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Amamos odiar ‘Vale Tudo’

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Gente, como pode o Afonso desaparecer da trama por três dias? E o que é essa Heleninha mexendo no cabelo sem parar? Nossa, a Consuelo está insuportável! Por que transformaram o Ivan num completo cretino? Vão deixar o corpo da Ana Clara lá no chão mesmo? E esse merchand totalmente fora de hora, meu deus?

Falar mal de uma novela, de seus atores, das escolhas dos autores e diretores, do rumo da trama — taí um esporte nacional apaixonante e antigo.

Comentar passionalmente as novelas já era atividade rotineira nos anos 1980 e 1990 (são os que eu me lembro mais), quando as obras eram originais e tudo era surpresa. As pessoas falavam, bem e mal, da obra da vez no trabalho, nas reuniões familiares, nos bares, e compravam revistas especializadas em televisão para não perder um lance sequer — não à toa o “Quem matou Odete Roitman?” tomou a proporção que tomou. O caldo cultural em que boa parte do Brasil se criou tem as novelas como tempero. Odiá-las e amá-las é parte fundadora da nossa visão de país e mundo.

Só que andava fora de moda. Os streamings atropelaram a produção doméstica, a atenção se diversificou, fazia tempo que uma novela não fisgava tanto o público mais amplo. Mas Vale Tudo, o remake, retomou essa tradição. E contou com uma ajudinha estratégica e contemporânea para isso.

Porque, quando se trata do remake de um dos maiores sucessos da teledramaturgia brasileira, a maledicência é exercício inescapável e delicioso. Comparar atuações e contextos históricos, sempre privilegiando os elogios à versão original, seja por nostalgia ou por ela ter sido realmente mais feliz, é um baita azeite conversacional de noveleiros contumazes ou ocasionais. E a emissora escolher produzir um remake desse sucesso estrondoso passa por essa certeza.

A ajudinha tem a ver com uma ferramenta nova do maldizer: as redes sociais. Elas transformam a escala e o alcance do esporte da crítica às novelas. O que era papo interpessoal vira onda de fãs x haters. E me parece que Manuela Dias, a autora do remake, que vêm recebendo as críticas mais vorazes, e a Globo entenderam que poderiam usar isso a seu favor.

Parte fundamental do engajamento nas redes, sabemos, é despertar emoções e, preferencialmente, as de raiva, indignação, repulsa. O amor e o humor também engajam. Só que menos e de formas mais sutis.

Muitas das pessoas que estavam desligadas do mundo das novelas decidiram acompanhar Vale Tudo a partir da interação com os cortes no Instagram e no TikTok. Foram “dragadas” (sic) para a trama, para usar um termo da moda, porque começaram a sentir raiva quando viam as comparações com a original. Outras obras já haviam tentado aumentar sua audiência via redes, mas falharam. Não despertavam tantas emoções. Nisso, Vale Tudo arrebentou.

Então, a autora escolheu colocar uma das vilãs principais como influencer, com perfil “verdadeiro” nas redes e tudo; incorporar a pira dos bebês reborn no roteiro; e produzir um texto cheio de sacadas perfeitas para cortes curtos, ágeis, dignos da linguagem dos reels.

Por um lado, engaja. Por outro, reduz atuações e pedaços inteiros do enredo a relances, a cacos. Uma querida amiga jornalista, a Gabriela Sá Pessoa, comentou disso — no Instagram, onde mais? —, de como a Vale Tudo original era retrato de um Brasil se habituando à noção de uma Constituição cidadã e de liberdade de expressão. E de como o remake é retrato dessa economia da atenção fragmentada, pensada para engajar e, ato contínuo, gerar publi. Grana. Tornou-se a novela de maior faturamento da história da Globo.

É uma sacada muito feliz essa da Gabi. E eu dou esse passo além: mais do que engajar para gerar publi, a novela parece ter escolhido engajar via raiva para se justificar. As pessoas amam odiar Vale Tudo. Amam contar como saltam pedaços inteiros do capítulo na Globoplay só para ver Odete reinando. Amam descer a lenha na Raquel, no Ivan, no Vasco. Amam ver Chico Barney e seus comentários ácidos e lacradores sobre cada furo no roteiro. Amam assistir para xingar com propriedade.

Eu tenho várias defesas a fazer da novela. As atuações, em boa parte, estão ótimas — a Odete de Deborah Bloch, que parecia saída de uma esquete de TV Pirata no começo, ganhou corpo de performance de uma vida. Suas falas são redondas, as frases, icônicas. A Heleninha de Paolla Oliveira superou os trejeitos capilares e entregou alguns dos momentos mais emocionantes da trama, sem dúvida. A dupla César/Olavo está candidatíssima a um spin-off, assim como o duo Marco Aurélio/Freitas. Malu Galli conseguiu transformar Celina em detestável e charmosérrima. Também tenho várias críticas. O que fizeram com Luís Melo e Matheus Nacthergaele, dois dos maiores atores de palco deste país, é de doer — embora seja bem fiel aos personagens e às interpretações de 1988. Bella Campos está infinitamente menor do que o papel que ocupou.

O que eu não tenho como fazer é ficar indiferente a Vale Tudo. Fui tragada pelo rage bait, pela sede de falar mal, pelo engajamento fácil de Instagram? Fui. Mas isso reacendeu minha vontade de ver novela brasileira? Também. Não é pouca coisa para 2025. Sentirei saudade.

Em tempo: Ivan deveria morrer no lugar da Odete.

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