Viagem de Flávio Bolsonaro para os EUA e discurso mais agressivo são arriscados
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Antes de embarcar para os Estados Unidos, Flávio Bolsonaro rasgou a fantasia. Pelo menos temporariamente. É normal que bichos acuados optem por partir para o ataque como saída e parece que essa tem sido a escolha nesse segundo momento de reação à crise dos áudios com Daniel Vorcaro e da visita ao ex-banqueiro quando ele já tinha sido preso.
Primeiro, anunciou um encontro com Donald Trump em Washington, sem ter qualquer confirmação de agenda. Quando perguntado por jornalistas, recorreu ao deboche e, se não fosse pelo fato de ter respondido em inglês, poderia ser acusado de estar imitando igualzinho o pai, Jair, no tratamento dispensado ao repórter.
Aí, no sábado, teve uma recaída e fez um vídeo “fofo”, agradecendo o apoio de todos que permaneceram ao seu lado na crise, numa tentativa de fazer parecer que ela havia acabado.
Mas no domingo à noite, em vez do Bolsonaro vacinado, moderado, Flávio escolheu encarnar o Bolsonaro que é só Bolsonaro mesmo. Postou um vídeo em que veste um colete à prova de balas e disse coisas do tipo “eu sei do que eles são capazes, já tentaram fazer isso com meu pai” etc.
As imagens vão mostrando uma foto dele com o ex-presidente, depois focam num “A Arte da Guerra”, clássico de Sun Tzu sobre estratégia. No fim, bate forte no braço e, num tom bem machão, manda um “aqui é sangue de Bolsonaro”. Só então ele parte para sua excursão para solo americano.
A viagem tem dois objetivos que convivem sem se anular. A primeira é a que já está pública: tentar mesmo uma foto com Trump. Depois de quase duas semanas com o noticiário dominado pelo pedido de R$ 134 milhões a Vorcaro para financiar o filme sobre o pai, Flávio precisa de um fato novo.
Uma imagem ao lado de Trump e seu eventual endosso funcionaria como um reset simbólico, sinalizaria que os Bolsonaro são interlocutores relevantes para Washington, ainda mais depois de Lula ter sido recebido na Casa Branca com elogios menos de um mês antes.
O problema é que a foto pode não acontecer. Trump está no meio de uma crise com o Irã, cancelou sua ida ao casamento do próprio filho para ficar em Washington negociando, e o Brasil está longe de ser o foco de atenção do presidente americano no momento. Quem conhece como Trump pensa sabe que ele é caótico e, claro, isso tudo pode mudar em instantes.
Mas também sabe que Trump gosta de se cercar de vencedores e pessoas fortes, não de quem está em baixa. Segundo Caio Junqueira, da CNN Brasil, o próprio entorno de Flávio já admite que o encontro pode acabar sendo com JD Vance, o vice. Se voltar sem a imagem com Trump, o gostinho vai ser de derrota, mesmo tendo o vice como trunfo. E Flávio ainda terá que explicar para que foi para os Estados Unidos.
Bem, daí, ele talvez tenha de dar a verdadeira e mais óbvia razão, que é acertar a versão do rolo com Vorcaro com seu irmão, Eduardo, seu assessor mais próximo, Paulo Figueiredo, e com o deputado federal e agora cineasta Mário Frias.
Eduardo Bolsonaro está em Washington desde fevereiro em autoexílio. Mário Frias também está lá. Ele havia postado na sexta-feira mensagem dirigida ao ministro Flávio Dino, do STF, informando que chegaria ao Brasil no dia 25 para se explicar sobre as emendas parlamentares, dinheiro público, destinadas ao filme Dark Horse. Aparentemente, não voltou.
O advogado de Eduardo que administra o fundo pelo qual passou parte do dinheiro do Dark Horse também opera em solo americano. Parece mais uma grande convenção de todos os enrolados no escândalo, pra combinar direitinho a defesa. Se, no caminho, der pra encaixar um encontro com Trump, melhor ainda.
Flávio não tinha como antever, mas sua viagem acabou servindo também pra afastá-lo do Brasil no dia em que um de seus aliados próximos, o ex-governador do Rio Cláudio Castro, foi alvo de mais uma operação da Polícia Federal sobre o Master. A PF diz ter concluído que viagens ao exterior pagas pelo ex-banqueiro a Castro e encontros entre os dois antecediam aportes que somam R$ 3 bilhões da RioPrevidência no banco.
Ou seja, traçaram direitinho o caminho do dinheiro público saído da aposentadoria de servidores fluminenses para os cofres fraudulentos do banco, que depois financiaria o filme sobre Bolsonaro. Não estar no Brasil nesta terça acabou sendo um bônus da viagem de Flávio.
