Acabou, Flávio?
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Eu não vejo como Flávio Bolsonaro se recupere dessa aí, não. Implorando por dinheiro para Daniel Vorcaro. A sensação é que estamos, hoje, perante um daqueles momentos que decidem o rumo de uma eleição.
Vamos começar pelo essencial. O que o Intercept descobriu? Uma negociação direta, pessoal, registrada em mensagens de WhatsApp, áudios e um comprovante bancário, entre o senador Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Vorcaro é o dono do Banco Master, hoje preso. O esquema fraudulento dele gerou um rombo de R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito. É a maior fraude bancária da história do Brasil. O que esses dois negociaram? O financiamento de um filme. Dark Horse, com Jim Caviezel — o herói-canastrão dos filmes da extrema direita americana — fazendo o papel de Jair Bolsonaro.
O cronograma combinado era de 24 milhões de dólares. 134 milhões de reais. Pelo menos 10,6 milhões de dólares, 61 milhões de reais, foram efetivamente pagos entre fevereiro e maio do ano passado, em seis parcelas. O dinheiro saiu de uma empresa chamada Entre Investimentos e Participações, e foi parar num fundo sediado no Texas. O fundo se chama Havengate Development Fund. O agente legal do fundo é Paulo Calixto, o advogado de Eduardo Bolsonaro. Pega o desenho: dinheiro do Banco Master, brasileiro, atravessa o Atlântico para um fundo no Texas controlado pelo advogado do irmão de Flávio, e volta como pagamento de uma produção cinematográfica que vai estrear em 11 de setembro de 2026 — semanas antes da eleição em que o próprio Flávio pretende ser candidato.
Em 8 de setembro do ano passado, dias antes do julgamento que condenou Jair Bolsonaro por golpe de Estado, Flávio mandou um áudio cobrando Vorcaro. Olha o que ele disse: “Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras renomadíssimos lá no cinema mundial. Pô, ia ser muito ruim.” Em outro áudio, no dia 22 de outubro, voltou a cobrar: “Já estamos no terceiro dia de gravação. Estamos no limite. Mais uma vez, com toda a liberdade que temos, se não der me fala que procuro urgente outro caminho.”
Em 22 de outubro, Flávio convidou Vorcaro pra um jantar em São Paulo, no dia 2 de novembro, com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. Vorcaro aceitou e sugeriu fazer o jantar na própria casa dele. Flávio respondeu: “Pode ser na sua casa sim. Acho até melhor.” Fechado. Não dá pra saber pelas mensagens se o jantar de fato ocorreu — quinze dias depois Vorcaro estaria preso tentando fugir do país. Mas a cena combinada vale ser desenhada na cabeça: o senador e pré-candidato à presidência da República, o banqueiro responsável pela maior fraude bancária do país, o ator americano que faz o papel do pai do senador, e o diretor americano que assina a obra — todos juntos, jantando na casa do banqueiro, em São Paulo, três semanas antes da prisão dele. Esse era o nível de proximidade.
Em 7 de novembro, depois de assistir a alguma coisa do filme, Flávio mandou: “Tá perdendo, irmão. Tudo isso só está sendo possível por causa de vc.” Vorcaro respondeu: “Que demais. Ficou perfeito.”
Veja, é importante a gente parar aqui. Porque Flávio Bolsonaro negou tudo isso. Por meses. Disse à CNN que a doação de 3 milhões do cunhado de Vorcaro à campanha do pai dele, em 2018, foi — e cito — “sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive”. Falou que a relação do Master com a direita era “narrativa falsa que o Lula tem criado”. Dois dias antes da reportagem sair, num comício na Paraíba, classificou o caso Master como — outra citação — “grande esquema de roubalheira que está dando nojo a todo o país”.
Hoje de manhã, perguntado pelo Intercept, em frente ao Supremo, recém-saído de uma reunião com o presidente da Corte, o ministro Edson Fachin, Flávio respondeu “É mentira”, deu uma gargalhada, e foi embora.
Em fevereiro deste ano, gravei um Ponto de Partida que dizia “O buraco do Master é fundo”. Naquela altura eu falei pra vocês que não havia qualquer indício de que Jair Bolsonaro ou qualquer pré-candidato à presidência tenha relações diretas com o Master. Zero. Falei zero. Era verdade naquele dia. Não é mais. As mensagens publicadas hoje mostram que Flávio negociou pessoalmente com Vorcaro. Cobrava as parcelas, marcava jantares, mandava áudios. Existia, sim, relação direta. Existia relação íntima.
Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.
Hoje o assunto é o filme que Daniel Vorcaro está pagando pra defender Jair Bolsonaro. Vale lembrar que tem outro filme, lançado faz pouco tempo, sobre exatamente o mesmo personagem — só que do outro lado da história. É o nosso filme, o filme do Meio que reconstitui como a Polícia Federal investigou a tentativa de golpe de Estado. Como as provas foram juntadas, quem entregou quem, o que estava em cada delação, como a peça do inquérito foi montada até chegar na condenação. Não é opinião. É reportagem em vídeo, com fontes, com documento, com as cenas que decidiram o caso. Está no streaming do Meio. Assinante Premium assiste hoje.
