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O acordo é bom pro Flávio

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E se um possível governo Flávio Bolsonaro não for, como muita gente aposta, um segundo governo Jair Bolsonaro? E se for um desenho diferente? Um governo em que, enfim, o Centrão assume as rédeas do país. Quem prestou atenção em tudo o que ocorreu na semana passada deveria, seriamente, considerar a possibilidade. Porque, se este acordo não está amarrado, ele certamente já está rascunhado na cabeça de bastante gente.

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Então vamos começar pelo básico. O que aconteceu no Congresso Nacional na semana passada? Primeiro: pela primeira vez, desde 1894, o Senado rejeitou um candidato ao Supremo indicado pelo presidente da República. Esta rejeição se deu em dois contextos bastante específicos. Por um lado, o Senado não queria que Jorge Messias fosse o indicado. Queria Rodrigo Pacheco, ex-presidente da Casa. Lula decidiu indicar Messias mesmo assim, o Senado o derrubou.

Bem, por que o Senado quer um dos seus? Porque o Congresso considera que precisa ter seus nomes entre os onze ministros do Supremo. Entenda-se bem: o Centrão considera que precisa ter gente dele no Supremo. E com que objetivo? Sejam criativos. Por que o Centrão gostaria de ter seus homens na mais alta Corte de Justiça do país? Pegou a ideia?

Pois bem, o outro contexto é o escândalo do Banco Master. A quem não interessa investigar nada sobre o Master? A Ciro Nogueira, não interessa. Presidente do Progressistas, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro. A Davi Alcolumbre, presidente do Senado, não interessa. Gente dele, no Amapá, botou uma quantidade de dinheiro abissal no Master. Não quer investigar. Alexandre de Moraes, José Antonio Dias Toffoli, ministros do Supremo. De formas diferentes, receberam legalmente dinheiro oriundo do Master. Muito dinheiro. Melhor não fuçar demais isso aí. A quem mais interressa? O PT da Bahia. Ajudou a alavancar o Master. Rui Costa, ministro da Casa Civil de Lula. Jacques Wagner, líder do governo no Senado.

Segue o fio da apuração jornalística, de vários jornalistas, um confirmando o outro. No Palácio do Planalto, no Congresso e no Supremo, fontes de todo tipo falam que todo esse pessoal participou da pressão para rejeitar Messias. Por quê? Porque ele era percebido como alguém que se juntaria ao time do André Mendonça. E o Supremo é dividido em grupos que têm confrontos entre si.

Essa é a primeira coisa que aconteceu dentro do Congresso Nacional. A segunda coisa foi a sessão conjunta, Câmara e Senado, para derrubada de vetos presidenciais. O que estava em jogo? Lula vetou a diminuição de tamanho de pena para uma série de crimes que o Congresso desejava. Incluindo, ora, o crime de tentativa de golpe de Estado. Só que, isso é o regimento do Congresso que diz, se o Congresso se reúne em sessão conjunta das duas Casas, tem antes que analisar os pedidos de CPI mista. Tinha o pedido da CPMI do Banco Master. Analisaram? Não. E quase ninguém reclamou. Flávio Bolsonaro? Não reclamou. Sérgio Moro? Não reclamou. Por que não falaram que Davi Alcolumbre estava quebrando a regra? Ora, porque tinha um acordo. Assinado. A Giullia Chechia, repórter do Meio em Brasília, conseguiu o documento.

Todo mundo topou abafar em conjunto a investigação do Master em troca de impor essas derrotas ao governo.

Isso aqui é um grande acordo político na nossa frente. Veja, acordos políticos são do jogo. Você abre mão de uma coisa que acha importante, o outro também abre, em nome de um objetivo comum. O ponto aqui é o seguinte. Com o objetivo de não investigar o Master, fez-se alguns acordos na semana passada.

Sabe aquele acordo com o Supremo, com tudo, que foi difícil de ser feito lá atrás? Pois é. Foi feito. Na nossa frente. E está sendo aplaudido por muitas das pessoas que estavam acusando corrupção lá atrás. Uns por ingenuidade, não percebem o que está em jogo. Outros, bem, é porque os interesses convergiram.

Se a gente parte do princípio de que, agora que este este encontro de interesses ocorreu, que todos estes resultados interessam ao mesmo tempo ao Centrão e ao candidato Flávio Bolsonaro, que tipo de governo pode nascer deste encontro? Prepara sua imaginação. Vamos imaginar que Flávio não seja Jair 2, que Flávio seja o primeiro presidente 100% Centrão. Você consegue imaginar que tipo de governo seria esse? Eu consigo. Sabe por quê? Porque eu sou carioca. E posso te dar uma pista? O Flávio também sabe muito bem como é esse tipo de governo.

