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O agro e a política

Foto: Wenderson Araujo / Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil

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Embora as polarizações persistam e afetem as organizações do agronegócio, o setor agropecuário está longe de ser monolítico

Os agronegócios brasileiros apresentam uma diversidade social e um dinamismo político que tendem a ser ofuscados pela tendência a considerá-los um conjunto homogêneo e com posicionamentos estáticos. Esta visão, que se cristalizou em particular nas últimas décadas de polarização em torno de temas políticos, ambientais e culturais, apresenta uma imagem do “agro” que oculta mudanças profundas que alteraram a composição econômica, social e política dos agronegócios no Brasil e que se abrem potencialmente para uma diversidade de posicionamentos em torno de políticas públicas.

Nos anos 2000, o setor foi inicialmente liderado pelos elos industriais do sistema agroalimentar, especialmente pela cadeia cana-de-açúcar/etanol, impulsionada pela expectativa de um mercado global de biocombustíveis e articulada institucionalmente pela Associação Brasileira de Agronegócios (ABAG), em diálogo com a academia e agendas internacionais de sustentabilidade. A universidade era parceira da proposta da ABAG, com a criação do Programa de Estudos dos Sistemas Agroindustriais (PENSA) na USP para a formação de quadros nos conceitos dos agronegócios, com egressos deste programa que rapidamente ocuparam posições estratégicas em vários segmentos do setor.

Programas similares ao PENSA foram criados em várias universidades. A combinação de estudos e propostas de políticas (como o Zoneamento Agrícola para preservar a mata nativa e a região amazônica e a demonstração da sua viabilidade mesmo dobrando a produção da cana; a eliminação da queima da cana; e a rápida mecanização da colheita) enfrentou proativamente os receios e as críticas, criando um ambiente favorável aos investimentos no setor, que também recebeu forte apoio do BNDES.

Esse modelo convivia com outros dois: a integração de agricultores familiares às agroindústrias (carnes brancas, fumo) e a rápida modernização da cadeia da carne bovina, voltada à exportação. A agroindústria do primeiro modelo tinha a sua base nos descendentes da imigração europeia no Sul do país, os mesmos que, em condições fundiárias muito distintas, estavam subindo ao Centro-Oeste a partir dos anos 1970, atraídos pelas possibilidades desta nova fronteira agrícola. Aqui, o “colono”, acostumado a um lote de 20-50 hectares, se defrontava com as possibilidades de cultivar centenas ou até milhares de hectares, criando uma dinâmica dos agronegócios onde o agricultor assume um protagonismo inédito.

A terceira atividade dos agronegócios neste período que merece destaque é a transformação do setor de carne bovina a partir dos anos 1990. Novas empresas, como JBS, Minerva e Marfrig, surgiram no setor, paralelamente ao rápido crescimento das exportações. Nesse processo, o rebanho se concentrou no Centro-Oeste e no Norte, associando a expansão da pecuária com o desmatamento e a mudança no uso da terra.

A partir de meados dos anos 2000, ocorre uma inflexão decisiva com o deslocamento do eixo dinâmico dos agronegócios para os Cerrados, impulsionado pela demanda chinesa por grãos. Nesse novo contexto, a agricultura em grande e mega-escala reposiciona o produtor rural como ator econômico e político central, especialmente no Mato Grosso e, depois, no chamado MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). A soja e o milho tornam-se hegemônicos, com exportação direta para a China, e a identidade regional do agro se fortalece.

Os reflexos políticos não tardaram e a pasta do Ministério da Agricultura, que tinha permanecido nas mãos de representantes do Sudeste (Roberto Rodrigues, Reinhold Stephanes), passou para representantes da nova fronteira agrícola (Blairo Maggi, Kátia Abreu, Tereza Cristina).

O fim da Ditadura Militar e a Constituinte trouxeram à tona reivindicações sociais sufocadas durante 20 anos

A ocupação dos Cerrados nos anos 1980 coincidiu com um período de grande mobilização no país. O fim da Ditadura Militar e a Constituinte trouxeram à tona reivindicações sociais sufocadas durante 20 anos. Durante os anos 1990, medidas de reforma agrária foram legitimadas e ocupações e assentamentos se multiplicaram, assustando essas novas bases agrícolas, em uma fronteira com muitas contestações fundiárias. Não foi por acaso que a primeira expressão política deste novo grupo social foi a formação da União Democrática Ruralista, em 1985, sob a liderança de Ronaldo Caiado, do estado de Goiás, que mais tarde se tornou governador. Assim, reivindicações radicais sobre a inviolabilidade da propriedade privada e a legitimidade da defesa armada formam parte do DNA desses agricultores. Na Constituinte, a UDR conseguiu limitar o alcance da Reforma Agrária, excluindo as “terras produtivas”.

