?
Há outra descoberta que eu também não imaginava encontrar. Quando fiz a segmentação em faixas etárias (jovens, adultos e idosos, para simplificar), eu esperava encontrar alguma diferença relevante entre esses segmentos, coisa que eu já tinha procurado no meu livro anterior sobre 2018 e não tinha encontrado. Mas pensei: “Bom, vai que isso é uma característica de outras eleições. Pode ser que, sei lá, em 2002 os jovens tenham sido mais à esquerda do que os idosos.” Mas não encontrei nada. Ou seja: a idade, por si só, não é um fator que divide o eleitorado brasileiro. Na verdade, os segmentos etários funcionam quase como uma amostra do resultado final. Bolsonaro, em 2018, ganhou entre jovens, idosos e adultos. A mesma coisa aconteceu com outros presidentes, que ganharam de maneira relativamente parecida em todas as faixas, com pequenas variações aqui e ali. O passo seguinte foi segmentar as idades por sexo, homem e mulher. E aí apareceu a diferença. As mulheres jovens sempre votaram majoritariamente na esquerda. Mesmo em 2018, Bolsonaro perdeu entre as mulheres jovens. Enquanto isso, naquela eleição, os meninos foram em massa para a direita. Ali houve uma assimetria de gênero, como chama a literatura, um gender gap. Isso se reproduziu, com menos força, em 2022: as mulheres jovens apoiaram maciçamente a esquerda, enquanto os meninos jovens ficaram com Bolsonaro.
É um fenômeno que se repete em outros países, não?
Sim. Faço referência aos Estados Unidos, onde as meninas tomaram caminhos mais progressistas, enquanto os meninos viraram apoiadores do Donald Trump. Isso aconteceu também no Reino Unido e na Alemanha. Em geral, partidos de ultradireita têm apoio masculino maior, sobretudo entre os jovens. Talvez por isso as meninas rejeitem mais Bolsonaro. Lembrando que essas jovens já têm uma escolaridade, em média, mais alta do que os rapazes jovens. Estão cursando a universidade, algumas já concluíram. Lembrando também que, em 2018, aquele movimento “Ele Não” foi cultivado por essas jovens. Nas outras faixas etárias, a diferença entre homem e mulher não fez tanto sentido. Mas o dado que agora eu posso dizer com certa ênfase é: a vitória do Lula em 2022 deveu-se às mulheres.
O que mais te faz ter tanta certeza agora?
Entre os homens, usando dados de survey, fazendo todos os testes, Bolsonaro foi vitorioso em 2018 e em 2022. Em 2018, Bolsonaro também ganhou entre as mulheres. Não entre as mulheres jovens, mas outros segmentos deram a ele uma diferença e ele acabou, no cômputo geral, chegando à frente. Mas, em 2022, a distância entre as mulheres foi pró-Lula. E aí junta tudo: tem mais mulher, elas vão mais às urnas e elas foram mais lulistas. Isso somado pode ter sido decisivo. Porque, se elas fossem mais lulistas, mas fossem do mesmo tamanho dos homens, não sei o que teria acontecido na eleição. Ou, se elas fossem maioria, mas fossem menos às urnas, podia ter dado diferença. Grande parte das mulheres que são mais simpáticas ao Lula poderia não ter ido votar, e isso teria dado um diferencial para Bolsonaro.
O que se pode aprender sobre essa ascensão do Ensino Médio na demografia brasileira?
Se o livro mostra que a feminização do eleitorado acabou favorecendo a esquerda nas últimas eleições, uma outra mudança demográfica, que é esse crescimento da escolaridade — e ela ainda está em curso —, tem favorecido a direita. Eu imaginava que os eleitores de Ensino Médio estivessem com a esquerda, mas o que encontrei em 2018 foi que justamente ali estava o núcleo do bolsonarismo. Mais do que entre os eleitores de Ensino Superior, e muito mais do que entre os eleitores de baixa escolaridade. Isso já me acendeu uma luz. Quando olhei para 2022, falei: “Uau, o Bolsonaro ganhou entre as pessoas de Ensino Médio”, e isso inclui completo e incompleto. Tem alguma coisa acontecendo aí, e a esquerda precisa olhar para entender o que está se passando. Quais são os problemas de comunicação com os jovens, sobretudo os do sexo masculino, que se tornaram antipetistas, de direita, diferentes dos jovens dos anos 2000 que chegaram à universidade? Esse jovem continua se beneficiando de programas que foram abertos, mas talvez tenha naturalizado esse acesso. Talvez não associe o seu acesso à universidade a um governo específico. Mas a universalização, a ampliação do Ensino Médio, parece jogar água na direção da direita, e não da esquerda, pelo menos nas duas últimas eleições.
