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Edição de Sábado: Cercados

Foto: Yan Boechat
Foto: Yan Boechat

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A estrada enlameada pela chuva forte da tarde faz qualquer curva parecer um desafio de rali. A caminhonete blindada rebola para um lado e para o outro, enquanto o motorista se esforça para manter o carro estável. Há um clima de tensão contida. Estamos todos quietos. Apenas a voz de um homem no rádio, em russo, corta o silêncio dessa noite fria, em que a garoa, de tempos em tempos, vira neve rala; mais grãos de gelo do que flocos. Nos aproximamos das linhas de combate. Estamos a 15 quilômetros da Rússia, na província de Kharkiv, na Ucrânia. Os drones dos dois lados infestam os céus em busca de qualquer coisa que se movimente, de noite ou de dia, sob o sol ou sob as nuvens. Entramos no que os soldados aqui chamam de Zona da Morte.

O homem do rádio fala mais alto, e os soldados que nos acompanham parecem inquietos. De repente, param o carro sob uma árvore e nos mandam sair da caminhonete e nos espalhar. Tudo agora parece rápido, barulhento. Meu tradutor grita para encontrarmos uma árvore e nos escondermos sob ela. Os soldados pegam as espingardas calibre 12 com munição para matar pássaros. Apontam-nas para o céu. Parecem buscar algo, mas, naquela escuridão, é impossível ver qualquer coisa. As armas seguem apontadas para o céu e então um zumbido distante faz com que tudo se aquiete novamente.

Minha colega, uma jornalista brasileira que me acompanha, pergunta sussurrando: “Tá ouvindo?”. Não estou. Sigo cego e surdo naquela estradinha enlameada, a poucos quilômetros das linhas de combate, onde russos e ucranianos se matam nas trincheiras como se estivessem na Primeira Guerra Mundial. De repente, o zumbido cresce, logo se parece com um enxame de abelhas e me faz lembrar do meu próprio drone caseiro. Estamos todos quietos, imóveis, como que esperando uma explosão ou que os soldados que nos acompanham abram fogo contra algo que não se vê.

Eu carrego comigo um detector de drones. Mas não consigo usá-lo. Estou muito concentrado em tentar filmar esta cena na escuridão, com meu foco automático ora concentrando-se nos galhos que me envolvem, ora na silhueta do soldados que contrastam com o céu levemente azul, iluminado pelas luzes de uma cidade próxima. Tenho medo de acionar o aparelho e, com a luz de sua tela, atrair a atenção do pequeno drone que nos sobrevoa. O zumbido é mais alto, mas não consigo distinguir se ele está a dois, três ou dez metros de distância. Na verdade, não consigo ter muita ideia de nada. Concentro-me na minha câmera e, pelo visor, a tranquilidade domina o medo.

O zumbido então vai se afastando. O drone talvez não tenha nos visto ou tenha considerado que não éramos um alvo importante o suficiente para encerrar sua breve vida de kamikaze sobre nós. Logo o homem do rádio volta. Está mais calmo. Informa que o drone está se afastando e que devíamos sair dali rápido e buscar abrigo. Voltamos para o carro. O motorista agora parece não se importar com a lama, com as curvas, com o bem-estar da caminhonete e de seus ocupantes.

Segue rápido. Seu colega está na carroceria da caminhonete com outro soldado. Ambos, sabe-se lá como, com espingardas apontadas para o céu e equilíbrio suficiente para não caírem. O carro para, um homem com uma lanterna vermelha surge e nos guia por um quintal até o porão de uma casa que, de fora, parece abandonada, como tantas outras aqui. Entramos em um bunker. Salvos.

Lá dentro quatro soldados observam o que se passa a nosso redor. Ao menos seis drones de observação estão no ar, monitorando o que se passa nos céus e na terra. Todos estão equipados com visão térmica. Tudo que emite calor, de alguma forma, se trona visível para os drones que permanecem em revezamento 24 horas observando tudo e todos. Dali de dentro, podem enviar o comando para uma das diversas unidades de artilharia que nos rodeiam para atingir algum inimigo que circule pela área. Ou acionar os drones de ataque que seguem a postos para perseguir alguma equipe de dois ou três soldados russos que eventualmente aventuram-se por trás das linhas inimigas em missões de sabotagem e investigação.

Cada vez mais, essa é uma guerra lutada nos céus, por equipamentos baratos, que custam entre algumas centenas de dólares a poucas dezenas de milhares de dólares. As previsões de que as guerras do futuro seriam dominadas por mísseis de custo milionário, tanques indestrutíveis e aviões de caça capazes de voar sem serem detectados por qualquer sistema de defesa anti-aérea caiu por terra na Ucrânia. O que faz a diferença no campo de batalha são esses pequenos aparelhinhos que surgiram como brinquedos de adultos e se transformaram em armas de guerra profundamente letais.

Não se sabe ainda o número correto de vítimas dessa guerra. Os últimos estudos dão conta de que cerca de 2 milhões de pessoas, russos e ucranianos, foram mortos e feridos desde fevereiro de 2022. Tampouco se sabe exatamente quantas dessas vítimas foram atacadas pelos drones. Mas há uma certeza entre quem vive o dia a dia no front: os drones são, nesse momento, os maiores causadores de ferimentos e mortes no conflito. Até há poucos anos, a artilharia era responsável por cerca de 80% das vítimas dessa guerra. Os drones assumiram a liderança e estima-se que hoje 90% de quem morre ou sobrevive aos ferimentos no campo de batalha tenha sido vítima de um desses aparelhinhos.

