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As mulheres e o papel das mediações na eleição

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São elas que traduzem propostas e conectam projetos políticos às experiências concretas do cotidiano

Quando se fala sobre o papel das mulheres nas eleições, o ponto de partida costuma ser a representação: quantas são candidatas, quantas são eleitas, quantas ocupam posições de liderança dentro dos partidos. A pergunta é relevante e continua sendo um indicador importante da qualidade democrática brasileira. A representatividade é, sim, fundamental e o exercício do poder real uma vez presentes nesses espaços, idem. Mas, isoladamente, ela não dá conta de explicar o funcionamento das disputas políticas no Brasil contemporâneo, nem ajuda a compreender por que, mesmo com avanços pontuais, persiste uma sensação generalizada de distanciamento entre a política e a sociedade.

Ao falarmos do papel das mulheres na política, especialmente durante ciclos eleitorais, estamos tratando também de sua condição de caixa de ressonância da própria sociedade brasileira. Trata-se de um papel que não se limita à presença institucional, mas que se expressa no cotidiano: nas mulheres que sustentam redes familiares, organizam a vida prática e enfrentam, de forma direta, os efeitos das crises econômicas e sociais. São, em muitos casos, as que carregam os pianos e o peso concreto das instabilidades e, ao mesmo tempo, garantem a continuidade de um país que segue funcionando apesar de suas fragilidades.

É sobre tornar a política compreensível e confiável. Trata-se do papel das mediações, isto é, das figuras que traduzem propostas, organizam sentidos e conectam projetos políticos às experiências concretas do cotidiano. Quem tem esse papel na política hoje são as mulheres.

Em um cenário de fragmentação e baixa confiança institucional, essa dimensão relacional passou a ser tão relevante quanto o conteúdo programático das candidaturas.

A percepção de que representantes políticos não escutam adequadamente a sociedade não é nova, mas ganhou intensidade nos últimos anos. Mesmo em momentos de melhora de indicadores econômicos e sociais, a avaliação sobre a política permanece marcada por desconfiança. O problema, nesse caso, parece menos relacionado à ausência de resultados e mais à dificuldade de estabelecer canais de comunicação percebidos como legítimos.

Parte dessa dificuldade pode estar associada à escolha — ou, por que não, à ausência — de interlocutores capazes de operar nessa zona intermediária entre a política institucional e a vida social. A política fala, mas nem sempre fala com quem deveria ou da forma como poderia. É nesse ponto que a discussão sobre o papel das mulheres ganha outra dimensão ao deslocar o foco da presença formal para a função exercida na circulação das mensagens políticas.

As mulheres, historicamente, ocupam posições centrais na organização da vida cotidiana e na articulação de redes sociais e comunitárias. São elas que, em grande medida, lidam diretamente com os efeitos concretos das políticas públicas, seja no cuidado com a família, seja na gestão de recursos escassos, seja na mediação de conflitos locais.

Esse acúmulo de experiências produz um repertório específico de percepções sobre o Estado e a política e, ao mesmo tempo, as posiciona como referências de confiança em seus contextos sociais.

Essa função de mediação não é uma característica exclusiva das mulheres, mas tem sido exercida por elas de forma recorrente e, nos últimos anos, com impacto crescente nas dinâmicas eleitorais. Isso se manifesta de maneiras distintas nos diferentes campos políticos.

No campo da direita, por exemplo, o desafio atual vai além da manutenção de uma base mobilizada e envolve a capacidade de reorganizar estratégias em um cenário em que o ex-presidente Jair Bolsonaro pode não ocupar mais, com a mesma centralidade, o papel de principal catalisador de votos. A transferência de capital político para nomes como Flávio Bolsonaro depende menos do reconhecimento automático pelo sobrenome e mais da construção de confiança. E essa confiança tem sido, em muitos contextos, mediada por figuras que funcionam como pontes entre o projeto político e determinados segmentos do eleitorado. A direita já entendeu que muitas dessas figuras são femininas, seja nas eleições majoritárias, como nas proporcionais.

Pesquisas da antropóloga Jacqueline Moraes Teixeira mostram que, já nas eleições anteriores, havia sinais desse deslocamento. Ao analisar eventos de campanha e dinâmicas de mobilização, a autora identifica a presença recorrente de mulheres em posições estratégicas na produção de legitimidade, especialmente junto a um eleitorado mais conservador. Nomes como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, a ex-ministra Damares Alves ou lideranças regionais como a governadora do Distrito Federal, Celina Leão, não aparecem como coadjuvantes, e sim como agentes que contribuem para tornar determinadas candidaturas — dos homens de seu grupo político — mais próximas e compreensíveis.

Esse tipo de mediação não substitui a liderança principal, mas a sustenta, criando condições para que a mensagem política seja recebida não apenas como discurso, mas como algo que dialoga com valores e experiências compartilhadas.

No campo da esquerda, o problema assume outra forma e pode ser ainda mais complexo. Trata-se de reconhecer que a disputa política vai além do plano programático ou ideológico, e abrange a capacidade de construir essas mesmas mediações de confiança. A confiança até então construída pelas mesmas vozes da esquerda já eleitas anteriormente pode não estar mais lá. Isso exige mais do que ajustar o discurso: implica desenvolver uma escuta mais fina de grupos tratados como homogêneos — eleitores bolsonaristas, mais conservadores, eleitores pertencentes a determinados grupos religiosos — e investir na vizibilização real e na formação de lideranças capazes de operar nessa zona de tradução entre demandas sociais e projetos políticos. Quais são as mulheres da esquerda, ou do campo progressista, que terão esse papel nessas eleições?

