O mar está pra Flávio
Receba as notícias mais importantes no seu e-mail
Assine agora. É grátis.
Hoje saiu a quinta edição da pesquisa Meio/Ideia. A gente tem feito essa pesquisa desde janeiro, todo mês, sem falta. Tem muito que a gente aprende olhando na lupa. Uma das principais lições é a seguinte: o tempo das campanhas mudou e parte do problema da polarização pode estar numa regra do Tribunal Superior Eleitoral que, olha, caducou rápido. Vamos lá.
Em cinco meses até aqui, tem um pulso desta eleição que a gente sente. Por um lado, Lula está sempre no mesmo lugar. É bem impressionante. 39%, 40%, esse é o voto no primeiro turno. Em todas as rodadas. Aí, quando perguntamos aos eleitores se eles têm certeza mesmo de que votarão no presidente, a coisa oscila, mas não oscila muito. Está sempre ali na casa dos 70% dos eleitores dele que dizem que está firme. Que não muda.
Com Flávio Bolsonaro, foi diferente. Em janeirro, tinha 26,5% das intenções de voto. Aí foi crescendo. 33%, 35%, 37%, 36%. Mas o movimento, do mês passado pra cá, da firmeza do voto do eleitor dele foi bem impressionante. 60% deles, em abril, diziam que podiam mudar de voto. Agora em maio, na pesquisa que saiu essa semana? 43%.
E, veja, a firmeza do voto de Ronaldo Caiado e Romeu Zema, os outros candidatos da direita que pontuam alguma coisa, não mudou. Tudo pra cima de 60% dizendo que pode mudar.
No segundo turno, Lula contra Flávio, esse mês Flávio está na frente de Lula, mas atente para um ponto: no mês passado era Lula na frente de Flávio e os dois tão próximos, mas tão próximos, que na verdade estão empatados tecnicamente. O que nossa pesquisa diz hoje é o seguinte: o Brasil está dividido, tão profundamente dividido, que se a eleição de segundo turno fosse hoje seria impossível definir quem vencerá. Vai ser por um fio de cabelo.
O que está acontecendo aqui é o seguinte: o eleitor de direita está começando a cristalizar seu voto. Os candidatos pelo flanco direito mal estão definidos, mas o eleitor já está se decidindo.
Sabe, este é um movimento que tem acontecido bastante nos Estados Unidos faz já dois ciclos eleitorais. Os pré-candidatos à presidência começam a campanha no início do segundo semestre do ano anterior à eleição. A próxima eleição vai ser em novembro de 2027? Gente, em agosto do ano que vem já vai ter propaganda de candidato na televisão.
Sabe por quê? Porque, no tempo de comunicação massiva, de podcasts de três horas, de cortes de redes sociais, o processo de formação da opinião pública começa muito mais cedo. E se consolida muito mais cedo.
Hoje, o TSE proíbe campanha eleitoral antes de agosto. O raciocínio é o seguinte, e fazia algum sentido. Quem tem muito dinheiro vai começar a gastar muito cedo e ganhará uma vantagem competitiva sobre quem tem menos dinheiro. Tudo certo. O problema é o seguinte: gravar um podcast de três horas tem custo zero, fazer cortes pras redes sociais tem custo marginal. Mesmo esses vídeos mais sofisticados que o Flávio Bolsonaro vem fazendo, de Bolsonaro moderado, Bolsonaro vacinado, tem o custo no chão quando comparado com o que saía um vídeo equivalente na campanha de 2014.
Então isso quer dizer que a variável escassa não é mais dinheiro. Fazer campanha ficou muito barato. A variável escassa é tempo para se tornar conhecido nacionalmente. Qual é a vantagem que Lula e Flávio Bolsonaro trazem e os outros candidatos não têm? Um foi presidente três vezes, o outro é filho de um ex-presidente. Os dois são, essencialmente, conhecidos.
Ou seja, o que os americanos perceberam, e a gente está demorando demais para perceber, é que a campanha eleitoral devia ter começado em agosto do ano passado. Na verdade, e isso não vale só pra candidatos a presidente, a legislação eleitoral hoje favorece quem já é conhecido e ferra por completo com quem não é. Amarra os punhos e, olha só, até tira a liberdade de usar o fundo eleitoral de quem mais precisa fazer campanha já. Em agosto vai ser tarde demais.
Mas essa conta não fica só com a legislação eleitoral. O PSD, por exemplo, demorou demais para definir seu candidato. O que está acontecendo hoje, é o que a pesquisa mostra, é que o tempo para mudar esse jogo está indo embora para todo mundo. Isso consolida de um jeito tal que Lula e Flávio é inevitável? Não, claro que não. Fatos novos sempre podem acontecer. Um grande escândalo, uma derrapada homérica, uma desistência. Coisas podem acontecer. Mas, e reitero aqui o mas, é cada vez mais improvável.
Então fica a seguinte questão: o que diz nossa pesquisa sobre as chances de Lula e Flávio? Diz o seguinte: vai ser por um fio, vai ser muito apertado, mas o mar está pra Flávio. Vem comigo.
Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.
Essa pesquisa que eu acabei de te mostrar — a Meio/Ideia — a gente faz todo mês desde janeiro. E quem recebe a íntegra antes de qualquer pessoa é assinante do Meio Premium. Não é só o que sai no Ponto de Partida, não é só o que vira manchete. É o material todo: cruzamento por região, por classe, por gênero, a tabela com os 3% que decidem a eleição, o pedaço sobre bets, sobre dívidas, sobre firmeza de voto.
E com análise, gente. Não a análise complicada, metida a besta. Não. Aquela que ajuda a explicar o que os números revelam sobre o país. Toda rodada chega na sua caixa de entrada antes de virar pauta na imprensa. A Meio/Ideia já virou uma daquelas raras pesquisas que toda a imprensa divulga. Por conta da qualidade dela. E este é o ativo mais raro que a gente tem: dado fresco, mensal, no Brasil inteiro, em primeira mão.
Assine o Meio Premium.
Aliás… Este aqui? Este é o Ponto de Partida.
Primeiro e mais importante: se o Brasil está tão dividido, se ele está assim profundamente dividido já desde o pleito de 2018, que eleitores fazem diferença? São 3% dos eleitores, que o Instituto Ideia está acompanhando desde o ano passado. O que este grupo de brasileiros tem de diferente? Bem, é um pessoal que, em 2018, votou em Jair Bolsonaro. Em 2022, votou em Lula. Lembra que Lula venceu por um e meio porcento? Quem fez diferença foram estas pessoas.
São dois grupos diferentes. Um grupo é o de liberais, da classe média urbana tradicional, classes A/B. O outro grupo, pesadamente feminino, classe C, periferia das grandes cidades. Belo Horizonte, Rio de Janeiro, principalmente São Paulo. Sudeste. E essas pessoas não querem votar em Lula. Isto não quer dizer que pretendam votar em Flávio Bolsonaro, talvez votem nulo, talvez não apareçam, talvez mudem de ideia.
Mas, hoje, aquele fio de eleitores que mudou o voto e tirou de Jair Bolsonaro sua reeleição também virou as costas para Lula. E isso é um problema gigantesco para o presidente. Sabe por quê? Porque numa eleição tão polarizada, não tem de onde tirar outros votos. Porque os eleitores que sobram, ou já votam em Lula ou votaram em Bolsonaro tanto em 2018 quanto em 2022.
Isso não quer dizer que todas as notícias sejam ruins para o presidente, ou que todas as notícias sejam boas para Flávio. Porque o ano parece estar consolidando que as duas maiores preocupações do brasileiro são endividamento e bets.
Olha aqui os números: Em abril, 40% dos entrevistados diziam que suas dívidas haviam aumentado comparado a um ano atrás. Agora em maio, 44,3%. É relevante isso aqui, tá? Mas, vamos lá, vamos falar de bets. 59% dos brasileiros acham que bets endividam as famílias. 61,9% acham que bets estão viciando os brasileiros. 44% acham que devia proibir as bets em todo o território nacional.
Esse negócio, as bets, está corroendo a classe média, principalmente a classe média baixa brasileira. Lula tem uma fragilidade aqui: ele escolheu usar as bets como fonte de imposto, para encher o caixa do governo. Mas, para Flávio, é muito pior. O presidente que deveria ter regulado as bets, porque a lei mandava enquanto ele era presidente, foi Jair Bolsonaro. E o pai do Flávio escolheu não fazer isso.
Vamos vestir o chapéu de marqueteiro de campanha? O que os números dizem para cada um dos candidatos.
O marqueteiro do Flávio: Lula prometeu picanha, não entregou. Conseguiu fazer o PIB subir? Conseguiu. Sabe como? Estimulando os brasileiros a pedirem empréstimo consignado, criando dívida que agora estão com dificuldade de pagar. Lula é o cara do “nunca antes na história”, foi eleito para entregar aquela pujança. Dessa vez, não entregou. O brasileiro entende. O que Flávio precisa fazer? Nada. Sorrir, fazer o papel de bom moço, pai de família, Bolsonaro moderado, Bolsonaro vacinado, e não fazer rigorosamente nada que lembre o pai dele. Já é conhecido, já tem o eleitor de direita, basta não lembrar os outros eleitores de como o pai era. É exatamente o que está fazendo.
E Lula? Ele não tem economia pra vender. Mas está fazendo o Desenrola 2, dando uma força pra turma com dívidas, e eleitoralmente isso funciona. Lula precisa bater nas bets, já faz um pouco, tem de fazer mais. Difícil recuperar o voto da classe média tradicional mais moderada, mas o da Classe C, das mulheres preocupadas com os muitos maridos que estão jogando escondido, esse dá? E ainda tem de lembra que Bolsonaro pai precisava ter posto regra e não colocou. É sua melhor cartada?
Os outros candidatos? Bem, esses precisam torcer para Flávio dar uma derrapada. Ou alguma coisa acontecer. Porque ficou tarde para recuperar o espaço.