Andrii, um anestesiologista de combate, passa a maior parte de seus dias no subsolo de uma farmácia destruída perto das linhas de frente de Kharkiv, parcialmente ocupada pelos russos e sob intensa pressão das tropas de Moscou. Ele e um grupo de médicos, paramédicos e enfermeiros coordenam um hospital de campanha, o primeiro ponto de atendimento médico de urgência após alguém ser ferido em combate. “Pelo menos aqui, 99% dos nossos pacientes chegam com ferimentos provocados por drones”, me conta ele, entre um gole de café e outro, enquanto aguarda a chegada de novos pacientes.

“Tudo depende muito do tempo. Se estiver nublado, chovendo ou com neve significa que teremos uma noite tranquila.” Naquela madrugada nevou e nenhum soldado foi levado para o hospital de campanha. “Com o tempo assim há pouca atividade nas linhas de frente”, me dizia ele, quase em tom de consolo por não termos assistido sua equipe trabalhando. “Mas se você ficar aqui uns dias vai ver cenas bastante fortes, os drones são piores que a artilharia”.

O que impressiona nesta guerra de drones ultra-baratos é a quantidade deles em qualquer ponto dos quase 1 mil quilômetros das linhas de contato entre as tropas russas e ucranianas. Apenas em 2025 a Ucrânia sozinha colocou no ar todos os dias quase 11 mil drones para combater os russos. E a imensa maioria deles não são do porte dos famosos Shahed 136 iranianos que são usados amplamente nesta guerra e que se tornaram o terror das defesas israelenses e americanas na recente guerra contra o Irã. Para este ano a estimativa é de que a média diária de drones no ar seja de 19 mil drones, um salto de 4 milhões de drones por ano para 7 milhões em 2026. Isso tudo sem contar o número desses aparelhos letais usados pela Rússia, que deve ser ainda maior que os ucranianos.

Guerra artesanal

Aqui na Ucrânia, a guerra aérea se dá com pequenos drones de plástico ou isopor, fabricados nas chamadas “fazenda de drones” com impressoras 3D e equipados com pequenos e baratos motorzinhos elétricos importados da China. São montados pelos soldados ali mesmo no front, e produzidos às centenas diariamente. Não há muita tecnologia no processo. Há, na verdade, muita inventividade. Aos drones com visão em primeira pessoa, muito usados no Brasil para gravações de vídeos para publicidade, são acopladas bombas simples, usadas em armas ou em minas terrestres. Os explosivos são presos aos drones por garras plásticas, aquelas conhecidas como “engasga gatos”, ou fitas. Tudo muito improvisado, tudo muito letal. Há, claro, drones de produção industrial, com capacidades e tecnologia avançadas.

Mais recentemente, o terror está nos drones equipados com carretéis de cabos de fibra óptica, que conectam o aparelho ao controle sem a necessidade de envio de sinais eletrônicos. Há dois anos os drones atingiam seus alvos a cerca de 5 quilômetros dos operadores, que sempre estavam nas primeiras linhas de combate. Os carreteis acoplados aos drones podem ter até 40 quilômetros de cabos de fibra ótica e os transformaram em uma espécie de pipa, em que os comandos e as informações dependem apenas das linhas que os conectam. Assim, voam sem ser detectados pelos modernos sistemas de embaralhamento de sinais que se proliferam no front. A zona da morte, uma área em que a chance de ser atingido por um drone é muito alta, pulou daqueles 5km em 2023 para os atuais 30km. Tudo mudou. Os tanques se foram, o movimento de grandes contingentes de soldados se acabou e nem mesmo a evacuação dos feridos pode ser feita por veículos.

A única forma eficaz de abatê-los antes que explodam sobre seus objetivos é utilizando espingardas calibre 12 com munição para matar passarinhos. “Usamos uma tecnologia do século 17 para destruir um equipamento que é o símbolo do século 21”, conta um jornalista americano que trabalha para um veículo de imprensa ucraniano. Ele, como outros aqui, vai agora para o front armado com uma espingarda. “Os meus conflitos éticos na cobertura de guerra se acabaram, estou atirando contra uma máquina, não contra um ser humano”, diz ele, em um bar de Kiev, enquanto me mostra fotos de suas andanças pela região do Donbas, sem no entanto me autorizar a usar seu nome por medo de ser criticado por seus pares.

Os pequenos drones também estão alterando a vidas nas cidades próximas dos campos de batalha. Izium, por exemplo, está a 30 quilômetros das trincheiras. Ainda assim, a cidade está quase toda coberta por redes estendidas sobre altas estacadas de madeiras em uma tentativa de impedir que os drones atinjam civis e militares que circulam por suas ruas. As redes, muitas delas usadas para a pesca no Mediterrâneo, cobrem ruas, postos de gasolina, check-points e cafés. “A gente vai se acostumando com tudo na guerra, a cada dia nos acostumamos com algo novo. Agora essas redes estão por todos os lugares e nos acostumamos com elas também”, conta Violeta, uma cozinheira desempregada cujo marido segue lutando no front.

