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O acordo que garantiu Alcolumbre na presidência do Senado em 2027

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Em todos os cálculos que os analistas políticos ensaiam fazer sobre quem traiu quem e por quanto na derrota de Jorge Messias no Senado, o saldo é sempre o mesmo: quem saiu vitorioso foi Davi Alcolumbre, do União Brasil do Amapá, presidente do Senado e do Congresso.

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Acrescente a votação do PL da Dosimetria no dia seguinte e o abraço caloroso dado em Flávio Bolsonaro antes da sessão, o saldo segue o mesmo.

Volte na acachapante derrota da quarta-feira e lembre dos bastidores apurados por colegas de Brasília sobre como Jaques Wagner e Alexandre de Moraes, cada um a seu modo, teriam colaborado pra goleada, o vencedor-mór é sempre ele, Alcolumbre.

E quem ainda está se remoendo para entender como diabos Alcolumbre se beneficia dessa manobra, para muito além da vingança pessoal por não ver o seu preferido, Rodrigo Pacheco, como o indicado para o STF, talvez tenha perdido um detalhe que não é em nada irrelevante.

Ao vender a dosimetria, ao entregar a derrota de Messias, ao enterrar a CPMI do Master, os três movimentos intimamente interligados, Alcolumbre conseguiu, em troca, a garantia da direita, tanto a do Centrão quanto a bolsonarista, de que ele será reeleito presidente do Senado em fevereiro de 2027.

Sim, essa eleição foi definida semana passada e possivelmente você nem notou. Porque o Senado vai ter uma maioria importante da direita. É desses votos que Alcolumbre precisa para se garantir reeleito na Casa. E eles foram devidamente garantidos.

Qual foi a plataforma que Alcolumbre, enroscado no caso Master, em que seu ex-tesoureiro de campanha presidia o fundo de pensão do Amapá que colocou R$ 400 milhões nos papéis do banco, ofereceu para conseguir a proeza? Aos bolsonaristas, a dosimetria e o enterro das investigações do Master. Ao Centrão, o enterro das investigações do Master. Aos prováveis traidores do Planalto, o enterro das investigações do Master. E ao STF, barrar pedidos de impeachment e o enterro das investigações do Master.

E por que Alcolumbre quer tanto ser reeleito presidente do Senado? Ah, porque os donos da pauta legislativa mandam no Brasil há pelo menos 10 anos. Na ausência de um presidente da Câmara forte, Alcolumbre manda sozinho.

Vale lembrar que, ao rifar Messias, o amapaense rifou junto o apoio que poderia negociar de Lula em seu estado, para tentar eleger seu grupo no governo. A disputa está muito feia para o afilhado de Alcolumbre, talvez nem com Lula no palanque ele conseguisse reverter esse cenário. Melhor garantir a eleição mais a mão mesmo, né?

Mas voltando ao deus nos acuda no Senado na semana passada. Há quem duvide das apurações que dão conta de que Alexandre de Moraes ajudou a derrotar Jorge Messias. Um dos argumentos para essa desconfiança seria o de que, ao fazer isso, ele fortaleceria o bolsonarismo e a direita e, portanto, em última instância, seu próprio impeachment no futuro.

Alcolumbre entra como goleiro aqui. Ele certamente será pressionado a pautar impeachment. Mas o presidente do Senado é dono dessa pauta. Pode segurar. Vai vender caro, certamente, mas pode. Eu não duvidaria nada, inclusive, se ele tiver vendido pra oposição que vai pautar e pros ministros do STF que vai segurar. Diferentemente de Hugo Motta, Alcolumbre sabe fazer esse jogo duplo.

Outro argumento para desacreditar a tese de que Xandão ajudou a derrotar Messias seria a de que só a Lula interessa fazer crer que seu indicado seria uma espécie de justiceiro, junto com André Mendonça, em prol das investigações do Master. Mas Alexandre de Moraes não está preocupado com uma hipotética aliança justiceira.

O que está em disputa no STF, como sempre e como em todos os cantos de Brasília, é poder. Ele, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes queriam Rodrigo Pacheco, como Alcolumbre, para aumentar a sua própria bancada na Corte. Para seguirem majoritários e hegemônicos.

Nisso, Alcolumbre entra como goleiro evitando um nome que desequilibrasse a balança para o lado de Mendonça. O que não está claro é se ele vai conseguir orientar que o próximo indicado seja dessa bancada.

A verdade é que Alexandre de Moraes não precisava trabalhar contra Jorge Messias. Está agora tentando convencer o Planalto de que de fato não trabalhou, com aliados argumentando que ele nem tem prestígio suficiente no Senado pra virar voto. Isso é verdade.

Mas é verdade também que ele e Alcolumbre são próximos o suficiente para terem um nome preferido em comum, para jantarem juntos às vésperas da sabatina, e para ambos passarem a quarta-feira cantarolando o mesmo número de votos que Messias teria pelos cantos.

Alcolumbre não precisava de Alexandre de Moraes ou de Jaques Wagner porque já tinha articulado a derrota com o grupo que comanda, que é o Centrão. E que é o grupo que sai mais fortalecido, com a mensagem clara para o próximo presidente da República que, quem manda mesmo, são eles.

Alguém poderia argumentar, com uma boa dose de razão, que sempre foram eles. Sim, o Centrão brasileiro é a oligarquia latifundiária travestida a cada geração com as roupas da direita da moda. É a elite poderosa, dona dos partidos políticos. Foi a fiadora desde 1986 do que se construiria de governabilidade a partir de 1989 — aliás, ajudou a desenhar o sistema que garantiria sua sobrevivência nesse papel por décadas.