O que mais você encontrou sobre a transformação da base social do PT?
Uma coisa que deu muito trabalho são os gráficos que fiz com a linha do tempo do apoio à direita e ao PT em vários segmentos: religião, escolaridade etc. E aí a gente pode ver tendências. Essa do Ensino Médio, já que estamos falando disso, esse declínio do apoio vinha acontecendo há mais tempo. Por outro lado, a permanência do apoio entre os eleitores de baixa escolaridade é praticamente onde o PT está se segurando. Há outros aspectos que não tratei no livro, mas sobre os quais acabei de escrever um artigo, ainda não publicado, sobre geografia do voto. A concentração de votos nas cidades pequenas do Nordeste, associada à baixa escolaridade e à renda mais baixa, mostra um perfil mais interiorano do voto do PT. É chocante perceber como o PT vai se tornando um partido menos urbano, menos metropolitano. Quando se compara com partidos social-democratas europeus, ou mesmo com o Partido Democrata nos Estados Unidos, há uma diferença muito grande no perfil da votação. Nos Estados Unidos, as grandes cidades e os centros metropolitanos são democratas.
E na base do bolsonarismo?
O que mais me impressiona é o crescimento da direita entre os homens, entre os evangélicos e nas grandes cidades. Então, entendendo “bolsonarismo” apenas como apoio eleitoral ao Bolsonaro nessas duas eleições, o desempenho eleitoral dele é metropolitano — parece com a social-democracia europeia. Em 2018, Bolsonaro ganhou por muito nessas cidades grandes do Sudeste, sobretudo nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Em 2022, ele continuou ganhando no Sudeste e em quase todas as cidades, mas por pouco. Então não conseguiu tirar a diferença que o Lula abriu nas cidades pequenas. É um perfil muito surpreendente. Eu não sei se isso vai mudar. Não faço prognóstico porque sei que essas mudanças são decantadas ao longo do tempo, mas também podem acontecer de maneira abrupta. Acabamos de ver a eleição do Reino Unido, com a vitória de duas forças: Partido Verde pela esquerda e um partido de direita, o partido do Brexit, vamos dizer assim, deixando os partidos centenários de trabalhistas e conservadores com um número de representantes baixo. Isso foi uma mudança abrupta. As eleições estão cada vez mais instáveis nas democracias tradicionais.
O que foi abrupto por aqui?
Esses achados do livro mostram que algumas coisas que pareciam abruptas talvez não fossem. Por exemplo, a noção de que Bolsonaro virou de repente o voto das pessoas de Ensino Médio. Não. O apoio do Ensino Médio à esquerda já vinha caindo antes. Mas, entre os evangélicos, embora já houvesse uma queda, Bolsonaro produziu uma mudança abrupta, não foi só o aprofundamento de uma tendência. Esse esforço de encontrar padrões onde parece haver apenas ruído é muito difícil. Primeiro porque eu não quero forçar padrão onde não tem, que é uma tendência humana. E, segundo, porque os padrões às vezes são quebrados da noite para o dia em eleições tão voláteis como as nossas, com partidos que já não organizam o eleitorado como antes e com redes sociais acelerando a difusão de informação.
Você propõe, no último capítulo do livro, uma metodologia própria e nova para estudar a polarização brasileira.
O tema da polarização está em todas as bocas, de jornalistas, de políticos, em todas as conversas. E comecei a pensar: “Bom, será que eu tenho como dimensionar a polarização política olhando para trás, mesmo quando a gente não falava dela?”. Não existem dados. Em 2002, ninguém falava essa palavra. Me dei conta de que a polarização no Brasil tem uma forte dimensão pessoal. Ela não é uma polarização apenas ideológica. Mas eu me perguntava: como dimensionar a polarização num país em que as pessoas nem sabem avaliar os partidos? Você pergunta: “Como o senhor avalia o PL?”. E 60% nem sabem o que é o PL. O PT as pessoas conhecem mais, mas outros partidos, não. Nos Estados Unidos, por exemplo, mede-se polarização entre republicanos e democratas. No Reino Unido, entre conservadores e trabalhistas. Usei, então, as pesquisas do Estudo Eleitoral Brasileiro, feitas por acadêmicos, com a pergunta: “Como o senhor ou a senhora avalia, de 0 a 10 — 10 gosto muito e 0 rejeito — determinado político?”. Nas seis ondas que foram a campo entre 2002 e 2022, a pergunta está lá. Fiz, então, um cruzamento dessas duas coisas. As pessoas polarizadas são aquelas que gostam muito de um candidato, ou seja, estão num polo, têm alta preferência pelo seu candidato, e rejeitam muito o candidato do outro lado.
E o que você achou?