Izium é a última cidade na província de Kharkiv antes de se entrar na região do Donbas, no extremo Leste da Ucrânia e alvo prioritário da Rússia desde 2014, logo após assumir o controle da Crimeia. Dali em diante não há rodovia que não esteja coberta pelas redes de pesca e pelas telas usadas pelos agricultores holandeses para proteger suas tulipas e que foram doadas para a Ucrânia. É possível dirigir dezenas e dezenas de quilômetros em estradas “teladas” contra os drones. A imagem é distópica e a ideia de utilizar redes de pesca para proteger-se contra máquinas de guerra soa algo como ridícula. No entanto, as telas são altamente eficazes.

Outra tela

Não muito longe do centro de Izium um grupo de soldados se esconde em um bunker rodeado de telas tentando localizar inimigos para atacar. São jovens e operam drones de asa fixa, feitos de isopor, e que carregam antigas bombas soviéticas que seguem no arsenal ucraniano. As telas que cobrem as cidades ucranianas também cobrem as posições russas, distantes dali menos de uma dúzia de quilômetros. Com a ajuda de drones de observação, identificam seus alvos e disparam seus drones com pressa, temendo eles mesmos serem alvos de outros drones.

Pela tela um deles avista dois soldados russos escondidos sob as árvores. Um primeiro drone é enviado e explode ao lado dos dois soldados. Pelo drone de observação, o ataque parece ter sido certeiro. Os dois estão imóveis, provavelmente mortos. No entanto, um deles volta a se mover. Um novo drone é enviado e atinge o soldado ferido. Questionado por uma colega jornalista o que sentia ao matar duas pessoas pela tela do computador, ele demonstra frieza e diz simplesmente não sentir nada. “É como um jogo de videogame”, conta ele.

Giuliano Valêncio tem 26 anos e sempre amou games. Com o dinheiro que ganhou trabalhando como vigia no Mato Grosso montou o computador de seus sonhos para jogar Battle Field, uma das mais famosas franquias de jogos de guerra. Gostava tanto da coisa que veio para a Ucrânia ser soldado. Bom de mira, virou o responsável por abater drones em áreas sensíveis para a logística de guerra. “Meu papel era limpar a área por onde caminhões e equipamentos passariam”, diz ele. Derrubou múltiplos drones, combateu por quase oito meses e jamais viu um russo. “A guerra de verdade não tem nada a ver com o que a gente imagina”, diz. No dia cinco de março deste ano, Giuliano pediu que seu comando enviasse um powerbank para sua posição para recarregar seu rádio. Estava tão perto das linhas de frente que a distribuição de equipamentos, comida ou água só pode ser feita, claro, por drones. “Naquela noite vários pacotes caíram sobre nossa posição”, conta.

Pela manhã encontrou um dos pacotes em que ele imaginava estar a bateria que pedira. Ao se aproximar dele, o pacote explodiu. Dilacerou sua mão e seu pé direitos. Estilhaços cobriram suas pernas. Mas Giuliano sobreviveu. Recuperando-se em um hospital dedicado apenas a amputados no Leste da Ucrânia, Giuliano ainda vai demorar a voltar ao Brasil. Ele relata que os dias que se seguiram à explosão foram de dores tão intensas que ele acredita que com uma arma na mão poderia por fim à vida para parar de sentir dor.

Mais do que isso, o que lhe apavorava mesmo era ver seu antebraço direito sem a mão. “Ali, ainda sangrando, com os ossos expostos, eu olhava e pensava: ‘meu deus, nunca mais vou conseguir jogar videogame no computador que tanto lutei pra montar’”. Giuliano aguarda uma prótese na mão e outra na perna. Seus médicos lhe garantiram que ele vai conseguir continuar combatendo nos jogos de guerra.

Mais trabalho, menos sindicatos

O mercado de trabalho está em transformação, e os sindicatos estão perdendo força. Com a Revolução Digital, também chamada de Quarta Revolução Industrial, há mais espaço para autônomos. Porém, com o trabalho mais individualizado, os trabalhadores estão se organizando menos: a taxa de sindicalização caiu de 16,2% em 2012 para 8,9% em 2024. Isso também foi puxado pela Reforma Trabalhista de 2017, na qual mais de 100 pontos das leis laborais foram alterados, entre os quais, o fim da obrigatoriedade da contribuição sindical anual.

Além disso, houve a introdução do princípio da prevalência do negociado sobre o legislado, isto é, acordos e convenções coletivas de trabalho podem se sobrepor à CLT em temas específicos, visando maior flexibilidade. Como outro efeito, a arrecadação das entidades despencou de mais de R$ 3 bilhões em 2017 para R$ 57,7 milhões em 2024, queda de 98%. O contexto atual também aponta para alta informalidade, em cerca de 37,3% no trimestre encerrado em março deste ano. Ainda assim, segundo o IBGE, são quase 40 milhões de pessoas que trabalham no regime CLT no setor privado.

