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Voltamos para a Savana

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Olha só o que aconteceu nos últimos cinco dias, aqui no Brasil. Um. Flávio Bolsonaro gravou dois vídeos dizendo o seguinte: “o Banco Master é um escândalo, precisa ter CPI, mas o PT votou contra.”

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Dois. A Folha de São Paulo publicou a charge de uma jovem cartunista mostrando uma lápide com o texto “vidinha mais ou menos até perdê-la junto com os penduricalhos. Era uma ironia com juízes. Na mesma semana, uma juíza também jovem morreu de forma trágica, num processo que deveria ser muito seguro, de coleta de óvulos. Primeiro as associações de magistrados, depois um bom pedaço da militância de esquerda, partiu com virulência contra a Folha e contra a cartunista.

Três. A Anvisa achou por bem recomendar à população que não use o detergente Ypê por suspeita de contaminação com uma bactéria resistente a antibióticos. Em novembro do ano passado, a própria Química Amparo, fabricante do Ypê, comunicou à Anvisa que havia detectado um problema. Desta vez, foi a militância de direita que considerou a coisa uma ofensa grave e tratou de fazer campanha contra a Anvisa.

E quatro. Ciro Nogueira, ex-ministro chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, presidente do Progressistas, está no centro do alvo da Polícia Federal, seu escritório e residência foram vasculhados. Hoje mais cedo, o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, deixou a defesa de Ciro. Foi, ele diz, de comum acordo.

Jogadas assim, parece que essas peças não se encaixam. São assuntos diferentes neste mar caótico que é o noticiário por aqui no nosso país. Mas eles se encaixam, tá? São todas mostras de que vivemos em realidades estritamente paralelas. Realidades construídas na internet, nas redes sociais.

Veja, por exemplo, os vídeos de Flávio Bolsonaro. Até agora, o único candidato a presidente que vinha falando abertamente do Master, e de como ele é um problema, era Renan Santos, do Missão, que na maioria das pesquisas aparece com traço no eleitorado. Mas aí aparece o Flávio. Ninguém está fazendo uma campanha de redes sociais tão boa quanto a dele, uma campanha de pai amoroso, Bolsonaro moderado, Bolsonaro vacinado. Uma campanha cuidadosa, bem pensada, dirigida não aos eleitores que ele já tem e não precisa convencer, mas aos eleitores mais moderados, que não votaram em seu pai na eleição de 2022, mas que estão insatisfeitos com o governo Lula.

Então, enquanto o PT publica um comunicado dizendo que a culpa dos males do mundo é o neoliberalismo, Flávio está lá dizendo que Guido Mantega, ex-ministro de Dilma, ganhou milhões no Master, que a filha de Jaques Wagner, líder do PT no Senado, ganhou também muito, que o PT da Bahia ajudou a alavancar o Master, que o próprio Lula recebeu Daniel Vorcaro e, não bastasse, os parlamentares do PT são contra a abertura da CPI do Master. Ele, Flávio, é a favor. Tudo, absolutamente tudo, rigorosamente verdade.

Tem também as partes que Flávio não falou. Por exemplo, que Ilan Goldfajn, o presidente do Banco Central durante o governo Michel Temer, negou ao Master licença de operação. Julgava que o banco não tinha condições de operar. Que quem deu a licença para o Master funcionar foi Roberto Campos Neto, o presidente do BC durante o governo de seu pai, Jair Bolsonaro. E que quem tirou a licença foi Gabriel Galípolo, o presidente do BC indicado por Lula. O Master só durou pelo período de uma administração do Banco Central, aquela nomeada por Jair Bolsonaro. Flávio tampouco mencionou que o político mais profundamente envolvido com o Master, o amigo de toda vida de Daniel Vorcaro, é o ministro da Casa Civil de seu pai. Pois é. Ciro Nogueira, agora sem advogado. Se tem um único político que está no centro de todo o escândalo, é ele. Flávio tampouco falou que é um aliado de primeira hora de seu pai, o governador Ibaneis Rocha do Distrito Federal, quem mais diligentemente trabalhou pra salvar o Master, usando o dinheiro do Banco Público de Brasília, o BRB. Aliás, o mesmo BRB que, com juros muito generosos, permitiu que Flávio comprasse seu casarão.

Veja, até aqui, tudo certo. Não é Flávio que tem de dar pras pessoas motivos para não votarem nele. A obrigação de contar sobre todo mundo envolvido com o Master é nossa, da imprensa. E a gente conta. Tudo está contado. O que dói na direita, o que dói na esquerda. Só que a maioria das pessoas não se informa pela imprensa, né? Se informa pelas redes. Então ou os adversários de Flávio usam essas redes para falar com aqueles eleitores moderados, aqueles que preferiam nenhum dos dois mas talvez tenham de escolher um dos dois, ou ninguém contará. Por enquanto, a estratégia da esquerda tem sido repetir “o escândalo é da direita” para quem é de esquerda. E xingar todo o resto.