Com essa medida ficou claríssimo que, até 2014, as pessoas diziam: “Ah, gosto do Lula”, mais ou menos, mas sem grande intensidade. O Serra também não tinha uma intensidade tão grande de amor e ódio. O Brasil tinha diferenças, era dividido, mas não era polarizado. A presença do Bolsonaro de repente galvanizou uma alta polarização. As pessoas gostavam muito do Bolsonaro e simultaneamente rejeitavam muito o PT. Ou seja, houve uma polarização à direita em 2018. Curiosamente, à esquerda, não. Os eleitores do Haddad não odiavam o Bolsonaro no grau que a gente viu em 2022. Em 2022, aconteceu o contrário. O eleitorado petista passou não só a valorizar mais o seu candidato — que agora era o maior de todos para se campo, o Lula —, com nota 7, 8, 9, 10, mas também a rejeitar o Bolsonaro com nota 0, 1. Essa é a ideia que a literatura fora do Brasil começou a chamar de polarização afetiva. Ela não tem a ver necessariamente com posições ideológicas. Eu rejeito a tribo de lá porque acho que eles são odiosos, que têm valores e concepções de vida que me fazem querer levantar da mesa quando alguém chega no jantar. Aqui a gente fala muito de polarização, mas a literatura mede isso de outra maneira. É um exercício, mas que mostrou uma mudança do nível de polarização medida em relação aos candidatos a presidente.
E essa polarização se reflete em todo o eleitorado?
Tenho uma interpretação que não está no livro, mas que venho tentando trabalhar mais. A polarização no sentido mais forte do termo, de engajamento político, envolvimento com redes sociais, ficar tuitando, indo a eventos, mobilizando amigos, essa é a mobilização que nós conhecemos, mas não é a polarização ampla da sociedade. É o topo da pirâmide. Talvez 15%, 20% dos eleitores brasileiros operem nesse registro. Sabem o que o Flávio falou, acompanham o caso Master, vão para as redes sociais, conversam de política, abrem as páginas de jornal, se interessam, querem votar, acham que quem não acompanha política é alienado. Mas, quando a gente vai descendo, encontra um segmento que até cai para um lado ou para o outro — “sou da tribo vermelha”, “sou da tribo azul” — por causa do pastor, da família, do sindicato, da história com o PT, sei lá. Mas sem esse grau de envolvimento. E existe uma grande massa de eleitores no Brasil para quem essa polarização simplesmente não chega.
Mas essas não são as mesmas pessoas que responderam à pergunta sobre gostar e rejeitar Lula e Bolsonaro?
São, mas aí tem a ver com avaliação do líder. Todo mundo conhece Lula e Bolsonaro. Na hora H, a pessoa pode falar: “Ah, gosto mais dele”. Quase como futebol. Agora, dizer que essas pessoas são comunistas, fascistas, genocidas, é transbordar para o Brasil algo que está acontecendo no topo. A gente não tem evidência, para além desse sentimento em relação a Lula e Bolsonaro em 2022, de que exista uma polarização que corte a sociedade brasileira de cima abaixo. Se você vai para o interior do Brasil, para pequenas cidades ou áreas populares do Rio, e pergunta se fulano já foi cancelado de algum grupo de WhatsApp porque disse que vai votar no Bolsonaro, as pessoas levam muito menos a sério esses temas do que nós, que estamos enfronhados nisso, olhamos política por uma lente muito sofisticada em termos de ideias, acompanhamos políticas públicas. Tanto que, em média, 30% dizem não ter interesse nenhum por política. E 40% dizem que, se o voto não fosse obrigatório, ficariam em casa. Por isso eu não sei se a polarização vai continuar no mesmo nível sem Bolsonaro. O Bolsonaro ativa muito, tanto os sentimentos positivos dos eleitores de direita quanto os sentimentos negativos em relação ao PT. Minha impressão é que a polarização deve cair em 2026. Mas é só impressão.
Como entender, então, o efeito desse escândalo de Flávio Bolsonaro e o Master? É um escândalo que está ligado a um candidato da polarização, que herda do pai o eleitorado.