“A realidade nas relações de trabalho se mostra cada vez mais precarizada. Questões como a crescente ‘terceirização’, ‘pejotização’, trabalhos por aplicativos e ‘MEIs’, têm dominado o mercado de trabalho e colocado os trabalhadores cada vez mais à beira da informalidade”, é o diagnóstico de Marco Antônio Mota, sociólogo e assessor da Federação dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo. Para ele, no setor produtivo ainda é possível manter estruturas trabalhistas mais convencionais da CLT, mesmo assim entende que as relações trabalhistas estão dificultando a organização dos trabalhadores.

Os dados mostram que a sindicalização é mais forte nas regiões Sudeste e Sul do país. O Sudeste segue sendo o maior parque industrial e urbano do país. Tradicionalmente, segmentos com alta sindicalização incluem metalurgia, bancários, comerciários, petroleiros, professores e funcionários públicos. Por outro lado, setores terciários informais e pequenas empresas têm baixa representação. Em 2026, o Brasil mantém cerca de 17 mil sindicatos ativos, o que equivale a aproximadamente um por categoria e município.

Contexto econômico

Foi em um cenário de recessão que o então presidente Michel Temer (MDB) propôs uma Reforma Trabalhista para, em tese, facilitar a contratação e flexibilizar as leis de trabalho. Na época, cerca de 13% da população ativa estava sem emprego. No trimestre encerrado em março de 2026, esse número é de apenas 6,1%. Não é possível, no entanto, fazer uma relação causal obrigatória entre a reforma e a diminuição do desemprego. Seus efeitos diretos são ainda de difícil mensuração, já que desde sua implementação, aconteceu uma pandemia, sucessivos conflitos bélicos com impactos econômicos difusos para o Brasil e mudanças de governo (de Temer para Bolsonaro e então para Lula). Nesse meio tempo, a uberização ganhou força.

Se de um lado é uma saída rápida e flexível para gerar renda a um trabalhador, por outro, cria uma forma de trabalho sem vínculo direto entre empregado e empregador, além de uma seguridade social muito reduzida. O clássico exemplo do “engenheiro que virou motorista de Uber” é um sintoma de uma economia estruturalmente pouco complexa, e que apesar de ter ampliado o acesso ao ensino superior, não pôde fornecer a essas pessoas com diploma a garantia de um bom emprego.

Além da uberização, há a pejotização, prática de contratar trabalhadores como pessoa jurídica (PJ), e não como empregados formais. O profissional passa a prestar serviços como empresa, abrindo mão de direitos como 13º salário e FGTS. Empresas costumam adotar esse modelo para reduzir custos e ganhar flexibilidade, enquanto trabalhadores podem se atrair pela possibilidade de maior renda líquida.

E a inteligência artificial vem redesenhando o mundo do trabalho. Se a IA será mais uma ferramenta de auxílio aos empregados ou um grande carrasco responsável por diminuir os postos de trabalho, é cedo dizer. Mas seus usos já são sentidos na maioria dos setores. Mesmo na metalúrgica, como conta Marco Mota. “Postos de trabalho que envolvem a estrutura organizacional de muitas empresas do setor sequer existem mais. Os sindicatos têm pautado esta questão de forma bastante tímida na medida em que sabem ser impossível ‘segurar’ avanços tecnológicos”.

Cinto apertado

Um dos pontos mais famosos da reforma, no entanto, foi o referido fim da obrigatoriedade do Imposto Sindical. Antes, o valor de um dia de trabalho era descontado na folha de pagamento e repassado às entidades trabalhistas. Com a já referida diminuição da arrecadação dos sindicatos, a correlação de forças mudou. Mas mesmo dentro das organizações, esse imposto não era unanimidade. Mota lembra que o assunto é “complexo”, apesar de reconhecer o impacto da não obrigatoriedade para as entidades. “Sindicatos realmente atuantes, que também sofreram e ainda sofrem com a perda de arrecadação, têm encontrado formas de sobrevivência e reconhecimento da categoria representada na necessidade de contribuições financeiras para sua existência e atuação em suas bases”.

André Mancha, PhD em Economia pelo Insper e Professor da FEA-USP, lembra que a contribuição compulsória criava um problema de seleção adversa: “independentemente dos resultados obtidos nas negociações coletivas, todas as entidades faziam jus ao repasse automático. Isso gerava incentivos à manutenção de sindicatos com baixíssima entrega efetiva aos trabalhadores”. Do ponto de vista econômico, em tese, entidades com mais entregas tendem a ser mais resilientes. Também nesse sentido, Mancha entende a diminuição do número de sindicatos como uma “correção” em relação a um nível “artificialmente inflado pela obrigatoriedade da contribuição”. O economista ainda cita a Finlândia e a Dinamarca como exemplos de países que sustentam taxas elevadas de sindicalização sem obrigatoriedade.

Se o contexto brasileiro é complexo, com o Brasil registrando índices de desocupação em mínimas históricas, o país ainda enfrenta o desafio de lidar com a precariedade e a informalidade que colocam em risco a sustentabilidade da previdência, lembra ele. O debate sobre a qualidade do emprego exige distinguir quem opta pela informalidade em busca de flexibilidade daqueles que permanecem nela por falta de opções. Cabe ao Poder Público, avalia o especialista, investir na transparência sobre as vantagens de cada regime e facilitar o acesso à seguridade social para autônomos e profissionais de aplicativos. “A regulamentação recente do trabalho por aplicativos é um passo nessa direção, ainda que o debate sobre seu desenho ótimo esteja longe de encerrado”, conclui.