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Se você chegou até aqui e está com aquela sensação de que tem coisa grande acontecendo na nossa frente — e que quase ninguém está nomeando direito —, é exatamente pra isso que existe o Meio.

A gente não está aqui pra te dizer de que lado torcer. A gente está aqui pra você conseguir enxergar o jogo. Ler o que foi assinado. Ligar os pontos entre o Master, o Supremo, o Congresso e 2026. Discordar do Lula sem virar bolsonarista. Discordar do Flávio sem virar lulista. Pensar por conta própria, com base.

Se isso é o que você quer, seu lugar é o Meio. Assine.

Aliás… esse acordo da semana passada? Ele tem nome, tem dono, tem objetivo — e tem um modelo de governo já em operação no Rio de Janeiro há mais de uma década. Eu vou te mostrar.

Este aqui? Este é o Ponto de Partida.

Vocês entendem como o estado do Rio de Janeiro é governado faz algum tempo? É pelo grupo político do Flávio Bolsonaro, tá? Mesma turma. Existe um conjunto de deputados estaduais que têm total controle da máquina pública. Você sabe o nome do atual governador do Rio? Sabe o nome de quem governava o Rio dois meses atrás? E quatro ou cinco anos atrás? Muito provavelmente você não sabe. Figuras apagadas, irrelevantes.

Você sabe que Tarcísio de Freitas governa São Paulo e que Romeu Zema governava Minas até umas semanas atrás. O que é diferente no Rio? Para começar, não há governo. É um estado rico, o segundo maior PIB do país, e no entanto quebrado. Tem alguns dos piores resultados de segurança pública, um dos piores resultados de educação. É um desastre completo. Governador de estado assim não faz qualquer questão de aparecer, não tem o que mostrar.

Mas então por que está lá? O resultado é ruim por pura incompetência? Não. O resultado é ruim por duas razões. Um bom pedaço da Assembleia Legislativa, que acaba sendo quem de fato manda, está lá para fazer dinheiro e ocupar território. Sim, muitos dos deputados são ligados às milícias.

Imagina, só imagina, que a principal força política do Congresso Nacional fosse o Centrão. Sei que é difícil imaginar, mas façam um esforço. Agora imaginem que este Congesso, dominado pelo Centrão, tivesse controle total do Orçamento. E imagine que, no Palácio do Planalto, houvesse um presidente que estivesse no esquema. Então todas as decisões tomadas pelo governo federal pretendessem, principalmente, atender à máquina do Centrão. Uma máquina que serve a dois objetivos. O primeiro, manter quem está no poder no poder. E, segundo, enriquecer todo mundo ali.

Aí, só pra gente seguir no processo de imaginação, imagine também que, neste desenho, o presidente e o Congresso concordam sobre quem deve ir pro principal tribunal do país. E que estas pessoas escolham ministros do Supremo com um único objetivo: protegê-los. Que este governo controle a Polícia Federal para que nunca os seus sejam investigados.

Por fim, essas pessoas, assim como acontece no Rio, têm alguns empresários, alguns operadores de bancos pequenos, cujo trabalho seja produzir dinheiro por fora das regras, lavar dinheiro de corrupção, ajudar a fazer o desvio.

Daniel Vorcaro foi um banqueiro deste tipo aí. A operação para bloquear Jorge Messias foi uma do Congresso informando ao Planalto que quer botar gente dele no Supremo. O Centrão já tem essa máquina toda.

O que o Centrão nunca teve foi um Wilson Witzel, um Claudio Castro, no Palácio do Planalto. É o tipo de governador que o Rio tem faz algum tempo. Esses governadores que fazem parte do esquema. Que estão lá, principalmente, para fazer o esquema fluir. Enquanto isso, Flávio Bolsonaro foi um deputado estadual da Alerj. Ele conhece o esquema. Ele é o cara da rachadinha, da Loja da Kopenhagen em que todo lucro se concentra no dia de pagamento da Alerj e entra no caixa em dinheiro vivo. O camarada que compra imóveis em, claro, dinheiro vivo. Não um, dois, mas pencas de imóveis.

E, sabe, o diabo vai ser isso. O acordo que foi desenhado na semana passada, se estrapolado, é esse. O grande acordo nacional, com Supremo, com tudo. Vão fazer campanha antissistema, dizer que são contra corrupção, enquanto vão botar o Centrão cuidando do galinheiro. Ou melhor, do Tesouro Nacional.

Isso é uma ditadura? Não. O nome que damos para um regime em que um grupo fechado a tudo domina, a tudo organiza, e controla todos os recursos é outro. Nós chamamos de oligarquia.

 

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