Mas esses dois movimentos simultâneos, um discurso mais agressivo e a ida para os Estados Unidos, podem revelar algo mais tático, uma alteração de estratégia arriscada, mas que talvez seja a única alternativa de Flávio nesta altura da corrida eleitoral.
Quer entender melhor aonde eu quero chegar e por que estou dizendo que ela é arriscada? Então, fica aqui comigo. Eu sou a Flávia Tavares, editora do Meio. Nesta quinta-feira, a gente vai soltar mais uma pesquisa Meio/ideia, que foi antecipada neste mês justamente pra seguir a temperatura do noticiário. Porque nosso compromisso aqui é com a análise embasada em dados e fatos e, se a notícia se impõe, a gente obedece. Assinantes premium do Meio recebem a pesquisa antes de todo mundo, no primeiro minuto da quinta, e fica sabendo em primeiríssima mão como tá a corrida de cavalinhos e o tamanho do impacto do Master nas candidaturas. Ainda pode mandar nos grupos pagando de bonitão e bonitona bem informados, que a gente sabe que você gosta, né? Então, assine o Meio, são só 15 reais por mês.
Primeiro, eu vou falar de por que acho que radicalizar o discurso pode ser a única saída de Flávio Bolsonaro neste momento de imensa crise de sua candidatura.
Bom, em parte porque tirando aquele fandom do bolsonarismo que toma detergente e faz arminha gritando “mito, mito” com a língua pra fora, parte do voto de direita pode estar a perigo. Não da centro-direita, tá? Tô falando de quem é da direita conservadora e durona, que gosta do discurso vigoroso e viril, mas não topa o autoritarismo automaticamente. Ou até topa, mas só com Jair, e via o Zero Um com desconfiança.
As pesquisas que mostraram a queda de Flávio desde o escândalo não identificaram que todos esses votos foram automaticamente para Lula, como se esperava, mas nem para Romeu Zema e Ronaldo Caiado. Muitos foram para os indecisos, brancos e nulos.
Isso quer dizer que um pedaço dessa perda pode estar justamente nesses eleitores afins à direita tradicional, que estavam acomodados ali no sobrenome Bolsonaro, mas não inteiramente fechados com ele. Flávio acena agora para essa base, mais fácil de conquistar do que o centro.
E recorrer ao manual de guerrilha criado por Steve Bannon e Olavo de Carvalho pode ser instrumental para isso. Ao visitar esse núcleo da novela, representado por Eduardo e Figueiredo, Flávio se reabastece dessas técnicas para tentar injetar algum ânimo na sua própria base novamente e seduzir esses eleitores de direita que podem estar querendo olhar para os lados e contemplar outras candidaturas.
Esse discurso mais durão de Flávio também pode ser efeito de um maior protagonismo de Alexandre Oltramari, ex-editor da Veja, nos bastidores da pré-campanha. Oltramari já estava na equipe, mas com a troca dos marqueteiros, de Marcellão para Eduardo Fischer, ele ganha mais voz. Além de sócio de Fischer, Oltramari vai atuar como um coordenador cuja carreira foi construída em saber como usar reportagens e narrativas mais agressivas no mundo político.
Foi um dos jornalistas que revelaram o enriquecimento sem explicações de Lulinha no passado e é processado pelo filho do presidente por isso. E tem esse perfil de partir pra guerra nas campanhas que já conduziu.
Agora, eu vou dizer por que acho essa estratégia arriscada. Flávio Bolsonaro vinha construindo sua imagem como a de um Bolsonaro moderado, palatável à centro-direita e a um público menos engajado politicamente, que já votou em Jair e em Lula. Pela sua alta nas pesquisas, que não se deveu só a isso, claro, mas contou com isso certamente, a tática vinha funcionando.
Encurralado pelo Master, ele primeiro se mostrou perdido. Depois, deixou transparecer que é mentiroso. Agora, desmonta a imagem que ele próprio vinha tentando projetar de si mesmo.
O eleitor não costuma aceitar esse tipo de oscilação tão brusca da personalidade do candidato. E aquele voto da centro-direita que estava se acostumando à ideia de cravar o sobrenome Bolsonaro na urna sem se constranger tanto não tende a aceitar essa guinada.
Flávio está fazendo uma escolha que pode se tornar uma armadilha. A eleição está longe, muita coisa pode acontecer e ele precisa realmente pensar primeiro em salvar sua própria candidatura. Acontece que cada passo no modo guerrilha torna o caminho de volta mais difícil. A estratégia que ele precisa para sobreviver em maio de 2026 é diferente da que precisará para vencer em outubro de 2026.