Enquanto Vorcaro paga pra contar uma versão, o Meio conta a outra — a que tem documento. Assine o Meio Premium.
Aliás… Este aqui? Este é o Ponto de Partida.
Então a pergunta que importa: o que significa um filme eleitoral, que vai estrear semanas antes da eleição presidencial, ter sido pago com dinheiro saído da maior fraude bancária da história do Brasil? Significa propaganda. Significa que o maior investimento da campanha de Flávio Bolsonaro, porque esse filme da história do ex-presidente Jair Bolsonaro é pura campanha eleitoral, foi financiado pelo protagonista do maior escândalo de corrupção da história recente. Em última análise, foi financiado pelo Fundo Garantidor de Crédito. Pelo sistema bancário brasileiro. Indiretamente, de cada brasileiro que tem conta em banco no país. Cada taxa, cada real a mais de juro que a gente paga, é dinheiro que foi pro Master.
Surpresa? Bem, surpresa de corrupção envolvendo Flávio Bolsonaro não, né? Surpresa que ele tenha deixado rastro. Flávio é a Alerj no Palácio do Planalto. Ele passou 16 anos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, dois terços da carreira política foi lá. Se você acompanhasse o tipo de político que ele foi como deputado estadual, entenderia que ele, hoje, estaria naquela lista da Polícia Federal que aponta metade dos deputados estaduais do Rio como ligados ao crime organizado. Ele nunca escondeu que premiava milicianos.
Esse cara é o filho da rachadinha. Da Loja da Kopenhagen em que todo lucro se concentra no dia de pagamento da Alerj e entra no caixa em dinheiro vivo. Da mansão de seis milhões que ninguém entende como pagou. Dos seis milhões de reais que pessoalmente fez em rachadinha enquanto era deputado estadual.
E o método de Vorcaro sempre foi esse: sair embrenhando no esquema, pagando dinheiro alto, todo mundo que conseguisse, para assim abrir as portas do poder. Quem quis fazer negócios e estava próximo do governo Bolsonaro, conseguiu. Quem quis fazer negócios e estava próximo do governo Lula, conseguiu. Hoje a gente sabe um pouco mais. Quem quis bancar a propaganda eleitoral do filho do ex-presidente também conseguiu.
Eu disse aqui há duas semanas que o que está sendo desenhado é o primeiro governo 100% Centrão no Brasil. Não um Jair 2. Outra coisa. Um governo do tipo que o Rio de Janeiro tem faz uma década e meia. Onde o Estado existe, mas existe para servir a um grupo fechado que controla recursos, distribui cargos, protege os seus. Daniel Vorcaro foi um banqueiro deste tipo aí. O Wilson Witzel da banca. O Cláudio Castro do crédito.
Esse é o desenho. E o filme do pai, pago pelo dono do banco da fraude, é só a peça mais visível.
Olha, isto é claro: não é Flávio que tem de dar pras pessoas motivos para não votarem nele. A obrigação de contar quem é Flávio Bolsonaro é nossa, da imprensa. Hoje o Intercept fez a parte deles. Baita furo, daqueles que decidem eleição. E foi muito bem.
Eu disse, no comecinho do programa, que a gente está hoje perante um daqueles momentos que decidem o rumo de uma eleição. Não falei isso à toa. A pesquisa Meio/Ideia da semana passada, mostrou uma coisa importante: o eleitor de Flávio começou a cristalizar o voto. Em abril, 60% dos eleitores dele diziam que ainda podiam mudar de ideia. Em maio, esse número caiu pra 43%. Era um voto que estava virando concreto.
Pois é. A pesquisa foi feita antes do que saiu hoje. E o que saiu hoje muda a natureza desse voto. Porque uma coisa é cristalizar voto num candidato que apresenta a imagem de Bolsonaro moderado, Bolsonaro vacinado, pai de família vai jogar bola no parque. Outra coisa, muito diferente, é cristalizar voto num candidato que mandava áudios pra Daniel Vorcaro implorando dinheiro pra produção do filme do pai. As duas imagens não se sustentam ao mesmo tempo na cabeça de um eleitor moderado. A direita dura, claro, talvez até vá relevar. Direita dura costuma relevar. O voto que está em jogo é o do eleitor moderado, aquele que não votou em Jair em 2022 e estava começando a considerar votar em Flávio. Aqueles 3% de eleitores que o Instituto Ideia vem acompanhando desde o ano passado, os que mudaram o voto de uma eleição pra outra e decidiram 2022 por um fio. Esses não vão relevar. Esses, exatamente esses, são os que decidem a eleição.
Sabe aquela falta de espinha dorsal de Flávio, quando ele foi aos Estados Unidos prometer terras raras ao presidente Donald Trump em troca de pressão diplomática? Pois é. A mesma cara. Hoje, na entrada do Supremo, ele riu e foi embora. Você ouviu bem: ele riu. E foi embora.


