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A gênese da cena eletrônica brasileira

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Sou de uma geração que foi introduzida à música eletrônica de pista no começo dos anos 1990, primeiro indo à Nation, clube icônico localizado numa galeria na rua Augusta, levado pelos meus companheiros de redação na finada revsita AZ. Desde então, nunca me afastei das pistas. Posso dizer que passei os últimos 30 anos ouvindo com prazer variações de bate-estacas em espaços fechados com luzes coloridas e globo de espelhos no teto. Nesses anos, uma presença constante na noite era o jornalista e DJ Camilo Rocha, que acaba de lançar pela editora Veneta Bate-Estaca: Como DJs, drag queens e clubbers salvaram a noite de São Paulo.

O livro é organizado justamente a partir das casas noturnas que fizeram história na cidade anos anos 1990 e 2000. Começa pela Nation e segue por Sra. Krawitz, Sound Factory, Hells Club, Lov.e Club, Hole Club, D-Edge, além de passear pelas raves e por festivais como o Skol Beats. Cada um desses clubes reunia um público diferente e abrigava estilos distintos. A house na Nation, o techno no Sra. Kravitz, o jungle e o drum’n’bass na Sound Factory e na Toco, o trance nas raves e o psy-trance no Hole.  O que o livro faz é contar essa história olhando não só para a música, mas para como a juventude se organizava em torno dela em diferentes subculturas, com códigos particulares que influenciavam a moda e o comportamento.

Outro ponto importante é que, curiosamente, muito pouco do começo da eletrônica em São Paulo pode ser encontrada na internet. Ano passado tentei fazer uma pesquisa visual sobre “cybermanos” e tive de recorrer a fotos de bancos de imagens de jornais, o Google passou em branco. Ao recontar essa história, Bate-Estaca traz não apenas um registro de quem viveu essas experiências em primeira pessoa, como entrevistas preciosas e fotos que permitem dar concretude ao começo da cena eletrônica no Brasil, sobretudo para uma geração que produz e consome esse estilo hoje, mas não tem como acessar diretamente essas memórias.

Esta entrevista com Camilo Rocha ajuda a traçar esse panorama e também conectar o período retratado no livro com a cena eletrônica atual.

O livro faz uma viagem pela chegada da cena clubber em São Paulo, e acaba sendo organizado justamente pelo som de clubes emblemáticos. Como a geografia paulistana influencia as diferentes vertentes da eletrônica?
É interessante notar como nessa cena diferentes estilos musicais acabaram predominando em certos recortes sociais e territoriais na cidade. Então, a house aflorou muito em clubes mais centrais, com uma predominância de clubbers LGBTQIA+ ou de classe média para cima. Já o jungle e o drum’n’bass se fortaleceram entre os frequentadores de regiões periféricas. O trance prosperou nas raves fora da cidade, frequentadas por um público mais hétero, também de classe média para cima. Mas essas divisões nunca foram rígidas e é preciso tomar cuidado com estereótipos: havia núcleos fazendo festas de rua de house em São Miguel Paulista, assim como o drum’n’bass chegou a contar com um público mais elitizado, de formadores de opinião e pessoas da mídia, no tempo das noites do Marky no Lov.e.

Moda e cultura drag são fatores tão fundamentais na cena clubber quanto as festas e DJs. Como você vê essa relação?
A moda sempre foi um fator chave na noite, pois os clubes e as pistas também são vitrines e passarelas, muita gente vai para ser visto e se afirmar e se expressar por meio do estilo. Interessante notar como certas estéticas e tipos de roupa foram se cristalizando em torno das subsubculturas da cena eletrônica da época: as roupas pretas dos fãs de techno, as estampas rebuscadas de tons fluorescentes dos adeptos do psytrance, a montação cyberpunk dos clubbers da periferia. Não deixa de ser irônico, no entanto, observar essa tendência à uniformização em um movimento que valoriza a expressão individual e a liberdade de referências. Sobre a cultura drag, os clubes e as pistas são tradicionalmente um local de socialização e expressão LGBTQIA+, então nada mais natural que a cultura drag florescesse nesses ambientes. Nos anos 1990, as drag queens se tornaram um rosto muito identificável e midiático da cultura clubber, talvez para compensar o menor apelo visual dos outros protagonistas da cena, os DJs.

Quais são os principais elementos que dão unidade à cultura clubber?
A centralidade da dança e da música nos eventos, tendo o DJ como eixo norteador de todo o resto, é algo que une todas as facções clubber. O gosto por multidões animadas sendo massageadas por um grave em alto volume, esse misto de sentimento comunal e euforia musical.

Do underground para os grandes festivais, como Skol Beats, a dance music foi misturando públicos ao longo dos anos. O que a chegada ao mainstream faz com a cena clubber?
Em qualquer subcultura, existe o tradicional debate da perda da essência. Como se houvesse um estado ou momento mais puro do movimento, mais “verdadeiro”, e que depois vai sendo maculado pela chegada de novas levas de público. E esse lugar mais puro varia muito conforme a pessoa: quem chegou em 1992 reclama de quem começou a frequentar em 1995 e quem começou a frequentar em 1995 torce o nariz pra turma que veio em 1998. Faço essa ponderação porque eu acho que desde o começo a cena clubber dialogou com o mainstream. O Que Fim Levou Robin? se apresentou em programas de auditório. A coluna da Erika Palomino saía na Folha de S. Paulo. A “tribo clubber” foi tema de pautas na Veja. Um ponto de virada interessante é quando as marcas grandes despertam para esse segmento, e o festival Skol Beats é um símbolo desse momento. Por um lado, representou a possibilidade de atrações internacionais, de eventos bem estruturados e rentáveis. Por outro, foi também um momento de diluição e apostas no que dava mais certo, não necessariamente no que era melhor ou mais inovador.

Numa entrevista que fiz com Simon Reynolds nos anos 2000, depois de ele ter lançado o clássico Energy Flash, uma bíblia da eletrônica mundial, ele dizia que já estávamos numa época de diluição e que só surgiriam novos sons com a chegada de novas tecnologias ou novas drogas. Você consegue ver relação entre as diferentes cenas que retrata no livro e as suas drogas de preferência da época?
As drogas que moveram a cena dos anos 1990 eram basicamente maconha, ecstasy e álcool. Em relação ao ecstasy, ele estava bastante restrito a quem tinha dinheiro para comprar, e no começo não era barato. A cena trance tinha também uma presença maior de LSD, encorajada pelos locais das festas em meio à natureza. Conforme muitos clubbers e ravers deixavam o ecstasy de lado, ou apenas para ocasiões especiais, houve um retorno para muitos da cocaína como estimulante de uso mais recorrente.

Com novos atores e uma nova cultura, a partir dos anos 2010, São Paulo voltou a ter uma cena eletrônica bastante forte, principalmente fora dos clubes, em festas na rua ou em locais pouco convencionais, como fábricas desativadas. O que essa nova geração, que produz até hoje, deve aos pioneiros da cena clubber?
A cena de 2010 em diante é uma descendente direta do que aconteceu nos anos 1990 e 2000. Os DJs, os produtores, as performers, os estilistas, as músicas, os eventos, o espírito, o que surgiu na década de 1990 foi não só continuado lindamente pelas novas gerações, mas também de muitas maneiras foi melhorado. Abriu-se muito mais espaço e possibilidades para DJs mulheres, as pessoas trans cavaram lugares inéditos, houve uma ocupação do espaço público e das áreas centrais da cidade e, mais recentemente, ganhou força uma conexão com o funk brasileiro, uma união de eletrônicas que faz todo sentido.

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