O que acontece é o seguinte: quando acontece qualquer evento dessa magnitude, a tendência nossa é fazer comentários peremptórios: “Acabou para o Flávio”, “Quem vai ser o candidato da direita?”, já dando como certo que a candidatura do Flávio está inviabilizada. Um escândalo parecido, guardadas as proporções, afetou a Roseana Sarney, no caso Lunus. Ela era a candidata que estava lá na frente nas pesquisas, apareceu dinheiro, e ali foi o fim de uma candidatura. Mas num mundo em que a imprensa controlava muito mais, digamos assim, a narrativa dos eventos. O país inteiro acompanhava o Jornal Nacional. Era um mundo muito diferente do nosso. Vou ser prudente, porque fiquei muito impressionado com a subida do Flávio. Hoje é fácil dizer: “Ah, o filho do Bolsonaro pegou o nome”. Mas quem imaginaria, em novembro do ano passado, que alguém com o nome Bolsonaro teria o prestígio que o Flávio está tendo? Muita gente julgava, por conta das investigações sobre o movimento golpista, a exposição do Moraes, prisões, tudo isso, que Bolsonaro tinha acabado. O nome do Flávio e a velocidade com que ele chegou a esse patamar de apoio foram, para mim, uma surpresa. De novo: todo mundo olha para trás e fala “era natural”. Não era nada natural um senador razoavelmente apagado, um político que sempre priorizou mais negociação parlamentar do que exposição de palanque, chegar ao patamar de apoio que chegou.
Isso quer dizer que ele está imune a esse escândalo?
Eu não sei como esse escândalo vai bater. Porque as denúncias estão em curso. A gente não sabe o que vem por aí. Não sabe se vai parar, se haverá mais gravações, mais vídeos, mais denúncias. Não sabe se vai estourar algo que afete também a esquerda. É um mundo imprevisível. Mas, só com o que apareceu no primeiro dia, a grande questão para mim é: como isso decanta para o eleitorado para além do topo? Existe esse eleitorado mediano, que tem inclinações de esquerda ou de direita, e existe o eleitorado lá embaixo, menos politizado. Eu não sei como isso é processado. Hoje eu conversei com uma mulher de baixa escolaridade, com simpatias mais à direita, e ela me disse: “Olha, esse negócio do detergente foi um grande movimento contra uma empresa. Não tem nada no detergente. Eu uso e continuo usando”. Ela não acredita. Ou seja: a informação chega torta, filtrada. Antes ela era filtrada pelas conversas e pelo tempo. Hoje ela é filtrada pelas redes sociais, pelo ambiente de trabalho, pelos grupos religiosos. E a direita domina as redes sociais. Eu vi um levantamento do Sólon Data mostrando que, dos 30 políticos brasileiros com mais prestígio em redes sociais, 26 são de direita e quatro são de esquerda. Os brasileiros usam muito redes sociais. Uma parte do Brasil já não liga mais certos canais de televisão. E há também filtros religiosos. Então eu não sei como isso chega lá embaixo.
Pela reação da campanha, há potencial de estrago.
Mas qual o tamanho do estrago? Como o Flávio resistirá — ou não —, especialmente porque não existe outra alternativa clara no curto prazo? Aí vem Copa do Mundo, vem o tempo passando, vem uma notícia substituindo a outra. Existe uma guerra de interpretações sobre todos os fatos. E por isso eu acho que a gente se afastou do cenário da Roseana. Naquele tempo aparecia um escândalo, aparecia dinheiro, e o cara estava liquidado. Hoje não. Hoje aparece um escândalo, ele é gravado, daqui a pouco dizem que a voz foi adulterada, que houve montagem, que existe perseguição. Não estou dizendo que não seja grave. É um escândalo gravíssimo. As denúncias são fortíssimas. Mas eu não teria segurança para dizer que a candidatura dele está ferida de morte. As pessoas discutiram durante dias o efeito do carnaval do Lula no Rio: “Foi um erro”, “foi uma humilhação”, “virou carro alegórico”. E aí? Cadê o efeito do carnaval hoje? As coisas decantam. As pessoas superam. Não estou comparando os dois escândalos, esse é muito mais grave. Mas nós operamos assim: acontece alguma coisa, vemos a reação das redes sociais, esperamos a próxima pesquisa, e imediatamente tentamos concluir o cenário. Flávio está muito bem posicionado nas pesquisas. São raríssimos os candidatos, na história das eleições brasileiras, que chegam em maio ou junho com mais de 30 pontos.
Mas isso sugere, de certa maneira, a resiliência desse eleitorado, né? Podemos estar diante de uma situação em que hecatombes podem acontecer e ainda assim o cenário seguir cristalizado?
Quando acabei de escrever o livro, em novembro, Flávio não era candidato. E a minha expectativa era a seguinte: “Bom, se o Flávio não é candidato, vai vir algum outro nome que fale mais com o centro e que desinfle um pouco esse sentimento de polarização afetiva que capturei no livro”. Afinal, esse sentimento tinha muito a ver com a presença do Jair Bolsonaro, que é a maior liderança popular de direita desde a redemocratização. Não é pouca coisa o que o Bolsonaro conquistou nesses poucos anos. Veio Flávio e, se ele se confirma como a principal liderança da direita para enfrentar Lula, aí aumenta a probabilidade de que as mesmas clivagens de 2022 se repitam. A divisão Nordeste versus resto do Brasil, a disputa voto a voto em São Paulo e nas grandes cidades do Sudeste, o papel das mulheres — que talvez rejeitem menos o Flávio do que rejeitavam o Bolsonaro. Isso pode ser um ponto positivo para ele. Provavelmente, se eu fizesse uma nova edição do livro, colocaria quatro eleições “PSDB versus PT” e três “PT versus Bolsonaros”, no plural. Mas eu ainda não sei se vai ser essa configuração. Agora, essa configuração aumenta de fato a probabilidade de a gente observar o que você está chamando atenção: uma cristalização prévia.
