Forças da natureza
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A natureza opera de forma misteriosa. No caso da atriz Maria Manoella, ela exerce um papel central em seus dois trabalhos mais recentes. A peça Escute as Feras, adaptação do livro da francesa Nastassja Martin, que narra um encontro devastador entre a antropóloga e um urso na Sibéria, com consequências profundas tanto no corpo como na psique da autora. E a recente exposição Onda, Avalanche e Vulcão, feita em parceria com seu namorado, o fotógrafo Mauro Restiffe, para a galeria Fortes, D’Aloia e Gabriel, em São Paulo, em que são intercaladas as forças do amor e da sedução e as naturais. “A exposição com o Mauro fala dos encontros radicais e alteradores, da potência dos encontros, que é um pouco o que o Escute as Feras também fala”, diz.
Escute as Feras está atualmente em sua terceira temporada, em cartaz às quartas e quintas, até 11 de dezembro, no Teatro Estúdio em São Paulo. A peça estreou no Sesc Ipiranga em novembro de 2023, e teve uma curta segunda temporada, gratuita, no teatro Cacilda Becker em 2024, uma exigência do edital do ProAC, fundamental para a realização do projeto. A peça é quase um monólogo, uma vez que Manoella faz o papel de Nastassja, mas tem no palco também Lúcio Maia, o guitarrista da Nação Zumbi, que dispara a trilha sonora em tempo real, o que acaba se transformando, na prática, em um diálogo entre texto e som. O novo teatro traz uma dimensão diferente para a montagem, proporcionando uma relação mais próxima com a plateia porque “a gente está no mesmo nível do espectador, o que traz uma relação mais íntima”.
A ideia de adaptar o relato verídico da francesa foi da própria Manoella com a editora Fernanda Diamant, sócia da editora Fósforo. No desenvolvimento da dramaturgia, uma terceira voz entrou em cena, a da diretora Mika Lins. As três decidiram se ater mais à questão da ação física da protagonista, priorizando o “caderno branco”, a parte mais antropológica e factual do livro, em detrimento do mais onírico “caderno preto”.
Um elemento crucial adicionado à peça foi a voz do urso, sugerida por Fernanda Diamant a partir de um conto-resposta ao livro, escrito por Ana Paula Pacheco. Para Manoella, dar voz ao urso “amplia muito o debate em torno da territorialidade e do eurocentrismo, da exploração daquele espaço, do colonialismo”. Lúcio Maia trouxe uma camada a mais ao sugerir usar a figura da La Ursa, personagem do carnaval pernambucano, para materializar o urso em cena. O que resolveu um impasse: “tudo que eu construía, que eu fazia fisicamente, lembrava tudo menos um urso, podia ser um macaco, uma fera, mas não um urso”, conta Manoella, defendendo que o uso da La Ursa ajudou a dar um “feliz final para essa peça” e a evitar a melancolia.
Intimidade impressa
No hiato entre as duas montagens, aconteceu a exposição Onda, Avalanche e Vulcão, que ocupou o galpão da Fortes D’Aloia e Gabriel em São Paulo de agosto a outubro deste ano. A exposição era composta por imagens da intimidade sexual de Mauro e Manoella, intercaladas com imagens da natureza. Segundo Manoella, ela surgiu de forma espontânea, depois que ela e Mauro começaram a namorar. “Ele começou a trazer a câmera pros nossos encontros” e perguntou se ela se incomodaria de ele fotografá-la. Obviamente, ela não se incomodou. “Como o Mauro tem um processo analógico, que é um processo lento, no sentido de que ele vai fotografando, depois ele junta um monte de filme e manda revelar, passaram-se uns meses, ele me liga um dia e fala: ‘Manoela, eu comecei a revelar aqui meus últimos filmes e queria que você desse uma olhada, porque eu estou começando a enxergar um trabalho muito muito louco e queria que você visse para me dizer se você vê o que eu tô vendo.”
Olhando os contatos, já com as fotos que ele tinha circulado, Manoella confessou ter ficado “um pouco assim ressabiada, um pouco assustada,” sem saber se tinha coragem de expor isso. Mas ficou com a ideia na cabeça. Um tempo depois, ela leu uma matéria no Globo sobre três tipos de orgasmos femininos, intitulados “onda, avalanche e vulcão” e brincou: “Olha, a gente já tem o título da nossa exposição”. A partir daí entrou o elemento natural e os dois foram para a Islândia para o Mauro fotografar os vulcões que integram a exposição. Manoella chegou a sugerir a ilha Lanzarote, menos fria em dezembro, mas Mauro já estava com uma coisa na cabeça e queria trazer neve e a paisagem vulcânica para essa mistura de paisagens e corpos. No meio do processo, Manoella também assumiu a câmera, primeiro timidamente, pedindo para o Mauro fazer o foco, para depois desenvolver uma mirada. “Eu não sou uma fotógrafa, eu não tenho um olhar como dele. Mas, observando o corpo dele, eu comecei a desenvolver um olhar fotográfico”.
Uma coisa bacana na carreira de Manoella é o fato de que, seja no teatro, no cinema ou na televisão, ela consegue transitar bem entre projetos mais populares e comerciais e aqueles que dialogam mais profundamente com a arte. Ela vê a carreira de ator, especialmente no teatro, como uma “paixão que maltrata, mas que você não consegue viver sem”, uma “droga muito poderosa”. E mesmo com todo reconhecimento de crítica e público, ela diz que “não tem sido fácil. Eu passo um perrengue financeiro mesmo”.
A falta do “fabular”
Outro ponto interessante que aparece na nossa conversa é sobre a dramaturgia atual. Ela critica a tendência de se “pautar pelas pautas”, sem tirar o mérito das discussões de gênero, raça e orientação sexual. “Eu não estou querendo diminuir a importância das pautas, eu acho que elas são muito importantes, mas tem muita gente oportunista que traz um discurso vazio, a pessoa não está preparada para discutir aquilo”, defende. E lamenta uma certa perda de capacidade de “fabular, de inventar histórias, de inventar ficções” na arte contemporânea.
Para o próximo ano, a atriz tem novos planos. Manoella planeja uma “temporada longa” de Escute as Feras, possivelmente na sala pequena do Cultura Artística. Ela também está começando a planejar um projeto com o diretor Diego Moschkovich, tradutor de Stanislavski direto do russo, que envolveria a adaptação do romance Ferida, de Oksana Vassiákina. O livro é uma autoficção sobre “uma mulher gay, uma curadora e poeta que viaja pela Sibéria com uma urna com as cinzas de sua mãe”. De novo, de alguma forma a Rússia, que já entrara na sua obra em 2016 com o filme Vermelho Russo, feito com a atriz e amiga Martha Nowill e dirigido por Charly Braun, agora parece voltar. “Para mim aquilo é tão outro mundo, é tão fabular, que me permite viver outras vidas diferentes da das minhas. Esse é o barato da profissão, né? Brincar de outras coisas.”






