A UDR dominou a representação dos “ruralistas” durante uma década, com o apoio de uma Frente Ampla Ruralista de deputados no Congresso. Em 1995, esta Frente se constituiu formalmente como uma Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), apoiada por nove organizações do setor. Quinze anos mais tarde, quando a FPA criou o seu centro de estudos, o Instituto Pensar Agropecuário (IPA), 59 organizações constavam como financiadoras.

Um rápido olhar sobre os Projetos de Lei (PL) propostos pelos deputados da FPA revela uma defesa sistemática do conjunto dos interesses do setor — tributos, crédito, seguro, regulação —, muito além das preocupações apenas focadas em questões fundiárias. A defesa da “segurança jurídica” e da agricultura empresarial torna-se o eixo articulador de sua atuação legislativa.

No plano setorial, estabeleceram uma identidade coletiva nas mobilizações contra o endividamento e a desvalorização da moeda no início dos anos 1990 e criaram a ABRASOJA, renomeada APROSOJA em 1991 e APROSOJA BRASIL em 1995. O marco mais importante, no entanto, foi a criação de uma APROSOJA Regional no estado de Mato Grosso em 2005, com forte foco nos interesses imediatos dos produtores na região. No mesmo ano, surgiu uma regional no Rio Grande do Sul, seguida logo por regionais em Mato Grosso do Sul, Piauí, Bahia e Pará. A APROSOJA MT foi responsável pela criação de uma Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Soja junto ao Ministério da Agricultura, e o seu presidente se tornou o presidente nacional da APROSOJA em 2007. Em 2015, a APROSOJA já tinha regionais em 16 estados.

Ao longo desta primeira década, o Congresso debatia a reformulação do Código Florestal, o que acirrava e consolidava a polarização entre a bancada ruralista e as posições dos chamados “ambientalistas”. O novo Código se tornou Lei em 2012 e o resultado foi visto como uma vitória para os ruralistas, que a partir de 2010 podiam contar com a assessoria do IPA, mencionado acima.

De todas as regionais, a Aprosoja MT tem sido a mais atuante e a que mais se politizou

Esta promoção mais sistemática dos interesses dos ruralistas no Congresso foi complementada pela expansão das regionais da Aprosoja, tanto nas novas quanto nas regiões tradicionais de produção de grãos. De todas as regionais, a Aprosoja MT tem sido a mais atuante e a que mais se politizou a partir do impeachment da presidente Dilma Rousseff e, a seguir, a que mais liderou o apoio a Bolsonaro. Num estado onde o IBGE, no Censo Agropecuário de 2017, identificou 7,1 mil produtores de soja e 10,6 mil de milho, a Aprosoja MT tem mais de 9.000 associados. As suas atuações, resumidas no Anuário de 2025, demonstram uma enorme capilaridade e profissionalismo, com ações sociais junto às mulheres, aos jovens e à população urbana.

Nos palanques, os líderes da Aprosoja fustigam agressivamente a atuação dos “ambientalistas” e pressionam para a neutralização do Ministério do Meio Ambiente — o que pode justificar a sua caracterização como “negacionistas”. Apesar do discurso confrontacional, emergem novas fissuras e possibilidades de diálogo. A Carta Manifesto da APROSOJA para a COP30 apresenta uma visão propositiva do Brasil como “potência agroambiental”, abrindo espaço para debates em torno de segurança alimentar, energética, ciência tropical e produtivismo verde. Ao mesmo tempo, multiplicam-se iniciativas públicas e privadas de agricultura de baixo carbono, regenerativa e sustentável, envolvendo produtores, empresas, organizações da sociedade civil e governos estaduais, em consonância com o Programa ABC+ e as metas do Acordo de Paris.

A principal conclusão é que, embora as polarizações persistam e afetem as organizações representativas dos agronegócio, o setor agropecuário está longe de ser monolítico. A diversificação de interesses, práticas produtivas e estratégias institucionais cria brechas reais, em particular para desenvolver políticas públicas em nível estadual e municipal, que levem em consideração agendas ambientais e sociais inovadoras, desenvolvidas em diálogo com os protagonistas dos agronegócios brasileiros.

***

O artigo completo será publicado na edição de outubro do Journal of Democracy em Português, da Plataforma Democrática (Fundação FHC e Centro Edelstein de Pesquisas Sociais). As demais edições estão disponíveis gratuitamente para download.


*John Wilkinson é professor titular da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), onde ensina e pesquisa sobre o sistema agroalimentar global e brasileiro. Consultor de organizações internacionais e nacionais, publica extensivamente em periódicos brasileiros e do exterior e é autor de vários livros, dos quais o mais recente é “O Mundo dos Alimentos em Transformação” (Editora Appris, 2023).

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