Sindicatos e desenvolvimento

Segundo o historiador e cientista político Leandro Torelli, os sindicatos estão associados à história do desenvolvimento brasileiro. Ele lembra que os direitos trabalhistas da Era Vargas não foram resultado da “bondade” do líder, mas “efetivamente de um movimento social que se estrutura no bojo do processo de industrialização brasileiro”. Apesar disso, ressalta que, durante a ditadura do Estado Novo, o sindicalismo acabou sendo submetido ao regime corporativista de Estado, algo que se manteve mesmo em períodos democráticos. Ainda assim, segundo o historiador, o movimento sindical brasileiro sempre teve a sua atuação autônoma.

Já André Mancha, entende que o protagonismo dos sindicatos ocorreu na década de 1980, com papel central no processo de redemocratização. “As grandes mobilizações daquele período foram decisivas para pautar a recomposição do poder de compra dos trabalhadores e a garantia de direitos trabalhistas após longa repressão às manifestações populares”.

Mancha diz não ser possível subestimar a relevância do movimento sindical naquele contexto, marcado por sucessivos planos malsucedidos de estabilização e por uma inflação crônica. Mas com a estabilidade trazida pelo Plano Real e a consolidação democrática, “houve um redirecionamento gradual do foco sindical: de uma atuação política mais combativa para uma preocupação crescente com a prestação de serviços aos associados, como suporte jurídico e negociação de benefícios”.

Vale lembrar que, em paralelo aos sindicatos, existem os conselhos profissionais, que são órgãos públicos criados por lei, com função de regulamentar e fiscalizar o exercício de cada profissão. Diferentemente das entidades sindicais, que representam interesses trabalhistas e negociam salários e condições de trabalho, os conselhos atuam como autarquias, com poder de fiscalização e disciplina sobre a atividade profissional, cobrando anuidades obrigatórias dos inscritos. O Brasil conta com aproximadamente 557 conselhos, entre federais e regionais.

Entre protestos e morte

Aliás, no dia de ontem, foi celebrado o feriado do Dia do Trabalhador. A data tem origem em uma série de protestos em Chicago, nos Estados Unidos, em 1886. Trabalhadores organizados, em sua maioria anarquistas, exigiam o fim da jornada de trabalho de 18 horas e buscavam as hoje comuns 8 horas. Entre 1º e 3 de maio, as manifestações se tornaram violentas. Um policial e uma dezena de trabalhadores morreram nos confrontos ou foram posteriormente condenados à morte por conspiração.

Em 1º de maio de 1889, a Segunda Internacional Socialista, em Paris, organizou uma grande manifestação em homenagem aos mortos de Chicago e, nos anos seguintes, a data foi sendo adotada por mais e mais países. Uma exceção são os Estados Unidos. Em 1894, o presidente Grover Cleveland decretou que o Dia do Trabalho seria comemorado na primeira segunda-feira de setembro, como forma de dissociar a data dos movimentos trabalhistas.

Aqui no Brasil, essa data é um feriado desde 1924, sob o governo de Artur Bernardes, mas só foi ganhar relevância na década seguinte. Getúlio Vargas se apropriou do feriado, alterou o nome de “Dia do Trabalhador” para “Dia do Trabalho”, marcado por grandes manifestações organizadas pelo Estado, e o usou para anunciar a criação do salário-mínimo, em 1940, e da CLT, em 1943.

A superação possível

Stephanie Foo é jornalista e escritora, nascida na Malásia e criada na Califórnia a partir dos dois anos de idade. Ainda jovem, conseguiu trabalhar no programa de podcast com o qual sempre sonhou e ali produziu episódios que alcançaram milhões de ouvintes. Recebeu prêmios como produtora do This American Life, programa que já recebeu um Pulitzer. O sucesso profissional e o encontro com um companheiro amoroso na vida adulta, no entanto, não preenchiam um buraco emocional com o qual ela conviveu desde pequena. Stephanie apanhava dos pais. Apanhava muito. A mãe a obrigava a pedir desculpas por existir e por ser a causa da infelicidade do casal. “Minha maior lembrança da infância são as surras”, diz.

Aos 12 anos ela já lutava contra ansiedade e depressão. Na adolescência, aos 16 anos, os pais se separaram e a abandonaram. Sumiram literalmente e a deixaram sozinha na casa da família. Insegurança, medo, raiva e desconfiança foram sua companhia até a vida adulta, quando passou a fazer terapia. Depois de dez anos de análise, recebeu um diagnóstico: Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo (TEPT-C). Os sintomas estavam ali: uma dedicação excessiva ao trabalho para contornar a sensação de que estava sempre devendo alguma coisa, ataques de pânico, choro incontrolável, medo de abandono e um sentimento de que nunca seria suficientemente boa nas diversas áreas da vida.