Cristalização também das rejeições.
Sim, tenho levantado também uma hipótese que precisa ser mais bem explorada: a avaliação que se faz do presidente Lula já não está mais tão contaminada pelas políticas públicas. O Lula pode fazer chover que os eleitores bolsonaristas continuarão achando o governo ruim. Aliás, como aconteceu no final do governo Bolsonaro: a inflação começou a cair, os indicadores econômicos começaram a melhorar, mas isso já não mudava a avaliação negativa dele. Ela estava cristalizada. Claro que existe uma margem de oscilação. As pesquisas variam dois, três pontos para cima ou para baixo, são esses eleitores que ficam olhando para um lado e para o outro. Mas, quando se colocam os dois no segundo turno, é quase como se ativasse um sentimento mais explícito das redes: “Eu sou dessa tribo, não sou daquela. Então eu vou com ele”. É por isso que eu acho que Lula pode fazer muitas políticas públicas, como o Bolsonaro também fez no fim do mandato. São medidas muito ad hoc, voltadas para certas clientelas. O Pé-de-Meia não. O Pé-de-Meia foi estudado, pensado. Ele pode ter um efeito positivo sobre certos eleitores, como esses de Ensino Médio que a gente comentou. Mas as pessoas estão um pouco cristalizadas em suas preferências. E a presença de um Bolsonaro na campanha — que, para mim, parecia improvável — reforça essa tendência.
Gíria: sobrevivência e identidade
Se você já não é mais tão jovem, deve ter percebido que as novas gerações estão usando termos e expressões que dificultam o entendimento de quem não tem uma idade compatível. Há quem recorra a dicionários informais para entender as gírias do momento ou para interpretar as mensagens que recebe pelo WhatsApp. Apesar de motivar críticas pelas gerações anteriores, as gírias adotadas pelas gerações Z e Alpha seguem seus próprios critérios de formação, o que, aliás, é normal, já que novas expressões surgem com uma nova juventude, num processo que se retroalimenta.
Pesquisador na área de sociolinguística e professor do curso de Letras do IFSP, Flavio Valadares explica que as gírias já existiam desde os povos ciganos por uma questão de sobrevivência. Por serem muito perseguidas na Europa, essas etnias lançaram mão de códigos linguísticos para se comunicarem sem serem entendidas por quem não era da comunidade, como meio de autoproteção.
O conceito sempre esteve associado à marginalidade, seja por aqueles considerados criminosos ou no sentido dos que estão à margem da sociedade. Já na Idade Média, os pobres não tinham acesso à educação, desenvolvendo outros mecanismos linguísticos para se comunicar e se proteger de grupos que pudessem oprimi-los ou mesmo prendê-los por qualquer motivo.
Ao longo da História, essa ferramenta de comunicação foi associada a pessoas que não tinham formação. Ainda na Idade Média, os meninos saíam da infância para trabalhar ou, para aqueles de família com mais recursos, aprofundar nos estudos para ingressar na vida política, militar ou religiosa, enquanto as meninas eram preparadas para se casar e cuidar dos afazeres domésticos.
O conceito de gíria começa a mudar na Revolução dos Costumes, na década de 1960, conforme me consolida a categoria de adolescentes na sociedade, um processo iniciado na década anterior. Com o surgimento do movimento hippie, do amor livre e da pílula anticoncepcional, a língua vai acompanhando os novos hábitos e vai naturalmente criando neologismos. É quando a gíria nasce como identidade adolescente, mesmo sendo muito discriminada socialmente.
Desde então, essas expressões ficaram conhecidas no Brasil, ganhando maior notoriedade na década de 1980 com os surfistas, associados ao consumo de maconha e por usar uma linguagem que não era compreendida por membros de fora da comunidade. Com o fim da ditadura militar e o uso dessas expressões nas letras de rock, e depois com o rap nos anos 90, as gírias ganham força fora dos grupos nichados, ainda que continuassem sendo discriminadas socialmente. Nessa época, as novelas da TV Globo contribuíram com a disseminação dessa linguagem, ainda que de maneira artificial, já que parte do elenco não tinha afinidade com a linguagem.