Em outras palavras, o que está em jogo não é apenas quem fala, mas quem é capaz de fazer essa fala circular com credibilidade.
É nesse mesmo contexto que tem centralidade, também, o chamado eleitorado independente ou desengajado. São os tais 3,4% que hoje frequentemente são descritos como o fiel da balança nas eleições recentes. Longe de ser um grupo residual ou apático, é um segmento que reúne eleitores com trajetórias políticas diversas, que já transitaram entre diferentes campos e que tendem a decidir seu voto de forma mais tardia.

Os dados disponíveis ajudam a compreender melhor esse perfil. Estamos falando de cerca de 5 milhões de eleitores, sendo 60% mulheres, metade entre 25 e 44 anos, e a maioria na faixa de renda entre 3 e 5 salários mínimos. Territorialmente, concentram-se nas franjas metropolitanas, áreas marcadas por alta densidade populacional, mobilidade social instável e forte exposição a oscilações econômicas. São eleitores mais expostos à instabilidade econômica e, por isso, mais atentos a variáveis como renda, custo de vida e segurança material. A economia aparece, nesse caso, como eixo organizador das decisões e como experiência cotidiana.

Há também um elemento de ambivalência que caracteriza esse segmento. Parte relevante avalia governos de forma moderada, sem adesão entusiasmada nem rejeição absoluta, ao mesmo tempo em que expressa insatisfação com o rumo do país. Cerca de 50% avaliam o governo atual como “regular”, o que indica uma suspensão de julgamento mais do que uma rejeição frontal. Ao mesmo tempo, 77% acreditam que o Brasil está no rumo errado, revelando um pano de fundo de insatisfação difusa. É essa combinação — avaliação morna do presente e pessimismo em relação ao futuro — que torna esse eleitor particularmente volátil.

Aliás, mais volátil e menos previsível, o que aumenta a importância de estratégias capazes de construir vínculo em curto prazo. No fim das contas, o rótulo “independente” talvez seja menos sobre autonomia plena e mais sobre ausência de pertencimento. Esse eleitor não está fora do jogo; ele está à espera de uma oferta política que faça sentido em termos práticos e que seja transmitida com credibilidade.

O mesmo vale para o chamado eleitor indeciso. Esse eleitor não é, necessariamente, alguém sem opinião, mas alguém sem vínculo. A literatura e as pesquisas indicam que esse eleitor decide mais tarde, muitas vezes nas semanas finais, e responde fortemente a contextos imediatos — economia, percepção de risco e confiança nas candidaturas. Em outras palavras, sua decisão é menos ideológica e mais relacional, dependente de credibilidade e identificação no curto prazo.

É nesse ponto que a mediação volta a se apresentar como elemento decisivo. Se esses eleitores não respondem automaticamente a identidades partidárias ou lideranças tradicionais, eles tendem a se orientar por sinais de confiança. E esses sinais são, muitas vezes, transmitidos por figuras que conseguem traduzir a política para a linguagem da vida cotidiana.

A resistência, ainda presente em estruturas partidárias, em ampliar o espaço das mulheres, costuma se apoiar em argumentos que variam entre a crítica à fragmentação identitária e a ideia de que não seriam necessários incentivos específicos para sua inserção política, mas ambos desconsideram a realidade social do país e a forma como o eleitorado se organiza.

Nem que seja por puro pragmatismo eleitoral, os homens que tomam decisões nessas estruturas, ou são os principais candidatos, não deveriam abrir mão de um dos principais recursos disponíveis para reconstruir a relação entre política e sociedade.

O Brasil é hoje um país em que mais da metade dos lares é chefiado por mulheres. Esse dado tem implicações diretas sobre como a política é percebida, vivida e transmitida no cotidiano. As mulheres são organizadoras de redes de confiança que influenciam decisões políticas em escala mais ampla.

Em um cenário em que a confiança se tornou um recurso escasso e decisivo, a eleição tende a ser definida menos pela sofisticação das propostas e mais pela capacidade de torná-las críveis. Isso não depende apenas de quem formula, mas de quem traduz, comunica e sustenta essas propostas na prática.

Atenção, tomadores de decisão das estruturas partidárias no Brasil. Não querem dar mais espaço para as mulheres apenas por elas serem mulheres? Ou por que esse recorte supostamente mais divide do que une? Ou ainda por que as mulheres já mostraram que podem estar onde quiserem, e não precisam de apoio adicional? Então, façam isso, nem que seja porque vocês querem ganhar nas urnas em outubro. Ou seja, deem espaço mesmo que seja pensando na eleição de vocês. Afinal, sem elas, sem nós, o Brasil de maioria de lares chefiados por mulheres não escuta mais vocês.


*Ana Carolina Evangelista é cientista política com mestrado em relações internacionais pela PUC-SP e em gestão pública pela FGV-SP. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (Iser). Faz cobertura eleitoral desde 2018 com colunas na 'piauí' e no 'UOL'.

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