Lula errou o cálculo. Feio.
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Foi uma derrota histórica, inédita, para um presidente da República. 41 votos contra Jorge Messias, 34 a favor. Para vocês entenderem a magreza do que é isso, a surra que é isso, segura aqui: o governo tem, firme, entre 22 e 25 senadores. Isso aí é PT, PSB, PDT, PCdoB, Rede, Cidadania, e ainda Renan Calheiros, Eduardo Braga, esses que são pró-Lula em qualquer briga. O bolsonarismo puro sangue é um tico menor, 20 a 22. PL, Novo mais a turma dedicada noutros partidos de direita. E aí sobra uma faixa de 34 a 38 senadores que são de direita mas são o Centrão. Ou seja, maleáveis. Esse pessoal pulou fora. O governo só levou um terço do pacote Centrão.
Gente: desde 1894, é a primeira vez que os senadores rejeitaram um ministro do Supremo. Não tem adjetivo, aqui, para classificar o tamanho dessa derrota. Sabe o pedaço dessa história que a gente ainda vai precisar processar? Lula escolheu entrar numa disputa política com o presidente do Senado David Alcolumbre e perdeu. Perdeu feio. Foi a nocaute. Isto é perda de faro político por parte do sujeito que foi, provavelmente, o mais hábil político criado na Nova República. O sujeito que teve o melhor faro político de Brasília por pelo menos um par de décadas. Porque não é que ele tenha perdido acidentalmente. O governo escolheu apresentar Messias agora, escolheu o momento, e ainda hoje de tarde contava que teria 45 votos. Teve 34. O Palácio do Planalto não entendeu o que estava acontecendo. Não viu acontecer. Leu tudo errado.
Em junho de 2023, Cristiano Zanin teve 58 votos a favor. Foi tranquilo como costuma ser votação de ministro de Supremo. Mas, em dezembro daquele ano, a coisa foi mais difícil para Flávio Dino. 47 votos a favor. E ele era um senador, todo mundo o conhecia bastante bem naquele plenário ali. São, no total, 81 senadores. Ou seja, para aprovar um ministro do Supremo, é metade mais um dos votos. Quer dizer: 41. Dino conseguiu, mas a margem foi apertada. Messias rodou.
O que estava em jogo, aqui? Veja, o voto é secreto. Então nenhum senador paga prenda política, nem com os eleitores, nem com seu grupo. Votar a favor ou contra, pra cada senador individualmente, tem custo zero. O que chamou atenção durante a sabatina na Comissão de Constituição de Justiça? Messias chorou sobre ser evangélico, Messias falou que é pessoalmente contra o aborto e que isso é matéria que o Congresso decide. Aliás, falou que é contra o aborto com muita ênfase. Essas coisas. Sabe que diferença faz nos votos dos senadores? Cosmética.
Bem, talvez eu esteja exagerando, aqui. Falar que é cosmética faz parecer que não quer dizer nada, e alguma coisa quer dizer. Quer dizer que os senadores evangélicos teriam uma desculpa. Quer dizer que não seriam cobrados. Abre espaço para dizer que não é o Messias do Lula, é o Messias de Deus. É um álibi. Então quando pastores visitam senadores, quando juízes evangélicos visitam senadores pedindo voto, isso tudo faz parte de um teatro que permite a justificativa pública duma possível aprovação. Só que não é isso que define mesmo o voto. Como não definiu, mesmo.
O que define voto de senador desse blocão amorfo para ministro do Supremo, nesta eleição, são três aspectos. O primeiro é dinheiro de emenda. O segundo, Banco Master. E, por fim, o conflito entre Supremo e Congresso. Nesse caso, não importa o que acontecerá este ano. Importa o que acontecerá no ano que vem, depois da eleição. Porque, veja, ninguém sabe quem vai ser eleito presidente, mas todo mundo está se preparando para uma possível guerra entre os Poderes, em 2027.
Vamos começar com o dinheiro das emendas. O governo empenhou, na terça, 12 bilhões de reais. É um dinheiro precioso em ano eleitoral. Não é, claro, em teoria, dinheiro para os senadores botarem no bolso, é para que gastem em obras, em coisas nos seus estados. Isso os ajuda a eleger deputados estaduais, deputados federais, os ajuda nas eleições para governo estadual e, claro, para os dois terços dos senadores que terão de disputar eleição este ano, ajuda a voltar. Porque é símbolo de, olha só, estou fazendo, estou lembrando daqui e tudo o mais.