Na “net”
É com a disseminação da internet e das primeiras redes sociais que as gírias ficam mais abertas ao público e enfraquecem o status discriminatório de seu uso, sendo adotadas por jovens de diferentes grupos e classes sociais. Com as redes sociais, as gírias têm um poder viralizante, com memes extraídos de vídeos, áudios ou imagens que em poucas horas têm um jogo de palavras rapidamente adotado em um novo sentido pelos usuários. É o que aconteceu com o meme do Coringa, filme de Todd Phillips cujo personagem principal é interpretado por Joaquin Phoenix. Trechos do longa em que Coringa ri de desespero viraram memes em formatos de figurinhas e imagens nas redes. Desde então, “coringar” ganhou o sentido de alguém surtando ou enlouquecendo. O uso de termos por influencers ajudam a viralizar os neologismos. Os algoritmos também impulsionam essas expressões, conforme os posts relacionados ganham tração.
Os videogames dão uma nova dimensão para o vocabulário das gírias a partir da década de 1990, influenciando o surgimento de novos termos na linguagem dos jovens. Jogos online, disputados principalmente em plataformas como o Roblox, contribuem fortemente para novos termos que deixam os adultos perdidos. É como a curiosa gíria do momento “farmar aura”, cunhada a partir de conceitos de jogos como Minecraft, no qual os jogadores precisam coletar (farm) recursos ao longo do cenário para ganhar pontos e subir de nível. A aura está ligada a animes, cujos personagens formam uma aura em torno de si mesmo quando chegam a estágios mais poderosos. Farmar aura nada mais é do que agir de modo que sua presença perante o grupo pareça mais interessante, mais estilosa ou confiante. Se você consegue manter uma ótima reputação, parabéns, você é um “sigma”. Mas se só dá bola fora e não se destaca, pode ser chamado de “beta”.
Apesar de expressões anglófonas estarem bem presentes nas gírias dos jovens, principalmente das gerações Z e Alpha, termos em inglês não são novidade, se pensarmos que outras palavras advindas do uso de computadores também foram absorvidas pelo nosso cotidiano há décadas, como “deletar”, “clicar”, “printar” e “escanear”. Se as redes e os jogos são forças marcantes na disseminação de novas palavras e esses produtos são comumente estrangeiros, é natural que os neologismos cheguem às bocas em adaptações do inglês.
Por acompanhar a velocidade da internet, é comum que os novos termos sejam descartados e alterados com uma velocidade maior do que antigamente, quando as novelas tinham um papel de maior destaque nas expressões da moda. Um exemplo dessa força eram os bordões de personagens, que não raro caíam nas graças do povo. Foi o caso de “né brinquedo, não”, repetidas vezes por Dona Jura (interpretada por Solange Couto) na novela O Clone (2001).
Mecanismo da sobrevivência
A natureza das gírias é permanecerem fechadas a um grupo específico para que aqueles que não fazem parte da comunidade não possam entender os códigos sociolinguísticos. Se o vocabulário de um grupo acaba ganhando destaque nas redes ou regionalmente, é comum que seus membros acabem substituindo as palavras por outras ou mesmo alterando entonações e acompanhamentos para garantir a sobrevivência de sua identidade. “A gíria tenta sempre se manter como código secreto porque é o seu objetivo”, explica Valadares. Provavelmente você já ouviu algum paulista falar “mano”. Conforme a expressão foi ganhando popularidade pelo rap e na internet, naturalmente as periferias foram criando variações da mesma gíria, que podem mudar drasticamente seu significado.
O mesmo acontece com a expressão “tio”, usada desde décadas passadas por jovens para se referir a alguém mais velho, e eternizada pelos comerciais da Sukita nos anos 1990. A quebrada paulistana também ressignificou o termo, dando novas variações, do carinhoso “titio” até o uso em situações mais tensas, com “tiozão”, conforme bem observou o rapper Emicida no programa Papo de Segunda do canal GNT.
Assimilação
Conforme as gírias vão passando, podem entrar em uso geral como linguagem coloquial. Foi o que ocorreu com as expressões da Jovem Guarda, que sobreviveram aos anos 1960, como a palavra “bárbaro”, que deixou de ser apenas entendido como algo “cruel”, “desumano”, para também ser interpretado como “ótimo” ou “muito bonito”. Mas também ocorreu com termos como “abacaxi” e “pepino”, que deixaram de representar nomes de alimentos para também serem sinônimos de problema.