Só que de alguns anos para cá, notadamente com a reeleição de Dilma Rousseff, o Centrão hoje representado por Davi Alcolumbre cansou de ser esse coadjuvante de luxo que garante a governabilidade. Sem forças para assumir o poder Executivo — quando tentou com Michel Temer fracassou retumbantemente na métrica da popularidade —, engoliu de vez o Legislativo. E agora quer também mandar no Judiciário.

Não é que eu esteja deduzindo isso. Um dos mentores dessa estratégia confessou com todas as letras. Eduardo Cunha, o artífice do impeachment de Dilma, escreveu um artigo no Poder360 em que antevê o impeachment de Lula caso ele seja reeleito. E reconheceu, sem um pingo de constrangimento, o seguinte:

“Acho mais fácil aprovar uma nova emenda constitucional para aumentar a idade de aposentadoria do STF para 80 anos do que deixar Lula nomear quatro novos ministros. O Senado não aprovará mais qualquer nome indicado por ele, salvo se oriundo de algum acordo político para a divisão das cadeiras.

Lembrando que foi graças a mim que se aprovou a mudança da idade de aposentadoria de ministros do STF, de 70 anos para 75 anos, pela simples razão de se impedir que Dilma pudesse nomear dois novos ministros ao STF durante seu 2º mandato”.

Vamos por partes. Cunha falaria mesmo qualquer absurdo para chocar e tentar voltar a ser relevante no cenário nacional. Isso posto, ele é um dos políticos do Centrão que mais entende da política real, feita com muito cálculo oportunista.

Quando Cunha, o patrono do Centrão de baixo clero que passaria a mandar no Brasil a partir de 2016, diz que o Senado atual só aprova um nome de Lula que respeite a “divisão das cadeiras”, ele está dizendo candidamente que quer tirar a prerrogativa do presidente de indicar ministro do STF e redirecioná-la para o Congresso.

O custo de não fazer isso? Impeachment. Ou, no melhor dos cenários, uma PEC que mude o tempo do mandato dos ministros.

Percebem como Davi Alcolumbre presidente reeleito do Senado é o ápice de um processo que começa lá atrás? Quer entender melhor?

Então, fica aqui comigo. Eu sou a Flávia Tavares, editora do Meio. Nesta quarta-feira, sai a nossa pesquisa eleitoral de maio, fruto da nossa parceria com o Instituto Ideia. Assinantes premium recebem o PDF à meia-noite, antes de todo mundo, pra poder distribuir em seus grupos e ser referência de informação de qualidade e confiável, pra pautar o debate. Assine o Meio. São só 15 reais por mês.

Eduardo Cunha não era um cacique do MDB. E olha que seu partido era repleto deles. Tinha José Sarney, Renan Calheiros, Romero Jucá, Eunício de Oliveira, Michel Temer… Mas Cunha era uma espécie de médio clero do Rio, um político bem articulado, com uma base própria, mas sem grande projeção partidária.

Ao chegar à presidência da Câmara, aproveitou-se de um redesenho que já oferecia a esse posto uma boa dose de concentração de poder e conseguiu ampliá-lo, promovendo o baixo clero da Casa Baixa ao protagonismo. Isso também na esteira da Lava Jato que mirou nos caciques de vários partidos do Centrão, deixando o bloco em boa medida anencéfalo.

O próprio Cunha acabou sendo alvo da limpa, não sem antes ajudar a transformar a maneira de se fazer política no Congresso. Cada deputado antes apenas conduzido pelas lideranças passou a ter uma boa dose de autonomia e se articular numa espécie de bancada paralela.

Seus sucessores entenderam o novo jogo e aprimoraram. Arthur Lira, do PP, aproveitou-se da fraqueza sem precedentes de Jair Bolsonaro e, em sociedade com Ciro Nogueira, assumiu o orçamento do Executivo — sempre ancorado na bancada do Centrão de baixo clero e de suas ambições locais, individuais, regadas a emendas parlamentares. Lira tentou fazer de Hugo Motta seu proxy, mas nem para isso ele tem talento.

Davi Alcolumbre é cria de José Sarney, aprendeu a fazer política tanto com os antigos caciques quanto com os novos donos do Centrão. Traiu o padrinho sem muitos pudores. Com seu jeito bonachão, fez uma bancada própria. Mais talentoso que Lira, escolheu um proxy devidamente obediente para ocupar sua cadeira quando foi impedido pelo próprio STF de estender o próprio mandato na presidência do Senado. Ah. em tempo, além de tentar essa manobra, Alcolumbre já fala em aumentar o mandato de senadores de 8 para 10 anos.

Bom, Rodrigo Pacheco e seu carisma de corrimão esquentaram a cadeira para o retorno triunfal de Alcolumbre. Em troca, receberia o prêmio de coroar sua carreira jurídica sem muito brilho no Supremo. Lula tinha outros planos. Teimou num Jorge Messias sem grandes apoios, que não agradava ninguém além do próprio Lula — e de André Mendonça, vejam só. Lula apostou e perdeu pra bancada de Alcolumbre, da direita e do Centrão — tanto do Congresso quanto do Planalto quanto do Supremo.

Sim, porque o Centrão é um estado de espírito que atravessa os poderes, né? É a força que move e comanda o Brasil, como Alcolumbre deixou muito claro. Enquanto Gilberto Kassab e Valdemar Costa Neto brigam para fazer as maiores bancadas do Legislativo, Alcolumbre garantiu o cargo de primeiro-ministro. E Lulismo e bolsonarismo estão a seu reboque.

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