Apesar de ser confrontada com um diagnóstico que mais parecia uma “sentença”, Stephanie resolve pedir demissão do trabalho para investigar a doença, a história familiar e partir em busca da cura. Em seu livro O que meus ossos sabem, publicado agora no Brasil pela editora Carambaia, com tradução de Rogério W. Galindo, Stephanie conta suas memórias com a família, entrevista cientistas e psicólogos, relata as diversas terapias às quais se submeteu e revisita o próprio passado, em busca de entender seus traumas e elaborá-los. Em uma investigação criteriosa e jornalística, a autora descobre que o trauma não desaparece, mesmo depois de décadas de distância dos causadores do sofrimento. E que as nossas memórias violentas podem ser passadas de uma geração para a outra, pois estão impregnadas não só na mente, mas também no corpo físico, fazendo com que até os nossos ossos guardem registros das nossas emoções.

Stephanie conversou por vídeo com o Meio. Confira os principais trechos da entrevista.

Estou aqui com a versão em português do seu livro. O que você achou da capa?
Ah, eu adoro cores, gostei de ver como ele é colorido. É uma capa muito alegre, o que, na minha opinião, transmite a mensagem final que eu quero passar nesta história.

No começo da obra você já avisa aos leitores que este é um livro difícil, pesado, mas que ele tem um final feliz. O que a levou a escrever isso?
Eu li muitos livros sobre TEPT-C durante as minhas pesquisas. Eu mesma sentia que esse tipo de leitura pode ser difícil. Ao falar do meu trauma, eu sabia que isso poderia ser um gatilho para outros sobreviventes de TEPT-C. Na primeira versão eu escrevi apenas dez ou quinze páginas sobre o meu trauma e falei do que passei. Mas a minha editora disse que não era suficiente, que as pessoas precisavam entender o que eu realmente tinha vivenciado para acreditar na minha história. Então, no fim das contas, a parte traumática sobre minha infância ocupa 50 páginas. Mas eu realmente queria dar aos meus leitores algo em que se segurar durante essas partes mais sensíveis e deixá-los cientes de que o livro tem um final feliz. Esta é uma história de redenção e esperança. E então, mesmo nos momentos realmente difíceis e tristes, peço que aguentem firme.

Você mencionou que passou anos sentindo que algo estava errado com você, mas não sabia o que era até receber um diagnóstico. Como receber o diagnóstico mudou sua vida?
Sim, acho que a maioria das pessoas está familiarizada com o TEPT. Ele pode acontecer a partir de um único evento traumático. Se você sofre um acidente de carro, por exemplo, pode ter flashbacks, reações emocionais a lembranças daquele evento. Mas o TEPT Complexo acontece quando o trauma ocorre repetidamente, de novo e de novo. É como se você sofresse aquele acidente de carro toda semana por 4 ou 5 anos. A menos que você tenha muito azar, isso não vai acontecer a não ser que, geralmente, alguém próximo a você esteja causando esse abuso. Então, o TEPT Complexo nos ensina que as outras pessoas, muitas vezes aquelas em quem mais confiamos, não são necessariamente uma presença segura. Isso pode se manifestar como depressão e ansiedade, falta de disposição para confiar nos outros, ódio auto-dirigido. Eu não conhecia o TEPT Complexo até ser diagnosticada pela minha terapeuta, com quem eu já me consultava havia dez anos. E ela não tinha me falado sobre esse diagnóstico, me pegou de surpresa. Para completar, ela ainda cometeu o erro de me dar a notícia bem no final da sessão. Apenas disse: “Você tem TEPT Complexo” e finalizou a consulta, deixando-me sozinha para pesquisar no Google. E então deparei com descrições patologizantes, do tipo “quem sofre do transtorno carrega uma ferida emocional incapacitante, tem dificuldades para interagir, não consegue manter relacionamentos”. Todos os sintomas eram extremamente negativos.

O que isso te causou?
Entrei numa espiral descendente. O lado bom do diagnóstico, se posso dizer assim, foi reconhecer que minha infância foi muito problemática; tive uma explicação para o porquê de muitas das minhas reações emocionais e físicas. Tudo fez muito mais sentido. O mais perturbador na época foi essa reação patologizante que encontrei na internet e a crença de que eu estava realmente incapacitada emocionalmente, que não conseguia me relacionar com os outros e que precisava me reconstruir. E foi por isso que acabei escrevendo o livro. Entrei nessa jornada de cura e descoberta e percebi que aquilo não era verdade, que eu não era imprestável, que a cura era possível e que o TEPT Complexo também poderia ter um lado menos negativo. Eu queria oferecer essa perspectiva no livro e compartilhar que existe esperança e possibilidades de cura. E fazer isso através de uma história humana real e não apenas com base em estudos clínicos e pesquisas, como muitos dos livros que já existem sobre o assunto.

No Brasil, muitas pessoas ainda acreditam em punição física ou na “palmada pedagógica”, como dizemos aqui. Para quem ainda não leu seu livro, você poderia descrever como eram esses abusos?
Meus pais eram muito violentos fisicamente. Sempre havia as palmadas regulares, claro, mas eu frequentemente sentia que minha vida corria perigo porque a violência era extrema. Houve — e aqui deixo um aviso de gatilho para quem estiver lendo — coisas como o uso de facas e raquetes de tênis. Acho que isso realmente deixou marcas em mim e uma profunda sensação de medo e insegurança por estar no mundo. Quando eu era adolescente, aos 13 anos, minha mãe foi embora. Aos 16, meu pai também me deixou. Então passei minha adolescência basicamente sem pais, cuidando de mim mesma. Acho que isso também me deu um complexo de abandono muito profundo e a crença de que eu não era digna de ser amada. Porque se nem meus pais conseguiram ficar, isso significava que eu devia ser indigna de amor de alguma forma.