Por representar a identidade de um grupo, é comum que as gírias sejam datadas, já que cada geração cria suas próprias expressões. “A datação é um dado importante para a gíria, porque essa identidade de grupo tem prazo também de finalização. Ela não é eterna”, pondera Valadares. Ele exemplifica esse processo ao lembrar de quando alguém fala uma expressão muito comum em determinada época, as pessoas brincam, ao dizer que o interlocutor está “denunciando a idade”. Mas não quer dizer que as gírias desapareçam definitivamente. Valadares ressalta que, muitas vezes, ficam como arquivo linguístico e podem ser alçadas para novamente entrar em uso.
Se antes era considerado algo associado à marginalidade e posteriormente atrelado à falta de escolaridade, atualmente o uso corrente de gírias é uma questão predominantemente etária, sendo que cada geração cria suas próprias expressões para manter uma identidade. Valadares explica que todas as classes sociais têm seus próprios códigos funcionando como sobrevivência e identidade. “A gira da quebrada é identidade e é sobrevivência de um território, enquanto a de uma classe média alta é sobrevivência pela identidade de adolescente, porque eles querem marcar o seu espaço social”, conclui.
MacIvor em dose dupla
Atriz, escritora e apresentadora Luisa Micheletti construiu uma carreira em múltiplas frentes. Com a bagagem e a agilidade adquiridas nos anos de MTV e, depois, como atriz de novela, ela prioriza hoje o tempo de elaboração da literatura e do teatro. Em livros, como os contos de Nem Sofá, Nem Culpa, aborda o universo feminino e seus questionamentos utilizando fabulações que mantêm uma distância segura do ativismo panfletário.
Esse é o espírito que leva para duas peças em cartaz agora no Sesc Ipiranga. Luisa protagoniza e também assina a tradução de Nada é Suficiente e Comunhão, ambas do premiado dramaturgo canadense Daniel MacIvor. Às sextas, as duas são encenadas em sequência, e depois há uma sessão de Comunhão aos sábados e de Nada é Suficiente aos domingos.
A dobradinha, encenada em parceria com Lúcia Bronstein e Magali Biff, com direção de Pedro Bricio e Susana Ribeiro, investiga personagens em constante transformação, abordando afetos, vícios e memórias. No próximo fim de semana, integrando a programação da Virada Cultural, as sessões de ambas as montagens serão gratuitas.
Para além da densidade das obras de MacIvor, Luisa também integrou recentemente o elenco do musical Felicidade, com direção musical de Zeca Baleiro. Após um mês de sessões com casa cheia no Teatro Sérgio Cardoso em janeiro, a comédia já tem reestreia programada para breve, consolidando uma fase de intensa diversidade e efervescência da atriz nos palcos paulistanos. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
Como vocês mergulharam no universo do Daniel MacIvor para fazer esse trabalho?
Primeiro veio a vontade de a gente trabalhar juntos: eu, Lúcia e Pedro. Pedro e Lúcia são parceiros há muitos anos. Eu e ele temos uma troca já há alguns anos. E quando eu conheci a Lúcia, que é recente, a gente se conectou e aconteceu esse trio. Eles já estavam numa busca de um tema para fazer e me chamaram. A gente começou uma pesquisa que não tinha nada a ver com o MacIvor, pelo livro da Olga Tokarczuk, Sobre os Ossos dos Mortos, mas ela não quis vender os direitos. A gente estava numa busca com relação a animais e humanos, por questões pessoais e por essa coisa de o mundo estar meio acabando, e a gente tem que criar alianças com outras espécies. A gente gosta da Donna Haraway. Lemos coisas parecidas, mas não deu certo. Aí o Pedro veio com a ideia do MacIvor.
Já essas peças?
Ele disse que o MacIvor tinha uma peça inédita, Comunhão, mas que era apaixonado por A Primeira Vista. A gente leu, mas já tinha uma montagem feita há 15 anos, com a Mariana Lima e a Drica Moraes, dirigida pelo Enrique Diaz. Quando lemos Comunhão, entendeu por que estávamos juntos. Poder mostrar pontos de vista sem necessariamente se fincar num partido específico e numa pregação é uma vontade dos três. A arte foi para esse lugar, mas acho que é nossa função também resistir a ele. Resistir ao absoluto: “Tenho certeza absoluta que sou tal coisa, de que penso isso, de que não concordo com tal coisa.” E a gente está vendo o que está acontecendo com as discordâncias, como tudo está polarizando terrivelmente. Em ano de eleição, acho que ressoou um pouco. Fiquei feliz de conseguir fazer essa peça agora porque eu ouvi de amigos que dá para sentir empatia por todos os personagens. Isso me pegou totalmente, acho que é o grande motivo.
Uma das coisas fascinantes em Comunhão é como vocês colocam essas três mulheres em constante transformação. Essa dinâmica de estar em cena com esses personagens afeta a sua percepção sobre como as pessoas dão sentido às suas próprias existências a partir do outro?