O princípio operante, o princípio fundamental nesse jogo, é o seguinte. Bolhas existem. A esta altura do campeonato, todo mundo já devia saber disso. Todos vivemos dentro de realidades paralelas isoladas. Os juízes vivem numa, os militantes vivem também, todo mundo, todos nós. Cada um está enxergando uma realidade só. Vamos falar de Flávio, de charge, de Ypê.

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Se você chegou até aqui, você acabou de me ouvir dizer que vivemos em realidades paralelas. Que as bolhas existem. Mas eu fiz essa afirmação e segui em frente — porque o Ponto de Partida é curto. Tem uma pergunta que ficou em pé: por que isso aconteceu? Como, exatamente, o algoritmo das redes sociais quebrou a sociedade brasileira em pedaços que não se reconhecem mais?

É exatamente sobre isso o primeiro episódio do Ponto de Partida, a Série. Se chama A Sociedade que o Algoritmo Criou. É um filme de quase uma hora, com cenário, com edição, gravado fora do estúdio. Já está no ar, exclusivo para assinantes do Meio Premium, no streaming do Meio.

Eu te explico como, pela primeira vez na história, as nossas relações deixaram de ser organizadas pela geografia e passaram a ser organizadas pelo algoritmo — e por que isso, e não a economia, e não o costume, é o que está produzindo Trump, Bolsonaro e a charge que ninguém consegue mais discutir sem turba.

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Aliás… Este aqui? Este é o Ponto de Partida.

A jovem cartunista da Folha não sabia da morte da juíza. Sim, entre magistrados a notícia circulou muitíssimo. Claro. É da natureza das redes sociais. Pessoas parecidas recebem as mesmas notícias que simplesmente não aparecem pro resto do mundo. Aquela informação que você recebe trocentas vezes e seus amigos também? É bastante possível que seu vizinho não tenha ideia do que se trata. Vivemos uma era de informação fragmentada.

Talvez algum dos editores da Folha soubesse da notícia, talvez devesse ter ligado uma coisa à outra e evitado essa coincidência terrível. Mas não aconteceu. Então o resultado foi o de sempre. Notas oficiais criticando, que, claro, foram seguidas de artistas e intelectuais acusando misoginia, seguidas da turba ignara. Essas palavras são mágicas. Homofobia, misoginia, transfobia, racismo. Pega uma dessas palavras, aponta o dedo para alguém, formou. A crítica pode ser a mais inteligente do mundo. Ou a mais rasa. Não importa. É gritar bruxa na Europa de 1600, os ancinhos e as foices e a turba virão.

Neste momento, essa moça que fez o cartum, ainda tentando se firmar na carreira, tem nas mãos um celular que ela não pode abrir. Eu sei do que ela está sendo chamada por muita gente de bem. Pra quem nunca sofreu um cancelamento desse tamanho, incitado por gente muito bem intencionada, é um pesadelo que não termina nunca, é o chão que sumiu dos pés, é virar pária do dia pra noite. A gente voltou pra Idade pré-moderna e apenas fingimos que é possível aquele mundo dos debates em cafés vienenses do filósofo Jürgen Habermas.

Porque, veja, o caso do detergente Ypê é a mesma coisa. A mesma sensação de que a conversa se tornou impossível. Talvez a Anvisa tenha se precipitado, é possível que os riscos verdadeiros sejam muito pequenos para quem não está com imunidade muito baixa, e tudo indica que a empresa que fabrica o Ypê agiu de boa fé. Mas que diabos de mundo maluco é esse em que técnicos sanitários dizem “esse produto oferece risco” e aí outra turba vai lá e desafia, toma banho com o troço, bota o troço nas mãos dos filhos? Que fé insana é essa que mobiliza esse surto quase suicida?

São as realidades paralelas em que vivemos. É o fato de que decidimos que confiamos em quem reafirma nossas opiniões em detrimento das fontes tradicionais de conhecimento. É assim que rejeitamos professores, cientistas, jornalistas, intelectuais. Nos sentimos seguros com nosso bando de caçadores coletores, e temos o outro bando como inimigo mortal. Aqui no nosso canto da Savana, a comida é escassa, ou são eles, ou seremos nós.

Veja, nesse nosso surto coletivo, nada é surpreendente. Fomos aquele bicho pelado, solto pela Savana, com medo dos outros, com medo de tudo, por quase 290 mil anos. Essa crostinha muito fina de segurança que as sociedades baseadas em conhecimento e debate nos deram não tem 300 anos. A modernidade foi ontem, não somos biologicamente programados para ela. Mas ela tem seu valor. Criou um mundo com mais segurança pra todo mundo, com mais comida pra todo mundo e uma possibilidade ampla de sermos felizes. Para não falar do fato de que nos permitiu ter uns 30 anos mais de vida.

Esse negócio, a modernidade, tem um custo. Resistirmos a essa pulsão da irracionalidade e sermos capazes de concordar a respeito dos mesmos fatos essenciais. Até lá, quem vai ganhar é o político que tiver a habilidade de manipular esse jogo.

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