Nenhum político no Parlamento é um indivíduo solitário, todos são parte integrante ou mesmo líderes de grupos políticos. Cada senador tem ali um punhado de deputados federais, um punhado de prefeitos, um amontoado de gente que ele lidera ou atua junto. É um projeto de poder. Então, nessa conta aí, não é só com dinheiro que o governo entra. São indicações para os Tribunais Regionais Federais, para desembargadoras, superintendências federais nos estados. Você emplacar um nome seu em oposição ao seu adversário emplacar um dele quer dizer pontos no jogo do poder local. E, veja bem: toda política é local. O que conta é sempre poder local. É poder local que catapulta qualquer um para Brasília.
Sabe qual o problema aqui? A palavra do governo Lula não tem lá muito peso. Prometeu um bocado de dinheiro quando Flávio Dino era o candidato. Empenhou, não pagou. Ou seja, na cabeça desses trinta e tantos senadores que poderiam ir prum lado ou pro outro, a dúvida estava posta. Dou pro Planalto essa vitória, aí os caras não cumprem a palavra? É dose. Então, vem cá, que garantia o Planalto poderia dar? O Planalto, nenhuma. Quem poderia endossar a palavra do presidente é o outro presidente. Ora, o presidente do Senado. David Alcolumbre.
Ele é chave pra gente entender isso. Porque, hoje, ele impôs a Lula sua maior derrota política como presidente da República. Na Justiça as derrotas podem ter sido maiores, ao PT o impeachment foi feio. Para Lula, Lula ele próprio no comando? Hoje tomou seu maior tombo. Então vamos falar de Alcolumbre.
Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.
Se você chegou até aqui, você não está procurando saber quem ganhou e quem perdeu. Está tentando entender por que aconteceu. Que peças estão se mexendo embaixo da manchete. O que isso quer dizer pro ano que vem.
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E este aqui? Este é o Ponto de Partida.
Sabe o que eles fizeram com David Alcolumbre? Emboscaram o cara. Ele não queria se encontrar com Jorge Messias, chamaram-no para um jantar na casa do ministro Cristiano Zanin, e lá estava o candidato do governo ao Supremo. A informação de que o encontro foi uma emboscada, quem deu foi a Folha de São Paulo. Ou seja, se estamos falando aqui de grana, grana mesmo, o que pesa é cada senador pensar com seus botões. O Alcolumbre não garante, o governo está prometendo mas na última não entregou, por que votar no Messias.
Alcolumbre não queria Messias. Queria Rodrigo Pacheco. Por quê? Porque são amigos. Porque o sonho de Pacheco é ser ministro do Supremo. Já viu político mineiro não querer ser candidato ao governo de Minas? Fazer doce como Pacheco faz? Não quer. Pode até sair, mas não quer. Quer o Supremo. Alcolumbre queria um homem seu de confiança lá. É papel do presidente do Senado impor candidato ao Supremo a presidente da República? Não, não é. Mas Alcolumbre quis, Alcolumbre tem o pulso do Senado, e o Planalto não tem. Lula escolheu ir pra rinha, saiu muito derrotado.
Gente, o papo é o seguinte. Vamos pensar com cabeça, agora, dos bolsonaristas. Eles querem anistia do Jair. A candidatura de Tarcísio de Freitas seria mais fácil contra Lula do que a de Flávio. Por que é Flávio o candidato? Porque Flávio não vai trair o pai. Já Tarcísio, bem, ia pedir a anistia, o Supremo vai dizer que é inconstitucional, Tarcísio ia tocar a vida. Flávio, não. Flávio vai ficar nessa até o fim. Então cada voto de ministro do Supremo vale imensamente. Se Flávio ganha e indica este ministro, já garante um voto mais. Os bolsonaristas queriam muito esta derrota. Não tinham força. Precisavam contar com o governo metendo os pés pelas mãos.
Então junta tudo. O governo prometeu dinheiro, não entregou da última vez. O Banco Master pendurado. Mas os senadores envolvidos podem contar com a ajuda dos ministros envolvidos. Ou seja, eles não estão com pressa. E aí, gente, tem uma guerra entre Poderes se desenhando pra 2027 que cada senador já está calculando. Se Lula vencer, eles têm já uma barganha na mesa. Vamos rediscutir aí o poder que esse ministro representa. Se der Flávio, idem. Entra na barganha. O que você nos dá para aprovarmos um cara seu. E se for outro, não importa. Abrir mão de já ter esse coringa na mão quando em janeiro o poder se rearranjar por quê? Não tem motivo. Lógica política pura.
Quem for esperto na esquerda vai ler o que ocorreu. Lula não tem mais a percepção acurada, não está no seu melhor. A assessoria do presidente leu o jogo todo errado. Quem leu certo, e teve gente que leu, foi ignorado. Some isso e o que dá? Um Planalto que achou que ia ter 45 votos, teve 34, e não viu acontecer.