Somos várias pessoas, e a gente se constitui na interação. Tenho entendido isso nos últimos anos, até porque eu fiz uma formação em terapia sistêmica, que é relacional. Numa família, eu sou uma pessoa; na profissão, sou outra; na amizade, sou outra; e não só sou, mas estou. Essa peça tem muito disso, porque nesses saltos no tempo a gente vai vendo que as nossas possibilidades do novo, da transformação, vão se abrindo conforme os encontros se abrem também. Às vezes você descobre algo sobre si mesmo quando conhece uma pessoa nova, e são pedaços de você que vão ressuscitando ou sendo criados. E às vezes as próprias relações precisam se renovar. A gente fica sendo uma pessoa só, mas pode ser outras e precisa de outras mesmo.
Em Nada é Suficiente, lembrei que você foi baixista da Fantasmina. Como essa bagagem com a música ajudou a encenar essa peça que de certa maneira fala do rock?
Foi um flashback. Parecia que eu estava vivendo um pedaço meu que estava adormecido, porque aquela época não volta mais. A gente não tem mais tanto movimento de banda independente, tanto festival, tanto lugar para tocar. Até tem, mas talvez a juventude que eu tinha eu não tenha mais. É gostoso poder sentir isso, poder deixar essa minha história me atravessar nessa personagem. E a música sempre me perseguiu de alguma maneira, ou vice-versa, desde a MTV, passando pela Fantasmina, pelos musicais. Meu pai mesmo falou: “Você sempre dá um jeito de cantar nas peças”. Eu não fiz nada, só aconteceu.
E teve recentemente a peça com o Zeca Baleiro. Como foi fazer esse trabalho?
Foi incrível. A gente fez um batidão de um mês em janeiro no Sérgio Cardoso, que é gigante, e, para minha surpresa, encheu todo dia, de quarta a domingo. A real é que eu estudo canto já faz tempo. Esse é segundo musical do Zeca que eu faço. O primeiro se chamava A Carruagem de Berenice, um infantil de 2018. Foi muito legal a história do Felicidade, porque além de ser artisticamente uma coisa que me interessa, tinha um texto do Caco Galhardo muito bom. Muito sacana no bom sentido.
MacIvor defende que o teatro deve transitar entre os espaços seguros e os corajosos, oconfrontando temas como luto, vício e solidão. Vocês buscaram acessar essa coragem na hora de interpretar essas personagens?
A gente só faz teatro para falar disso. Se for para falar de amenidades, a gente vai tomar um café na esquina, porque já é tão difícil fazer teatro, a gente já trabalha tanto, tem de ter muito um porquê. Para mim e para meus colegas é isso: as questões trágicas, os temas universais, têm de estar presentes. Morte, vida, sexualidade, medo. Ele traz tudo isso. Por isso a gente ama, mas também porque, como dramaturgo, ele é muito ousado. É curioso porque Comunhão eu acho a menos ousada no sentido de estrutura dramatúrgica. Nas outras, no In On It e no Nada é Suficiente, tem essa quebra da quarta parede, um recontar a história. Você está lá fazendo a cena, ele para a cena e fala: “Não foi exatamente assim que aconteceu. Na verdade eu disse isso, mas o que eu queria dizer era tal coisa”. Ele inspirou muitos outros dramaturgos ao trazer essa metalinguagem no começo dos anos 2000, essa possibilidade de comentar a vida enquanto ela acontece, e usar o teatro como um metateatro que não acredita mais piamente no que está em cena apenas.
Seus últimos trabalhos, principalmente na literatura, têm um traço de feminismo e um humor sarcástico. É possível usar a escrita para fazer esse questionamento hoje sem ser arte engajada?
Cada vez mais eu sinto necessidade de fazer a crítica, mas também de compreender as dinâmicas sem que isso vire uma panfletagem, que já saturou mesmo. Tenho me dedicado bastante à dramaturgia. Tem uma peça infantil minha rodando agora com a ONG Força Meninas em escolas públicas por vários estados. Em agosto vai sair um livro infantil que chama São Paulo, Terra Encantada. É uma princesa que cansou de ser feliz para sempre e vem para São Paulo na esperança de encontrar os estímulos que lá não tem. Faz uma crítica à hipermedicalização. Quem narra a história é o Puck do Shakespeare, como se fosse um spin-off de Sonho de Uma Noite de Verão. Eu acho que tem uma liberdade na arte que talvez não exista no ativismo. Na dramaturgia e na literatura você cria símbolo, fábula, metáfora. Cada um capta de uma forma e você não sabe a transformação que pode causar nos outros, as epifanias, as sinapses novas. É muito menos preto no branco. A metáfora é incrível para mudar o mundo, a ficção é uma saída.
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