A população do Brasil é majoritariamente cristã, e o princípio bíblico de “honrar pai e mãe” é profundamente enraizado na nossa cultura, tornando muito difícil romper laços com os pais. Você mora nos EUA, mas sua família é da Malásia com origens chinesas. Como se vê a relação entre pais e filhos nesta cultura?
Provavelmente muito parecido com o Brasil. Minha família também era bem cristã enquanto eu crescia, mas, além disso, há um senso profundo de respeitar os mais velhos na cultura chinesa e a crença na sabedoria dos ancestrais — de que os mais velhos são sempre os mais sábios e que as crianças devem ser vistas, mas não ouvidas. Então, sim, isso definitivamente tornou o corte de laços com meus pais muito difícil, embora eles tenham me abandonado primeiro. Eu sentia muita culpa e pensava: “Bem, americanos podem fazer isso, mas chineses não fazem. Imigrantes não fazem”. Mas, no final, precisei tomar decisões por mim mesma, para me manter segura. Se eu tivesse mantido meus pais na minha vida, isso teria me destruído. Não foi uma escolha entre ser uma “filha dedicada” ou uma “filha má”. Foi uma escolha de vida ou morte. Também acredito que idade não equivale necessariamente a sabedoria, e ser pai/mãe também não. Meus pais sofriam de doenças mentais profundas, que não foram tratadas. No fim das contas, eram pessoas tristes, presas em suas próprias doenças, sem ter como me amar adequadamente. E precisei ir buscar esse amor em outro lugar. Precisava ser amada para sobreviver. Todos precisamos. Então, a única coisa que eu pude fazer foi procurar por um amor que não fosse punitivo, que fosse incondicional, gentil. E encontrar esse amor salvou minha vida.

Você foi além da sua própria história para investigar o trauma dentro da sua comunidade e família. Pode nos contar mais sobre como essas descobertas familiares ajudaram a transformar o que você sentia?
Eu achava que meu trauma era algo muito individual. O que realmente me ajudou foi entender que meu trauma não era, de forma alguma, individual; era comunitário. Acabei mergulhando no abuso que era desenfreado dentro da minha comunidade. Cresci em uma comunidade majoritariamente asiática e latina. Não havia muitos brancos na minha escola. Isso significava que muitos dos pais eram imigrantes nos Estados Unidos porque haviam fugido de conflitos imensos. Tínhamos muitos refugiados vietnamitas, estudantes mexicanos cujos pais fugiam da pobreza e violência, indianos cujas famílias viveram perseguição política e religiosa e crianças chinesas cujos pais fugiam da Revolução Cultural. Quanto à minha família, aprendi que eles sobreviveram a duas guerras na Malásia: a Segunda Guerra Mundial e a Emergência Malaia. Sofremos imensamente com a ocupação japonesa e britânica, e com a colonização. Ter terras roubadas, tudo isso. Meu avô foi preso injustamente por cinco anos e torturado. Isso tem um efeito intergeracional real. Não acho que esse tipo de trauma social possa ser apagado em uma única geração. Este é um projeto de gerações em que, lentamente, tentamos ensinar a nós mesmos que estamos seguros. E também depende de estarmos em comunidades onde realmente estamos seguros.

Quer dizer que há comunidades inteiras doentes?
Se você vive em uma comunidade como a Palestina agora, ou no Irã, faz todo sentido estar aterrorizado. O TEPT é uma doença mental somente em tempos de paz. Em tempos de guerra, é uma adaptação. Meus ancestrais se adaptaram tornando-se hipervigilantes, muito rígidos. Essas adaptações apenas não se traduziram bem para uma sociedade americana pacífica. Contextualizar meu trauma me permitiu ver que isso não aconteceu porque eu era “incapaz emocionalmente” ou “indigna de amor”. Não foi minha culpa. Foi algo geopolítico e socioeconômico muito maior do que eu. Me deu um motivo. E me ensinou que, embora às vezes eu odeie minha ansiedade, preciso me lembrar: essa preocupação com recursos e dinheiro foi o que manteve meus ancestrais vivos durante a fome. Posso realmente odiar tanto esses aspectos de mim que ajudaram meus antepassados a sobreviver? Isso me dá mais empatia por mim e por eles. Não significa que eu tenha que perdoar meus pais — o que eles fizeram não foi certo —, mas me dá uma compreensão mais matizada do porquê aconteceu.

No livro você descreveu o momento em que foi diagnosticada e como recorreu à internet em busca de informações, encontrando uma mistura caótica de fóruns, opiniões médicas e tratamentos. Com a ascensão da IA, mais pessoas estão recorrendo a essas ferramentas para questões de saúde mental.
A internet e a IA podem ser lugares muito perigosos para isso. Para curar, precisamos de “contraponto”, alguém que nos desafie. Meu terapeuta me confrontou muito sobre minhas ideias negativas. Houve vezes em que ele me chamou a atenção: “Você está me ouvindo? Acho que você está em crise, teve um gatilho. Precisa sair desse estado e se engajar”. Ele criou um lugar seguro para eu ser, essencialmente, “reeducada” sobre como interagir com os outros. A IA é treinada para não confrontar, para dizer que você está certo o tempo todo. E é assim que ouvimos histórias de IAs encorajando pessoas a fazerem coisas prejudiciais, inclusive autoflagelação. A internet também dá respostas simplistas para perguntas complexas. Foi a internet que me fez sentir um monstro solitário, porque as descrições eram muito clínicas e patológicas. Por isso, é crucial que as pessoas busquem ajuda de um terapeuta especializado em trauma ou alguém de confiança experiente nisso. Outra coisa é que o TEPT Complexo é uma doença relacional. Fomos ensinados que não somos dignos de sermos amados e que os outros não são confiáveis. A única maneira de curar isso é encontrar segurança em comunidade, encontrar pessoas que te ensinem que você pode ser amado. Não dá para fazer isso sozinho, e não é a mesma coisa que ouvir uma IA dizer que te ama.

O seu livro também revela as fraquezas do sistema de saúde dos EUA. Você pretende continuar lutando por essa causa ou, depois de tanto tempo focada nisso, sente um certo cansaço e desejo de mudar de assunto?
Não, nunca sinto vontade de mudar de assunto. Sinto muita paixão por isso. Quero que as pessoas consigam a ajuda que eu eventualmente consegui. É muito difícil. Mesmo eu, com recursos e contatos, tive dificuldade em encontrar um terapeuta acessível no meu pós-parto. Isso é criminoso. Os governos precisam investir em saúde mental; eles economizariam bilhões em outras áreas no futuro. Áreas como o sistema prisional. Se dermos apoio mental, as pessoas podem não recorrer ao crime ou à violência. Teríamos um sistema de acolhimento de menores menos precário e uma economia mais forte com pessoas funcionais e saudáveis. Lutarei por isso enquanto puder.

Apesar de tocar em temas sensíveis, seu livro tem humor. Isso é da sua personalidade ou foi uma estratégia jornalística/editorial para cativar o leitor?
Foi escolha minha. Na verdade, minha editora às vezes pedia para eu maneirar, para ter menos “piadinhas de quinta série". E eu dizia: “Não, vou manter todas”, porque li muitos livros sobre trauma e sei o quão doloroso e miserável pode ser. Quem quer ler “trauma porn”, uma exposição gratuita de sofrimento? Eu quis colocar humor para dar um alívio ao leitor, para ajudá-lo a não se sentir tão propenso a gatilhos e para cuidar dele durante o processo. E, até certo ponto, é quem eu sou. Muitas pessoas lidam com coisas sombrias por meio do humor para sobreviver. Foi como eu fiz.

Muitas vezes, quando nos tornamos pais, queremos fazer diferente e acabamos exagerando. Você já se pegou exagerando com seu filho?
Penso nisso todo dia. Intensamente. Esse é, inclusive, o tema do meu próximo livro: a parentalidade com TEPT Complexo. Por muito tempo, tentei fugir da imagem da minha mãe em todas as minhas decisões maternas. Sempre que sentia algo dela saindo na minha fala, eu ficava ansiosa: “Oh, sou igual a ela, vou traumatizar meu filho”. Mas acabei entendendo que eu precisava me aproximar da história da minha mãe, em vez de fugir, para entender por que ela fez o que fez. Se você apenas faz o oposto de tudo o que seus pais fizeram, acaba não tendo uma fotocópia, mas uma imagem em negativo — e seus pais continuam definindo sua parentalidade. Tem sido um desafio olhar para as escolhas deles e dizer: “Aqui eles acertaram, vou manter isso. Aqui foi inapropriado”.

A edição brasileira do livro inclui um posfácio da psicanalista Amanda Veloso. Você já leu esse texto?
Adoraria ler! A edição americana não tem prefácio/posfácio. A chinesa tem um de um psicólogo respeitado lá e fiquei muito honrada. O livro foi publicado em 11 países. Viver com TEPT Complexo é uma jornada de cura para a vida toda. Os gatilhos voltam. Não existe vida sem luto ou tristeza. Ter um filho traz novas ondas de tristeza por não ter avós para apoiar. Toda mãe quer ser acolhida por sua própria mãe também. Mas a busca pela beleza em meio a tudo isso é contínua para todos, com ou sem TEPT. O mundo pode ser brutal, mas minha jornada me ajudou a estar mais presente e a valorizar as pequenas coisas do cotidiano, como os momentos de alegria na companhia do meu filho.

Quando um atirador chega na antessala do presidente dos Estados Unidos, o mundo fica sobressaltado. Que o digam as notas mais clicadas pelos assinantes do Meio esta semana:

1. New York Times: A cobertura completa da tentativa de atentado contra Donald Trump.

2. New York Times: Trump se irrita com entrevistadora ao ouvir os termos “estuprador” e “pedófilo” do manifesto escrito pelo atirador.

3. CNN: Autoridades investigam textos escritos pelo homem acusado de tentar matar Trump.

4. Meio: Mariliz Pereira Jorge discute o “encontro de masculinidade” promovido pelo ator Juliano Cazarré.

5. Meio: No Ponto de Partida, Pedro Doria comenta o cenário desolador para os eleitores liberais no pleito de outubro.

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